Ser e não Parecer

15/01/2020 19:18

            “To be or not to be” é a famosa frase de Hamlet, personagem do imortal dramaturgo inglês Shakespeare, do século XVII. E é com ela que inicio esta crônica, propondo-lhe nova versão: em vez de “ser ou não ser”, ser e não parecer.

         Aliás, esse é o título de um dos excelentes temas da obra de Vinícius, pseudônimo do escritor espírita Pedro de Camargo, que nasceu em Piracicaba, São Paulo, no dia 7 de maio de 1878, e desencarnou na capital paulista, em 11 de outubro de 1966, ou seja, aos 88 anos de idade. Parece que Deus prioriza longa vida às pessoas boas, que semeiam e, sobretudo, praticam o bem enquanto prisioneiras da carne.

         Às más também... mas ao passo que estas se remoem no remorso, enquanto não vem o arrependimento de suas ações nefastas; aquelas estão sempre em paz com Deus, que mora em nossas consciências, além de desfrutarem da felicidade dos justos...

         Não é nosso objetivo escrever sobre a longa trajetória de vida cristã de Pedro de Camargo, que fundou centro espírita, presidiu a Sociedade de Cultura Artística e divulgou pelo rádio, desde 1949, um programa evangélico-espírita. Também não vamos nos deter demasiado sobre sua condição de orador espírita altamente apreciado e de escritor de diversas outras obras e artigos espíritas publicados em Reformador, periódico mensal da Federação Espírita Brasileira.

        O que nos motiva a redigir este texto são as frases que lemos, hoje, e nos fizeram refletir, mais uma vez, na importância de nosso esforço cotidiano em ser, e não em parecer, cada vez melhor.

         Uns versos de Carlos Drummond de Andrade que nunca nos esqueceram são estes: “Lutar com as palavras é a luta mais vã; entanto lutamos, mal rompe a manhã”. Também poderíamos parodiar o poeta que se intitulava gauche, por recomendação de “um anjo torto” nestas suas palavras: “Quando nasci, um anjo torto me disse: - Vai, Carlos, ser gauche na vida”. A paráfrase não é desta frase, e sim dos versos drummondianos supracitados:

 

Lutar contra o mal

Das mentes malvadas

São lutas mui duras;

 

Entanto, lutemos,

Rompendo alvoradas

E noites escuras.

 

         Agora as três frases de Vinícius:

 

Se observarmos atentamente o que se passa na sociedade, verificaremos que tudo se faz, não no sentido de ser, mas no de parecer. 

Realmente, quando se trata de qualidades e virtudes, é muito mais fácil simulá-las que as adquirir. O resultado, porém, é que não é o mesmo.

Daí o transformarem a religião em acervos de dogmas abstrusos e numa série de determinadas cerimônias que se executam maquinalmente; a eugenia, em arte dos arrebiques; o civismo, em toques de caixa e de cornetas, executados por indivíduos trajando uniformes; o patriotismo, em discursos ocos e plataformas pejadas de falazes promessas, formuladas já com o propósito de não se cumprirem; a política, finalmente, em processo de explorar o povo.[1]

 

         Sábias palavras para todos nós. Infelizmente, algumas pessoas farão delas um chicote para açoitar o que consideram imperfeições alheias, sem, entretanto, se corrigirem de suas próprias fraquezas. Outras, sedentas de poder, mas hipócritas, pregarão ao próximo essas e outras frases, ansiosas para que creiam em sua fala; entretanto, para elas mesmas, as advertências soarão como o bronze que soa, ou como o vento que sopra...

         Aos que nos esforçamos em seguir, como Pedro de Camargo, “Nas pegadas do Mestre”, sua constatação é mais um incentivo para que continuemos nos esforçando em ser  fiéis discípulos de Jesus até o fim, sem outro propósito, a não ser o de sermos coerentes com o que pensamos, falamos e fazemos de bom, verdadeiro e útil.



[1] VINÍCIUS. Nas Pegadas do Mestre. 12. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2009, p. 71.

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