Fédon

Fédon

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em nov. 2018

 

Personagens do Diálogo

Equécrates, Fédon, Apolodoro, Sócrates, Cebes, Símias, Críton, o servidor dos Onze.

 

Disponível em: Slideplayer. Acesso em 03/11/2018

 

O diálogo tem como tema principal a Imortalidade da Alma

 

Os argumentos do diálogo para tentar provar a imortalidade da alma começam a ser desenvolvidos a partir de 70a. Antes disso, são feitas algumas considerações, da parte de Sócrates, como a ideia de que a morte é uma libertação para a alma. Após os argumentos para provar a imortalidade da alma, Sócrates fala ainda sobre temas correlatos, como o destino das almas após a morte ou a função da filosofia para ajudar o filósofo a encarar a morte de forma sábia e as razões para fazê-lo.

Sobre os argumentos a respeito da imortalidade da alma, são basicamente três: 1) o argumento dos contrários (objeção: pode-se dizer que nascem um dos outros?); 2) o argumento da reminiscência que se apóia na teoria das ideias (veja o link para entender melhor a teoria das ideias de Platão); 3) o argumento da teoria das ideias: a alma é imperecível como as ideias (objeção: se as idéias não existem fora do nosso espírito, o que fica de sua demonstração?).

Vejamos o diálogo

 

57a – 57d, Introdução

Equécrates pede a Fédon que lhe fale sobre o momento que antecedeu a morte de Sócrates.

 

57e, Início da narrativa

 

60b – 63e, O prazer e a dor – a música e a filosofia

 

64a – 67b, Início do discurso da morte como libertação da alma

Porque o filósofo prefere a morte? É, basicamente, a pergunta que dá início a argumentação do diálogo. Sócrates está diante da morte. De onde vem sua conformação e serenidade? Segundo Sócrates é o resultado da convicção de encontrar deuses, sábios e os bons. A antiga tradição diz ser a morte muito melhor para os bons que para os maus.

“... o homem que realmente consagrou sua vida à filosofia é senhor de legítima convicção no momento da morte, possui esperança de ir encontrar para si, no além, excelentes bens quando estiver morto! Mas como pode ser assim? Isso será, Símias e Cebes, o que me esforçarei por vos explicar” [64a].

A morte é a separação da alma e do corpo [64c].

As preocupações do verdadeiro filósofo dirige-se não tanto para o que diz respeito ao corpo, mas para o que diz respeito a alma [65a].

O corpo como obstáculo do conhecimento da alma; o conhecimento só poderá ser alcançado depois da morte, uma vez que só então a alma estará separada do corpo e existirá em si mesma e por si mesma [65b – 67b]; “... durante todo o tempo em que tivermos o corpo, e nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto de nossos desejos! Ora, este objeto é, como dizíamos, a verdade. Não somente mil e uma confusões nos são efetivamente suscitadas pelo corpo quando chamam as necessidades da vida, mas ainda somos acometidos pelas doenças [66b]... Inversamente, obteremos a prova de que, se alguma vez quisermos conhecer puramente os seres em si, ser-nos-á necessário separar-nos dele e encarar por intermédio da alma em si mesma os entes em si mesmos [66d]. Só então é que, segundo me parece, nos há de pertencer aquilo de que nos declaramos amantes: a sabedoria [66e]”.

 

67c – 69e, A purificação

Consiste em separar a alma do corpo, isto é, consiste na morte.

“Talvez, muito ao contrário, a verdade nada mais seja do que uma certa purificação de todas essas paixões e seja a temperança, a justiça, a coragem [69b]; e o próprio pensamento outra coisa não seja do que um meio de purificação. É possível que aqueles mesmos a quem devemos a instituição das iniciações não deixam de ter o seu mérito, e que a verdade já de há muito tempo se encontre oculta sob aquela linguagem misteriosa. Todo aquele que atinja o Hades como profano e sem ter sido iniciado terá como lugar de destinação o Lodaçal, enquanto aquele que houver sido purificado e iniciado morará, uma vez lá chegado, com os deuses [69c]”.

“... disso estou convencido – no outro mundo irei encontrar, não menos do que aqui, outros bons donos como outros bons companheiros. O vulgo, na verdade, é incrédulo a respeito dessas coisas [69e]”.

 

70a – 80e, A sobrevivência da alma

Existem controvérsias sobre a sobrevivência da alma, diz Cebes, e este assunto é mesmo, para alguns homens, motivo de incredulidade.

“Talvez, dizem eles, uma vez separada do corpo, a alma não existe mais em nenhuma parte e talvez, com maior razão, seja destruída e pereça no mesmo dia em que o homem morre. Talvez desde o momento dessa separação, se evolve do corpo para dissipar-se tal como um sopro ou fumaça, e que assim separada e dispersa nada mais seja em parte alguma” [70a].

A partir deste ponto, a questão é examinada mais detalhadamente.

(1º argumento) 70d – 72d, os contrários: os vivos nascem dos mortos

“... é, em suma, no Hades que estão as almas dos defuntos ou não? Pois, conforme diz uma antiga tradição nossa conhecida, lá se encontram as almas dos que se foram daqui, e elas novamente, insisto, para cá voltam e renascem dos mortos. E se assim é, se dos mortos nascem os vivos, que podemos admitir senão que nossas almas devem mesmo estar lá? Sem dúvida, não poderia haver novos nascimentos para almas que já não tivessem existência...” [70d].

O argumento se estende a todas as coisas e não unicamente em relação aos homens, ou seja, que as coisas nascem dos seus contrários (o belo só tem significado em relação aquilo que é feio); assim, em toda parte, o justo e o injusto, o grande e o pequeno, o forte e o fraco; todas as coisas nascem dos seus contrários.

“Assim obtemos este princípio geral, segundo o qual é das coisas contrárias que nascem as coisas que lhes são contrárias” [71a].

O contrário da vida é a morte e elas nascem uma da outra [71d].

“Das duas gerações, enfim, que aqui temos, não há pelo menos uma que não nos deixe dúvida sobre sua realidade? Porque o termo ‘morte’, penso, está fora de dúvida! Não está?” [71e]. É necessário, portanto, concluir pela geração do seu contrário, ou seja, que o que é vivo, nasce dos mortos e que os mortos nascem dos vivos.

“Ora, assim sendo, haveria aí, parece, uma prova suficiente de que as almas dos mortos estão necessariamente em alguma parte, e que de lá voltam para a vida” [72a].

“Suponhamos agora, que todas as coisas se unam e que não mais se separem; em pouco teriam realizado as palavras de Anaxágoras: ‘Todas as coisas estavam jutas!’. Suponhamos, da mesma forma, meu caro Cebes, que venha a morrer tudo o que participa da vida, e que, uma vez mortos, os seres permaneçam nesse estado, sem reviver. Nesse caso, não será forçoso que tudo no fim esteja morto, e que nada mais viva? Admitamos, com efeito, que o que vive provém de outra coisa que não a morte, e que o que vive, morre; haverá algum modo de evitar que tudo se venha a perder na morte? [72c, d]... Não, aí estão as coisas bem reais:  o reviver, o fato de que os vivos provêm dos mortos, de que as almas dos mortos têm existência, e – insisto neste ponto – de que a sorte das almas boas é melhor, e pior a das almas ruins” [72d, e].

(2º argumento) 72e – 80e, sobre a reminiscência

Cebes fala do dito “aprender não é outra coisa senão recordar” [72e] – cf. Menon, 80.

Com a fala acima, inicia-se o argumento da reminiscência.

“Ora, tal não poderia acontecer se nossa alma não existisse em algum lugar antes de assumir, pela geração, a forma humana. Por conseguinte, ainda por esta razão é verossímil que a alma seja imortal” [73a].

Início da argumentação para compreender aquilo que Sócrates quer dizer com “aprender é recordar” [73c].

A reminiscência se baseia na teoria das ideias, em que é necessário ter adquirido antes do nascimento, o conhecimento do Igual em si, do Belo em si, do Bem em si, do qual todas as coisas têm o desejo de ser tal qual é essa realidade, e que no entanto lhes são inferiores.

“... penso, poder-se-ia supor que perdemos, ao nascer, essa aquisição anterior ao nosso nascimento, mas que mais tarde, fazendo uso dos sentidos a propósito das coisas em questão, reaveríamos o conhecimento que num tempo passado tínhamos adquirido sobre elas. Logo, o que chamamos de ‘instruir-se’ não consistiria em reaver um conhecimento que nos pertenceria? E não teríamos razão de dar a isso o nome de ‘recordar-se’?” [75e].

“[se aqueles] que se instruem nada mais fazem do que recordar-se; neste caso a instrução seria uma reminiscência” [76a].

O conhecimento das ideias não pertence a todo mundo [76c].

Está provado que a alma existe antes do nascimento, pela reminiscência, diz Símias. Mas, e quanto a existir depois da morte? [77b].

“Essa demonstração já está feita, Símias e Cebes – tornou Sócrates –, tê-la-eis neste mesmo instante, uma vez que estejais dispostos a unir em uma só, esta prova com aquele que a precedeu e a respeito da qual estávamos de acordo; a saber, que tudo o que vive nasce do que é morto” [77d].

(3º argumento) 78c – 80e, a teoria das ideias

A alma é de natureza invisível, divino, imortal, indissolúvel, não suscetível de decomposição, ao passo que o corpo é humano, mortal, multiforme, sujeito a decompor-se, ao que jamais permanece idêntico. A alma é imperecível como as ideias.

“Que se segue daí? Uma vez que as coisas são assim, não é acaso uma pronta dissolução o que convém ao corpo, e à alma, ao contrário, uma absoluta indissolubilidade, ou pelo menos qualquer estado que disso se aproxime?” [80b].

“… depois da morte do homem, o que nele há de visível, seu corpo, a isto que convém dissolver-se, desagregar-se, dissipar-se em fumo [80c]… Mas então a alma, aquilo que é invisível e que se dirige para um outro lugar, um lugar que lhe é semelhante, lugar nobre, lugar puro, lugar invisível, o verdadeiro país de Hades, para chamá-lo por seu verdadeiro nome, perto do Deus bom e sábio, lá para onde minha alma deverá encaminhar-se dentro em breve, se Deus quiser [80d]…”.

 

80e – 82b, O destino das almas                                                        

As almas puras não confundem seus caminhos com o das almas que não vivem uma vida verdadeiramente filosófica, libertando-se e purificando-se, preparando-se para morrer. É para o que é divino, imortal e sábio que ela se dirige, ao contrário da alma poluída e não purificada.

“o destino das almas corresponderá às semelhanças com o seu comportamento na vida? Bem claro; e como não haveria de ser assim?” [82a].

“E quanto à espécie divina, absolutamente ninguém, se não filosofou, se daqui partiu sem estar totalmente purificado, ninguém tem o direito de atingi-la, a não ser unicamente aquele que é amigo do saber” [82b].

 

82c – 84b, A função da filosofia

O filósofo não se preocupa com a riqueza: a pobreza não lhes infunde medo [82c].

O filósofo não se preocupa com a glória ou honra: o infortúnio não o atemoriza [82c].

O filósofo preocupa-se em libertar-se e purificar-se [82d].

O filósofo afasta-se dos prazeres, dos desejos, dos incômodos e dos terrores [83b].

O mal supremo: “É que em toda alma humana, forçosamente, a intensidade do prazer ou do sofrimento, a propósito disto ou daquilo, se faz acompanhar da crença de que o objeto dessa emoção é tudo o que há de mais real e verdadeiro, embora tal não aconteça. Esse é o efeito de todas as coisas visíveis, não é? [83e]… E não é em tais afetos que no mais alto grau a alma fica sujeita às cadeias do corpo?” [83d].

“... eis como, sem dúvida, refletirá uma alma de filósofo: ela não irá pensar que, sendo o trabalho da filosofia libertá-la, o seu possa ser, enquanto a filosofia a liberta, o de se entregar voluntariamente às solicitações dos prazeres e dos sofrimentos, para tornar a colocar-se nas cadeias [dos corpos], nem o de realizar o labor sem fim de uma Penélope [esposa de Ulisses]... Não! Ela acalma as paixões, liga-se aos passos do raciocínio e sempre está presente nele; toma o verdadeiro, o divino, o que escapa à opinião, por espetáculo e também por alimento, firmemente convencida de que assim deve viver enquanto durar sua vida [84a]...”.

 

84c – 92a, Sócrates não consegue persuadir de que não considera incômodo a situação em que se encontra nem mesmo Símias e Cebes.

Até os cisnes cantam de modo mais belo ao “aproximar-se o momento em que irão para junto do Deus a que servem” [85a]. Sócrates não crê que o canto dos cisnes seja de lamento, e sim de alegria.

Símias e Cebes não estão satisfeitos nem convencidos, com as provas até aqui oferecidas [85c e d]. Símias considera todo esse conhecimento, na vida presente, se não impossível, pelo menos extremamente difícil de obter [85c].

85e – 86d, A argumentação de Símias: a harmonia e a alma

“... a harmonia, dir-se-ia então, é uma coisa invisível, incorpórea, absolutamente bela, divina [85e], enfim, quando a lira é dedilhada, ao passo que a própria lira e suas cordas são coisas corporiformes, compostas, terrenas, aparentadas com a natureza mortal [86a]...” que se quebre a lira, como subsistirá a harmonia, que é de natureza divina?

“Aliás, Sócrates, creio que não esqueceste aquela concepção da natureza da alma, a que damos preferência. Admitido que nosso corpo seja semelhante a um instrumento de cordas e que sua unidade seja mantida pelo calor e o fumo, pelo seco, pelo úmido e outra qualidade análoga, é a combinação e a harmonia desses mesmos contrários [86b] que constitui a nossa alma, quando se combinam em proporções convenientes. Portanto, se justamente a alma é uma harmonia; a coisa é clara: desse modo sempre que nosso corpo for excessivamente relaxado ou retesado pelas doenças ou por outros males, é necessário que a alma, apesar de divina, seja logo destruída com as outras harmonias ...” [86c].

86e – 88c, A objeção de Cebes: admite a pré-existência, mas, e a imortalidade?

Cebes admite a pré-existência da alma, mas não concebe plenamente satisfatória a ideia de que depois da morte a alma continua a existir [87a]. Imagem do tecelão e da veste [87b, c]; a veste (corpo) é mais durável que o tecelão (alma).

“... a alma usa diversos corpos, principalmente se ela vive, pois sendo o corpo – como é possível supor – uma torrente que se esvai enquanto o homem vive, a alma incessantemente renova o seu vestuário perecível” [87d].

Há ainda o raciocínio de que a alma pode ter várias vidas, dando lugar a futuros nascimentos e novas mortes, mas na qual a alma se esgota nesses múltiplos nascimentos, vindo a ser radicalmente destruída em uma dessas mortes [88a]. Portanto, nenhum homem pode estar tranqüilo diante de sua morte, “a menos que ele seja capaz de provar que a alma é fatalmente imortal e imperecível. Se assim não for, necessariamente, todo aquele que vai morrer deve sempre temer que sua alma, no momento em que se separa do corpo, seja destruída inteiramente” [88b].

89b – 92a, Sócrates conversa com Fédon (brincando, afagando, seus cabelos que caíam sobre seus ombros), antes de retomar a argumentação com Símias e Cebes.

A morte de Sócrates (1787), do pintor francês Jacques-Louis David

92b – 95a, A resposta à Símias

A harmonia não pode existir antes dos elementos dos quais vem a ser composta. Se a alma pré-existe ao corpo, como afirmou Símias, então uma tal crítica é sem fundamento.

“É necessário então escolher entre essas duas linguagens: qual é aquela que preferes? A que afirma que instruir-se é lembrar-se (reminiscência) ou a de que a alma é uma harmonia?” [92c].

 

95a – 107b, A resposta à Cebes

Sócrates inicia a argumentação com o problema da geração e da corrupção [96a].

Anaxágoras: “o espírito é ordenador e a causa de todas as coisas” [97a].

A Ideia, como prova da imortalidade da alma [99e].

Os contrários e as Ideias: da mesma forma como o que é par (o dois, por exemplo), nunca vem a ser ímpar, não aceita a ideia do ímpar, a alma, que entrando em um corpo, torna-o vivo, não pode admitir a morte, logo, a alma é imortal.

Objeção: “Mas, pelos deuses! Não se afirmou já, nesta discussão, justamente o contrário do que acaba de ser dito agora? Acaso não foi dito que o maior se desenvolve do menor, e que realmente constitui a geração para os contrários, é provir dos contrários?” [103a].

“No início de nossa palestra foi afirmado que uma coisa se forma da coisa contrária; mas, neste momento, o que se diz é que o contrário em si não se forma de seu contrário, tanto em nós mesmos como em sua própria natureza. Antes, meu amigo, falávamos de coisas que possuem qualidades contrárias, e então as classificamos de acordo com estas. Agora, porém, estamos a falar daqueles próprios contrários que estão dentro de uma coisa e lhe dão o nome, e não dissemos que esses contrários possam ter origem na coisa contrária” [103b].

“Em conseqüência do que dissemos, a alma nem aceitará a morte, nem ficará morta, da mesma forma como – de conformidade com as nossas precedentes explanações – nem o três será par, nem o ímpar será par, nem o fogo será frio, nem o calor nem fogo será frio, e assim por diante” [106b].

 

107c – 115e, Mito do destino das almas

“... se verdadeiramente a alma é imortal, cumpre que zelemos por ela, não só durante o tempo atual, isso a que chamamos viver, mas também pela totalidade do tempo pois seria um grande perigo não se preocupar com ela. Admitamos que a morte nada mais seja do que uma total dissolução de tudo. Que admirável sorte não estaria reservada então para os maus, que se veriam nesse momento libertos de seu corpo, de sua alma e da própria maldade! Mas, em realidade, uma vez evidenciado que a alma é imortal, não existirá para ela nenhuma fuga possível a seus males [107c], nenhuma salvação, a não ser tornado-se melhor e mais sábia. A alma, com efeito, nada mais tem consigo, quando chega ao Hades, do que sua formação moral e seu regime de vidas... Assim, dizem que o mesmo gênio que acompanha cada um de nós durante sua vida é, também, quem conduz cada morto a um determinado lugar [107d]...”

108d – 113d, Teoria cosmográfica, sobre a Terra e a vida “além” da Terra, a vida nas regiões interiores da Terra – Tártaro.

“... Eis, agora, os mortos chegados ao lugar para onde cada um foi conduzido por seu gênio tutelar. Aí, antes do mais, todos são julgados, tanto os que tiveram uma vida são e piedosa como os outros. Em seguida, aqueles de quem se verifica que tiveram uma existência comum são dirigidos ao Aqueronte, e nele, em qualquer embarcação, se encaminham para o lago Aquerúsia. Lá, então, passam a morar e a submeter-se a purificações, quer remindo-se pelas penas que sofrem das ações de que se tornaram culpados, quer obtendo pelas boas ações que praticaram recompensas proporcionadas aos méritos de cada um [113d]. Outros, porém, que se verifica serem incuráveis por causa da grandeza dos pecados que cometeram, autores de roubos em templos repetidos e graves, de muitos homicídios contra a justiça e contra a lei, e de muitas outras coisas desse gênero – estes recebem a paga merecida e são precipitados no Tártaro, de onde nunca mais sairão. Quanto àqueles cujos erros foram reconhecidos como sendo faltas que, não obstante sua gravidade, não deixam de ter remédio, como as cometidas pelos que sob o domínio da ira usaram de violência contra o pai e a mãe, e que disso se arrependeram para o resto da vida [113e] ou que, em condições semelhantes, se tornaram assassinos – estes também, devem necessariamente ser lançados no Tártaro; mas, quando houver decorrido um ano depois que foram precipitados, uma onda os arremessa para fora – e os assassinos são lançados no Cocito, e os criminosos contra pai e mãe no Periflegetonte. Comboiados por esses rios, chegam ao lago Aquerúsia: e ali, chamam e pedem em altos brados, uns àqueles que mataram, outros àqueles que violaram; e lhes suplicam que os deixem passar do rio ao lago e vir ter com eles [114a]. Em caso contrário são de novo jogados ao Tártaro, e de lá outra vez aos rios, assim numa repetição sem tréguas, até que hajam obtido o perdão de suas vítimas – pois essa é a punição que os juízes lhes impuseram. Aqueles, enfim, cuja vida foi reconhecida como de grande piedade, são libertados, como de cárceres, dessas regiões interiores da terra, e levados para as alturas da [114b] morada pura, indo morar da superfície da verdadeira terra! E, entre estes, aqueles que pela filosofia se purificaram de modo suficiente passam a viver absolutamente sem os seus corpos, durante o resto do tempo, e a residir em lugares ainda mais belos que os demais [114c]”.

“Pois bem, meu caro Símias, são estas as realidades, cuja exposição fizemos por alto, e, que nos devem levar a tudo fazermos por participar da virtude e da sabedoria nesta vida. Bela é a recompensa e grande a esperança! Entretanto, pretender que essas coisas sejam na realidade exatamente como [114c] as descrevi, eis o que não será próprio de um homem de bom senso! Mas crer que é uma coisa semelhante o que se dá com nossas almas e o seu destino – porque a alma é evidentemente imortal – eis uma opinião que me parece boa e digna de confiança. Belo será ter esta coragem! É preciso repeti-lo como fórmula mágica e é – palavra! – por tal razão que de há muito estou a falar nessa lenda mitológica. Pois bem! Considerando estas crenças, deve permanecer confiante sobre o [114d] destino de sua alma o homem que durante sua vida desprezou os prazeres de corpo e os ornamentos deste, principalmente, pois são, a seu ver, coisas estranhas e nocivas. O homem que, ao contrário, se dedicou aos prazeres que têm a instrução por objeto, e que dessa forma ornou sua alma, não com adorno estranhos e nocivos, mas com o que é propriamente seu e mais lhe convém, com a temperança, a justiça, a coragem, a liberdade, a verdade – esse aguarda confiante e corajoso o momento de por-se a caminho do [114e] Hades, quando seu destino o chamar! Vós, seguramente – ajuntou Sócrates – vós, Símias, Cebes, e todos os outros – será mais tarde, não sei quando, que vos poreis a caminho. Quanto a mim, o meu destino neste momento me chama, como diria um ator de tragédia [115a]”.

 

115a, Sócrates ensaia para despedir-se.

“... Mas como haveremos de enterrar-te – disse Críton. Como quiserdes – respondeu – isto é, se conseguirdes reter-me a mim, e se eu não vos escapar! – Então riu-se docemente e, voltando-se para nós, disse: – Não há meio, meus amigos, de convencer Críton de que o que eu sou é este Sócrates que se acha presentemente conversando convosco e que regula a ordem de cada um de seus argumentos! Muito ao contrário, está persuadido de que eu sou aquele outro Sócrates cujo cadáver estará daqui a pouco diante de seus olhos; e ei-lo a perguntar como me deve enterrar! [115c]. E quanto ao que desde há muito venho repetindo – que depois de tomar o veneno não estarei mais junto de vós, mas me encaminharei para a felicidade que deve ser as dos bem-aventurados – tudo isto, creio, eram para ele vãs palavras, meras consolações que eu procurava dar-vos, ao mesmo tempo que a mim mesmo! Sede, pois, meus fiadores junto a Críton... Afirmai-lhe que não ficarei entre vós quando morrer, mas que partirei, que me irei embora! Este é o único meio de fazer [115d] com que esta provação seja mais suportável a Críton, o meio de evitar que, vendo queimar ou enterrar meu corpo, se impressione e pense que estou sofrendo dores inenarráveis, e que no decorrer dos funerais diga estar expondo Sócrates, conduzindo-o à sepultura e enterrando-o! Nota bem, meu bravo Críton: a incorreção da linguagem não é somente uma falta cometida contra a própria linguagem. Ela faz mal às almas! Não! É preciso perder esse temor. Realiza estes funerais [115e] como quiseres e como achares mais conforme aos usos [116a]”.

 

116a – 118a, Epílogo

A serenidade de Sócrates diante da morte.

“[porque ganhar mais tempo], agarrando-se dessa forma à vida e procurando economizá-la quando dela nada mais resta!...” [117a].

Uma rápida prece (de bem poucas palavras) [117c].

Oferenda de um galo a Asclépio [118a].

 

“Tal foi, Equécrates, o fim de nosso companheiro. O homem de quem podemos dizer que, entre todos os de seu tempo que nos foi dado conhecer, era o melhor, o mais sábio e o mais justo” [118a].

 

 

Bibliografia Utilizada

PLATÃO. Diálogos: O Banquete; Fédon; Sofista; Político. Seleção de  textos de José Américo M. Pessanha; traduções e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os pensadores).

____. Diálogos: Apologia de Sócrates; Eutífron; Críton; Fédon. Tradução de Márcio Pugliesi e Edson Bini. 4. ed. São Paulo: Hemus, s/d.

PLATON. Oeuvres complètes. Tome troisième (Banquet; Phédon; Phèdre; Théétète; Parménide). Traduction par Émile Chambry. Paris: Editions Garnier Frères, 1939-47. 8v.

 

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