Preservação textual e mudança diacrônica da língua

03/02/2021 19:58

            Começo esta crônica repetindo as palavras de Francisco Cândido Xavier, orientado por seu guia espiritual, Emmanuel, a Wantuil de Freitas, e reproduzidas por Suely Caldas Schubert no seu livro: Testemunhos de Chico Xavier, publicado pela FEB. O longo título do capítulo começa por: Cuidado com o livro mediúnico...

A forma de apresentação do trabalho espiritual no mundo receberá, assim, obrigatoriamente, o concurso dos companheiros de boa vontade, porque a entidade comunicante não poderá, pela diferença de plano, acompanhar o esforço dos filólogos e dos tipógrafos. Não pode haver uma edição sem aprimoramento e sem corrigenda, porque existirá sempre uma falha, na forma, aqui e ali, exigindo retificação. [...] Naturalmente, devemos exercer a nossa faculdade de colaborar, sem abuso, mas cientes de que é um dever zelar pela melhor apresentação dos frutos espirituais (SCHUBERT, 2010, op. cit., p. 150).

            Há algum tempo, ouvi de um irmão espírita sua opinião de que o que importa, nas mensagens espíritas, é o conteúdo, não a forma. Será? Não há dúvida de que o conteúdo é de fundamental importância em qualquer obra, mas, mal comparando, imaginemos uma pedra preciosa riscada e coberta de lama malcheirosa. Teríamos coragem de ostentá-la em público? Quem a visse toda alterada e sem brilho a reconheceria? E se não disséssemos que por trás da sujeira e maus tratos havia uma joia preciosa, quem a olhasse assim não poderia julgar que era falsa?

            Um dos grandes problemas do texto mal-escrito é a ambiguidade. Cito o exemplo da frase, cujo autor ignoro, com mudança completa de sentido ocasionada pela posição da vírgula em duas versões: 1.ª) "Se o homem soubesse o valor que tem a mulher, viveria a seus pés". Com a vírgula após a palavra mulher, esta é valorizada, e o homem é-lhe submisso; 2.ª) "Se o homem soubesse o valor que tem, a mulher viveria a seus pés". Mudada a posição da vírgula, o homem é valorizado, e a mulher é menosprezada. Então, não podemos desconsiderar a importância da revisão atenta às normas gramaticais.

            Outro grande óbice está na revisão do texto com base em corretor automático que substitui vocábulos por outros aparentemente sinônimos, mas que podem alterar o sentido da frase original. Daí surgir a necessidade de cuidados redobrados dos revisores espíritas, ainda que considerem a palavra substituta, mas de sentido semelhante, melhor. Não lhes cabe fazer tais apreciações subjetivas de algo que não é de sua autoria, salvo com respaldo do médium encarnado e do Espírito comunicante. A mesma situação se aplica a obras de autores encarnados. Alterada a forma dum termo, subjetivamente, seu significado pode também mudar.

            Em poesia, então, seja ela em prosa ou em versos, isso é ainda mais grave, pois o significante (a palavra) pode ter vários significados, que dependem do contexto em que estão inseridos. E a poesia atua com várias possibilidades de interpretação do significante.

            Vejamos os significados possíveis de frase poética citada em verso de Fernando Pessoa repetido pela senadora Simone Tebet em seu discurso de candidatura à presidência do Senado: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Em dado momento, a candidata diz que "viver apenas não é suficiente". Entretanto, seria isso o que o poeta quis dizer? Se analisarmos a palavra "preciso" não no sentido de necessário, mas no sentido de exatidão, certeza, precisão seu sentido não muda completamente? Como diz um ditado popular: "a vida dá voltas", portanto, está sempre mudando o rumo. Principalmente na política...

            Daí o cuidado que devemos ter com as palavras, principalmente quando são pronunciadas ou recebidas mediunicamente por outrem. Atualizar ortograficamente, sim. Corrigir o que indubitavelmente está equivocado é dever de todo bom revisor. Alterar palavras e frases de acordo com nosso gosto pessoal, jamais.

            No caso de citação, se algo nos parecer equivocado, devemos acrescentar ao lado da palavra ou frase do autor, esteja este encarnado ou não, a palavra latina, entre parênteses, (sic), que significa "assim", ou seja, "é bem assim, por errado ou estranho que pareça", de acordo com o Dicionário Aurélio...  Em face do exposto, entendo que, se são válidas as alterações permitidas pelo autor encarnado, o mesmo não se aplica às suas obras, sejam mediúnicas ou não, após sua desencarnação, salvo atualizações legais.

            Daí a razão pela qual, se é imprescindível atualizar diacronicamente, ou seja, em sua modificação temporal, a ortografia de uma obra mediúnica, o mesmo não nos é lícito fazer em relação ao vocabulário e estrutura da obra, haja vista que forma e conteúdo são aspectos fundamentais na preservação das ideias de um autor. Conscientizemo-nos, pois, de que nós passamos, mas a obra, mediúnica ou não, de autor desencarnado, salvo deslizes gramaticais e atualizações ortográficas inquestionáveis, deve ficar inalterada na forma e no conteúdo já por ele aprovados.

 

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