A Obra

16/02/2022 18:50

          João, dedicado operário, trabalhara por cerca de dois anos na construção de um edifício. Enquanto contemplava a obra terminada e olhava para sua marmita fria, preparada carinhosamente por sua esposa, ele refletia na transitoriedade das coisas materiais neste mundo. O prédio continha vários andares, o operário residia em humilde casa de dois cômodos com esposa e dois filhos.

          Embora ainda bastante jovem, pois estava com pouco mais de 30 anos de idade, João matutava sobre o tempo de existência das obras como aquela e a de sua modesta casa residencial. Esta, certamente, duraria algumas dezenas de anos a mais do que ele ainda viveria. Mas ainda que duzentos anos se passassem, chegaria o dia em que sua moradia voltaria ao pó de onde surgira.

          Da mesma forma, ainda que mais de duas centenas de anos se passassem, o lindo prédio que ele ajudara a construir precisaria ser demolido. Assim, não ficaria pedra sobre pedra daquelas obras, como do templo que frequentava. E refletiu que também seu corpo físico voltaria ao pó em muito menos tempo, ainda que vivesse mais 60 anos.

          Outros operários entrariam em ação. Novas casas e novos prédios seriam construídos. Mas será que apenas para isso eles teriam nascido? Aprendera que não, pois ainda lhes restariam suas almas, senhoras de seus pensamentos, de sua vontade...

          Lembrou-se, então, da fala do religioso que disse aos seus ouvintes sobre a importância de um prédio construído, mas para não se esquecerem de agradecer a Deus pelos andaimes que serviram aos construtores da obra... E, enquanto comia o arroz com feijão preparados com carinho por sua esposa, João pensava nela e em todos os operários esquecidos pelo orador.     

De repente, o vento soprou por uma janela do prédio um pedaço de papel. Após pegá-lo, leu ali as seguintes estrofes do poema de Vinícius de Moraes intitulado: O operário em construção

 

[...]

Notou que sua marmita

Era o prato do patrão

Que sua cerveja preta

Era o uísque do patrão

Que seu macacão de zuarte

Era o terno do patrão

Que o casebre onde morava

Era a mansão do patrão

[...]

Uma esperança sincera

Cresceu no seu coração

E dentro da tarde mansa

Agigantou-se a razão

De um homem pobre e esquecido

Razão porém que fizera

Em operário construído

O operário em construção.

 

 

            Sob a luz do seu atual entendimento, João não se revoltou. Sua fé inabalável dava-lhe a certeza de que a vida no corpo físico é breve e de que é no céu que devemos juntar os tesouros imperecíveis da alma. Em seguida, leu a mensagem que, entre outras, começou a melhorar sua visão de mundo. Nela estava escrito o seguinte, sob o título: O ponto de vista

 

A ideia clara e precisa que se faça da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização do homem, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual ele encara a vida terrena.

[...]

Ele então percebe que grandes e pequenos se confundem como as formigas num monte de terra; que proletários e potentados são da mesma estatura; e lamenta que essas criaturas efêmeras tanto se fatiguem para conquistar uma posição que as elevará tão pouco e por tão pouco tempo. É assim que a importância atribuída aos bens terrenos está sempre na razão inversa à fé na vida futura.

Se todos pensassem assim, dir-se-á, ninguém mais se ocupando das coisas da Terra, tudo periclitará. Não, o homem, instintivamente, procura o seu bem-estar, e mesmo tendo a certeza de que ficará por pouco tempo em algum lugar, ainda quererá estar aí o melhor ou o menos mal possível. Não há quem, sentindo um espinho sob a mão, não a retire para não se picar. Ora, a procura do bem-estar força o homem a melhorar todas as coisas, impelido que ele é pelo instinto do progresso e da conservação, que está nas leis da natureza. Ele trabalha, portanto, por necessidade, por gosto e por dever, e com isso cumpre os desígnios da Providência, que o colocou na Terra para esse fim. [...] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, cap. 2.

 

            Continuou a frequentar com a esposa o centro espírita situado em São Sebastião, cidade do Distrito Federal; engajou-se em trabalhos voluntários e de estudo das obras espíritas; inscreveu suas crianças nas aulas de evangelização daquela instituição e acompanhou, com a esposa, a formação escolar dos filhos. Pelo seu novo entendimento da lei divina, João nunca mais duvidou da sabedoria de Deus, pois passou a compreender o sentido desta frase de Jesus: "A cada um será dado segundo as suas obras". Sua esposa, alma gêmea da sua, ainda teve tempo de se formar em pedagogia e de se tornar excelente educadora.

          Por sua humildade e dedicação amorosa ao trabalho, nunca faltou ocupação remunerada a João. Atualmente aposentado, tanto quanto a esposa, é o feliz avô de duas netas e dois netos lindos, frutos do casamento dos seus filhos bem sucedidos, os arquitetos Marcos e Filipe, dedicados profissionais e espíritas reconhecidos por suas famílias e por toda a comunidade local.

 

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