Espiritualidade e Psicologia

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jan. 2018

            As várias abordagens psicológicas de orientação humanista (MASLOW, s/d), holística e transpessoal (MASLOW, s/d; GROF, 1988; LELOUP, 1988) “têm em comum a meta terapêutica do desenvolvimento integral do homem e estão de pleno acordo entre si, que este deve incluir a promoção da dimensão espiritual do Self, o alcance da consciência unificada” (CAVALCANTI, 2004, p. 101). Todavia, a relação entre Psicologia e Religião surge ainda no século XIX, como ressalta Freitas (2017, p. 92), ao destacar a criação do primeiro centro de estudos em Psicologia da Religião, por Stanley Hall (1844-1924):

intitulado Clark University School of Religious Psychology, tornando-se, então, influente referência nesta área. Assim, já em 1883, a partir de seus estudos sobre a conversão religiosa na adolescência, publica o artigo intitulado Moral and religious training of children and adolescents, iniciando um frutífero movimento.

            O primeiro livro de Psicologia da Religião é de autoria de Starbuck (1911), publicado em 1899 e que foi prefaciado pelo ilustre psicólogo William James, autor de As variedades da experiência religiosa (JAMES, 1995), publicado em 1902. Conhecido como um dos pioneiros em Psicologia da Religião, a obra de William James é resultante

de suas Conferências Gifford em 1896, e com uma abordagem pragmática de extensos e variados escritos e depoimentos religiosos. Nesta obra, James ressalta a distinção entre religião pessoal e religião institucional, tomando apenas a primeira como objeto de interesse psicológico, e que é, então, definida como “os sentimentos, atos e experiências de indivíduos em sua solidão, na medida em que se sintam relacionados com o que quer que possam considerar divino” (FREITAS, 2017, p. 93).

            No século XX são vários os psicólogos que tem trabalhado com a dimensão espiritual do ser humano. Dentre eles merece destaque o discípulo de Freud, Carl Gustav Jung, que rompeu com seu mestre e foi um psicólogo que estendeu suas teorias para além do campo da psicologia.

Freud e Jung tinham um profundo interesse pela religião e a espiritualidade; mas Freud parecia obcecado pela necessidade de encontrar explicações racionais e científicas para as crenças e os comportamentos religiosos, enquanto a abordagem de Jung foi muito mais direta. Suas várias experiências religiosas pessoais convenceram-no da realidade da dimensão espiritual da vida (CAPRA, 2001, p. 340).

            Jung acrescentou aos seus estudos sobre psicologia conhecimentos extraídos da física quântica e dos antigos sistemas espirituais orientais.

Jung realizou com Wolfgang Pauli, físico e prêmio Nobel, um trabalho sobre a sincronicidade e foi buscar na filosofia chinesa taoísta, a correspondência para esse conceito. Ele encontrou na idéia do Tao, a fonte de inspiração para o desenvolvimento do seu conceito sobre a sincronicidade (CAVALCANTI, 2004, p. 97).

            Um dos mais importantes conceito utilizados pelo psicólogo é o conceito de self que ele descreve como sendo “a imagem de Deus projetada nas profundezas da alma. E demonstrou serem os símbolos sagrados, presente nas diversas tradições espirituais, expressões arquetípicas do Self” (CAVALCANTI, 2004, p. 97-98).

          Portela (2013, p. 47 apud FARIA, 2016, p. 49) destaca, no conjunto da obra junguiana, a coleção Psicologia da religião oriental e ocidental: “formada pelo conjunto de escritos que, em boa parte, representam um esforço do autor em demonstrar a presença dos arquétipos nos símbolos religiosos e a consequência psicológica destes últimos sobre o modelo de psique que ele desenvolve”.

 

Psicologia Humanista e Transpessoal

            A escola de psicologia humanista liderada por Maslow surge entre a década de 1940 e 1950. Maslow se recusou a ver os seres humanos como animais complexos respondendo a estímulos ambientais, como no behaviorismo, tanto quanto rejeitou a ideia freudiana de reduzir os seres humanos a indivíduos neuróticos e dominados por instintos inconscientes. Maslow reconheceu a utilidade tano da abordagem behaviorista quanto da abordagem freudiana mas considerou-as reducionistas propondo, então, o que ele chamou de abordagem humanista da psicologia, interessando-se profundamente pelo que ele chamou de crescimento pessoal e auto-realização e pretendendo estudar os seres humanos de forma abrangente, e não apenas o aspecto patológico da psyché: “estudar a auto-atualização mais formalmente através da análise das vidas, valores e atitudes das pessoas que considerava mais saudáveis e criativas” (FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 262/263), ou realizar estudos “de indivíduos que apresentavam experiências transcendentes ou ‘culminantes’ espontâneas, que ele considerava fases importantes no processo de auto-realização” (CAPRA, 2001, p. 343).

Maslow argumentava que era mais exato generalizar sobre a natureza humana estudando os melhores exemplos que pudesse encontrar do que catalogando os problemas e falhas dos indivíduos comuns ou neuróticos (...) para estudar saúde e maturidade psicológica, deveríamos investigar as pessoas mais maduras, criativas e bem integradas (FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 263).

            Há uma preocupação na psicologia humanista em desenvolver o potencial humano: sua criatividade, personalidade, amor, espontaneidade, crescimento pessoal e níveis superiores de consciência, como afirma Maslow em entrevista a Frick (1973).

            Do seio mesmo da psicologia humanista uma outra corrente em psicologia surgiu, preocupada especificamente com a natureza espiritual e os fenômenos de ordem mística da psyché humana: “os líderes desse movimento deram-lhe o nome de psicologia transpessoal, um termo criado por Abraham Maslow e Stanislav Grof” (CAPRA, 2001, p. 345).

Stanislav Grof afirma que um enfoque ateu, materialista e mecanicista do mundo e da existência reflete a profunda alienação do núcleo do ser do próprio homem, que é espiritual. Grof (1988, p. 266) chama essa visão truncada e unilateral de hilotrópica, e considera patológica porque nega a essência espiritual do homem (apud CAVALCANTI, 2004, p. 100).

            Stanilav Grof é um psiquiatra checo radicado nos Estados Unidos que utiliza os conceitos de hilotrópico e holotrópico para designar dois estados distintos de consciência: o primeiro em que a consciência age de modo analítico e o segundo em que a consciência se expande indefinidamente e engloba domínios mais amplos da realidade o que explicaria as grandes inspirações artísticas, científicas, filosóficas, a iluminação mística e os dons proféticos.

             Esses estados holotrópicos são potencialmente acessíveis a todos os seres humanos e estão em estado latente, podendo despertar em função de vários motivos, como uma inspiração ou intuição. Podem inclusive ser desencadeados e induzidos por substâncias psicoativas.

            Na sua obra O Jogo Cósmico (GROF, ), o psiquiatra expõe uma série de pesquisas realizadas em que seus participantes relatam o que sentiram em suas experiências de estados ampliados de consciência.

            Na década de 1950, Grof coordenou milhares de experimentos com uma substância recém sintetizada, o LSD. Essa investigação teve início no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica, da Checoslováquia, e, depois, na Johns Hopkins University, no Maryland Psychiatric Research Center e no Esalen Institute, dos Estados Unidos, onde Grof passou a residir a partir de 1967. Depois que o LSD passou por restrições legais, Grof, com a ajuda de sua segunda mulher, desenvolveu uma técnica que dispensa o emprego de qualquer substância química que ele batizou com o nome de respiração holotrópica. A respiração holotrópica consegue alcançar seu objetivo por meio da combinação de três ingredientes: uma forma específica de respiração, a audição de músicas de forte poder evocativo e intervenções corporais localizadas. Grof é o fundador da Associação Transpessoal Internacional (ITA, em inglês), uma entidade engajada na busca de novos paradigmas e no diálogo entre cientistas, artistas e líderes espirituais.

Durante dezessete anos, as pesquisas clínicas de Grof dedicaram-se à psicoterapia, com o uso do lsd e outras substâncias psicodélicas. Nesse período, ele realizou cerca de 3 000 sessões psicodélicas e estudou os registros de quase 2 000 sessões conduzidas por seus colegas na Europa e nos Estados Unidos. Mais tarde, as controvérsias públicas em torno do lsd e as resultantes restrições legais levaram Grof a abandonar sua prática de terapia psicodélica e a desenvolver técnicas terapêuticas que induzem estados semelhantes sem o uso de drogas (CAPRA, 2001, p. 350).

            As observações de Grof levaram-nos a conclusão de que o LSD altera o estado mental do indivíduo trazendo a superfície elementos do seu inconsciente. Por analogia e sem o uso de substâncias indutoras psicoativas, Grof concluiu que era o mesmo fato que ocorria na meditação e na hipnose o que permitiu Grof construir o que ele chamou de cartografia do inconsciente, uma espécie de mapa dos fenômenos mentais que

abrange três domínios principais: o domínio de experiências psicodinâmicas, associadas a eventos da vida passada e presente de uma pessoa; o domínio das experiências perinatais, relacionadas com os fenômenos biológicos envolvidos no processo de nascimento; e o domínio das experiências transpessoais, que vão além das fronteiras individuais (CAPRA, 2001, p. 350).

            Esse último domínio, o das experiências transpessoais, é onde ocorrem os insights a partir de uma vivência profunda da dimensão espiritual. O domínio do transpessoal inclui a abordagem holotrópica de Grof, “a psicologia analítica de Jung, a psicologia do ser, de Maslow, e a psicossíntese de Assagioli” (CAPRA, 2001, p. 361). Essas experiências foram chamadas por Maslow de experiência culminantes: “o termo experiência culminante é uma generalização para os melhores momentos do ser humano, para os momentos mais felizes da vida, para experiências de êxtase, enlevo, beatitude, de maior felicidade” (Maslow apud  FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 266). Ou ainda: “são momentos especialmente felizes e excitantes na vida de todo indivíduo. Maslow observa que experiências culminantes são provocadas por intensos sentimentos de amor, exposição à arte ou à musica, ou vivência da beleza irresistível da natureza” (FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 266).

 

Referências Bibliográficas

CAPRA, F. O Ponto de Mutação. 22. ed. São Paulo: Cultrix, 2001.

CAVALCANTI, Raïssa. O retorno do conceito do sagrado na ciência. In: TEIXEIRA, Evilázio F. B.; MÜLLER, Marisa C.; TIGRE DA SILVA, Juliana D. Espiritualidade e qualidade de vida. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2004, p. 91-104.

FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Teorias da personalidade. São Paulo: Harper & Row do Brasil, 1979.

FARIA, Paulo Antônio C. Teologia e ciências da religião no panorama acadêmico brasileiro em diálogo com Paul Ricoeur. Tese (Doutorado em Teologia). Departamento de Teologia. Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Belo Horizonte, 2016.

FREITAS, Marta Helena de. Psicologia religiosa, psicologia da religião/espiritualidade, ou psicologia e religião/espiritualidade? Revista Pistis & Praxis, Teologia e Pastoral, Curitiba, v. 9, n. 1, 89-107, jan./abr. 2017. Acesso em 21/12/2017.

FRICK, Willard B. Psicologia Humanística: entrevistas com Maslow, Murphy e Rogers. Buenos Aires: Guadalupe, 1973.

GROF, Stanislav. Além do cérebro. São Paulo: McGraw-HiIl, 1988.

JAMES, W. As variedades da experiência religiosa. São Paulo: Cultrix, 1995.

LELOUP, Jean-Yves. Terapeutas do deserto. Petrópolis: Vozes, 1998.

MASLOW, Abraham H. Introdução à Psicologia do Ser. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca, s/d.

PORTELA, Bruno de Oliveira S. O conceito de religião no pensamento de Carl Gustav Jung. Sacrilegens, Juiz de Fora, v.10, n.1, jan-jun/2013, p. 46-41. Acesso em: 15/12/2017.

STARBUCK, E. D. The psychology of religion: an empirical study of the growth of religious consciousness. 3 ed. London/New York: The Walter Scott Publishing Co; Charles Scribner’s Sons, 1911.