Aparições. Uma entrevista de Allan Kardec a Machado de Assis (participação especial de Jó)

09/01/2019 10:14

            Estudioso das Escrituras Sagradas, que sempre fui, refletia na frase paulina, sem entendê-la plenamente: “Semeia-se corpo animal, ressuscita-se corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual” (I Cor., 15:44). Então, ao iniciar-me na Vida Espiritual, após transpor as águas do rio Lete e escapar do Hades, com o auxílio de Caronte, pude melhor entender o que Paulo quis dizer: todos nós, quando encarnados, possuímos o corpo físico ou animal, o corpo perispiritual, “semimaterial”, ao qual ele chama espiritual, e a alma que, ao desencarnar, é chamada espírito.

            Agora, sim, alcançados os Campos Elísios, tudo ficou claro como as águas de cristal. Ainda assim, resolvi agendar uma entrevista com um espírito superior para clarear esse assunto. Qual não foi minha surpresa quando o próprio Allan Kardec surgiu à minha frente para responder minhas perguntas.

            Após os efusivos cumprimentos iniciais, iniciei a entrevista com a seguinte questão:

            — Quem te revelou a existência do corpo espiritual, a que chamaste perispírito?

            — Meu caro Machado, foram os próprios espíritos que me deram essa informação, e o neologismo perispírito foi “adotado” por eles[1].

            — Então diz-me uma coisa, para que meu curioso leitor fique mais bem esclarecido sobre suas dúvidas quase infinitas, essa forma a que chamas perispírito pode ser vista por uma pessoa encarnada?

            — Somente quando o Espírito deseja que isso ocorra, Machado. Nesse caso, ele como que condensa seu perispírito, “por uma disposição molecular” apropriada a seu objetivo. Todavia, “essa propriedade ele a pode estender, restringir e fazer cessar à vontade” (op. cit.).

            — Agora entendi perfeitamente o significado da frase dita por Chico Xavier: “O telefone toca de lá para cá”...

            — Isso mesmo, Machado, só nos manifestamos quando, onde e a quem queremos...

            — Ou a quem podemos, meu caro Bruxo  do Cosme Velho.

            — É verdade, Kardec. Explica-nos, então qual a forma que o Espírito pode tomar, ao se manifestar a alguém capacitado a vê-lo.

            — Então, não é a forma humana, em geral, a da última encarnação? perguntou Jó que, até então, tudo ouvira em silêncio.

            — Amigo obtuso, nunca leste que “o espírito sopra onde quer”? Passo a palavra ao Codificador para, melhor que eu, esclarecer tua dúvida, Jó.

            — Sim, meus caros, a forma normal do perispírito é a humana. Entretanto, o Espírito pode dar ao seu corpo espiritual a aparência que desejar, disse Kardec.

            — Mesmo a de um animal? perguntou Jó.

            — Sim, Jó, mesmo a de um animal ou a de uma simples chama[2], mas só a forma...

            — Se aparecesses para mim, agora, que forma terias, Kardec? Perguntou-lhe Jó.

            — A de minha última encarnação como Allan Kardec. Naturalmente!

            — Machado, disse Jó, aproveito os esclarecimentos do Codificador para contar ao nosso amável leitor um singelo caso que presenciei no tempo de minha juventude. Tendo conhecido os pais de uma menina de seus nove ou dez anos, superdotada, fiz-lhes algumas visitas, e sua mãe relatou-me, no primeiro encontro, que seu marido tinha visões e, por vezes, ficava louco.  

            Na segunda visita, encomendei ao esposo da informante, que não me pareceu nada aloprado, uma pequena mesinha de madeira, haja vista ser ele marceneiro.

            Ao retornar ao lar do casal, cuja marcenaria ficava nos fundos da casa, o dia já escurecera, e sua esposa estava sentada em frente à porta que dava para a rua. Sentei-me a seu lado e ela, apavorada, disse-me que estava vendo muitos policiais em cima dos postes de luz, no telhado da casa, por toda a parte. A “doida” era ela, e não o marido que, dias depois, me entregou o móvel...

            O casal conheceu o centro espírita que eu frequentava e lhes indicara. Ali, a senhora tratou-se espiritual e fisicamente. Desse modo, perdeu o medo dos espíritos, pois, como dizes, Kardec, os espíritos nunca nos aparecem sem um propósito e, qualquer que seja a forma que tomem, não nos podem fazer mal algum, se estivermos sob a proteção Divina.

            — Jó, para que nosso leitor fique bem informado, faço ao Codificador a seguinte pergunta: qual a finalidade da manifestação dos espíritos aos que ainda estão na matéria?

            — Machado, além de cumprir a promessa de Jesus, contida no capítulo 14 do Evangelho de João, nossa aparição maciça visa a fazer o homem compreender que a matéria não passa de ilusão dos sentidos, pois até mesmo quando já não estamos no corpo físico podemos nos materializar. Entretanto, quem vive para a matéria não consegue espiritualizar-se, disse Allan Kardec.

            — E se a pessoa optar por viver para a matéria, por considerar muito vaga a ideia de se viver para o espírito? indagou Jó.

            — Não tem ela o livre-arbítrio, Jó? A criança, também, gostaria de ser sempre infantil, mas, como diz Paulo de Tarso, depois que ela se torna adulta, não mais quer saber das coisas pueris (I Coríntios, 13:11), explicou Kardec.

            —Sem ter a petulância de estar ensinando algo a Machado, pois o objetivo de sua pergunta é esclarecer o leitor destas linhas, creio que a finalidade da influência dos espíritos em nossas vidas, ação que pode ocorrer até mesmo pelos sonhos, é guiar os nossos pensamentos e atos. Pelo menos é o que entendi quando li a questão 459 d’O livro dos espíritos, completou Jó.

            — É isso mesmo, Jó. Tua interpretação está correta, porém é preciso não esquecer que as influências do influenciador dependerão sempre da assimilação do influenciado. Tens um ditado que diz: “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Na relação conosco, somos atraídos pelos que nos são simpáticos e repelidos pelos que não nos têm afinidade espiritual.

            — É verdade, Kardec. Por outro lado, como a vida material poderia até mesmo deixar de existir, pois a vida espiritual precede e sucede àquela, inteligente é quem “aposta todas as suas fichas” na revelação espírita, confirmei.

            — Quem estuda e pratica a Doutrina Espírita, Machado, não tem medo de aparições, pois o Espiritismo é o Cristianismo redivivo sem fanatismo, sem sectarismo, sem fé cega... Como eu disse n’O evangelho segundo o espiritismo, sua máxima é: “Fora da caridade, não há salvação!”

            — Obrigado, Kardec. Até breve, amigos! concluí.

 

Nota do autor: Nossa crônica, mimese do estilo machadiano, mistura ficção com realidade. Cabe ao leitor diferençar uma da outra.



[1] KARDEC, A. Revista espírita, dez. 1858. 5. ed.  Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2014, p. 472.

[2] Id., p. 473.

 

 

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