Consciente

22/10/2020 10:59

            A personalidade humana pode ser comparada a uma árvore: estende suas raízes até as profundezas (subconsciente), eleva suas ramificações às alturas (superconsciente) e, no tronco, onde se desenrola a vida, está o consciente: “uma zona de trabalho, desequilíbrio, contrastes, e, portanto, ativa e criativa, ela é lúcida e consciente. A personalidade brilha na luz máxima da consciência em sua zona central” (UBALDI, ANCTM, p. 376).

O ego percebe a própria existência unicamente na zona consciente do sistema que tem alturas evolutivas diversas, segundo o desenvolvi­mento individual. Segundo o mesmo, cada um explora, to­rna, elabora e assimila e, assim, segundo sua posição e natureza, agindo através do esquema geral do fenômeno, constrói a própria individualidade segundo particularidades espe­ciais (UBALDI, ANCTM, p. 382).

            É nesta zona que encontramos a razão, a consciência racional, lúcida, um pequeno vagalume, que apreende, controla, discute, trabalha e, por isso, “se desloca ao longo desse extraordinário trajeto, cujo princípio é abandonado em bai­xo e cujo fim se perde no alto, além de toda nossa medida” (UBALDI, AM, p. 98).

            “A razão cobre um campo muito mais extenso que o limitado pelo instinto (nisto o homem supera o animal, dominando zonas que ele ignora)” (UBALDI, AGS, p. 309). No animal vemos apenas um raciocínio de tipo rudimentar no período da construção de seu instinto. A razão humana, por sua vez terminada a sua formação, “alcançará um instinto complexo e maravilhoso, que revelará sabedoria muito mais profunda” (UBALDI, AGS, p. 309).

O que para o consciente constitui trabalho atual, para o subconsciente é passado vivido, não morto, cuja síntese so­brevive sepultada em seu íntimo como resultado da opera­ção que atualmente é desenvolvida pelo consciente. A sín­tese resultante, chama-se instinto, estando, ainda, no plano do consciente, na fase de formação de análise. Aqui o equi­líbrio ainda não estabilizado, ainda indefinidas as resultan­tes dos contrastes, permitem o trabalho de criação que no subconsciente terminou suas aquisições. O instinto é superior como maturidade formativa, mas inferior como nível evolu­tivo. A razão pertence a um plano superior, é a forma mais complexa, mais criança do instinto. Este, síntese da análise feita pelo subconsciente, é mais velho e perfeito, em seu ní­vel, que a razão. Esta é um processo em formação, de análise, de experiência incompleta, mas em vias de sê-lo, é fase inicial de assimilação de qualidades novas mas em grau mais elevado de evolução  Os resultados da análise, amanhã serão síntese; os da razão que procura e escolhe, instinto que já sabe e conhece (UBALDI, ANCTM, p. 377).

                Não se pode dizer que não exista mais o instinto animal no homem. Na verdade, a razão, é sua continuação, ou ainda: “instinto e razão são simplesmente duas fases de consciência, a primeira já superada e, portanto, funcionando automaticamente; a segunda, em vias de formação” (UBALDI, AGS, p. 309). Não são duas fases antagônicas, mas complementares, sucessivas, pois assim como o instinto animal ainda sobrevive no homem, ocorre a formação de novos instintos, com a diferenças apenas de que a fase instinto é inconsciente, enquanto que a fase razão é consciente.

            O mesmo pode ser dito em relação aos animais, entretanto, em sentido inverso. Existe o instinto inconsciente e também uma pequena zona de formação, consciente, racional, ainda que rudimentar. Se “todos os atos dos animais estão cristalizados no instinto, existe sempre uma porta aberta para novas aquisições (aprendizado, domesticação etc.)” (UBALDI, AGS, p. 310). “Entre a planta, o animal e o homem só existe a diferença devida ao caminho maior ou menor que foi percorrido” (UBALDI, AGS, p. 310).

            No homem, uma parte está confiada aos automatismos dos instintos e outra, a racionalidade, que tende a cristalizar-se em atitudes instintivas e, tudo o que foi conquistado, através do trabalho que acontece na zona consciente, passará a ser instinto.

            E o eu evolui, se desloca, do subconsciente ao superconsciente, através da consciência. “O consciente compreende somente a fase ativa, única que sentis e conheceis, porque é a fase em que viveis e trabalha a evolução” (UBALDI, AGS, p. 308 – grifo do autor).

            É nesta zona que ocorre o esforço da personalidade para a construção de si e de sua evolução, campo de batalha entre as diversas correntes que circulam na personalidade. Por evolução, a consciência, como pequena zona de luz, surge a partir da primeira emersão do psiquismo que, por sua vez, emergiu através da fase biológica: “a consciência [...] se aventura agora na fase psíquica e no seu superamento na fa­se hiperpsíquica, em que a consciência se encami­nha para tomar-se consciente em dimensões hoje su­per-racionais para a média normal imersa nas trevas do inconcebível” (UBALDI, AM, p. 98).

 

Pietro Ubaldi  A psicanálise evolucionista e espiritualista de Pietro Ubaldi → Consciente