Autodescobrimento – uma busca interior

Autodescobrimento – uma busca interior

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em out. 2018

            O texto Autodescobrimento, uma busca interior, é baseado no livro de mesmo título, da autora espiritual Joanna de Ângelis, que psicografou a obra em análise a partir da mediunidade de Divaldo Pereira Franco. Por ser uma obra espírita, o texto aborda a questão sob a perspectiva da Psicologia Espírita, que entende a personalidade humana a partir da sua dimensão espiritual, com base na ideia de que o ser espiritual evolui ao longo de vidas sucessivas. Autodescobrir-se significa, de alguma forma, buscar esse eu interior, essa personalidade espiritual que existe em todos nós que deve progredir incessantemente até encontrar a sua plenitude. Existe uma força Interior que arrasta o Ser para a Plenitude. “A força do progresso é lei da Vida” (FRANCO, 2000, p. 19) e o ser é atraído pelo Espírito Supremo. “A fatalidade da Lei Divina é a perfeição do Espírito. Alcançá-la é a proposta da vida. Como conseguir, é a opção de cada qual” (FRANCO, 2000, p. 52).

            O espírito evolui: “Da insensibilidade inicial à percepção primária, dessa à sensibilidade, ao instinto, à razão, em escala ascendente, o psiquismo evolve, passando à intuição, e atingindo níveis elevados de interação com a Mente Cósmica” (FRANCO, 2000, p. 25 e 26).

A criatura humana, de alguma forma fadada à perpetuação da espécie e à sua plenificação, encarna-se, reencarna-se, repetindo as façanhas existenciais até atingir o clímax que a aguarda. Em cada etapa nova remanescem as ocorrências da anterior, em uma cadeia sucessória natural. E através desse mecanismo os êxitos abrem espaços as conquistas mais amplas e complexas, assim como o fracasso, em algum comportamento estabelece processos que impõem problemas no desenvolvimento dos cursos que prosseguem adormecidos (FRANCO, 2000, p. 24 e 25).

            É a partir desta perspectiva que iremos abordar a questão do autodescobrimento, da influência dos pensamentos, emoções e sentimentos sobre o ser espiritual e como estes podem ser causas de sofrimento e, ao mesmo tempo, de equilíbrio e saúde que conduzem o ser a sua plenitude.

 

Autodescobrimento

            O autodescobrimento é um aspecto fundamental para se conquistar patamares evolutivos mais adiantados.

Aquele que se conhece, sabe de quais recursos se pode utilizar para o desempenho das tarefas e funções que lhe cumpre executar, aceitando-as como parte do processo existencial, no qual está inserido. Essa compreensão dá-lhe dignidade, enriquecendo-o de entusiasmo a cada conquista, como perspectiva da próxima vitória (FRANCO, 2000, p. 109).

            Se o autoconhecimento é necessário à busca pela felicidade, o desconhecimento de si mesmo, a ignorância de sua realidade profunda, do Eu Superior, é causa de sofrimento. Sem esse conhecimento torna-se difícil identificar nossas fragilidades e direcionar nossas resistências morais, fortalecendo-as. Sem uma compreensão dos objetivos a que deve perseguir, o ser segue na vida longe dos recursos que deve encontrar para atingir sua meta. “Cada ser humano é uma incógnita a ser equacionada por ele próprio” (FRANCO, 2000, p. 42).

            Esse processo corresponde ao que podemos chamar de desabrochar da consciência. “O desabrochar da consciência é um trabalho lento e contínuo, que constitui o desafio do processo da evolução... desenvolve-se de dentro para fora a esforço da vontade concentrada, como meta essencial da vida” (FRANCO, 2000, p. 51). As várias etapas do desabrochar da consciência, centelha Divina, “aglutinando molécula e estabelecendo a ordem que se consubstanciou na realidade do ser pensante” (FRANCO, 2000, p. 45). Através de vários reinos, a consciência desdobra-se até alcançar a idade da razão. “Quanto mais a pessoa se autopenetra, mas se descobre e mais possibilidades têm de conhecer-se. Essa conquista leva ao infinito, porque vai até o deus interno, que abre as portas ao entendimento do Criador” (FRANCO, 2000, p. 113).

            No processo de desenvolvimento da personalidade e transcendência do ego, é imprescindível examinar:

  1. como se reage diante de si mesmo (FRANCO, 2000, p. 41);
  2. qual a conduta em relação ao próximo (FRANCO, 2000, p. 41 e 42);
  3. como desenvolver os valores íntimos em relação a si e aos demais (FRANCO, 2000, p. 42).

            O espírito precisa se conhecer, se autodescobrir, conhecer seus pensamentos, sentimentos, emoções, evitando assim futuros desajustes e equilibrando-se na longa jornada da vida. “A conscientização do ser leva-o a um conhecimento profundo das possibilidades criativas e realizadoras, que trabalham pelo seu e pelo bem da sociedade onde se encontra” (FRANCO, 2000, p. 19).

 

Pensamentos, Emoções, Sentimentos

            Como parte do seu trabalho evolutivo, ao espírito cabe o esforço de “Disciplinar e edificar o pensamento através da fixação da mente em idéias superiores da vida, do amor, da arte elevada, do bem, da imortalidade” (FRANCO, 2000, p. 32). Assim procedendo, o espírito atinge a plenitude e a felicidade. É um processo de autoconhecimento, autodescobrimento, auto aprimoramento e encontro com o deus interno.

O ser consciente é um indivíduo livre e realizador do bem operante, que tem por meta a própria plenitude através da plenificação da humanidade. Alcançar esse nível de entendimento é todo um processo de crescimento interior, mediante constante vigilância e desdobramento das potencialidades adormecidas, que aguardam os estímulos que fomentam o seu despertar e a sua realização (FRANCO, 2000, p. 34).

            Por isso todos devemos incluir na nossa agenda evolutiva o desperta da consciência de si, digerindo nossos próprios problemas, encarando nossos conflitos, conhecendo nossos pensamentos, emoções e sentimentos.

            Há que se considerar o aspecto emocional da nossa personalidade. “O homem e a mulher, pela sua estrutura evolutiva, são, essencialmente, seres emocionais. Recém-saídos dos instintos, em processo de conscientização, demoram-se no trânsito entre o primarismo – a sensação – e a razão, passando pela emoção” (FRANCO, 2000, p. 39).

            Precisamos aprender a direcionar nossas emoções, como um dínamo gerador de energias superiores, para não cair em desgraça, caso se perca o seu controle. Todos os indivíduos vivenciam o alto potencial das emoções.

Nos relacionamentos interpessoais a emoção exerce um papel relevante, essencial para o êxito, contribuindo para a afetividade, a convivência feliz. No entanto, antes de se exteriorizar como seria ideal, exige todo um curso disciplinante, uma análise profunda, a fim de converter-se em equipamento adequado ao eu superior (FRANCO, 2000, p. 40).

            Além da emoções devemos falar também dos sentimentos.

Os sentimentos são conquistas nobres do processo da evolução do ser. Desenvolvendo-se dos instintos, libertam-se dos atavismos fisiológicos automatistas para se transformarem em emoções que alcançam a beleza, a estesia, a essência das cosias e da vida, quando superiores, ou as expressões remanescentes do período primário como a cólera, o ciúme, as paixões perturbadoras (FRANCO, 2000, p. 137).

            Na fase inicial do desenvolvimento espiritual, predominam as sensações, exteriorizando-se na forma de dor e prazer, satisfação e desgosto. Lentamente, superado o estágio inicial dos desejos imediatos necessários à sobrevivência, desabrocham-se os sentimentos de valores morais, a intelectualidade, a racionalidade.

            No campo das emoções e dos sentimentos merece papel de destaque o Amor. Inicialmente, ligação com os genitores, familiares, o grupo social de onde provém; apresenta-se egoístico, retributivo, vinculado aos interesses em jogo; externa-se como desejo sexual, despertando paixões, ciúmes, inveja, insegurança, quando se encontra no primarismo dos instintos.

O amor é o grande bem a conquistar, em cujo empenho todos devem aplicar os mais valiosos recursos e esforços. Não obstante, a larga transição no instinto pode transformá-lo em adversário, pelos prejuízos que se originam quando se apresenta em desorganizada manifestação (FRANCO, 2000, p. 139).

 

Sofrimento

            O processo evolutivo não é linear e pode acontecer de o espírito tropeçar na sua jornada e desenvolver algum comportamento doentio e infeliz. Estes tropeços são as causas dos nossos sofrimentos (FRANCO, 2000, p. 140 a 143) que podem ser de ordem variadas, tais como: físicos,  morais, emocionais e espirituais.

... a conduta desregrada, os pensamentos violentos, as forças descompensadas do instinto, produzindo congestão e inibição das energias, dão curso aos atestados de violência, de depressão, de obsessão compulsiva, de degeneração dos tecidos e órgãos que lhes sofrem a corrente contínua deletéria (FRANCO, 2000, p. 18 e 19).

            Tais comportamento levam o ser ao adoecimento, resultado “do choque entre a mente e o comportamento, o psíquico e o físico, que interagem somatizando as interferências” (FRANCO, 2000, p. 18).

            Emoções fortes como o medo, a cólera, a agressividade, o ciúme, são igualmente causas de aflição, pois provocam uma descarga no corpo físico que, com a repetição, provocam várias doenças. Desse modo, cada enfermidade física traz um componente psíquico, emocional ou espiritual correspondente.

            Temos uma gama muito a ampla e variada de tipos de sofrimentos e seria muito difícil aqui enumerar todas elas. Baseado na obra em análise destacamos os transtornos comportamentais ou aqueles que são resultados de condicionamentos e viciações mentais, cuja origem se fundamenta na ideia de Lei de Ação e Reação. Quando um arqueiro atira uma flecha, já não se pode deter-lhe o destino; gerada a causa, são disparados os efeitos. E, de acordo com a Lei de Ação e Reação, toda ação repercute uma reação em sentido contrário e na mesma intensidade. Esta é, grosso modo, a origem de inúmeros males.

          Na gênese dos transtornos comportamentais, encontramos elementos psicossociais, inter-relacionamento pessoal e também a influência hereditária.

É natural que o processo de reencarnação encontre nos genes e cromossomos as matrizes fixadoras das necessidades de reparação da criatura, renascendo em clãs que lhe propiciarão, pelo mapa genético, os recursos orgânicos para o desiderato... Dessa forma, cada ser em desenvolvimento na Terra possui o corpo que lhe é necessário para a evolução (FRANCO, 2000, p. 82).

            Sendo a evolução uma etapa necessária do desenvolvimento do espírito, cumpre notar o papel que o subconsciente representa na origem de nossos males e sofrimentos. O subconsciente funciona como uma espécie de depósito, das aquisições passadas, um banco de dados que armazena todas as nossas ações de vidas pretéritas e as reações que se seguiram. No subconsciente estão impressões arquivadas, choques não absorvidos, medos, impulsões afligentes.

            Boa parte do nosso sofrimento consiste em retirar o entulho psíquico que está no nosso subconsciente: “o passado influencia o presente, e quanto mais seja conscientizado e eliminado de forma coerente e lúcida, tanto melhor para a planificação do futuro” (FRANCO, 2000, p. 95). Podemos conceituar essa ideia a partir do conceito de queimar o carma. Uma espécie de reciclagem do subconsciente, algo que só é possível a partir de uma análise do material recalcado a fim de renovar-se interiormente, fazendo-se necessário aprofundar recordações, eliminar temores e angústia, ser positivo.

            Sempre que alguma vibração equivalente atinge as lembranças arquivadas no subconsciente, os incidentes desagradáveis ressurgem, inconscientemente, trazendo fatores de perturbação mental.

            O subconsciente é também a sede dos nossos instintos, resultado de milhares de anos de evolução, em que o ser emerge dos automatismos (da inconsciência), adquirindo mais amplas percepções e lucidez (consciência), despertando para as aspirações mais elevadas do Bem e do Belo.  “O largo trânsito pelos impulsos do instinto deixa condicionamentos que devem ser reprogramados, a fim de que as emoções superem as cargas dos desejos e do utilitarismo ancestrais” (FRANCO, 2000, p. 138). Evoluir significa também transitar do instinto para o sentimento, do ego ditador e tirânico para o ser altruísta e amoroso.

            Nesse processo, o sofrimento apresenta-se como instrumento natural da evolução, maturação e libertação do Espírito, de aperfeiçoamento da consciência, que exige esforço e vontade firme. “O esforço de transformação da natureza inferior para melhor (emoções enobrecidas), alonga-se em um trabalho paciente, modelador do novo ser, que enfrentará os seus carmas consciente de si, responsavelmente, sem as reações destrutivas, mas com as ações renovadores” (FRANCO, 2000, p. 58). O esforço de interiorização dos ideais superiores exigem muita luta. É imperioso penetrar este reino interior para que as trevas desapareçam. “Somente através de um grande empenho da vontade é possível olhar para dentro e pesquisar as possibilidades disponíveis para melhor identificar o que fazer, quando e como realizá-lo” (FRANCO, 2000, p. 46).

Mediante uma auto-análise honesta, no qual se dispense o elogio, a condenação e a justificação, o indivíduo deve permitir-se a identificação do erro, do problema, e sem consciência de culpa digerir o acontecimento, buscando os meios para reparação e a libertação do sentimento perturbador (FRANCO, 2000, p. 36).

 

Equilibro e Saúde

            Todos somos suscetíveis de erros. “Humano é todo indivíduo que se considera capaz de errar... mas também de erguer-se” (FRANCO, 2000, p. 129). Por isso todo sofrimento é passível de solução. “Faz-se então indispensável, ao adquirir-se o conhecimento de Si, o aprofundamento da busca da sua realidade” (FRANCO, 2000, p. 45), libertando-se dos complicados mecanismos de condicionamento que impedem a ascese espiritual e que não conduzem à realização total.

            Qualquer terapia, para sanar os quadros psíquicos degenerativos, deve alcançar suas raízes, a fim de expurgá-los, num processo de catarse espiritual, liberando os núcleos lesados do psiquismo e restaurando sua harmonia vibratória.

            “Há uma necessidade urgente de reprogramar-se a mente” (FRANCO, 2000, p. 111). Hábitos condicionados, viciações adquiridas, constituem verdadeiro obstáculo ao equilíbrio mental. “A mente é a grande mantenedora das forças existenciais” (FRANCO, 2000, p. 128), seja para o bem ou para o mal. Nesse ínterim, é fundamental o cuidado com a conduta mental. Uma mente equilibrada e em paz consigo mesma, produz uma aura de tranquilidade, irradiando simpatia e esperança.

            A mente é responsável pela manutenção da nossa organização fisiopsíquica. Ao emitir ondas de animosidade, desarmonizamos o sistema emocional e biofísico. As altas cargas energéticas, quando negativas, desajustam (com a constante repetição), os vários sistemas orgânicos, produzindo perturbações nas mais diversas áreas da saúde.

A saúde mental exige esforço pessoal, que é intransferível, caracterizado pelo real desejo do equilíbrio. Uma decisiva disposição para o auto-encontro e o empenho para consegui-lo são os instrumentos hábeis para o tentame, que se coroará de êxito. Toda empresa para alcançar metas impõe trabalho que não cessa. O empreendimento da autovalorização, com a conseqüente conquista de si mesmo, é de largo percurso, e sua gratificação se alcança nas diferentes etapas do processo de libertação dos vícios e acomodações habituais (FRANCO, 2000, p. 131).

            Além do autoconhecimento e do zelo pela saúde mental, também serve como fator de libertação do sofrimento a “canalização da mente para o bem – o ideal, o amor – é o antídoto para todos os sofrimentos” (FRANCO, 2000, p. 143).

A proposta da terapia do amor restabelece, como ponto de partida, a preservação ético-moral do indivíduo perante si mesmo, com a conseqüente valorização das suas capacidades de discernimento e ação... resguardando o corpo das altas tensões e sensações desgastantes, das emoções violentas, a fim de que o mesmo possa preencher a finalidade da reencarnação do Espírito, para o qual foi elaborado (FRANCO, 2000, p. 78).

            Outros fatores que ajudam a anular o sofrimento e a buscar o equilíbrio e a saúde do corpo físico e da alma são: disciplinar a vontade por meio da paciência e perseverança; o recurso à oração é essencial, a fim de reerguer-se e sustentar-se; a prática da meditação e do silêncio ajuda a alcançar mais altas inspirações dos planos superiores de evolução. E ainda: “Introspecção, alegria, reflexão, cultivo de idéias superiores, oração constituem terapias avançadas, com os seus efeitos vibracionais positivos, em favor de quem os mantenha, produzindo saúde pela recomposição do equilíbrio psicofísico” (FRANCO, 2000, p. 39).

A verdadeira saúde não se restringe apenas à harmonia e ao funcionamento dos órgãos, possuindo maior extensão, que abrange a serenidade íntima, o equilíbrio emocional e as aspirações estéticas, artísticas, culturais e religiosas... Assim, pensar bem e corretamente, permanece como primeiro item de um bem estruturado programa de saúde, a fim de que as palavras, na conversação, não corrompam os costumes, ensejando ações estimulantes e edificadoras para o bem geral (FRANCO, 2000, p. 80 e 81).

            Finalmente, percebemos “que a finalidade do ser existencial é a alegria de viver decorrente dos pensamentos e ações meritórios, o que propele à auto-estima, e à autodescoberta constante, trabalhando-se sem fadiga nem decepção” (FRANCO, 2000, p. 146). Reconhecer nossas imperfeições não significar ficar parado nelas, mas adquirir o conhecimento necessário para que o ser possa alcançar a plenitude, através de um longo mas gratificante processo de aperfeiçoamento e catarse espiritual, com o objetivo de alcançar novas conquistas, superando a infância psicológica do ser, buscando o triunfo sobre o ego, a partir do autodescobrimento e da busca interior que nos elevam à Divina Luz que tudo guia e protege.

 

Referência

FRANCO, Divaldo P. Autodescobrimento – uma busca interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: Liv. Espírita Alvorada, 2000.

 

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