A cruz sagrada

16/12/2020 15:41

       Se pudéssemos entrar numa máquina do tempo que nos fizesse voltar ao passado, amigo leitor, bem poderia acontecer de conversarmos com nós mesmos. E não é que isso acabou de acontecer, não pela máquina do tempo, mas pela da imaginação? Pois é, acabei de imaginar um diálogo de Jó (68 anos) com Jorge (23 anos).

        Eu, Jó, noutro dos meus devaneios, voltei ao tempo e passei a conversar comigo mesmo, Jorge, quando ainda não usava pseudônimo, na noite de 26 de junho de 1975, ou seja, há 45 anos. Estava na Penha, bairro do Rio de Janeiro, e Jorge disse-me:

        — Caramba, Jó, você já é quase setuagenário? Ainda hoje, imaginei não chegar aos cinquenta anos de idade...

        — Pois é, Jorge, diz um ditado popular: "O que o homem põe, Deus dispõe"...

        — Mas que o trouxe aqui, Jó, em plena madrugada?

        — Li num caderno velho um dos seus primeiros poemas e gostei muito, Jorge. É um poema sacro.

        — Ora, Jó, são rabiscos de jovem iniciado na Doutrina Espírita, dois anos atrás, que mal começou seus exercícios literários. São versos de pés-quebrados que já nem me lembravam mais.

        — É verdade que você os escreveu sob a inspiração de Cruz e Sousa, Jorge?

        — Não sei, Jó. Imaginei, há poucas horas, que o melhor poeta da escola simbolista do Brasil e um dos melhores do mundo me incentivara a escrevê-los. Depois, guardei-os numa gaveta, até que tivesse melhores noções de poesia.

        — O que você acha de eu revisá-los e publicá-los em meu blog, Jorge?

        — Blog? Que é isto, Jó? Nunca ouvi falar... mas, se é para melhorar o poema, desde já, autorizo sua revisão e modificação. Apenas lhe peço que mantenha o título...

        — Manterei não só o título, mas também a estrutura e os créditos, Jorge Leite de Oliveira. Eis seu poema sacro:

       

A Cruz Sagrada

 

Deus, nosso Pai, que sois todo amor e bondade,

Libertai-nos dos vícios, do ódio e maldade.

Dai-nos confiança e coragem dos que lutam

Contra as imperfeições que a todos nos insultam.

 

Fortificai, bom Senhor, nossos pensamentos,

Purificai-nos, Pai Perfeito, os sentimentos.

Perdoai, Pai querido, nossos inimigos,

Mas perdoai-nos também tê-los ofendido.

 

Confortai-nos nas horas de erma solidão

Com a luz projetada ao nosso coração

Pelas almas puras que nos vêm consolar

Quando unidos a elas passamos a orar.

 

Seja sempre feita vossa Boa Vontade

E jamais prevaleça em nós qualquer vaidade.

Elevai-nos as almas às luzes dos Céus,

Retirai-nos das mentes quaisquer negros véus.

 

Senhor, compadecei-vos desta Humanidade

A quem Jesus pregou e fez a Caridade.

Dai-nos a paz e luz nas horas de desdita,

Pois juntais à justiça bondade infinita.

 

Muito obrigado, Pai, por tudo que nos destes:

Amigos sinceros, família, pães e vestes...

Jamais nos rejeitais, Pai Sábio e generoso.

Mesmo ao filho calceta, vil e tenebroso

 

Enviastes Jesus Cristo para perdoá-lo,

Sabendo de antemão que seria imolado.

Por isso peço, Pai, piedade para nós,

Pequeninos filhos que recorrem a Vós.

 

Fazei com que sigamos Vosso Filho Amado,

Que amando e perdoando foi crucificado.

Fazei-nos carregar, humildes, nossa cruz,

Consagrados na fé e exemplos de Jesus.

 

        — Nossa, Jó, ficou bem melhor. Dedico-o a Cruz e Sousa.

        — Eu também, Jorge...

        Despedimo-nos. Jorge imaginou que sonhara; Jó, este que agora volta a falar ao leitor amigo, tem certeza de que não...

 

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