Diálogos sobre o Conhece-te a ti mesmo

Diálogos sobre o Conhece-te a ti mesmo

 

I

Sócrates — agora, qual será a arte pela qual poderíamos nos preocupar conosco?

Alcibíades — Isto eu ignoro.

Sócrates — Em todo o caso, estamos de acordo num ponto: não é pela arte que nos permita melhorar algo do que nos pertence, mas pela que faculte uma melhoria de nós mesmos.

Alcibíades — Tens razão.

Sócrates — Por outro lado, acaso poderíamos reconhecer a arte que aperfeiçoa os calçados, se não soubéssemos em que consiste um calçado?

Alcibíades — Impossível.

Sócrates — Ou que arte melhora os anéis, se não soubéssemos o que é um anel?

Alcibíades — Não, isto não é possível.

Sócrates — Entretanto, será fácil conhecer-se a si mesmo? E teria sido um homem ordinário aquele que colocou este preceito no templo de Pytho? Ou trata-se, pelo contrário, de uma tarefa ingrata que não está ao alcance de todos?

Alcibíades — Quanto a mim, Sócrates, julguei muitas vezes que estivesse ao alcance de todos, mas algumas vezes também que ela é muito difícil.

Sócrates — Que seja fácil ou não, Alcibíades, estamos sempre em presença do fato seguinte: somente conhecendo-nos é que podemos conhecer a maneira de nos preocupar conosco; sem isto, não o podemos.

Alcibíades — É muito justo.

Platão, Alcibíades, 128d-129

 

II

Sócrates — Dize-me Eutidemo, estivestes alguma vez em Delfos?

Eutidemo — Duas vezes, por Zeus!

Sócrates — Viste, então, a inscrição gravada no templo: conhece-te a ti mesmo?

Eutidemo — Sim, certamente.

Sócrates — Esta inscrição não te despertou nenhum interesse, ou, ao contrário, notaste-a e procuraste examinar quem tu és?

Eutidemo — Não, por Zeus! Dado que julgava sabê-lo perfeitamente: pois teria sido difícil para eu aprender outra coisa caso me ignorasse a mim mesmo.

Sócrates — Então pensas que para conhecer quem somos, basta sabermos o nosso nome, ou que, à maneira dos compradores de cavalo que não crêem conhecer o animal que querem comprar antes de haver examinado se é obediente, teimoso...

Eutidemo — Parece-me, de acordo com o que acabas de dizer-me, que não conhecer o próprio valor equivale a se ignorar a si mesmo.

Sócrates — Não é evidente ser esse conhecimento de si mesmo fonte de infinidade de bens, enquanto milhares de males acarreta a visão zarolha das próprias possibilidades? Os que se conhecem a si mesmos sabem o que lhes é útil e distinguem o que podem do que não podem fazer. Realizando o que está em seu poder, obtêm o necessário e vivem felizes. Abstendo-se do que vai além de suas forças não resvalam no erro e esquivam o insucesso. Enfim, estando em melhores condições de julgar os homens, podem, empregando-os proveitosamente, angariar grandes bens e poupar grandes males. Ao contrário, os que não se conhecem a si mesmos e ignoram o próprio valor não julgam melhor os homens que as coisas humanas. Não sabem nem o que lhes cumpre fazer, nem como o fazem. A respeito de tudo iludidos, deixam escapar a felicidade e esbarrondam-se na ruína. Os que obram com conhecimento de causa atingem o fim colimado e granjeiam honra e consideração. Seus iguais comprazem-se de sua sociedade. Nos reveses procuram seus conselhos, entregam-se-lhes nas mãos, neles fundam suas esperanças de bom êxito e por tudo isso os estimam mais que a ninguém. Já os que vivem às cegas metem-se a fazer o que não deviam, malogram em todos os empreendimentos e, sobre castigados pelo mau sucesso, tornam-se em objeto de desprezo e ridículo, vivendo escarnecidos e desconsiderados. Podes ver igualmente que dentre as cidades que, ignorando as próprias forças, movem guerras a Estados mais poderosos, umas são destruídas, outras trocam a liberdade pela escravidão.

Eutidemo — Estou plenamente de acordo, Sócrates — conveio Eutidemo — ser da

máxima importância o conhecer-se a si próprio. Mas por onde começas o exame? Serei todo ouvidos se quiseres ensinar-mo.

Xenofonte, Memoráveis, IV, II, 26

 

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