PNE: Capítulos X a XIII

06/08/2020 04:15

            Nos capítulos precedentes vimos como Ubaldi faz uma extensa análise da personalidade levando em consideração a estrutura mental desta personalidade, dividida em zonas de consciência e inconsciência (subconsciente e superconsciente). Agora trata-se de seguir com o estudo desta mesma personalidade mas considerando sua natureza biológica sexual. Deste ponto de vista temos a personalidade humana como conjunto de dois elementos biológicos: o macho e a fêmea.

            De modo semelhante à psicanálise, mas a partir de princípios bem diversos, Ubaldi considera importante uma reflexão em torno da sexualidade, chegando a afirmar que o sexo (assim como o amor) é um dos pontos nevrálgicos da vida (individual e social) e a solução do problema do sexo significa ajudar a solucionar o problema da convivência social. Sobre este assunto temos os últimos capítulos da obra: Capítulo X – A Ética do Sexo, Capítulo XI – A Ética Sexófoba do Cristianismo, o Capítulo XII – O Sexo como Problema Atual e o Capítulo XIII – Amor e Convivência Social.

            Como Freud viu no fator sexual um aspecto crucial para o desenvolvimento da personalidade, Ubaldi vê na questão sexual um ponto nevrálgico para compreender a vida. Ubaldi aceita, mas sem os mesmos exageros, a orientação psicanalista que ao estudo da personalidade atribui grande valor ao fator sexual. Freud viu no homem apenas o animal, é preciso ver nele também o gênio e o santo.

            Do ponto de vista da natureza sexual humana Ubaldi a considera em sua bipolaridade. Tal como existe uma dualidade universal aqui temos uma bipolaridade biológica (macho e fêmea).

            Temos a personalidade humana como conjunto de dois elementos: macho (espírito de luta e função biológica da conquista) e fêmea (espírito de bondade e função biológica de proteção e conservação). “O primeiro impulso executa a tarefa da defesa à afirmação e sobrevivência do indivíduo, o segundo assegura a continuidade da raça” (UBALDI, 2014, p. 174).

            No macho temos o desenvolvimento da força (agressividade e ferocidade) para lutar contra um ambiente hostil e com o objetivo da vitória e da conquista (domínio territorial e posição alfa). Na fêmea temos o desenvolvimento da proteção maternal, do amor para gerar, pacifismo conservador e submissão ao poder do macho. Mas com um mesmo objetivo: viver para evoluir. “[...] no primeiro caso temos o que foi chamado o sexo forte, e no segundo, o belo sexo. E, de fato, o que é mais apreciado no ho­mem é a força, enquanto na mulher é a beleza. Estas são as quali­dades que um sexo mais procura no outro” (UBALDI, 2014, p. 220).

            Deste fato deriva dois tipos de ética: 1) a ética masculina da força, de natureza sexófoba (baseada no instinto da luta); 2) a ética feminina do amor, de natureza sexófila (baseada no instinto do amor).

Trata-se de dois aspectos inversos e complementares da ética humana do sexo e a razão dessa sua estrutura. A história da huma­nidade desenvolveu-se seguindo ora um, ora outro, destes dois tipos de ética. E houve e há povos e raças do 1.º tipo, com a respectiva forma mental, amarrados à ética sexófoba; e houve e há povos e ra­ças do 2.º tipo, com a respectiva forma mental, amarrados à ética sexófila. Agora que observamos as origens, a natureza e a razão deste fenômeno, podemos compreender o problema do sexo e da sua ética (UBALDI, 2014, p. 221).

            Cientes deste aspecto da natureza humana e animal é possível entender, de um modo geral, o ethos (individual e social), ou seja, o modo de se comportar não apenas individual, mas também de um grupo e até de uma civilização inteira. É assim que encontramos povos com características de guerreiros conquistadores “com virtudes masculinas de força, trabalho e inteligência e com a respectiva forma mental que despreza o amor, da qual deriva uma ética sexófoba” (UBALDI, 2014, p. 221) e também “povos pacíficos, sensíveis, com virtudes femininas de bondade, tranquilidade e sentimento e com a respectiva forma mental que aprecia o amor, da qual deriva urna ética sexófila” (UBALDI, 2014, p. 221).

            Na história da humanidade não é difícil perceber que prevaleceu a agressividade, a força. “Então, o que de fato prevaleceu em nosso mundo não foi a rea­lização da moral cristã, mas da moral do mais forte” (UBALDI, 2014, p. 254). Neste nível vigora uma ética sexual de domínio no qual se acredita o direito de estabelecer tudo à sua vontade (de acordo com o próprio egoísmo), ao passo que à mulher, fraca e sem direitos, resta apenas a lei da obediência. Ao macho todos os direitos, de seduzir a mulher e abandoná-la inclusive. “E, também no casamento, o ins­tinto leva o homem a considerar a mulher como sua propriedade” (UBALDI, 2014, p. 254).

            A natureza sexual humana está na raiz tanto do instinto de generosidade altruísta que dá sem nada pedir em troca quanto do instinto de cobiça egoísta que de tudo se apodera sem nada retribuir. Através da evolução que é uma Lei da Vida, a segunda deve evoluir para a primeira, o amor deve se tornar cada vez menos egoísmo e cada vez mais altruísmo, o que, naturalmente, não é o caso ainda da humanidade.

            Tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista de um grupo, quando há luta temos o tipo de ética sexófoba: “quando um indivíduo ou povo tem de fazer um esforço que lhe é necessário para vencer na luta pela vida, deve concentrar as suas energias, canalizando-as para essa finalidade” (UBALDI, 2014, p. 230). Um tipo de ética ligada não apenas a conquista bélica e militar, mas também econômica e espiritual.

O fenôme­no da sexofobia tem as suas razões e raízes profundas na estrutura das leis biológicas e da psique humana, levada por seu egocentrismo (tudo só para si) à rivalidade ciosa na posse, e por isso pronta a lutar contra todos os outros. Isto sobretudo na posse sexual, pela lei de seleção, reservada aos mais fortes. Essa é a realidade bioló­gica, situada, e muitas vezes despercebida, no fundo desses proble­mas, essa a verdade escondida atrás das afirmações humanas, mesmo quando elas sobem até ao plano filosófico, religioso, teológico (UBALDI, 2014, p. 237).

            Do ponto de vista da raça, Ubaldi dá como exemplo de ética sexófoba os Estados Unidos e também o nazismo, fascismo e até o comunismo e como exemplo de ética sexófila a França de Luís XV e Luís XVI.

            O tema em análise prossegue no capítulo XI – A Ética Sexófoba do Cristianismo. O objetivo é explicar o fenômeno da ética que Ubaldi chama de sexófoba na sua forma cristã: a concentração das energias neste caso é dirigida não para uma conquista econômica ou bélica, mas espiritual (elevar-se da animalidade para a espiritualidade).

          Elevar-se da animalidade para a espiritualidade. O Cristianismo aponta para um ideal supremo, uma sublimação espiritual e, por isso, se coloca em contraste com a realidade da vida, que existe no nível inferior e quer assim permanecer. O Cristianismo se opõe a realidade biológica da vida que se baseia na luta para a seleção do mais forte: corta as garras da fera e tira todas as suas armas de defesa. A vida não aceita a posição do cordeiro que se oferece em sacrifício. Já o Cristianismo substitui a força pela inteligência, a lei de talião pela lei do amor.

              Todavia, o modo como o Cristianismo tratou a sexualidade incorreu em grave erro, por isso, a ética sexófoba deve ser abolida e abandonada “pelas consequências deformatórias que ela pode produzir na personalidade como neuroses, desvios, complexos etc.” (UBALDI, 2014, p. 282).

            Foi Freud quem teve o mérito de trazer à lume o fato de que as energias sexuais, quando não canalizadas devidamente, abrem caminho para os desvios de personalidade e o Cristianismo errou ao tratar o corpo como um inimigo do espírito e origem do pecado.

Só nos níveis inferiores de existência, o corpo é inimigo do espírito, num ambiente em que tudo é luta e rivalidade. Subindo, porém, na escala evolutiva, tudo se harmoniza e irmana, o corpo não é mais uma fera rebelde que é necessário subjugar, uma prisão em que está encadeada uma alma revoltada, mas é uma casa para morar e trabalhar, é o templo onde vive a divina centelha dum espírito evoluído. Então, perde todo o sentido, e se desfaz automaticamente com a evolução o assalto do Cristianismo sexófobo contra o corpo (UBALDI, 2014, p. 280).

            Um dos aspectos fundamentais do valor da obra de Freud foi o de ter demonstrado a importância da influência do sexo na vida individual e social. “Não se pode menosprezar a função do sexo como elemento equilibrador na formação e na saúde psíquica da personalidade” (UBALDI, 2014, 276).

            A repressão dos instintos de natureza sexual não se faria sem consequências morais, sociais e patológicas porque o amor é a mais poderosa força da vida e a psicanalise

revelou-nos os desvios e doenças mentais que o método repressivo da agres­sividade sexófoba pode produzir [...] A ética sexófoba cometeu o erro de separar e contrapor o espírito à carne, fa­zendo de dois amigos que deveriam colaborar, dois inimigos que lu­tam para se destruir um ao outro, quando eles afinal são dois ele­mentos que em nosso ser humano, que é um, têm de viver juntos e, por isso, entre eles deveria existir harmonia e equilíbrio, e não an­tagonismo própria de rivais. Alma e corpo formam, pelo menos en­quanto vivemos na Terra, um composto único, um conjunto maté­ria-espírito. É impossível dividi-los, perigoso contrapô-los. Assim, neste terreno, o Cristianismo, sem querer, seguiu uma concepção errada e patológica da vida, que pode representar um verdadeiro des­vio dos princípios de bondade e amor, que nele são fundamentais. Desta luta entre os dois, espírito e corpo, às vezes o primeiro, em vez de sublimar saiu estropiado, de modo que um método, que no início parecia ótimo, se revelou contraproducente, porque acabava levando para resultados opostos aos previstos (UBALDI, 2014, p. 275).

            O Cristianismo teve o mérito de trazer a ideia de sublimação espiritual em um ambiente feroz. O conceito de superação da animalidade pela espiritualidade está de pleno acordo com as leis biológicas da evolução. E para isso, não seria possível ao Cristianismo usar o método da bondade evangélica em uma realidade tão feroz, feitos de homens e mulheres prontos para abusar de qualquer liberdade que lhe fossem concedidas. A única forma era o método da imposição à força que, na verdade, é uma qualidade do Anti-Sistema e não Sistema (feito de ordem). “O Cristianismo, para iniciar o trabalho lento de civilizar o homem, não teve outra possibilidade a não ser a de assumir os métodos da ética da luta, os únicos compreensíveis naquele ambiente” (UBALDI, 2014, p. 274). O Cristianismo precisou se adaptar às condições do mundo, usando um método correspondente, impondo-se à força como regra de disciplina.

        O Cristianismo se baseia na ideia de sublimação do espírito, mas ao enfatizar o lado negativo desta sublimação, se colocou em contraste com a realidade biológica da vida.

        Por não estar devidamente amadurecida a religião rebaixou tudo a seu nível, como é o caso aqui do Cristianismo, transformando a sublimação espiritual em uma perseguição contra a animalidade e, como a animalidade é representada pelo corpo, “o sexo se tornou sinônimo de pecado e a castidade regra ideal de vida” (UBALDI, 2014, p. 240).

          O Cristianismo como religião dominante, apesar de pregar a realidade do espírito e a santidade, não era feito apenas de santos. Em seu seio estava também o involuído e a agressividade do biótipo animal (o biótipo evoluído era apenas uma exceção, como no caso de Francisco de Assis), o que gerou uma ética dirigida não contra um inimigo para a conquista de poder mas uma ética que, apesar de ter como objetivo metas espirituais, era uma ética sexófoba, opressora e até antivital.

            Para que isto não acontecesse desta forma seria necessário uma maioria de santos. Mas eles eram a grande minoria. Que se poderia esperar de tantos involuídos, pergunta Ubaldi?

A falência do ideal cristão neste terreno está no fato de que, em vez de realizar uma revolução espiritual do amor, o que significa ir ao encontro da vida, o ideal tomou uma atitude negativa ou de perseguição contra o amor, que é o maior impulso vital da existência, o que significa ir de encontro à vida (UBALDI, 2014, p. 241).

            O anseio de sublimação do Cristianismo gerou uma ética sexófoba em que ao invés de as canalizar no sentido da subida

em vez de ser incremento de vitalidade em favor do espírito, pela imaturidade da maioria dirigida como agressividade antivital contra o corpo, acabou, sem querer, canalizando as energias comprimidas pela falta de desafogo sexual, no sentido da ferocidade perseguidora, da doença mental, dos complexos psicológicos, dos instintos torcidos, dos desvios e substitutos eróticos (UBALDI, 2014, p. 242).

            Se por um lado o objetivo do Cristianismo era a sublimação espiritual, por outro o que prevaleceu foi o instinto de luta. O Cristianismo, sobretudo nos séculos tenebrosos da Idade Média, não conhecia as leis da realidade biológica e psicológica e, por isso, não pôde compreender

que era melhor pro­curar aproximar-se da atuação do ideal, por degraus, evolvendo, e não agredindo a animalidade para destruí-la, respeitando e não for­çando a natureza, passando pelo caminho do aperfeiçoamento natu­ral do amor desde os seus níveis inferiores, ajudando e não opri­mindo a evolução, sem excitar as perigosas reações da vida, a sua revolta, a isto constrangida porque ofendida num dos seus pontos mais importantes (UBALDI, 2014, p. 243).

            As consequências desta ignorância (ainda que lógicas) pesam até ho­je sobre a estrutura psicológica da sociedade moderna. Era necessário enfrentar o problema da sublimação dos instintos com inteligência e conhecimento, levando em conta as exigências fisiológicas. Suprimir de forma abrupta era exigir demais e por isso a humanidade enveredou por um terreno de areia movediça, de contorção da verdade e depravação dos instintos o que deveria ser impulso para a ascensão. “Desenvolveu-se e aperfeiçoou-se o método da hipocrisia dos aparentemente puros, com a qual, por caminhos oblíquos, se vai evadir, às escondidas, da agressividade sexófoba dos pregadores de virtude” (UBALDI, 2014, p. 243).

A su­blimação mística se tornou uma forma de perseguição sádica do cor­po, com todos os seus castigos infligidos à carne (penitência, flage­lação, cilícios)  Dessa repressão sexófoba nasceram os erotismos torcidos, a sua degeneração no sadismo e masoquismo, ou a explo­são dos instintos comprimidos e corrompidos, em forma de psico­ses individuais e coletivas. Isto por se ter à força exigido demais de indivíduos imaturos, por não se ter compreendido que a sublima­ção do espírito não se pode atingir com uma agressividade destrui­dora da vida, mas educando-a e ajudando-a a levantar-se. Nasceu assim um Cristianismo às avessas, que não vai ao encontro da vida, vitalizando, mas de encontro a ela, destruindo. Prevaleceram, assim, disfarçadas como forças do bem, as do mal. Não se pode destruir o amor, sem destruir o impulso fundamental da existência, o que é ir contra Deus. Assim, chega-se ao suicídio, não à elevação espiri­tual. Não há dúvida de que a tarefa fundamental da evolução é de sublimar esses impulsos; mas é erro grande, que se paga caro, o de querer destruí-lo (UBALDI, 2014, p. 246).

            Prevaleceu aqueles que utilizavam a religião para sua vantagem material, como uma escola de hipocrisia, que vigora até os dias atuais. E o terreno onde mais prevaleceu este método de fingimento foi o do puritanismo sexófobo com suas respectivas proibições, o que é natural que assim aconteceria em uma realidade onde dominava a vida inferior da animalidade.

            No Cristianismo da Idade Média prevaleceu a ideia de satanização do amor, mais especificamente da relação sexual (que faz parte das leis da vida tanto quanto o amor), tornando-o algo como culpa e pecado. Temos então os conceitos de amor-culpa e sexo-pecado gerado pela ética sexófoba. Prevaleceu a visão de negatividade em respeito ao maior impulso da vida, ao invés da ideia de sublimação espiritual e do princípio de geração e continuação da vida que se realiza através do instinto do amor. “Assim, o estímulo para a evolução se emborcou, torcido, em sentido antivital” (UBALDI, 2014, p. 250).

            O problema é que, em se tratando de uma realidade biológica e psicológica da vida, o amor, como instinto, “se torna tanto mais poderoso quanto mais é comprimido, e tanto mais reage quan­to mais é agredido com condenações” (UBALDI, 2014, p. 250).

            Este tema encerra com o capitulo XII – O Sexo como Problema Atual. Os dois grandes eixos sobre os quais Ubaldi encerra essa discussão são: de um lado, o Cristianismo com o seu ideal de sublimação espiritual e, de outro, a realidade biológica e o nível de evolução atingido pela raça humana. Com a civilização, as leis biológicas da vida diminuíram os instintos de ferocidade e agressividade, fazendo com que as energias se dirigissem no sentido sexual e canalizando estas energias em favor da multiplicação da vida. E os problemas da civilização atual não serão resolvidos com sistemas repressivos do instinto do amor que é fundamental na vida. Para resolver o problema é preciso equacioná-lo de outra forma. A resolução do problema está no amor, mas não na sua repressão, e sim no reconhecimento de que o amor é tanto uma necessidade fisiológica quanto uma necessidade nervosa e espiritual. O amor tem uma dupla função: em favor da espécie e em favor dos indivíduos. Um amor que cumpre a função da geração da espécie e do bem estar individual. Um amor concebido biologicamente como função animal reprodutiva e como geração espiritual na qual se fundem duas almas, onde a sexualidade aparece também para além de sua função de multiplicação da espécie.

            E assim temos preparado o caminho para o último capítulo da obra, o capítulo XIII – Amor e Convivência Social. O Cristianismo tem um papel fundamental nesse processo: transformar o egocentrismo individual, através do método da bondade evangélica e do ideal de sublimação espiritual, na força criadora divina do amor, não apenas como manifestação biológica sexual, mas impulso dirigido para a evolução dos indivíduos e da espécie.

            Existem indivíduos que se movem principalmente com base nos instintos, no campo da fome e do amor e por isso se ocupam unicamente das funções de conservação individual e da espécie, mas há indivíduos que se ocupam da função de progredir, como o herói, o santo, o gênio, o mártir, o místico.

        Os evoluídos são os heróis do espírito, que souberam sublimar seus instintos porque já haviam atingido o amadurecimento espiritual necessário. Mas as religiões nem sempre souberam entendê-los e, por isso, enquadraram os princípios dos heróis do espírito assimilando-os de acordo com a sua forma mental.

            E aqui temos um aspecto fundamental da ética ubaldiana, que se confunde com a ética cristã: uma ética baseada no amor, o amor como força da vida, como energia divina, sexual e espiritual, que transforma o animal em anjo: “um amor que aplaca os ódios, abranda a agressividade, acalma as invejas, a cobiça, o orgulho, tranquiliza e serena a alma, gerando paz onde há guerra, alegria onde há dor, ordem e harmonia no indivíduo como na sociedade” (1988, p. 147). Além disso, “Não é o alto nível econômico e o padrão de vida, nem é o poder político, ou a supremacia bélica, ou o domínio do mundo, que podem sanar o mal, mas só um amor que nos encha de simpa­tia para com todos os seres e nos devolva a perdida alegria de viver” (1988, p. 147).

            Amor que não é apenas uma necessidade fisiológica do indivíduo (necessário à geração), mas nervosa e espiritual. O amor tem uma dupla função: em favor da espécie e em favor do indivíduo.

            Uma necessidade que não pode ser reprimida, como pretendia a ética sexófoba do Cristianismo. Não se pode comprimir o instinto do amor e, consequentemente, o sexo, que é fundamental na vida. Se for comprimido, ele procurará uma saída, “estourará” dependendo do caso, com característica patológica, representando grave perigo e caminho aberto para os complexos e doenças mentais.

            A ética sexófoba ou reprime, desviando a energia sexual para caminhos patológicos ou canaliza para a agressividade

É necessário compreender, ajudar, desenvolver o impulso do amor, e não agredi-lo, para o suprimir. Ele é o princípio da gênese e também da restauração individual. Perseguindo-o, colocamo-nos do lado das forças destruidoras, atentamos não somente contra a vi­da da espécie, como também contra a vida do indivíduo. As civili­zações futuras reconhecerão e garantirão sempre o amor, como um direito à satisfação de uma das fundamentais necessidades da vida. É necessário, então, um amor completo, e não somente a metade, um amor que cumpra ambas as funções: não somente a função (UBALDI, 2014, p. 264) em fa­vor da espécie, mas também a função em favor do indivíduo (UBALDI, 2014, p. 265).

            O trabalho que temos pela frente é imenso, pois se trata de transformar a atual psicologia comum do amor herdeira de uma tradição milenar que ao conceber o amor apenas como função animal reprodutiva gerou a concepção de sexo como pecado. É um trabalho que deve ser realizado por etapas, como se fosse necessário escalar um monte, um passo após o outro.

         É necessário ir além da concepção medieval, conceber o amor como função de geração espiritual, no qual se fundem duas almas, onde a sexualidade não é vista de forma negativa, mas positiva, com uma função que vai além da mera geração.

          Precisamos aperfeiçoar, espiritualizar a noção de sexualidade. O Cristianismo caiu no erro de não levar em conta esta realidade biológica, lançando-se contra a animalidade para destruí-la, ao invés de ajudá-la a subir, reconhecendo que o amor é impulso para a construção da espiritualidade. “O erro foi exigir a realização de um modelo espiritual quase inconcebível para o biótipo comum, e de impô-lo à força, com o método da agressividade, que é o mais contraproducente e o que está mais nos antípodas do verdadeiro espírito cristão do amor” (UBALDI, 2014, p. 267).

          Essa visão oriunda da ética sexófoba “espiritualmente, representa um fracasso” (UBALDI, 2014, p. 237). O objetivo era a ascensão para o alto e a elevação do espírito, mas o resultado atingido foi o oposto: “uma descida para os impulsos inferiores que o Cristianismo combate, um retrocesso involutivo” (UBALDI, 2014, p. 237).

          Mas é preciso também não cair no outro extremo. O sexo não representa a totalidade do amor. O sexo é força biológica da vida, no entanto, sustentar que possa representar todo o conteúdo do amor “significa viver exclusi­vamente no plano da animalidade” (UBALDI, 2014, p. 266).

         Existem formas de amor que vão além do sexo. Um amor que o biótipo involuído, ou até mesmo normal, pode não alcançar. Um amor que tem como objetivo maior a ascensão e que se não for dirigido para este fim

esta força tão poderosa to­mará o caminho da agressividade e da luta, desafogando-se, descen­do e não subindo. Então iremos contra o verdadeiro espírito do Cristianismo, cuja tarefa é a de melhorar as condições de vida, amansando a fera e suavizando as relações sociais, para se chegar à pacífica colaboração. Por isso é necessário canalizar as energias no sentido do amor, bem entendido, e nunca no da agressividade. Mas é mister compreender que ele contém alguma coisa mais do que so­mente o sexo e a função animal da reprodução (UBALDI, 2014, p. 266).

             Assim se pode compreender porque o Evangelho pareça uma meta longínqua ainda a atingir e pareça uma mera utopia inclusive na vida atual. “No presente estágio de evolução da humanidade ainda vigoram leis bem diferentes daquelas biológicas mais evoluídas, do Evangelho” (UBALDI, 2014, p. 274).

 

Pietro Ubaldi → Princípios de uma nova ética (resenha) → Capítulos X a XIII