Música e Paz: Imagine

Música e Paz: Imagine

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jun. 2020

            A música, como todas as outras artes, influencia de alguma forma a sociedade e compositores e cantores há que utilizam esta forma de expressão artística como crítica social. Considerando, por exemplo, o tema da paz, são várias as canções, nacionais e internacionais, que levam seus ouvintes e cantar e refletir sobre o tema. Entre as Músicas Nacionais podemos citar como exemplo: Paz (Gabriel o Pensador) – A Paz (Gilberto Gil) – Eu Eternamente Cantarei a Paz (Natiruts) – Pela Paz (Titãs) – Soldado da Paz (Paralamas do Sucesso) – Eu Vou Torcer (Jorge Ben Jor); e entre as Músicas Internacionais: What a Wonderful World (Louis Armstrong) – We Want Peace (Lenny Kravitz) – Give Peace a Chance e Imagine (John Lennon) – Peace (Norah Jones) – Peace in a Time of War (SOJA) – Peace On Earth (U2) – Give Me Love/Give Me Peace On Earth (George Harrison) – One Love/People Get Ready (Bob Marley) – Cry (Michael Jackson) – Peace Be Revenged (Serj Tankian) – Peace & Love, Inc. (Information Society) – Peace (Weezer) – Pipes of Peace (Paul McCartney) – A Little Peace (Elton John) – Peace is Free (Black Stone Cherry) – Peace and Love (Fountains Of Wayne) – We Are The World (USA For Africa) – What’s so funny ‘bout/Peace Love and Understanding (A Perfect Circle).

            Neste texto daremos uma ênfase maior à música Imagine, porque não se trata apenas da letra de uma música, mas também do fato de que seus autores, John Lennon e Yoko Ono, se tornaram reconhecidos mundialmente por causa do seu ativismo social. Mas antes de falar sobre a música, vejamos um pouco da história de seus autores (após 46 anos, Yoko Ono foi finalmente reconhecida como co-autora do clássico, como afirma a notícia do Jornal Estadão, 2017).

 

John Lennon e Yoko Ono

            John Lennon dispensa apresentações. Um dos guitarristas e vocalistas de uma das bandas mais famosas de todos os tempos, The Beatles. Neste texto iremos enfatizar um aspecto da vida de Lennon ligado as causas sociais e políticas, em conjunto com sua esposa Yoko Ono. Ambos ficaram conhecidos pelo seu ativismo político e social, com manifestações anti-guerras e luta pela paz. Com o casal, o ativismo político da década de 1960 em diante ganharia “duas figuras de peso, que fizeram de suas produções artísticas um meio de expor aquilo que defendiam e em que acreditavam, mesmo que divergisse do pensamento de líderes dos movimentos sociopolíticos” (MILANI, 2018, p. 193).

            Para Nunes e Arantes (2014, p. 381), John Lennon “Sempre se apresentou como o beatle mais intelectualizado e disposto a falar sobre política e comportamento”. E embora Lennon fosse considerado um artista rebelde e de vanguarda desde o início dos Beatles, é a partir de 1968 que “o cantor passou a ser considerado, além de músico e intelectual, porta-voz de sua geração, imagem que ficou para a posteridade” (NUNES; ARANTES, 2014, p. 381).

            Em 1969 Lennon se casa com Yoko Ono e diante dos olhares estarrecidos da imprensa a lua de mel do casal foi transformada em um ato de luta pela paz. Jornalistas, repórteres, radialistas, foram convidados para ir o quarto da lua de mel do casal na suíte do hotel Hilton, em Amsterdã: “Yoko e John surpreenderam a todos que abriram a porta da suíte, pois os viram na cama, de pijamas e com o quarto repleto de flores e cartazes com mensagens de cunho pacifista, iniciando a manifestação que chamaram de bed-in” (MILANI, 2018, p. 200).

            A partir de 1971 Lennon teve que lidar a possibilidade de ser deportado dos estados unidos pelo governo Nixon, por causa de suas críticas à Guerra do Vietnã. Give Peace a Chance se tornou o hino de oposição à Guerra do Vietnã e até um hino em prol da paz mundial, gravada no mesmo do episódio bed-in, “numa espécie de mantra pacifista” (MILANI, 2018, 201) com o refrão: All we are sayng is give peace a chance.

            De 1971 é também a composição de Power to the People (Poder para o povo): “Composição especialmente importante na trajetória política de Lennon [...] quando é irrompido o espírito revolucionário. A música critica as condições de trabalho e preconiza a derrubada dos seus exploradores em favor do poder para o povo” (NUNES; ARANTES, 2014, p. 384). Nunes e Arantes (2014, p. 384) destacam nesta música um trecho que deve ter tido a influência de Yoko Ono, quando ressalta o discurso feminista na passagem:  “Vou te perguntar, camarada e irmão/ Como é que você trata a sua própria mulher em casa / Ela tem de ser ela mesma/ Para poder se entregar”.

            Como vemos, algumas de suas canções foram adotadas como hinos não apenas pelo movimento anti-guerra mas também pelos movimentos de contracultura da época.

            Assassinado por um fá em Nova York em 1980, John Lennon “continua atraindo uma legião de fãs que carregam na memória suas mensagens sobre um mundo melhor, calcado na paz e no amor” (SARMENTO, 2006, p. 10).

            Yoko Ono, por sua vez, que está perto de fazer 90 anos, continua com seu ativismo, participando de diferentes causas como a luta contra o fracking, a discutida técnica de extração de hidrocarbonetos. Yoko Ono foi a líder deste movimento em Nova York e promoveu a iniciativa Artistas contra o fracking. Atuou também na defesa do fundador do Wikileaks, Julian Assange.

 

Imagine 

            Imagine faz parte do álbum de título homônimo, de 1971. É sem dúvida um dos grandes sucessos de John Lennon “que trazia uma letra utópica, de um mundo ideal, sem nenhum ‘país’, ‘religião’, ‘posse’, ‘nada pelo que matar ou morrer’, ‘sem necessidade de ganância ou fome’ onde as ‘pessoas viveriam em paz’” (MILANI, 2018, p. 204).

            Além de ressaltar a possibilidade de uma vida de paz, a música traz muitas outras críticas: “Ela questiona vários pontos, desde a organização social até o comportamento egoísta das pessoas, passando pelo capitalismo, o extremismo religioso e a xenofobia” (FERNANDES, 2019).

            Uma de suas estrofes pode ser vista como um clamor à uma proposição de uma nova ordem mundial: sem países, religiões, sem divisões sociais e políticas. “[...] a música se refere à possibilidade de um mundo sem fronteiras políticas, que fosse igualmente compartilhado por todos [...] Um mundo integrado, em que todos se tratassem como iguais e vivessem em paz” (FERNANDES, 2019 – grifo da autora).

            O refrão da música fala de um sonhador. Pois um mundo assim parece, de fato, apenas um sonho. Mas quem não é um sonhador? Quem nunca sonhou com a utopia de um mundo melhor? Desde Platão até Thomas Morus, sempre existiram sonhadores. Como Raul Seixas, que dizia que “sonho que se sonha só/ é só um sonho que se sonha só/ mas sonho que se sonha junto é realidade”, Lennon acreditava que existiam outros sonhadores como ele e que a união das pessoas com pensamento positivo poderia concretizar a imagem de um mundo melhor como proposta pela música. Mas para isso, ao invés de planejar nossas ações pensando em recompensas futuras no paraíso, Imagine propõe uma vida focada no presente. 

            Imagine é sobre algo que ainda não existe de verdade em lugar nenhum. Um mundo que só existe se nós imaginarmos. Mas quem sabe, se nós imaginarmos juntos, não possamos transformas este sonho em realidade.

 

Referências Bibliográficas

ESTADÃO. 'Imagine' é oficialmente uma música de Lennon e Yoko, comemora o filho Sean Lennon [on line]. O Estado de S. Paulo, 14 de junho de 2017.

FERNANDES, Camila. Confira a análise da musica Imagine, de John Lennon [on line]. Letras, 7 de novembro de 2019.

MILANI, Vanessa Pinorato. ‘We all want to change the world’: John Lennon, Yoko Ono e a Nova Esquerda. Idéias, Campinas-SP, v.9, n.2, p. 189-208, jul./dez. 2018. Acesso em: 15 jun. 2020.

NUNES, Roseli Coutinho dos S.; ARANTES, Valério José. Influência de Marx nas músicas de John Lennon. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, nº 57, p. 378-387, jun., 2014. Acesso em: 15 jun. 2020.

SARMENTO, Luciana Villela de M. Ticket to ride: as tensões entre contracultura e consumo nas letras de músicas dos Beatles. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social), Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do RJ (PUC-Rio), Rio de Janeiro, 2006.

 

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