Tentativa frustrada de alfabetizar Vitalina e sua predição

22/07/2020 20:34

            Aos vinte anos, precisei trancar a matrícula quando cursava o segundo ano de técnico de contabilidade no Colégio Nossa Senhora do Brasil, na Penha, RJ, com bolsas de estudos sempre fornecidas pelo diretor do colégio, Sr. Rossini Lopes da Fonte.  Eu me incorporara ao Exército, onde, três anos depois, concluí o curso de formação de sargentos. Fui então transferido para o 19º Batalhão de Caçadores, em Salvador, BA.

            Após ano e meio lá, transferiram-me para o 4º Batalhão de Engenharia de Construção, situado em Barreiras, BA, que, na época, estava construindo a estrada Barreiras, BA-Brasília, DF. Foi ali, em Barreiras, que cheguei a ser convidado por um colega de farda a dar aula de português em cursinho que ele dirigia na cidade. Como eu só cursara até o segundo ano incompleto do atual ensino médio, recusei o convite.

            Algum tempo depois, conheci Vitalina, já idosa, que esteve na inauguração do centro espírita que eu frequentava. Ela tinha o dom da vidência e sempre me convidava a participar sem cobrar, a ninguém, um centavo sequer, como pagamento de suas sessões mediúnicas. Colocava um pouco d’água num copo, concentrava-se nele e passava a revelar-me o que os Espíritos lhe permitiam ver. Uma dessas revelações, confirmada, anos após, foi a de que eu escreveria diversas obras futuramente. Isso foi-me dito quando eu jamais imaginara ser escritor...

            Vitalina, essa alma simples e boa, era analfabeta. Então, tive a ideia de tentar alfabetizá-la, mesmo sem eu possuir conhecimento didático para isso. Consegui um livro com o abecedário, comprei algum material escolar e passei a tentar ensiná-la a ler. E ela, com toda a boa vontade, mas com alguma dificuldade, lia e ria encantada:

            — Bê a... bá; bê é... bé...

            Não demorou muito tempo, porém, conheci Lourdes, com quem me casei. E Vitalina conheceu o senhor Antônio, com o qual passou a viver. Um dia, já transferidos para Brasília, fomos a Barreiras nas férias e, em visita ao casal, perguntei-lhe:

            — E as aulas de alfabetização, Vitalina, têm continuado com o Sr. Antônio? — Ao que ela respondeu, com tristeza nos olhos e ante o sorriso dele:

            — Antônio não tem paciência em me ensinar a ler, mas também minha cabeça, nessa idade, já não ajuda...

            Nunca mais os vimos. Anos depois, Vitalina desencarnou.

            Tudo o que a baiana Vitalina me disse concretizou-se em Brasília, onde residimos desde 1980. O mais interessante é que os baianos parecem ser os que mais adotam, nas escolas, nosso livro didático: Texto Acadêmico: técnicas de redação e de pesquisa científica, cuja décima edição a Editora Vozes, de Petrópolis, RJ, reimprimiu em 2019. Tanto é assim que, anos atrás, fui convidado a proferir palestra num seminário sobre técnicas de pesquisa, com base nessa obra, na faculdade situada em Paripiranga, cidade do interior baiano.

            “— Os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos?” — pergunta Allan Kardec na questão 459 d’O Livro dos Espíritos.

            “— Muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que vos dirigem”. — É o que lhe foi respondido. E temos constatado, ano após ano, a verdade desta resposta. Sim, os Espíritos guiam-nos. Mas há anjos encarnados que os auxiliam e nos deixam marcas indeléveis, ainda que façamos tão pouco por estes... 

 

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