PNE: Capítulos III a VI

06/08/2020 04:05

            O trabalho atual da evolução não é o de criar novas armas para dominar o mundo, mas criar homens justos e honestos que não queiram usar armas para alcançar a justiça e a paz. O que interessa para a nossa civilização é a conquista da honestidade, e não a conquista da paz com a guerra, porque enquanto houver guerra, haverá ação e reação. A guerra representa apenas a semente de uma nova guerra. Além disso, um homem desonesto e capaz de realizar o mal permanecerá sempre um perigo social. A diferença entre uma ética dos involuídos e outra dos evoluídos corresponde uma diferença substancial que vai do desonesto ao honesto, do justo ao injusto, do mal ao bem. “Hoje, justos e injustos estão misturados em todos os grupos. Pode haver ótimos elementos nos piores grupos, assim como péssimos no­ seio dos melhores [...] Há uma imensa diferença entre os dois métodos de vida e respectiva ética” (1988, p. 25). Com isso, Ubaldi vai nos preparando para o capítulo III que tem como título Métodos de Vida. O método de realização praticado pelo evoluído diverge profundamente do método utilizado pelo involuído. O evoluído não necessita do esforço da agressão destruidora: o evoluído que se tornou consciente de que é um instrumento da Lei sabe que a sua vontade deve coincidir com a vontade de Deus e Sua Lei. O seu método de vida, a sua ética, não é a ética da luta, mas a ética da não-resistência pregada pelo Evangelho.

            O grande trabalho que as leis da vida têm para realizar no momento presente é fazer ascender o atual biótipo dominante, o involuído, para formas de vida mais adiantadas, com o objetivo de que ele possa entender e praticar a ética do evoluído.

O evoluído não julga que o involuído seja culpado ou mau, mas considera-o um menino a educar, ao qual é útil mostrar, para que ele o saiba, o que melhor lhe convém fazer para seu bem. Cabe aos mais adiantados o dever de ajudar os menos adiantados, não os con­denando, mas indo ao seu encontro com a devida compreensão (1988, p. 28).

            O método de vida do involuído, o que ele entende e pratica, é a ação através da força, da astúcia, que devem se transformar em justiça e honestidade, para que o involuído amadureça e alcance novos níveis de consciência espiritual. O ponto de partida do involuído é a força. Seu ponto de chegada é a justiça. O processo evolutivo consiste em substituir o elemento da força, pelo princípio da justiça.

Eis como as qualidades do involuído podem continuar funcio­nando, mas cada vez mais dentro dos limites da nova ordem que se vai realizando, isto é, não mais força para fazer guerra, agredindo e destruindo, mas força empregada para o cumprimento da Lei, não para esmagar o fraco, mas para o triunfo da justiça (1988, p. 29).

            Poderíamos então, falar de níveis evolutivos de ética relativos ao estado de maturidade espiritual em que cada um se encontra neste mundo e, em torno do qual, estabelecem para si o seu método de vida. No nível mais baixo, nas posições mais atrasadas, estão aqueles que usam a força e praticam o mal sem escrúpulos. Acima deles estão os que reconhecem a ideia de justiça, mas ainda assim acreditam na necessidade da força para fazê-la prosperar. E acima destes estão os mais adiantados, que praticam o método do Evangelho: não entram na luta, custe o que custar; não reagem, mas perdoam. E cada um recebe de acordo com o seu merecimento: os que usam a força recebem como lição o sofrimento, tanto maior quanto maior for o uso da força e em prejuízo de outras vidas; os evangelizados vão progredindo e subindo, cada vez mais, a níveis mais elevados de consciência e espiritualidade.

O contraste entre essas diferentes posições biológicas nos apa­rece evidente neste exemplo: quando Cristo foi preso no Getsêma­ne, Simão Pedro puxou da espada e, dando um golpe no servo do sumo sacerdote, decepou-lhe uma orelha. Então, Jesus lhe disse: "Embainha a tua espada; pois todos os que tomam a espada, mor­rerão pela espada. Então, tendo tocado a orelha, a sarou".

Vemos aqui chocarem-se dois sistemas, os do segundo e tercei­ro casos acima mencionados. Simão Pedro pretendia usar a força para uma finalidade benéfica, defendendo um justo.  Mas Cristo preferiu praticar um método superior, o do evoluído, o da não-re­sistência e do perdão, para dar este exemplo e ensinar esta lição, avisando ao mesmo tempo do perigo que espera quem desce ao ní­vel do involuído e pratica os seus métodos — o perigo de ter depois de ficar sujeito ao domínio das reações e leis ferozes daquele plano (1988, p. 31).

            A forma mental do involuído, sua psicologia, é a forma mental de um rebelde egocêntrico e agir em função dos outros é sinal de fraqueza e derrota. Na psicologia do involuído a inteligência consiste em enganar o próximo, burlar a lei, aproveitar-se da situação no interesse próprio. Em alguns casos tal atitude é fruto de pura perversão, em outros apenas de ignorância. A psicologia explica o modo de ação do involuído, ao aclarar a ideia de impulsos subconscientes instintivos. “Não se pode acusar tal biótipo de insinceridade, quando ele, das coisas de espírito, apenas lhes pode entender a forma exterior, e quando ele a pratica com toda a exatidão, obedecendo a todas as regras mecânicas estabelecidas” (1988, p. 35). É o mesmo que exigir aos surdos, principalmente daqueles que o são porque não desenvolveram o sentido da audição, que entendam os sons que lhes são proferidos, ou aos cegos que saibam distinguir os feixes de luz que lhes são direcionados. Os valores do involuído estão nos antípodas do evoluído. Para o evoluído o valor está na obediência à ordem e à Lei. Ubaldi  encerra este capítulo destacando pelos menos quatro níveis diferentes de “forma mental” e amadurecimento evolutivo característico dos seres humanos: o 1º grau da forma mental elementar do “animal” e res­pectiva ética de obediência mecânica aos impulsos primitivos; o 2º grau da forma mental do “selvagem” e “delinquente” e respectiva ética da força e do princípio da luta; o 3º grau da forma mental do “involuído” e respectiva ética de obediências às leis, mas de forma superficial, porque constrangido pela força, e alimentada pelo desejo de transgressão da lei para satisfação dos desejos e difere do 2º grau pelo tipo de violência que não é mais física, “mas econômica, nervosa, psicológica, e a desobediência está disfar­çada sob as aparências da obediência” (1988, p. 37); e o 4º grau da forma mental e respectiva ética “do evoluí­do que abandonou todos esses métodos de luta, porque chegou a entender a Lei de Deus e a esta espontaneamente obedece” (1988, p. 37). “Eis os biótipos que encontramos em nosso mundo atual, cada um com a sua forma mental e ética respectiva” (1988, p. 37).

            A análise da psicologia da forma mental do involuído e do evoluído ou, como Ubaldi também costuma se referir, o biótipo terrestre, serve de base para aprofundar a discussão sobre a personalidade que será empreendida no Capítulo IV – A personalidade humana, e que também está conectado de alguma forma com o tema do Capítulo V – Os três biótipos terrestres, dos Capítulos VII e VIII que abordam o tema da psicanálise e o Capítulo IX – Técnicas de Tratamento.

            No início do capítulo IV – A personalidade humana, Ubaldi revela que o objetivo da obra é aproximar o leitor da realidade prática da vida. E para saber qual deve ser na vida a nossa conduta, é necessário conhecer a personalidade humana, bem como a finalidade para a qual estamos na vida, pois um problema só pode ser resolvido em função do outro. “Veremos, assim, como os princípios gerais que regem a vida poderão ser aplicados ao caso particular de cada indivíduo, conforme o seu tipo de personalidade e de destino” (1988, p. 40). Uma classificação prévia dos tipos de personalidade já fora realizado no capítulo anterior, quando Ubaldi se refere ao biótipo terrestre. Trata-se de aprofundar o debate e a temática de que existem tipos de personalidades diferentes correspondentes ao grau de entendimento e maturidade de consciência, conquistado por evolução, através das variadas experiências realizadas nas vidas sucessivas. Além disso, Ubaldi admite a existência de uma parte inconsciente da personalidade humana (dividido em subconsciente e superconsciente), tal como postulado pela psicanálise e que será debatido mais adiante, cujo conteúdo e limites não conhecemos e que escapa ao nosso controle. Esse aspecto da personalidade é de capital importância pois explica muito das ações humanas.

            Existe um tipo de personalidade humana que age obedecendo apenas aos impulsos primitivos, de maneira inconsciente e até descontrolada e, por isso, se torna mecanicamente arrastado pelas forças da Lei. Há, porém, um tipo de personalidade mais evoluída que tem consciência de uma vida muito mais vasta e que conhece, em maior ou menor grau, o duplo problema da personalidade e do destino, “isto é, sabe quem ele é e qual é o objetivo particular que ele deve atingir na sua atual vida física, em função dos objetivos maiores de toda a sua evolução” (1988, p. 41).

            Relacionando a ideia de que existem tipos diversos de personalidade humana com a estrutura psíquica dessa mesma personalidade (subconsciente, consciente, superconsciente), é possível dizer que a personalidade pode se manifestar de, pelo menos, três maneiras distintas: através do subconsciente caracterizado pelo instinto, funcionando por reações inconscientes; através da consciência caracterizada pela razão; ou através do superconsciente que corresponde ao domínio da intuição.

            A ética do primeiro se baseia em uma ação instintiva semelhante aos animais “aos quais ele obedece cega e mecani­camente, não entendendo o porquê do que ele faz, não se orientan­do por autonomia de juízo, mas imitando, isto é, repetindo o que fazem os outros, porque para ele o que faz a maioria representa a verdade” (1988, p. 44). Funciona por imitação e repetição do que fazem os outros e aceitando a solução dos outros. É o método do “rebanho de ovelhas”, fazendo o que as outras fazem, sem necessariamente saber porque o faz e age de tal forma. A ignorância é o estado normal deste biótipo que não tem problemas morais ou intelectuais. Age de acordo com seus instintos básicos: da fome, do amor, do esforço necessário para satisfazer tais necessidades. As necessidades imediatas são os problemas mais elementares e urgentes que ele lhe impõe, para a continuação da vida. É a escola primária “na qual se aprende sem entender, repetindo por sugestão, imitando um mode­lo, até que pela longa repetição mecanicamente se adquirem hábi­tos, que assim se fixam no subconsciente como novas qualidades” (1988, p. 44).

            A ética do nível médio se baseia em uma forma mental mais complexa e racional. Além dos instintos, ele age através do intelecto, o que implica pensar, refletir, analisar, e não apenas imitar. Aceita as normas da ética com relativa autonomia de juízo. A inteligência controla os instintos e emoções e dirige os impulsos cegos do subconsciente, não se deixando levar mecanicamente por eles. Entende os processos lógicos e exige provas e demonstrações para ser levado à compreensão e convicção e não aceita algo como verdade simplesmente porque lhe disseram que é assim ou tem que ser assim. E mesmo que ainda não saiba o porquê, sua ação não é cega ou fruto do subconsciente, mas obedece a regras que são ditadas porque estabelece uma disciplina e uma ordem, ainda que exterior e formal. “Então esse biótipo possui outros recursos mais adiantados: para a norma de conduta certa, ele tem um guia representado pelas soluções oferecidas pelas éticas teoricamente aceitas, que representam uma sabedoria descida dos pla­nos superiores” (1988, p. 44). Os problemas que se impõe vão além das necessidades da vida animal da fome e do amor: ele quer conhecer, que entender as normas de vida social, quer sair do seu estado de ignorância, descobrir novos caminhos para o progresso da humanidade. É uma escola um pouco mais adiantada, que não se contenta com os métodos de aprendizagem anteriores: “cogita de com­preender e julgar com a inteligência, que é a qualidade que agora se vai desenvolvendo” (1988, p. 45).

            Enfim o nível superior, onde aparecem novas qualidades. Além do controle racional dos instintos e do subconsciente surge a intuição, que permite perceber a verdade por visão imediata. Enquanto a razão vai por um caminho mais longo, a intuição atinge diretamente o conhecimento e o conteúdo do pensamento que constitui a Lei que tudo rege. Sua ação não é mais atividade baseada nos instintos do subconsciente animal, nem as normas éticas exteriores e formais da razão. A sua disciplina é iluminada pelo conhecimento da Lei divina que alcançou por intuição, por visão imediata, por haver entendido a ordem estabelecida pela Lei. Esse biótipo vibra pela sua sensibilidade, reflete e pensa com sua mente racional, e ilumina o seu conhecimento através da intuição. É o nível superior de conhecimento, depois de ter passado pela escola primária e pelo ginásio, chegando por fim à faculdade. E assim como o aluno não fica estacionário na escola primária, o espírito vai se movendo de um nível a outro, de acordo com os esforços que faz para progredir e amadurecer, mudando com isso a sua personalidade, suas qualidades e o seu modo de agir.

            É fácil perceber que o capítulo V – Os três biótipos terrestres é praticamente uma continuidade do capítulo anterior. Com efeito, aos três modelos de personalidade humana discutidos por Ubaldi no capítulo anterior correspondem três biótipos diferentes. São apenas formas diferentes de falar sobre um mesmo conceito, sendo que no primeiro caso a personalidade humana é analisada a partir de conceitos psicanalíticos, com base nas ideias de subconsciente, consciente e superconsciente, ao passo que agora trata-se de uma definição mais no plano biológico no qual prevalece a lei do mais forte, no primeiro biótipo terrestre. No nível mais avançado há um maior grau de compreensão que convence pelo raciocínio: é o animal racional. E o biótipo ainda mais evoluído que, acima da linguagem dos sentidos e da mente, entende a linguagem da intuição. Assim temos o nível do subconsciente ou plano animal, dirigido pelos instintos, que vive apenas em função das necessidades básicas como a fome (que garante a sua sobrevivência) e o sexo (que garante a sobrevivência da espécie). O nível consciente ou do ser racional, ainda é dominado por um certo egocentrismo mas que já entende e compreende a necessidade de normas e regras para a vida em sociedade. E o nível superconsciente ou do homem espiritualizado, acima dos dois biótipos precedentes que entende e pratica a Lei de Deus. Ubaldi toma como exemplo de um biótipo excepcional a figura de Francisco de Assis:

Com os três votos básicos da sua regra, ele quis despedaçar os correspondentes instintos fundamentais do homem, a eles contrapondo como virtu­des três impulsos opostos Ao 1.º instinto, o de possuir, ele contrapôs a regra da pobreza; ao 2.º instinto, o do sexo, contrapôs a regra da castidade; ao 3.º instinto, o do egocentrismo dominador, contrapôs a regra da obediência. Assim, o indivíduo fica como aniquilado no nível do subconsciente (instintos) e do consciente (ra­zão a serviço dos instintos); o seu passado biológico é esmagado de uma vez (1988, p. 56).

            Em nosso mundo estão misturados os três biótipos terrestres e a personalidade humana pode oscilar entre cada um dos três níveis. Cada indivíduo representa uma personalidade diferente, de acordo com o nível em que se encontra, ao mesmo tempo em que em cada indivíduo estes três biótipos coexistem simultaneamente. Não são apenas tipos de personalidade diferentes (de indivíduo para indivíduo), mas também três personalidades, por assim dizer, em uma só. E o mundo está suspenso entre dois mundos:

um debaixo e um acima dele, do primeiro re­cebendo impulsos inferiores, do segundo, impulsos superiores, im­pulsos opostos em luta, que, porém, representam o trabalho criador do amadurecimento evolutivo. Assim, quando em nós surge um impulso, pela sua natureza podemos entender de que nível evolutivo ele chega. As chamadas tentações de pecado, para fazer o mal, perten­cem ao nível inferior, enquanto as boas inspirações de fazer o bem pertencem ao superior. Mas em cada um surgirão com mais poder os impulsos do seu plano biológico e estes vencerão. Assim, com a sua conduta cada um revelará a que plano pertence, quem é e qual é o seu grau de evolução. É claro que, tratando-se de indivíduos em transformação, destinados mais cedo ou mais tarde a mudar de um andar para outro, encontramos em nosso mundo impulsos e condutas de todo o gênero (1988, p. 58).

            O maior e mais penoso trabalho que deve ser realizado por cada indivíduo é subir de um nível biológico para outro, transformando a sua personalidade e afastando-se da dor e do sofrimento.

            Os temas estudados no capítulo IV e V, preparam o leitor para o capítulo VI pois, como afirma Ubaldi ainda no capítulo V, “do que somos e dos nossos impulsos é que depende o tipo de destino que a cada um dos três biótipos pertence [...] aos três tipos de homem correspondem três tipos de destino” (1988, p. 58). Sendo que o capítulo V trata de analisar o fenômeno do destino de maneira geral e no capítulo seguinte temos as linhas do destino no caso particular do indivíduo separadamente. Temos um destino biológico geral, enquanto seres da raça humana, que inclui também do ponto de vista biológico um destino clínico, em torno do qual teremos certas pré-disposições a esta ou àquela doença, determinado pela herança genética que recebemos de nossos pais; temos também um destino econômico e social, dependente da posição e do ambiente em que nascemos; e temos também um destino psicológico e espiritual, que deve deslocar-se para um plano de vida mais alto e de progresso evolutivo e que significa amadurecimento biológico. Compreender o biótipo terrestre e a correspondente personalidade humana ajudam a entender o destino de cada um e como, cada qual, deve (ou pode) agir, de acordo suas possibilidades. Além do seu plano de evolução e de sua forma mental, o indivíduo não pode conceber e nem realizar e, por isso, seu destino é limitado àquilo que ele é capaz de fazer. Em cada caso,

[...] vemos funcionar o indivíduo em três níveis diferentes. [...] Na luta pela vida, cada um resolve o problema fun­damental da sua defesa de uma maneira diferente: o 1.º biótipo ape­nas com a força bruta dos seus recursos físicos, ignaro de qualquer idéia de justiça; o 2.º conhece o que é justiça, mas a usa só para de­fender os seus interesses, em seu proveito; o 3.º biótipo não julga e se entrega completamente à única verdadeira justiça, a de Deus, usando como arma para a sua defesa somente a sua obediência a Lei (1988, p. 61).

            Pode ocorrer também que um indivíduo esteja em uma fase de transição, de um nível para outro, no qual se mesclam impulsos de níveis diferentes (instintos, inteligência, intuição). Por se tratar de um fenômeno de evolução, representa um contínuo transformismo, e é bem provável que um indivíduo oscile de um nível para o outro. É assim que nasce a luta entre o novo e o velho, a matéria e o espírito, a fera e o anjo. Pode até parecer que o mesmo indivíduo tenha duas personalidades distintas, dois eus distintos, chocando-se uma contra a outra, até uma delas vencer, mas em essência é a mesma personalidade. É a luta que, por lei de evolução, eleva o indivíduo do nível da animalidade para a espiritualidade. E assim acontece que um indivíduo não ocupe somente um nível de evolução. Há casos em que os impulsos instintivos dominam e o ser permanece no nível inferior. Mas há outros, em que a inteligência começa a predominar, ora em favor dos instintos (e o ser continua no nível inferior) ora em favor das aspirações do espírito (e o ser se eleva ao nível superior). E há ainda casos em que o espírito vence a matéria, a animalidade, e supera definitivamente os instintos inferiores.

            Assim é possível entender, no terreno da ética, alguns valores apregoados por diferentes religiões, de luta contra os instintos inferiores para superar a animalidade, ou o que na psicanálise seria chamado de sublimação. A ética precisa levar em consideração esses diferentes níveis de personalidade humana e não pode tratar da mesma maneira o involuído do evoluído. Por isso se verifica uma luta entre éticas de níveis diferentes, porque relativas ao grau de adiantamento dos indivíduos. Por isso os mais evoluídos tendem a se isolar, porque não compartilham dos valores comuns dos biótipos predecessores, que não é o seu, tornando bastante complexo o problema da ética que não pode ser resolvido isoladamente.

            Cada um tem o seu destino, cada um constrói o seu caminho: “quem é gozador, quem é avaren­to, apegado à posse dos bens materiais, quem é orgulhoso, ávido de poder e glória, quem é agressivo, guerreiro, quem segue a vereda do sacrifício e do amor” (1988, p. 66). E o capítulo VI – O Destino aprofunda essa discussão. De acordo com o nível evolutivo no qual cada um se encontra, muda a responsabilidade (e a ética a ela correlativa), muda o caminho a percorrer, muda o trabalho construtor a realizar. “É ló­gico que o caminho que terá de percorrer um tipo inferior não po­derá ser igual àquele de um tipo médio, ou de um superior porque os impulsos que os movimentam, as reações ao ambiente, as suas exigências evolutivas são de tipo diferente” (1988, p. 68).

           No início de cada existência, cada indivíduo traz consigo o seu passado (de vidas pretéritas) gravado no subsconsciente e esta base representa um aspecto significativo de sua personalidade e determinante de sua existência. Cada um traz em si na forma instintiva o conhecimento adquirido. Nasce assim o poeta, o artista, o filósofo, o homem de ciência. E seu destino é determinado de acordo com o aprendizado adquirido e o aprendizado que deve realizar. Mas sempre em função de sua personalidade. Na sua viagem pela jornada da vida, o indivíduo traz o fruto de sua experiência passada, mas que não permanece estática, e que vai acumulando novos conhecimentos, nova sabedoria, que no futuro farão parte do seu subconsciente, cristalizando-se tanto mais quanto mais forte for o aprendizado. Cada vida é uma continuação, visando a evolução do espírito, e não pode ser vivida senão em cima do que foi construído no passado e existe como potencialidade para viver no futuro. Esse algo construído representa a parte determinística do destino e estabelece o ponto de partida, o desenvolvimento. Mas, como dissemos, não é um determinismo estático. O livro da vida continua a ser escrito, agora com novos caracteres a partir de novas experiências e ao velho conteúdo do subconsciente, vamos juntando outro novo para construir o futuro. O destino então é concebido como um fenômeno em que passado, presente e futuro estão ligados pela Lei (determinismo), pela livre escolha e pela lógica do amadurecimento espiritual.

Com a sua livre escolha, o ser se lança no caminho da vida numa direção ou outra, da qual ele depois não poderá sair senão por meio de impulsos seus, diferentes, lança­dos em diferente direção. Mas até que ele realize com o seu esforço esta mudança, tudo continuará avançando na direção precedente. E mudar não é fácil. Não é fácil modificar os instintos. Eles represen­tam u'a massa lançada, uma velocidade adquirida, e por inércia uma autônoma vontade de continuar, que não é fácil corrigir (1988, p. 72).

            O futuro está relativamente determinado não por causa de um impulso arbitrário de uma Lei superior, mas porque, tal como um projétil lançado no espaço, o efeito de nossas ações podem ser calculados segundo suas características. Cabe a cada um de nós reverter a polaridade de tais impulsos, se forem negativos, ou continuar na senda do bem, se forem positivos.

            Uma imagem que consta na obra Ascese Mística (UBALDI, p. 26) nos ajuda a resumir boa parte do que temos exposto até aqui. Representando ciclos sucessivos de consciência em processo de expansão, desde os primórdios da evolução, até os altos planos divinos.

 

 

 

 

            Uma imagem mais detalhada foi elaborada por Gilson Freire em uma palestra intitulada “Rumo a superconsciência”.

          A figura “planos evolutivos da consciência” é explicada da seguinte forma por Gilson Freire: no nível mais baixo temos a inconsciência (insensibilidade e determinismo; matéria), surge posteriormente a consciência sensória (sensibilidade e instinto; vida), depois a consciência racional-analítica (despertar da razão e da inteligência) que se expande cada vez mais até a consciência intuitivo-sintética (síntese e verdade) e por fim a consciência místico-unitária e crístico-unitária: amor e percepção do pensamento divino; amor e perfeita união com Deus.

 

Disponível em: Youtube, palestra

 

 

            É fácil perceber através da segunda imagem que a evolução tem como base uma ética que segue em direção ao altruísmo e se distancia cada vez mais das formas egocêntricas de existência. Essa evolução está ligada aos aspectos da personalidade humana e do biótipo terrestre tal como analisado por Ubaldi em Princípios de uma nova ética. E o destino humano está ligado não apenas ao passado como efeito de nossas ações pretéritas, mas si liga umbilicalmente ao futuro, o futuro da evolução do espírito que impulsiona para o alto, em direção a Deus.

            De posse de tais conhecimentos, o homem pode moldar o seu destino, evitando os choques com a Lei e o correlativo sofrimento e subindo para níveis cada vez mais adiantados. Estão determinados o ponto de partida e o ponto de chegada, mas o caminho que cada um vai percorrer de um ponto a outro, é determinado por suas livres escolhas.

O destino se poderia definir: o caminho que o indivíduo per­corre na construção da sua personalidade. Os resultados dependem da escolha que ele faz deste caminho, conforme ou contra a Lei, aproximando-se ou se afastando dela. Agora sabemos que no desti­no há uma parte determinística representada pelo retorno e conti­nuação do passado, a qual temos de aceitar à força; mas que há também uma parte livre, na qual podemos tomar novas iniciativas. Então, se o passado foi errado e hoje nos esmaga, é possível liber­tar-nos dele, neutralizando-o, seja deixando que ele esgote o seu mau impulso e suportando com paciência os sofrimentos decorrentes, seja substituindo aos velhos hábitos contra a Lei por outros novos, de acordo com ela. Eis o que fazem os inteligentes, os sá­bios (1988, p. 73).

 

 

Pietro Ubaldi → Princípios de uma nova ética (resenha) → Capítulos III a VI