Espiritualidade e Filosofia

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em dez. 2017

            O surgimento da filosofia na Grécia Antiga e o próprio sentido da palavra filosofia nos revelam uma certa filiação do pensamento filosófico ao pensamento espiritual. “Ao longo da história, pelo menos desde a Grécia antiga, a exploração filosófica e científica tem se mostrado intricada de modo complexo com a R/E [religião/espiritualidade]” (MOREIRA-ALMEIDA; LUCCHETTI, 2016, p. 54).

          Quando perguntaram a Pitágoras se ele se considerava um sábio, o mesmo teria respondido negativamente. Ele não se considerava um sábio, mas sim, um amigo (philos) da sabedoria (sophia). Alguém que deseja alcançar essa sabedoria e essa busca trazia implícita em si um elemento religioso e espiritual. Basta lembrar que Pitágoras, que viveu por volta de 500 anos antes da era cristã, foi o fundador de uma comunidade religiosa e que defendia, dentre outras coisas, a imortalidade e a transmigração (reencarnação) das almas. Pitágoras: “fundou uma escola para iniciados, e defendia uma doutrina mais religiosa que filosófica. A doutrina era considerada secreta, e a transgressão desta norma acarretava a excomunhão” (BORNHEIM, 2000, p. 47). Pitágoras fundou sua escola em Crotona cujo magistério

ordenava-se em dois níveis, os mestres e os aprendizes, ou, como Porfírio diz, os Matemáticos (Professores) e os Acusmáticos (Ouvintes). Tinham os primeiros, conhecimento exaustivo do pitagorismo; tinham os segundos, acesso aos manuscritos e aos ensinamentos exotéricos, desconhecendo em absoluto os conhecimento esotéricos e passíveis de apropriada iniciação (GOMES, 1994, p. 49 – na doxografia: Porfírio, Vida de Pitágoras, 37).

            Pitágoras não deixou nada escrito e por isso não é fácil afirmar com certeza o que de fato ele defendia. Só nos resta os relatos dos seus discípulos sobre as ideias de seu mestre. De acordo com a doxografia referente a Pitágoras (os escritos de autores posteriores que falam à respeito de Pitágoras) tem-se: “O que Pitágoras dizia a seus discípulos, ninguém pode saber com segurança [...] Contudo, eram especialmente conhecidas, conforme o juízo de todos, as seguintes doutrinas: 1) a que afirma ser a alma imortal; 2) que transmigra de uma a outra espécie animal [...]” (BORNHEIM, 2000, p. 48).

            Hobuss (2014, p. 34) destaca duas vertentes principais do pitagorismo: “o seu caráter de seita religiosa, provavelmente seguindo o modelo dos cultos dos mistérios, mais especificamente do Orfismo (DL VIII 8), com seus preceitos místico-religiosos, e sua contribuição especialmente filosófica”. A doutrina pitagórica, ou mais precisamente órfico-pitagórica (referente a Orfeu e Pitágoras) foi uma das grandes influenciadoras de um dos mais renomados filósofos gregos de que temos notícia: Platão.

         Diferente de Pitágoras, temos muitas obras que foram escritas por Platão. Embora a principal preocupação de Platão tenha sido a divulgação das ideias do seu Mestre, Sócrates, é possível vislumbrar algumas ideias que são de sua autoria. A famosa Alegoria da Caverna é o exemplo mais claro e simples de como Platão acredita em uma realidade além do mundo material, que ele chamou de mundo das ideias (saiba mais em: A Teoria das Ideias e a Dialética). O mundo no qual vivemos não passa de uma cópia imperfeita e mutável do mundo das ideias. A alma, que é imortal, contempla o mundo das ideias antes de nascer mas essa contemplação fica gravada apenas na alma, como ideias inatas, e por isso o filósofo defende a possibilidade da reminiscência, quando, de alguma forma, o homem pode recordar aquilo que existe no mundo das ideias perfeitas, eternas e imutáveis.

            Outro filósofo da antiguidade clássica, Sêneca, que viveu em Roma nos primeiros anos da era cristã, embora não se tenha proposto a definir Deus (quem ousaria definir Deus?), acredita na onipresença da divindade e em sua última epístola do livro V das Cartas a Lucílio encontram-se inúmeras frases que fazem referência a divindade: “Entre elas, convém destacar a célebre – “’deus está perto de ti, está contigo, está dentro de ti’” (apud MIOTTI, 2014, p. 176). Ou ainda: “Na verdade, um homem bom, sem deus, não é ninguém: ou poderia alguém resistir às vicissitudes do destino, se não com a ajuda dele? Ele nos dá conselhos magníficos e acertados. Em cada um dos homens bons mora um deus (mas é incerto quem ele seja)” (apud MIOTTI, 2014, p. 177).

 

Filosofia na Idade Média

            A questão espiritual irá permanecer viva nos debates filosóficos durante todo o período da Idade Média, sobretudo por causa do cristianismo, mas também aparece presente no pensamento teológico dos árabes, Avicena e Averróis, e no judaísmo de Maimônides.

            Uma das questões centrais da Idade Média era a de justificar racionalmente a existência de Deus ou os dogmas da fé cristã, ou ainda demonstrar a possibilidade de conciliar fé e razão, ou seja, teologia e filosofia. Essa questão estava longe de ser unânime e encontramos entre os teólogos, seja da patrística ou da escolástica, aqueles que defendem a possibilidade de conciliação e aqueles que veem impossível justificar racionalmente os dogmas da fé. Um exemplo claro de tentativa de provar racionalmente a existência de Deus temos no monge beneditino Santo Anselmo, arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109.

          Como ele mesmo declara no prólogo de seu Monológio que veio a escrever esta obra devido a insistência de seus alunos, para transcrever, em forma de meditação, ideias concernentes a essência divina e questões ligadas a este assunto e isto, sem recorrer, em absoluto, à autoridade das Sagradas Escrituras, mas demonstrado por encadeamento lógico e racional. Assim, toda sua obra é um esforço racional para demonstrar, usando apenas a razão, que existe algo sumamente bom, grande e superior a tudo o que existe. Suas obras são tentativas de demonstrar a existência de Deus, seja utilizando argumentos a posteriori, quer dizer, dos efeitos para a causa (Monológio), seja a priori (prova ontológica do Proslógio – sua outra obra que é uma espécie de continuidade da primeira). Nesta obra Anselmo (1973, p. 103) pretende

encontrar um único argumento que [...] permitisse demonstrar que Deus existe verdadeiramente e que ele é o bem supremo, não necessitando de coisa alguma, quando, ao contrário, todos os outros seres precisam dele para existirem e serem bons. Um argumento suficiente, em suma, para fornecer provas adequadas sobre aquilo que cremos acerca da substância divina

 

Filosofia Moderna

            Embora a Idade Moderna seja vista muitas vezes como uma época de conflito com a tradição medieval, isso não significa dizer que a questão espiritual foi deixada de lado pelos filósofos. O pai da filosofia moderna, René Descartes, escreveu uma obra cujo principal propósito era provar a existência da alma e de Deus. Sua famosa Meditações Metafísicas apresenta argumentos lógicos, sem utilizar o recurso da fé, para chegar a uma compreensão racional da existência da alma, deste ser que pensa, e da existência de Deus.

            A questão de Deus e da alma são questões essenciais que devem ser demonstradas antes pela razão natural e pela filosofia que pela teologia, diz Descartes. Através da fé, acredita-se que há um Deus e que a alma humana não morre com o corpo, todavia, o filósofo francês acredita poder demonstrar que estas questões, da alma e de Deus, também podem ser provadas à luz da razão natural.

            Assim como Santo Anselmo, Descartes também formulou uma prova a posteriori (Terceira Meditação) e outra a priori (Quinta Meditação) da existência de Deus. A partir da análise das ideias inatas, na terceira meditação, Descartes supõe que a ideia “pela qual eu concebo um Deus soberano, eterno, infinito, imutável, onisciente, onipotente e criador universal de todas as coisas que estão fora dele” (DESCARTES, 1991, p. 185, § 15) tem em si mais realidade objetiva do que as substâncias finitas que nos são apresentada. Grosso modo, para Descartes, as ideias de um Deus eterno, infinito, imutável, são como que a marca do Criador na criatura e são inatas, ou seja, nós já nascemos com elas. Já na quinta meditação Descartes acredita que a existência de Deus não pode ser separada de sua essência, assim como da essência de um triângulo retilíneo, a grandeza de seus três lados é igual a dois retos. É impossível conceber um Deus, soberano e perfeito, ao qual falte a existência.

           Concluindo no que diz respeito ao filósofo francês, tudo o que se pode saber de Deus pode ser mostrado por razões que não precisam ser buscadas em outro lugar que não em nós mesmos e o nosso espírito é capaz de o fornecer, e este é o objetivo de Descartes com sua obra.

            Pertencente a mesma escola racionalista de Descartes, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) é o autor da concepção de que o universo é formado por mônadas – “princípio de força e atividade” (ANTISERI; REALE, 2005, p. 49) – da qual “Deus é a unidade ou mônada primitiva, a substância originária simples” (ANTISERI; REALE, 2005, p. 48). Deus é o fundamento da harmonia preestabelecida do universo, o único Ser necessário (e não contingente) que existe, o Criador do mundo (do melhor dos mundos possíveis).

Deus é o ser necessário [...] para prová-lo, Leibniz, entre outras coisas, adota o argumento ontológico de Descartes, segundo o qual o perfeito deve necessariamente existir, caso contrário não seria perfeito. Além disso, Deus é necessário porque, nele, essência e existência coincidem (ANTISERI; REALE, 2005, p. 56).

            E mesmo no Iluminismo, onde encontramos de maneira ainda mais evidente a crítica a instituição religiosa, sobretudo a Igreja Católica, temos pensadores que, sem negar a existência de um Ser Supremo, adotam, contudo, uma versão diferente daquela propagada pela Igreja. São os chamados deístas – conforme “a distinção estabelecida entre D. [Deísmo] e teísmo por Kant (Crít. R. Pura, Dialética, cap. III, seç. VII)” (ABBAGNANO, 2007, p. 238) –, dentre os quais podemos destacar Rousseau e Voltaire. O Deísmo consiste em uma

Doutrina de uma religião natural ou racional não fundada na revelação histórica, mas na manifestação natural da divindade à razão do homem. O D. [Deísmo] é um aspecto do Iluminísmo (v.), de que faz parte integrante [...] Note-se, porém, que em relação ao conceito de Deus nem todos os deístas estavam de acordo. Enquanto os deístas ingleses atribuem a Deus não só o governo do mundo físico (a garantia da ordem do mundo), mas também o do mundo moral, os deístas franceses, a começar por Voltaire, negam que Deus se ocupe dos homens e lhe atribuem a mais radical indiferença quanto ao seu destino (Traité de métaphysique,9). Todavia, a "religião natural" de Rousseau é uma forma de D. mais próxima da inglesa porque atribui a Deus também a tarefa de garantir a ordem moral do mundo (id., ibidem, p. 238).

 

Filosofia Contemporânea

            A contemporaneidade é, talvez, a época em que o ceticismo e as incerteza se fizeram de maneira mais evidente na filosofia. Mesmo assim as ideias espiritualistas se fizeram, de alguma forma, presentes, embora em menor escala. É o caso do filósofo francês Henri Bergson (1859-1941).

            A formação intelectual de Bergson – “o Davi destinado a matar o Golias do materialismo” (DURANT, 1996, p. 331) – deu-se numa época em que predominavam as teses materialistas, evolucionistas e deterministas. A resposta de Bergson é uma concepção espiritualista de evolução se opondo a todos os que pretendiam reduzir o psíquico ao meramente cerebral. Bergson exalta e inova a metafísica, ampliando o domínio da investigação psicológica eu profundo e sua obra As duas fontes da moral e da religião, aborda aspectos filosóficos e temas como a metafísica, a religião, a vida social e a antropologia filosófica.


 

Referências Bibliográficas

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Tradução de Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ANSELMO, Santo; ABERLADO, Pedro. Monologio; Proslogio; A verdade; O gramatico. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores)

BORNHEIM, Gerd A. (org.). Os Filósofos Pré-Socráticos. 14. ed. São Paulo: Cultrix, 2000.

DESCARTES, René. Discurso do método; As paixões da alma; Meditações metafísicas; Objeções e Respostas. Introdução de Gilles-Gaston Granger; tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Pensadores).

DURANT, Will. A História da Filosofia. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

GOMES, Pinharanda. Filosofia Grega Pré-Socrática. 4. ed. Lisboa: Guimarães Editores, 1994.

HOBUSS, João F. N. Introdução à história da filosofia antiga [on line]. Pelotas: NEPFIL online, 2014. (Série Dissertatio-Filosofia).

MIOTTI, Charlene M. Deus mora dentro de nós: a fé laica de Sêneca na Carta 41. Prometeus, Ano 7, n. 15, p. 175-180, jan./jun., 2014. Acesso em 03/11/2017.

MOREIRA-ALMEIDA, Alexander; LUCCHETTI, Giancarlo. Panorama das pesquisas em ciência, saúde e espiritualidade. Ciência e Cultura, vol. 68,  n. 1, p. 54-57, jan./mar. 2016. Acesso em 20/12/2017.

REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: de Spinoza a Kant. São Paulo: Paulus, 2005. Vol. 4.

É preciso viver sob a perspectiva da eternidade

Platão (Fédon)