Chico e a Nova Divisa de Kardec

18/05/2022 21:16

            Salve, amigo leitor.

          Em novo devaneio, vi-me sentado, junto a familiares, na última fila de cadeiras da sala do modesto Grupo da Prece, em Uberaba, MG. Dali, assistíamos atentos ao diálogo de Eurípedes com Chico Xavier, que estavam sentados em comprida mesa, junto doutras dez pessoas.

          Em certo momento, Eurípedes desenrolou pergaminho com diversas perguntas dirigidas ao ex-médium mineiro. A primeira delas foi a seguinte:

          — Que acha o amado pai, psicógrafo de lindas mensagens evangélicas, sobre as ideias dos irmãos chamados "progressistas", que afirmam respeitar todas as opiniões, mas entendem que o Espiritismo deve atuar na política?

          — Filho, sejamos fiéis à Doutrina de Cristo... — respondeu Chico —. Assim como Jesus não veio fundar nova religião nem partido político, também o Espiritismo respeita todas as convicções religiosas e ideologias políticas, mas não as fomenta. A bandeira que o Espiritismo defende,  como já dizia Allan Kardec, n'O Evangelho Segundo o Espiritismo, é esta: "Fora da caridade não há salvação".

          Foi quando eu, Irmão Jó, angustiado pelos rumos da política atual no Brasil, levantei-me e, intempestivamente, perguntei ao Chico:

          — E que pensava Kardec sobre a política?

          Imediatamente, ele projetou num painel esta frase, que Eurípedes leu:

         

Também não vos deixeis cair nessa armadilha. Afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto disser respeito à política e às questões irritantes; nesse caso, as discussões não levarão a nada e apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém questionará a moral, quando ela for boa. Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais verdadeiramente úteis serão uma consequência natural (KARDEC, A. Revista Espírita, fev. 1862. Resposta dirigida aos espíritas lioneses por ocasião do ano novo).

 

          E Chico concluiu: — Jesus foi bem claro, quando afirmou: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Como cidadão, cada um de vocês é livre para manifestar sua opinião política, com respeito a quem não pensa do mesmo modo, mas o Espiritismo deve ficar fora dessa questão.       

          — É verdade — complementa Eurípedes —, e, numa de suas viagens à cidade de Lyon e Bordeaux, Kardec diz que não nos devemos esquecer de que a tática dos nossos inimigos encarnados e desencarnados é a de nos dividir. Isso está escrito na obra Viagem Espírita em 1862 (Resposta de Allan Kardec ao Convite dos Espíritas de Lyon e de Bordeaux). As discussões políticas são causas de dissensões e afastamentos de irmãos e irmãs, amigos e parentes, que não cabem nos propósitos de tolerância e caridade apregoados pela Doutrina Espírita.

          Por fim, tornei a perguntar a Chico Xavier:

          — Como o Espiritismo pode ser atacado, se sua finalidade é tornar a humanidade melhor e mais feliz, irmão? 

          — Isso sempre foi assim — ele respondeu-me —. Sempre que o interesse mundano se sente prejudicado, as melhores doutrinas são atacadas, como ocorreu com o Cristianismo. — E novamente projetou em painel outra frase, também lida por Eurípedes:

 

Toda lei que reprime abusos não tem contra si os que vivem do abuso? Como queríeis que uma Doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva não fosse combatida pelos que vivem do egoísmo? E sabeis quanto são estes numerosos na Terra. No princípio, esperavam matá-lo pela zombaria; hoje veem que tal arma é impotente, e, sob o fogo cerrado dos sarcasmos, o Espiritismo continua sua rota sem se deter (KARDEC, A. Revista Espírita, fev. 1862. Resposta dirigida aos espíritas lioneses por ocasião do ano novo).

 

          Encantei-me e, antes de acordar, lembrei-me do apelo feito por Kardec aos espíritas lioneses e bordeleses, também registrado em Viagem Espírita em 1862, capítulo intitulado Discursos Pronunciados nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux. Então, humildemente, pedi ao irmão Chico:

          — Querido amigo, peço-lhe que não nos deixes esquecer, assim como a todo espírita cristão, desta máxima de Allan Kardec, cuja prática cotidiana é fundamental ao nosso bem-estar, à paz e à justiça no mundo: "Fora da caridade não há salvação, o que significa dizer: Fora da caridade não há verdadeiros espíritas". Ela sintetiza tanto a finalidade do Espiritismo quanto o dever que ele nos exige.

          — Como disse Jesus: "Vigiai e orai" — respondeu-me o Espírito querido do "maior brasileiro de todos os tempos". Então, acordei sorrindo.

 

 

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