Uma criatura

23/07/2019 21:54

            Quer conhecer alguém? Dê-lhe o poder...

            Como disse, em minha última crônica, antes de falarmos algo, devemos sopesar se o que será dito passa pelos três crivos socráticos: verdade, utilidade e bondade. Entretanto, expliquei também que, segundo Aristóteles, “o homem é um animal político”. Como cidadãos, em especial, os formadores de opinião, não podemos calar-nos ante algo de que discordamos, ainda que estejamos equivocados, quando então devemos ter a humildade de admiti-lo.

            Não conhecia uma pessoa, estigmatizada no meio político pelo seu suposto destempero verbal. Após assistir a algumas de suas falas ao vivo, simpatizei com ela. Percebi que é uma pessoa bem-intencionada. Alguém atentou contra sua vida, mas, obstinada e contra todas as previsões, essa criatura alcançou seu objetivo.

            Isso me lembra poema do meu amigo Machado de Assis:

 

Uma criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

 

         Nosso país passa por uma fase de transição. Isso ninguém contesta, ainda que muitos considerem ser este um período de retrocesso. Os que, como nós, votaram para mudar o que estava havendo na política, costumes e economia, como o próprio mandatário da nação admite, fazem parte de uma população conservadora.

         Mas conservadora de quê? Das bases morais da Boa-Nova de Jesus, principalmente, que estão analisadas de modo extraordinário no livro editado por Allan Kardec: O Evangelho Segundo o Espiritismo. No capítulo VI dessa obra, constam quatro profundas mensagens de Jesus, retransmitidas a nós pelo Espírito da Verdade[1]. Na última delas, lemos duas palavrinhas que resumem todo o sentimento de caridade e amor ao próximo, que nos devemos esforçar para pôr em prática, diariamente. Se o conseguirmos, teremos o Céu onde estivermos, pois resumem toda a doutrina e atos do Cristo: devotamento e abnegação.

         Segundo o Espírito da Verdade, essas palavras “resumem todos os deveres que a caridade e a humildade nos impõem”. Pelo devotamento, estamos sempre prontos a trabalhar e servir em benefício alheio. Consequentemente, sentimos o prazer de uma consciência tranquila, coerente entre o que falamos e o que fazemos. Esse é o amor real, sentimento sublime e divino, que não se confunde com a paixão humana. Pela abnegação, renunciamos a todas as vantagens que a vaidade nos proporciona entre os humanos, mas atraímos para nós a companhia dos bons, seja no plano físico, seja no espiritual.

         Em sua sabedoria, enquanto esteve entre nós, Jesus Cristo recomendou-nos olhar, vigiar e orar (Marcos, 13: 33). Sábio é quem segue sua recomendação.

         Há milênios, os grandes imperadores, reis, rainhas são objeto de inveja e perseguição. Diversos deles tiveram morte cruel por parte de seus inimigos. O objetivo sempre foi o de conquistar o poder a qualquer custo. Veja o caso de Caio Júlio César, que, antes de morrer apunhalado pelo próprio filho, expressou-lhe seu espanto com estas palavras: “— Até tu, Brutus?”

         Como faço parte da maioria da população que votou, sobretudo, pela mudança de um governo que, no conceito de várias pessoas, elevou à quinta potência os abusos da corrupção em nosso país, aqui deixo meu humilde recado ao nosso mandatário-mor: — Fale pouco, trabalhe mais. Sobretudo, cuidado com quem o bajula e diz ser seu amigo. E... não se esqueça de Júlio César...



[1] Optei por Espírito da Verdade, como está nas bíblias de Jerusalém e de João Ferreira de Almeida, além de Obras Póstumas, de Allan Kardec, seg. parte, Meu guia espiritual, p. 245- 246, da 2. ed. FEB, de 2016, traduzida por Evandro Noleto Bezerra. Entretanto, nas edições francesas d’O Livro dos Espíritos, Prolegômenos, e d’O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 6, Intruções dos Espíritos, consta Espírito de Verdade.

 

 

 

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