A tragédia de Brumadinho à luz do Espiritismo

30/01/2019 10:37

            No dia 25 de janeiro de 2019, na região metropolitana de Belo Horizonte, três anos após a tragédia do rompimento da barragem de Mariana (MG), que funcionava há apenas sete anos e era administrada pela Samarco, nova tragédia ocorreu. Agora foi a barragem desativada há dois anos, situada em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, que se rompeu. Essa barragem funcionara por trinta anos.

            A diferença está no tamanho do desastre ambiental e humano. Em Mariana, o rio de lama mineral foi quatro vezes maior do que em Brumadinho; entretanto, na primeira morreram dezenove pessoas; na segunda, até 28 jan. 19, já tinham sido contadas oficialmente 65 mortes e 279 desaparecidos.

            Não entraremos em detalhes sobre as falhas humanas que deram origem a ambos os desastres, mas a jornalista Cristina Serra já escrevera um livro, em 2017, alertando sobre a possibilidade de novos rompimentos como os de Mariana, devido à falta de fiscalização. E também o Departamento Nacional de Produção Mineral, logo após o rompimento da barragem de Mariana, em 2016, alertara sobre a impossibilidade de apenas cinco funcionários, efetivo total de fiscais existentes, fiscalizarem 663 barragens.

            Refletindo sobre os males da vida, em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 27, item 12, diz Allan Kardec que esses males se dividem em duas partes: 1) a dos que o homem não pode evitar; 2) a dos causados pela “incúria” ou excessos das pessoas. E deduz: “Faz-se, portanto, evidente que o homem é o autor da maior parte de suas aflições, às quais se pouparia, se sempre obrasse com sabedoria e prudência”.

            Para o grande organizador da Doutrina Espírita, são nossas infrações às leis divinas que causam todas as misérias humanas. A principal delas é proveniente da ambição que não mede as consequências de seus atos em relação ao próximo. Ambição pelo poder. Ambição pelos bens materiais. Ambição pelo prazer dos sentidos. Ambição pelo domínio de quem consideramos inferior a nós. E assim, de ambição em ambição cavamos o poço de nossas quedas.

            O antídoto à ambição é a caridade, que na questão 886, de O Livro dos Espíritos, primeira obra editada por Kardec, é-nos apresentada como corolário da lei de justiça, junto com o amor, haja vista que amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível fazer. Quando a humanidade perceber que Deus é Amor, e Ele nos criou para amar, a ambição cederá lugar ao devotamento ao próximo, à  humildade e ao desinteresse pessoal.

            Se tais qualidades estivessem presentes, antes do primeiro desastre ecológico provocado pela negligência da mineradora Samarco, controlada pela Vale S. A. e a anglo-australiana BHP Billiton, os danos irreparáveis pela perda de centenas de vidas humanas não ocorreriam. Tudo teria sido feito para prevenir nova catástrofe, inclusive com a subida do restaurante de funcionários situado logo abaixo da barragem, o que era absurdo ser mantido como estava. Isso porque a vida humana é o maior bem a ser preservado, e investir na felicidade alheia, ainda que seja a mais humilde criatura, é buscar a própria felicidade, que jamais será obtida com  riquezas minerais, móveis e imóveis que, em poucos minutos, podem virar sucata.

            E as vítimas? Estariam esquecidas por Deus? De forma alguma. Tudo que ocorre conosco está sujeito a uma lei implacável chamada Lei de Causa e Efeito. A não ser assim, onde estaria a bondade e a justiça de Deus?

            Estudando-se as obras básicas inspiradas a Allan Kardec pelos Espíritos superiores, enviados divinos, entenderemos duas coisas da mais alta importância: a primeira é que a vida real é a do Espírito, que é imortal e, portanto, a existência terrestre é, figuradamente, como o piscar de um vagalume na Terra. A segunda é a de que o mal sofrido por nós é decorrente de nossa imperfeição espiritual e, como o objetivo da vida é a perfeição, assim como sua finalidade é ser feliz, só alcançaremos esse desiderato, após incontáveis reencarnações, até que aprendamos a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

            Foi o que nos ensinou Jesus Cristo, modelo de ser mais perfeito que o Mundo já conheceu. E foi o próprio Cristo que nos afirmou que  da Terra não passaremos enquanto não resgatarmos até o último ceitil de nossas dívidas. Daí ter-nos deixado Ele a regra áurea de proceder: “Fazer ao próximo aquilo que desejamos que ele nos faça”.

            O caminho para vencermos o mal ainda existente em nós é o da oração incessante, da vigilância de nossos pensamentos, palavras e atos. O remédio para sermos felizes é o amor a Deus e a todas as criaturas, pois, como disse Pedro, “o amor cobre a multidão de pecados”. Embora ele não nos exima de sofrer as consequências de nossos atos equivocados.

            Pelo exposto, concluímos que a Bondade Divina se expressa na Lei de Justiça,  Amor  e Caridade, que exige nossa reencarnação, com o objetivo de nos submeter à Lei de Causa e Efeito, até que nos depuremos de todo o mal proveniente do egoísmo e do orgulho.

            Sendo a vida espiritual nossa vida real, e a existência na Terra um breve estágio de aperfeiçoamento, a reencarnação ser-nos-á necessária, almas impuras que ainda o somos, neste mundo, classificado entre os inumeráveis orbes do universo como “mundo de expiação e prova”. Sem isso, onde estaria a Justiça Divina?

            Num mundo em que todos pratiquem as Leis de Deus, tragédias como a de Brumadinho e outras, ainda piores, motivadas pelas imperfeições humanas, jamais existirão. Nosso consolo é saber que a vida continua, e a Bondade de Deus permite-nos sempre um novo recomeço em situação melhor.

 

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