Guerra e Paz...

14/11/2019 10:05

            Disse o Cristo: “Não pensem que vim trazer paz à Terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito, vim causar divisão entre o filho e seu pai, entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Então, os inimigos do homem serão os da sua própria casa” (Mateus 10: 34-36).

            Como é sabido, os primeiros cristãos, por vezes, como ainda hoje ocorre, precisaram despojar-se das coisas materiais, até mesmo dos próprios familiares que não aceitavam a Boa-Nova. Também seriam perseguidos pelos romanos e judeus, representados pelos fariseus. Os primeiros, por não aceitarem que seus deuses, símbolos do poder e da glória, habitantes do Olimpo, fossem substituídos pela ideia de um Deus único, mais poderoso do que todas as suas divindades. Os segundos, por rejeitarem a concepção de que seu Deus da guerra, poderoso exterminador dos pagãos, fosse substituída pela noção de um Senhor que combatesse o ódio com o amor e a guerra com a paz...

            Os judeus acreditavam que o Deus anunciado pelos profetas, há milênios, era exclusivo de seu povo. Um Deus guerreiro, a quem deveriam adorar e temer. Por estar à frente de todas as batalhas, derrotaria todos os seus inimigos, desde que lhe fosse prestada obediência total.

            Desse modo, imaginavam que seu Deus lhes enviaria um poderoso Messias, exterminador de todos os povos pagãos, por não serem de sua raça nem crença. Embora o Decálogo recomendasse não matar, eles estavam sempre em guerra contra os pagãos e ainda eram fratricidas, pois havia mortes por dissensões nas interpretações religiosas entre seu próprio povo. Quando aparece Jesus, pregando o amor e o perdão, recomendando não resistir ao mal e amar os próprios inimigos, consideram sua doutrina abominável, típica dos fracos e covardes.

            E os que adotassem o novo entendimento sobre as leis de um Deus que é amor e não ódio, paz e não guerra seriam perseguidos e entregues à sanha assassina dos romanos imperialistas. Foi o que ocorreu com os primeiros cristãos, transformados em tochas vivas, amarrados aos postes de suplício, atirados às masmorras infectas das prisões, degolados e devorados por feras, no circo romano, para gáudio desse povo cruel.

            O tempo correu, o Cristianismo, após Constantino tê-lo legalizado, passou a ser considerado a religião do Estado por Teodósio, no século IV, e as Sagradas Escrituras tornaram-se lei para todos os povos do Ocidente e do Oriente. Sua leitura e hermenêutica, entretanto, era prerrogativa dos sacerdotes católicos. Os que ousassem interpretá-las eram considerados hereges e inimigos a serem neutralizados, após processos nefandos e torturas inomináveis, tão cruéis quanto as sofridas pelos primeiros cristãos. Estava instituída a Igreja Católica Apostólica Romana.

            Daí surgir a “Santa Inquisição”, que também condenaria os hereges às masmorras infectas e à morte nas fogueiras. Muitos mártires, como João Huss e Joana d’Arc, foram considerados endemoniados, e seus corpos arderam no fogo cruel da nova Igreja, que, desse modo, julgava estar preservando de ataques demoníacos o Evangelho do Cristo, repleto de parábolas e de sentido simbólico, que não souberam interpretar.

            No século XVI, as cobranças abusivas de dízimos pelos pais da Igreja, além da proibição do povo leigo de ler e interpretar a Bíblia, despertou, no sacerdote Martinho Lutero, a revolta e a criação de uma nova igreja, a Luterana, que deu origem a diversas outras igrejas protestantes. Cada uma interpretava a seu modo as palavras do Cristo...

            A ele, seguiu-se Calvino, que, em seu zelo e radicalização de hermenêutica exclusiva das escrituras, foi responsável pela condenação e morte de quantos divergissem de certos dogmas. Um deles, até hoje tido como certo por alguns evangélicos, é o da salvação pela fé somente. Quem se arrepender e confessar seus pecados terá a vida eterna. Outro é o de que todos somos frutos do pecado original e nele morreremos. Porém, muitos cristãos sinceros e cheios de fé foram “torrados” nas fogueiras apenas por discordarem de certos princípios bíblicos.

            A Igreja Católica, por sua vez, instituíra seus dogmas, e ai de quem se opusesse a eles. Criara-se a trindade universal, no século IV, sem fundamento na Bíblia; o papa e seus antecessores foram considerados infalíveis, em 1870, ainda que desmentidos pela ciência... Com tanta contradição, não é de admirar que a crença em Deus e na imortalidade da alma tenha esfriado no mundo desde o século XVIII.

            A profecia crística realizava-se, ao longo de séculos de guerras religiosas, mais exterminadoras do que diversas lutas políticas. As famílias se dividiam por questões de interpretações religiosas ou por não crerem em mais nada que dissesse respeito à vida espiritual. Desse modo, pais se opunham a filhos, filhas a suas mães... Entretanto, a divisão começava na casa religiosa. Era a da intolerância às ideias hereges e o prosseguimento das lutas religiosas, que tantas mortes provocaram em nome de um Cristo e de um Deus, cuja Lei Maior sempre fora a do Amor.

            Muitos desses seres humanos, perseguidos em nome de um profeta que passou sua existência entre nós pregando a tolerância, o perdão e o amor, ao desencarnarem, formaram verdadeiras legiões do mal. Ali, prega-se o ódio, a vingança, combate-se Deus e Jesus, que consideram seus inimigos eternos, por não os terem defendido contra aqueles que se diziam seus representantes na Terra.

            Esses espíritos revoltados, cujos martírios tiveram sua razão de ser, não no fato de interpretarem de modo diverso as Escrituras Sagradas, mas por serem trânsfugas da Lei de Deus, em passado remoto, anterior às suas últimas existências físicas, estão tendo oportunidade de abandonarem o mal. Isso ocorre tanto pelo seu socorro e esclarecimento nas reuniões mediúnicas, como também pelo apelo do mundo espiritual, que jamais violenta nosso livre-arbítrio, no seu despertar para o bem.

            Cumpre-se, assim, o alerta do Cristo, cujo tempo é diverso do nosso, como o é o tempo de Deus, nosso Pai eterno, que apenas nos exige, para vivermos em paz e sermos perfeitos, a guerra contra nosso orgulho, nosso egoísmo e nossa ambição pelo poder, que residem dentro de nós, assim como o seu Reino: “Embainhe sua espada, pois quem matar pela espada, pela espada morrerá” (Mateus, 26: 52).

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