Semeadura e colheita

23/04/2019 21:58

            Vigiemos e oremos, pois somos vigiados por uma multidão de espíritos.[1]

            O Espírito Manoel Philomeno de Miranda, que ditou ao médium e tribuno espírita Divaldo Pereira Franco dezessete obras, explica-nos que faz parte de uma equipe socorrista, no plano espiritual, em geral, dirigida pelo grande apóstolo do Espiritismo, Bezerra de Menezes. Nessas obras, Philomeno de Miranda aborda a influência nefasta dos inimigos desencarnados sobre nossas mentes. Essa interferência ocorre quando, misturando seus pensamentos com os nossos, esses Espíritos, denominados obsessores, provocam uma espécie de curto-circuito cerebral em suas vítimas que, muitas vezes, sem se darem conta, são levadas a atitudes anormais.

            O desequilíbrio pode ser desencadeado por algum ato grave que tenhamos cometido, em prejuízo de alguém e de nós mesmos, que altera nosso estado de consciência. Como nem sempre somos capazes de diferençar os próprios pensamentos dos de nossos inimigos desencarnados, interferidos nos nossos, se não nos defendermos com “vigilância e oração” recomendadas pelo Cristo, o processo, inicialmente sutil, agrava-se com o tempo e pode mesmo causar-nos distúrbios mentais graves.

            Adilton Pugliese, organizador, ampliou seus estudos de todas as obras de Philomeno de Miranda e republicou, com a aprovação de Divaldo Franco, o livro intitulado Obsessão: instalação e cura. Neste, encontramos roteiro muito útil para o estudo dessa nefasta influência na vida de grande número de pessoas em todos os tempos. Seu conteúdo é baseado em narrações de fatos reais, que desenvolvem o contido no pentateuco kardequiano sobre os diversos tipos de obsessão e o que fazer para sua profilaxia e tratamento.

            Em todas as obras de Allan Kardec e na sua Revista Espírita, existe rico material sobre o assunto, agora desenvolvido com exemplos vivos desse que é considerado um verdadeiro “flagício social” por Miranda e, antes, pelo próprio Codificador do Espiritismo.

            Na obra organizada por Adilton, lemos relatos dos casos que, se não identificados em tempo hábil, levam as pessoas obsidiadas à verdadeira loucura. Os obsessores usam técnicas refinadas, baseadas na identificação das falhas da personalidade comprometida em sua individualidade espiritual, e atuam implacavelmente sobre suas consciências, não lhes dando tréguas. Daí ser necessário que nos conheçamos bem, a fim de não cairmos nessas armadilhas.

            Não nos esqueçamos de que, na Terra, o único ser humano plenamente identificado com Deus foi Jesus. E não alimentemos pensamentos deprimentes pelas faltas cometidas. Antes, aprendamos com elas a não mais errar.

            Todos nós erramos e ainda vamos cometer muitos erros. Lembremo-nos, entretanto, desta frase do apóstolo Pedro: “O amor cobre a multidão de pecados” (I Pedro, 4:8). Principalmente quando jovens (e agora a juventude alcança a casa quarentenária), cometemos algumas falhas de observação, erros de avaliação e injustiças com as pessoas. Não podemos, porém, sentar em cima da falta e dali não mais sair. O modo de reparar um mal é substituí-lo por boas ações, pelo pedido sincero de perdão e pelo propósito de não mais incidirmos no erro.

            Uma das formas de observarmos as tristes consequências de pessoas que não se perdoaram é a visita a esses tristes lares em que não só o faltoso como sua própria família expiam suas faltas passadas, não corrigidas a tempo. Então, ao reencarnarem, plasmam corpos deformados. Em Santo Antônio do Descoberto, visitamos algumas famílias que nos demonstram quanto temos a agradecer a Deus por termos um corpo perfeito e a oportunidade de reparar em tempo alguns erros da mocidade e mesmo da idade madura. Pois, como dizia o apóstolo Paulo, somos ainda mais propensos ao mal do que ao bem, mesmo já sendo adeptos deste.

            Um jovem, atualmente internado com infecção generalizada, há cerca de vinte anos, foi acometido de paralisia física e cerebral, e vegeta em cima de modesta cama. Até os dezessete anos de idade era um rapaz saudável. Na última semana, soubemos que seu pai também foi internado. Este, além de sofrer do mal de lázaro, também contraiu câncer prostático.

            Outro jovem, muito forte da cintura para cima, tem as pernas atrofiadas e o cérebro lesado, sendo encontrado sempre sentado sobre modesto sofá do lar de sua resignada e forte mãe, ironicamente, conhecida como dona Chagas. Esse jovem é quase cego e não fala. No mesmo lar, outro rapaz, aparentemente saudável, está quase cego. Também visitamos a casa duma jovem que sofre de paralisia cerebral congênita. Com o corpo magro e retorcido, está sempre estirada em sua cama. Em geral, profundamente adormecida.

            Precisamos aproveitar a oportunidade que Deus nos deu e trabalhar em nós o sentimento de piedade para com nós mesmos e para com todos aqueles nossos irmãos, do presente e do passado, aos quais, independentemente do que eles sintam por nós, precisamos amar e servir com todas as forças de nossa alma.

            A começar dos que o Senhor colocou em nossa casa. Daí a necessidade de um tratamento espiritual, quando o assédio dos obsessores se torna implacável e nefasto ao nosso equilíbrio mental. O que não dispensa a orientação e medicação do psiquiatra.

            E, agindo de acordo com a recomendação paulina, certamente estaremos livres de maiores complicações, quando optarmos pelo amor incondicional: “Não desanimemos na prática do bem, pois, se não desfalecermos, a seu tempo colheremos” (Gálatas, 6:9).



[1] PAULO. Bíblia de Jerusalém (Hebreus, 12:1, 2). “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é o iniciador e consumador da fé, Jesus [...]”.

 

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