De onde vim e para onde vou

23/01/2019 12:10

Tenho aqui à minha frente nada mais nada menos que Augusto dos Anjos, a quem pedi uma entrevista exclusiva.

— Boa-noite, Augusto! Como te defines e de onde vens?

— Boa-noite, Bruxo!

 

Sou uma Sombra! Venho de outras eras,

Do cosmopolitismo das moneras...

Pólipo de recônditas reentrâncias,

Larva de caos telúrico, procedo

Da escuridão do cósmico segredo,

Da substância de todas as substâncias!

(In: ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias.

Poema: Monólogo de uma sombra).

 

— Acreditaste na sobrevivência do Espírito um dia?

— Como não acreditar se

 

Morri! E a Terra - a mãe comum - o brilho

Destes meus olhos apagou!... Assim

Tântalo, aos reais convivas, num festim,

Serviu as carnes do seu próprio filho!

(...)

Hoje que apenas sou matéria e entulho

Tenho consciência de que nada sou!

(In: ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias.

Poema: Vozes de um túmulo).

 

Se mantive a consciência é por que sou alguma coisa, não é mesmo?

— Como se pode ter consciência de que nada se é?

— Isso dizia eu da carne putrescível; / retornando, porém, para esta dimensão, / voltando para o plano etéreo onde ora estamos, / continuei com consciência indestrutível (jlo).

— Ah, sim, nada somos como “matéria e entulho”, pois não somos um corpo carnal que tem uma alma e, sim, uma alma que vive, temporariamente, num corpo físico, certo? E o que mais a consciência lhe mostrou? 

— Mostrou-me que

 

Há, sim, a inconsciência prodigiosa

Que guarda pequeninas ocorrências

De todas as vividas existências

Do Espírito que sofre, luta e goza.

 

Ela é a registradora misteriosa

Do subjetivismo das essências,

Consciência de todas as consciências,

Fora de toda a sensação nervosa.

 

Câmara da memória independente,

Arquiva tudo rigorosamente

Sem massas cerebrais organizadas,

 

Que o neurônio oblitera por momentos,

Mas que é o conjunto dos conhecimentos

Das nossas vidas estratificadas.

(In: XAVIER, F. C. Parnaso de além-túmulo.

Soneto: A subconsciência)

 

— Que recado gostarias de dar ao amigo leitor?

— Quando, no ergástulo da carne, afirmei peremptório que  

 

A Esperança não murcha, ela não cansa,

Também como ela não sucumbe a Crença,

Vão-se sonhos nas asas da Descrença,

Voltam sonhos nas asas da Esperança.

 

Muita gente infeliz assim não pensa;

No entanto o mundo é uma ilusão completa,

E não é a Esperança por sentença

Este laço que ao mundo nos manieta?

 

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,

Sirva-te a Crença do fanal bendito,

Salve-te a glória no futuro — avança!

 

E eu, que vivo atrelado ao desalento,

Também espero o fim do meu tormento,

Na voz da Morte a me bradar: descansa!

(In: ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias.

Soneto: A esperança).

 

— Agora que a esperança se tornou certeza, tens algo mais a declarar?

— Concluo tua pergunta inicial com estes versos:

 

Donde venho? Das eras remotíssimas,

Das substâncias elementaríssimas,

Emergindo das cósmicas matérias.

Venho dos invisíveis protozoários,

Da confusão dos seres embrionários,

Das células primevas, das bactérias.

 

Venho da fonte eterna das origens,

No turbilhão de todas as vertigens,

Em mil transmutações, fundas e enormes;

Do silêncio da mônada invisível,

Do tetro e fundo abismo, negro e horrível,

Vitalizando corpos multiformes.

 

Sei que evolvi e sei que sou oriundo

Do trabalho telúrico do mundo,

Da Terra no vultoso e imenso abdômen;

Sofri, desde as intensas torpitudes

Das larvas microscópicas e rudes,

À infinita desgraça de ser homem.

 

[...]

E apesar da teoria mais abstrusa

Dessa ciência inicial, confusa,

A que se acolhem míseros ateus,

Caminharás lutando além da cova,

Para a Vida que eterna se renova,

Buscando as perfeições do Amor em Deus.

(In: XAVIER, F. C. Parnaso de além-túmulo.

Poema: Vozes de uma sombra.)

 

 

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