Subconsciente

22/10/2020 10:58

            O subconsciente representa a zona da animalidade, a zona dos instintos, das ideias inatas, onde temos “a sólida, estável, mas primitiva e ele­mentar experiência do passado, firmada como patrimônio aquisitivo representando um material de uso continuamen­te aprovado pelas condições ambientes” (UBALDI, ANCTM, p. 376). No subconsciente estão: o patrimônio e as qualidades adquiridas, as reservas da raça, as experiências da vida animal.

            O subconsciente não emerge à lua da consciência por isso, pode parecer invisível e, no entanto,

contém as bases do edifício e representa os fundamentos que o sustentam. Embora não apareça no pormenor, ele sobrevive ainda assim completamente como síntese e como tal é suscetível de ser investigado. Se o sub­consciente é superado e esquecido, como labor cons­trutivo consciente, todavia nós o possuímos íntegro como resultado: é aquele instinto tão rico de misteriosa sabedoria, que rege tantas ações nossas e é tan­to mais sólido quanto mais profundamente radicado nos estratos da evolução biológica (UBALDI, AM, p. 98).

            O funcionamento orgânico também ocorre fora da consciência, em zonas de consciências inferiores (subconsciente): tudo o que é vivido é assimilado e abandonado nesta zona. “Por isso, o processo de assimilação, base do desenvolvimento da consciência, realiza-se justamente por transmissão ao subconsciente, em que tudo fica, mesmo se esquecido, pronto para ressurgir se um impulso a excita, ou um fato o exija” (UBALDI, AGS, p. 307 – grifo do autor). Tal como nas estratificações geológicas encontramos os vestígios da vida vivida no planeta, no subconsciente “depositam-se todos os produtos substanciais da vida; nessa zona encontrais o que fosteis e o que fizesteis; reencontrais o caminho seguido na construção de vós mesmos” (UBALDI, AGS, p. 307). Nada do que é vivido se perde e permanece presente e ativo ainda que não o seja na zona consciente. “Somente é eliminado da zona da consciência, porque agora já pode funcionar sozinho, deixando o Eu em repouso. A qualidade assimilada e transmitida ao subconsciente cessa de ser fadiga e se torna necessidade, instinto” (UBALDI, AGS, p. 308).

            Todo o material vivido está registrado no subconsciente que, por isso, se recorda de tudo e “está sempre por detrás de nós para guiar-nos, executa, por nós, automaticamente, inúmeras atividades e resolve, em nosso lugar, grande quan­tidade de problemas, sem perturbar nem agravar o consci­ente. Simples divisão de trabalho” (UBALDI, ANCTM, p. 384).

            O que é assimilado pelo subconsciente ou, em outras palavras, aquilo que é transmitido ao subconsciente, se dá por meio da repetição constante. Por isso se pode dizer que o hábito transforma um ato consciente em um ato inconsciente. Cada impulso fica impresso na matéria e pronto para reaparecer, exprimindo-se como vontade autônoma: “como criatura psíquica independente, criada por obra vossa; mas, agora, quer viver sua vida” (UBALDI, AGS, p. 308).

Agora, podeis compreender algumas características inexplicáveis do instinto, assim como sua maravilhosa perfeição. No instinto, a assimilação está terminada. Então o fenômeno não está em formação, mas já atingiu sua última fase de perfeição. Por isso, o instinto é tenaz e sábio: existe por hereditariedade e sem aprendizado, justamente porque esse já ocorreu; age sem reflexão (tanto no animal, como no homem), exatamente porque já refletiu bastante. Foi superada a fase de formação, o ato reflexivo é inútil e é eliminado; a repetição constante cristalizou o automatismo numa forma que corresponde perfeitamente às forças ambientais; estas agiram de maneira constante (UBALDI, AGS, p. 308 – grifo do autor).

            O instinto atingiu um grau de amadurecimento não alcançado pela razão humana e, por isso, em seu campo se expressa pela segurança dos atos. A razão, por suas tentativas, “revela as características evidentes da fase de formação” (UBALDI, AGS, p. 309).

Compreendeis, agora, a estupenda presciência do instinto e da infinita série de experiências, incertezas e tentativas, de que ela resulta. O indivíduo deve ter aprendido alguma vez essa ciência, porque do nada, nada nasce; deve ter experimentado a constância das leis ambientais pressupostas, a que correspondem seus órgãos, para as quais ele é feito e proporcionado. Sem uma série infinita de contatos, de experiências e adaptações no período de formações, não se explica uma tão perfeita correspondência de órgãos e instintos, antecipados à ação, dentro de uma natureza que avança por tentativas, e nem se explica sua hereditariedade. No instinto, a sabedoria já está conquistada; foi superada a fase de tentativas e a necessidade de submeter-se a uma linha lógica que, oferecendo várias soluções, demonstra a fase insegura e incerta dos atos raciocinados, onde o instinto conhece um só caminho, o melhor (UBALDI, AGS, p. 309).

            As experiências vividas que se depositam no subconsciente ficam gravadas nas células, e se transmitem pela hereditariedade fisiológica, através de uma repetição milenar constituindo, assim, o alicerce do edifício biológico. “A célula constitui-lhe, de fato, a sede e o canal de transmissão [...] É riqueza que recebemos ao nascer, como bagagem necessária para percorrermos o pedaço de caminho representado por uma existência” (UBALDI, ANCTM, p. 385).

 

Pietro Ubaldi  A psicanálise evolucionista e espiritualista de Pietro Ubaldi → Subconsciente