A Arte na Visão Espírita

20/03/2019 19:51

        Já vão distantes os dias de carnaval. Não no Nordeste. Nessa região, os festejos momescos perduram um mês... no mínimo. Algumas pessoas querem que a vida seja uma eterna festa e não se conformam com o término da folia, por vezes dantesca. Entretanto, a quarta-feira é de cinzas; talvez porque a festa seja predominantemente de “confusão, trapalhada e desordem”, na linguagem popular, como registra Aurélio.

        Depois do “fogo”, as “cinzas”, pois nada mais resta do que já foi, qual ocorre em incêndio voraz. E isso ocorre nos dois mundos: no da matéria e no do espírito. O detalhe é que, excetuado quem é vidente, os que estão na matéria não veem o que ocorre fora dela, mas os que estão fora dela veem e influenciam os que nela estão.

        A festa é pagã. Desse modo, seus deuses não são verdadeiros. Talvez por isso mesmo predomine a mentira de quem se esfalfa na farra desses dias. As próprias fantasias imitam o que não se pode ser: princesas, príncipes, rainhas, rei... Momo. Pedras falsas, colares de contas vis. Jovens e idosos querem ser felizes, o que é natural e, mesmo, desejável. Entretanto, nunca é demais lembrar: a festa é de falsos deuses e reais entidades... não as mitológicas, mas as cruéis e vingativas.

        Diz o Espírito Manoel Philomeno de Miranda, em obra psicografada por Divaldo Pereira Franco, que esses são dias nos quais todos, sem exceção, que participam dessa festa estão “nas fronteiras da loucura”, como indica o título do livro. Entretanto, o sábio Espírito Bezerra de Meneses esclarece-nos, nessa mesma obra, que o carnaval “[...] é o vestígio da barbárie e do primitivismo ainda reinantes, e que um dia desaparecerão da Terra, quando a alegria pura, a jovialidade, a satisfação, o júbilo real substituírem as paixões do prazer violento e o homem houver despertado para a beleza, a arte, sem agressão nem promiscuidade” (op. cit., 15. ed., LEAL, 2014, p. 69).

        — Não esta “arte” contemporânea, amigo Jó. “A arte — como diz Léon Denis — é a busca, o estudo, a manifestação dessa beleza eterna — a Divina — da qual percebemos, aqui na Terra, apenas um reflexo” (DENIS, L. O Espiritismo na arte. 2. ed. RJ: LD, 2008, p. 21). Em minha crônica de 17 jul. 1895, afirmei: “Os mortos não vão tão depressa, como quer o adágio; mas que eles governam os vivos, é cousa dita, sabida e certa” (A Semana). Nas festas de Momo isso fica claro como água mineral.

        Quando anunciei, em 4 fev. 1894, que não haveria carnaval naquele ano, de início expressei minha tristeza, haja vista que o riso faz parte da natureza humana. Após tecer considerações sobre a suspensão do carnaval, naquele ano, concluí: “A razão de não o termos, este ano, é justa; seria melhor que a proibição não fosse precisa, e viesse do próprio ânimo dos foliões. Mas não se pode pensar em tudo”.

        — Amigo Machado, voltando a Miranda, na citada obra, muitas pessoas que inadvertidamente participam desse tipo de recreação, quando o fazem sem se darem conta do perigo que correm, costumam ser salvas pelos amigos espirituais. Outras, entretanto, perdem os valores materiais e morais, além da própria vida.

— O ideal, Jó, seria buscarmos atividades artísticas diversas que expressassem o belo, a espiritualidade, pois a vida é curta, quando se está na carne. Quando a humanidade estiver plenamente consciente de que a verdadeira alegria, tal como a vida plena, não se realiza na Terra e, sim, no mundo espiritual, certamente, o renascimento da arte far-se-á em todo o seu esplendor. Au revoir.

— Despeçamo-nos, então, amigos leitores, com a esperança de que este tempo já esteja em curso, de acordo com as seguintes palavras:

 

O Espiritismo vem abrir para a arte novas perspectivas, horizontes sem limites. A comunicação que ele estabelece entre os mundos visível e invisível, as indicações fornecidas sobre as condições da vida no Além, a revelação que ele nos traz das leis de harmonia e de beleza que regem o Universo vêm oferecer aos nossos pensadores, aos nossos artistas, motivos inesgotáveis de inspiração (DENIS, L. Op. cit., p. 22).

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