Revisor não é coautor

27/01/2021 14:36

        Encontrei-me, noite passada, com o Bruxo do Cosme Velho, que, na juventude, exerceu o ofício de revisor. Ele saiu duma nave fluídica, que atravessou a dimensão espacial e se materializou em meu escritório. Feliz por revê-lo, saudei-o amigavelmente. Machado retribuiu meu cumprimento e perguntou-me sobre o que tanto me inquieta ultimamente.

        Ocupado com trabalhos revisionais, perguntei-lhe se ele, que na juventude trabalhara como revisor de textos dos periódicos Marmota Fluminense e Correio Mercantil, tinha algumas dicas aos revisores de obras espíritas. Ele, então, propôs-me dez mandamentos:

I - Respeitarás o autor do texto sobre todas as tuas ciências, com todo o teu entendimento e de todo o teu coração;

II – Não substituirás termos doutrem, inda que sejam sinônimos, pelos do teu agrado, principalmente, se o escritor já estiver no Além;

III - Não corrigirás destaques, palavras repetidas, em versos e, muito menos, juntarás estrofes de poemas alheios;

IV – Uma cousa é uma coisa; outra coisa é uma cousa; se optei por cousa, não te cabe trocar por coisa; além disso, a obra que revisas pode ir além-mar, após o acordo ortográfico entre países lusófonos, onde cousa é a mesma coisa;

V – Não mudarás o sentido direto pelo indireto, e vice-versa, da frase que não é tua, ou seja, da frase que não é tua, não mudarás o sentido direto pelo indireto;

VI – Lembra-te de que adjuntos adverbiais dispensam vírgula no fim da frase;

VII – Honra o teu editor e a autoria do texto, mas, se discordares dalgo grave que ambos exigem manter no trabalho sob tua revisão, pede-lhes para excluir teu nome da citação dos créditos na obra;

VIII – Não faças qualquer alteração de frases obscuras à revelia do autor;

IX - Não atualizes nem mudes referências citadas pelo autor, salvo se tiveres certeza de que estão erradas;

X – Não ambiciones ser coautor da obra, inda que contribuas, com a anuência do autor, na correção de datas, concordância, regência, ortografia, coerência, vírgulas, acréscimos autorizados por ele, ponto final.

        Dito isso, Machado de Assis deu-me um abraço, desejou-me saúde, neste mundo em transição, retornou à nave e acenou-me adeus.

        Disse-lhe muito obrigado e passei a refletir...

 

Espiritualidade e PolíticaEspiritualidade → Crônicas Espíritas Revisor não é coautor