PNE: Capítulos X a XIII

06/08/2020 04:15

            De modo semelhante à psicanálise, mas a partir de princípios bem diversos, Ubaldi considera importante uma reflexão em torno da sexualidade, chegando a afirmar que o sexo é um dos pontos nevrálgicos da vida e sobre este assunto dedica os próximos três capítulos: Capítulo X – A Ética do Sexo, Capítulo XI – A Ética Sexófoba do Cristianismo e o Capítulo XII – O Sexo como Problema Atual. Passemos ao primeiro, o capítulo X.

            A natureza sexual humana está na raiz tanto do instinto de generosidade altruísta que dá sem nada pedir em troca quanto do instinto de cobiça egoísta que de tudo se apodera sem nada retribuir. E como a evolução é uma Lei da Vida, a segunda evolui para a primeira, o amor se torna cada vez menos egoísmo e cada vez mais altruísmo. O mundo biológico é dividido em macho e fêmea: o macho luta contra o ambiente hostil, desenvolve a força, a inteligência, a agressividade, a ferocidade; a fêmea desenvolve o instinto de proteção materna, de pacifismo, a sensibilidade, a intuição, ao mesmo tempo que de submissão ao poder do macho. “Em forma diversa, os dois opostos colaboram, canalizados ao longo do mesmo caminho e dirigidos rumo à mesma finalidade, que é a de viver para evoluir” (1988, p. 116). No macho temos a força que vence, na fêmea o amor que gera. Deste fato derivam dois tipos de ética: a ética da força, sexófoba; e a ética do amor, sexófila. No mundo encontramos indivíduos e povos de diversas naturezas: guerreiros conquistadores, com a virtude masculina da força e povos pacíficos, com virtudes femininas da bondade.

            O tema em análise prossegue no capítulo XI – A Ética Sexófoba do Cristianismo. O objetivo é explicar o fenômeno da ética que Ubaldi chama de sexófoba na sua forma cristã: a concentração das energias neste caso é dirigida não para uma conquista econômica ou bélica, mas espiritual. Elevar-se da animalidade para a espiritualidade. O Cristianismo aponta para um ideal supremo, uma sublimação espiritual e, por isso, se coloca em contraste com a realidade da vida, que existe no nível inferior e quer assim permanecer. O Cristianismo se opõe a realidade biológica da vida que se baseia na luta para a seleção do mais forte: corta as garras da fera e tira todas as suas armas de defesa. A vida não aceita a posição do cordeiro que se oferece em sacrifício. Já o Cristianismo substitui a força pela inteligência, a lei de talião pela lei do amor.

            Este tema encerra com o capitulo XII – O Sexo como Problema Atual. Os dois grandes eixos sobre os quais Ubaldi encerra essa discussão são: de um lado, o Cristianismo com o seu ideal de sublimação espiritual e, de outro, a realidade biológica e o nível de evolução atingido pela raça humana. Com a civilização, as leis biológicas da vida diminuíram os instintos de ferocidade e agressividade, fazendo com que as energias se dirigissem no sentido sexual e canalizando estas energias em favor da multiplicação da vida. E os problemas da civilização atual não serão resolvidos com sistemas repressivos do instinto do amor que é fundamental na vida. Para resolver o problema é preciso equacioná-lo de outra forma. A resolução do problema está no amor, mas não na sua repressão, e sim no reconhecimento de que o amor é tanto uma necessidade fisiológica quanto uma necessidade nervosa e espiritual. O amor tem uma dupla função: em favor da espécie e em favor dos indivíduos. Um amor que cumpre a função da geração da espécie e do bem estar individual. Um amor concebido biologicamente como função animal reprodutiva e como geração espiritual na qual se fundem duas almas, onde a sexualidade aparece também para além de sua função de multiplicação da espécie.

            E assim temos preparado o caminho para o último capítulo da obra, o capítulo XIII – Amor e Convivência Social. O Cristianismo tem um papel fundamental nesse processo: transformar o egocentrismo individual, através do método da bondade evangélica e do ideal de sublimação espiritual, na força criadora de divida do amor, não apenas como manifestação biológica sexual, mas impulso dirigido para a evolução dos indivíduos e da espécie.

            E aqui temos um aspecto fundamental da ética ubaldiana, que se confunde com a ética cristã: uma ética baseada no amor, o amor como força da vida, como energia divina, sexual e espiritual, que transforma o animal em anjo: “um amor que aplaca os ódios, abranda a agressividade, acalma as invejas, a cobiça, o orgulho, tranqüiliza e serena a alma, gerando paz onde há guerra, alegria onde há dor, ordem e harmonia no indivíduo como na sociedade” (1988, p. 147). Além disso, “Não é o alto nível econômico e o padrão de vida, nem é o poder político, ou a supremacia bélica, ou o domínio do mundo, que podem sanar o mal, mas só um amor que nos encha de simpa­tia para com todos os seres e nos devolva a perdida alegria de viver” (1988, p. 147).

 

Pietro Ubaldi → Princípios de uma nova ética (resenha) → Capítulos X a XIII