Criados para a felicidade

06/02/2019 11:56

            Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, felicidade pode ser: "1 [...]  estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar; 2 boa fortuna, sorte; 3 bom êxito; acerto, sucesso".

            De acordo com Lisa Fields (In: SELEÇÕES, 2014, p. 36), uma pesquisa realizada pela Universidade de Minnesota, nos EUA, aponta quatro áreas que influem em nossa felicidade: a família, a comunidade, o trabalho e a fé. Para a maioria, a harmonia em família é a principal causa da felicidade. Em seguida vêm a fé, o trabalho e, por último, o relacionamento comunitário.

            James Roberts, professor de Marketings da Universidade Baylor, no Texas, diz que "o amor às coisas materiais pode prejudicar o modo como nos sentimos a nosso respeito e nos custar relacionamentos pessoais e, em última análise, a felicidade".  Ele  explica que "O segredo é ter consciência do 'tsunami consumista' que nos inunda e fazer escolhas que nos levem a passar mais tempo reforçando os relacionamentos sociais". Conclui Roberts que boa escolha é a do "trabalho voluntário, que, como já comprovaram numerosos estudos, aumenta a felicidade pessoal" (In: SELEÇÕES, 2014, p. 80).

            Na conquista da felicidade, os pensamentos positivos e a prática da gratidão também são propostos pelo Dr. Paterson, da universidade de Indiana, segundo Young (op. cit., p. 83).

            O jornalista Preston (op. cit., p. 65) comenta que em sua visita aos EUA, o Dalai Lama, "alegre e cheio de entusiasmo", certo dia, foi abordado por uma garçonete, que lhe perguntou qual é o sentido da vida. Sua resposta foi de que o sentido da vida é a felicidade, mas o difícil é saber o que traz felicidade: "Dinheiro? Casa grande? Amigos? Ou... – Ele fez uma pausa. – Compaixão e bom coração?".

            A pergunta ao Dalai Lama, mais que a resposta, por sinal corretíssima, fez-nos refletir sobre o significado da palavra "sentido", que aqui, segundo o dicionário Houaiss representa "aquilo que se pretende alcançar quando se realiza uma ação; alvo, fim, propósito". Ou seja, "para que ou para qual finalidade" serve a vida?

            Embora sejam sinônimas, nos dicionários, as palavras objetivo e finalidade, na pedagogia, têm significados diferentes. Segundo Araújo (Apud VEIGA; CASTANHO, 2000, p. 96-99), a finalidade tem origem na palavra grega telos, ou no vocábulo latino finis, que significa "fronteira, limite, término". Finalidade é, pois, meta.

            Já os objetivos são direcionados ao que é passível de operacionalização, embora impliquem mediações. "Exemplo: estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo", são objetivos educacionais, segundo Araújo (op. cit.). Entretanto, a "finalidade tripartite" da educação é o "desenvolvimento pleno do educando", o seu "preparo para o exercício da cidadania" e a sua "qualificação para o trabalho". (id., ibid.). É a resposta ao "para que", citado antes.

            Com base no exposto, deduzimos que a vida humana tem por objetivo alcançar a perfeição (operacionalização) e por finalidade (meta) a felicidade. Mas só é plenamente feliz o Espírito perfeito, e foi por isso mesmo que Jesus nos recomendou: "Sede perfeitos como o vosso Pai que está nos Céus." (Mateus, 5:48), e também disse-nos: "Eu e o Pai somos um" (João, 10:30); embora igualmente tenha afirmado: "bom mesmo só Deus o é" (Marcos, 10:18). Assim, em nosso objetivo de perfeição relativa, quanto mais nos livrarmos das paixões grosseiras e nos devotarmos ao bem, mais seremos felizes.

            Desse modo, podemos entender algumas questões propostas n'O Livro dos Espíritos (LE), como esta: "132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?" Resposta: "Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. [...] Visa ainda outro fim [entenda-se objetivo] a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da Criação [...]".

            Na questão 153 a), dessa obra, somos informados de que os Espíritos puros gozam da "felicidade eterna". Isso significa que atingiram a finalidade da vida, mas permanecem desempenhando sua missão como auxiliares de Deus na obra da criação. Concluímos do exposto que o Espírito purificado alcança sua meta ou finalidade, que é a da "felicidade eterna", mas seus objetivos continuam a ser "operacionalizados".

            Essa condição de perpetuidade da vida feliz, entretanto, é relativa nos mundos ainda imperfeitos, como a Terra, tanto na carne como fora dela, como se observa na resposta à questão 231 do LE: "São felizes ou desgraçados os Espíritos errantes?" Por errantes, entenda-se os Espíritos que ainda estão no plano espiritual sujeitos à reencarnação, nos mais diversos graus evolutivos, mas ainda longe da perfeição.

            Resposta à pergunta:

 

Mais ou menos, conforme seus méritos. Sofrem por efeito das paixões cuja essência conservam, ou são felizes, de conformidade com o grau de desmaterialização a que hajam chegado. Na erraticidade, o Espírito percebe o que lhe falta para ser mais feliz e, desde então, procura os meios de alcançá-lo. Nem sempre, porém, lhe é permitido reencarnar como fora de seu agrado, representando isso, para ele, uma punição.

 

                Na quarta parte do LE, intitulada "Das penas e gozos terrestres", sob o subtítulo "Felicidade e infelicidade relativas", com quatorze questões, lemos o seguinte, na questão 920: "Pode o homem gozar de completa felicidade na Terra?" Resposta: "Não, por isso que a vida lhe foi dada como prova ou expiação. Dele, porém, depende a suavização de seus males e o ser tão feliz quanto possível na Terra".

                Logo abaixo, respondendo à pergunta 921 sobre a possibilidade da felicidade relativa do homem, enquanto a humanidade não "estiver transformada", somos informados de que "O homem é quase sempre o obreiro de sua própria infelicidade. Praticando a Lei de Deus, a muitos males se forrará e proporcionará a si mesmo felicidade tão grande quanto o comporte a sua existência grosseira".

                Passemos à questão 967 do LE. Nela, Kardec deseja saber "em que consiste a felicidade dos bons Espíritos". Vale a pena refletir sobre esta resposta:

Em conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une lhes é fonte de suprema felicidade. Não experimentam as necessidades nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. Contudo, a felicidade dos Espíritos é proporcional à elevação de cada um [...].

            Os gozos materiais, lemos na resposta à questão seguinte, são próprios dos Espíritos animalizados. "Quando não podes satisfazer a essas necessidades, passas por uma tortura". E não é assim mesmo que acontece? Quantos jovens ficam tão desesperados diante de uma recusa amorosa que chegam a cometer crimes contra o ser objeto de seus sonhos não realizados? Quantas pessoas penam nas cadeias por se apropriarem do que não lhes pertencia? Quantos há que, sem pensarem nas consequências terríveis deste gesto, suicidam-se por não suportarem suas provas que, com o auxílio da fé, da perseverança e do trabalho no bem seriam suavizadas?

            Como reflexão final, transcrevemos as duas estrofes finais do soneto parnasiano do poeta Vicente de Carvalho intitulado Velho Tema I:

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

            "Tudo na natureza, desde o grão de areia, canta, isto é, proclama o poder, a sabedoria e a bondade de Deus", afirmam-nos os Espíritos superiores que responderam a Allan Kardec as 1019 questões formuladas por ele nesta obra básica da Doutrina Espírita, O Livro dos Espíritos, que deu origem a mais outras quatro: O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, A Gênese e, por fim, O Céu e o Inferno, códigos maravilhosos sobre a ciência do espírito, que aconselhamos o leitor e a leitora a lerem, relerem, refletirem, meditarem e trilharem, incessantemente, pois neles se encontra o roteiro de nossa felicidade, meta ou finalidade eterna de todos nós.

 

Referências

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. 1. imp. (Edição histórica). Brasília: FEB, 2013.

SELEÇÕES Reader's Digest, jul. 2014.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro; CASTANHO, Maria Eugênia L. M. Orgs. Pedagogia universitária: a aula em foco. Campinas, SP: Papirus, 2000 (Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).

 

 

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