O Estado de Exceção e a Violência contra Mulheres e Jovens em Parintins

por Gustavo Passaneli

postado em set. 2018

            Nos últimos meses de 2018, os noticiários locais relataram vários casos de suicídio e homicídios entre jovens e violência contra as mulheres. Na sexta feira (25.08), Parintins (cidade do Estado do Amazonas localizada a 369km da capital Manaus) amanheceu com a notícia do brutal feminicídio da Jovem Daniela. Estudante do Colégio CETI de Parintins. A jovem foi encontrada morta depois de ter sido violentada, a polícia prendeu um suspeito e a investigação, até o momento, não foi concluída.

            O colégio CETI, onde Daniela estudava, passa por dificuldade esse ano, teve as atividades suspensas por falta de merenda, logo em seguida uma justa greve dos professores suspenderam as aulas por quase um mês. A situação foi regularizada, mas os alunos ainda reclamam da falta de estrutura no colégio.

            Segundo o relatório do Banco Mundial, 11 milhões de jovens brasileiros, entre 15 e 24 anos, nem estudam e nem trabalham. Desses 11 milhões, 59,1% são meninas. Um número significativo, o relatório alerta o risco desses jovens frequentarem a extrema pobreza na idade adulta. Sobre esses dados, a cientista social alemã, Mirian Muller, diz: “A culpa não é dos jovens. O estudo mostra que algumas condições relacionadas à pobreza e ao gênero produzem um conjunto de barreiras difíceis de superar. Essas limitações prejudicam sobretudo as mulheres, que se veem afetadas na capacidade de imaginar seus futuros, perseverar e ter resiliência”.  

            E o que isso tem haver com os casos de suicídios de jovens e o feminicídio de Daniela? Tudo! Alguns comentários em Rede Social trataram de julgar a jovem, criminalizando-a pelo fato de estar em bar acompanhada de “amigos” e pelo suposto envolvimento com Drogas. Daniela é uma vítima, não só dos seu algozes, mas também do desastre econômico promovido pelo atual governo e seus aliados. Em tempos de guerra, e no mundo há muitas, jovens, crianças, grupos étnicos e mulheres, são os primeiros, e os que mais sofrem. O elo mais fraco da corrente sempre é o primeiro a arrebentar.

            É preciso ficar sempre de vigília, pois basta uma crise econômica, política ou social, para que os direitos das mulheres e dos jovens sejam os primeiros a serem retirados. São os primeiros a perderem os seus empregos, a terem seus salários rebaixados, a perderem direitos com cortes das verbas para saúde e educação pública de qualidade.

            São as mulheres que suportam as filas dos hospitais a procura de socorro para seus filhos, são elas as primeiras a caírem no mercado informal em busca de uma renda extra para alimentar sua família, pagar o aluguel. São elas que são violentadas em casa pelo marido, vizinho, parente, namorado, que no caos social, muitas vezes, embriagados pelo álcool e o fumo, mostram o seu pior lado! Não à toa, são as primeiras a irem as ruas manifestar sua raiva e seu descontentamento.

            Na Comuna de Paris, as mulheres desempenharam um papel especial organizando os batalhões. Na revolução Russa de 1917, foram elas as primeiras a saírem as ruas, em marcha convocando uma grande greve geral que iria abalar o mundo. Ficaram famosas na Guerra Civil Espanhola, lutando ao lado dos republicanos. Rosa Luxemburgo, Alexandra Kollontai, Anita Garibaldi, entre outras milhares de lutadoras sociais que, ao lado de companheiros de classe, enfrentaram o seu opressor.

            No Brasil de 2018 não tem sido diferente.

            O Brasil pós golpe é um país em ruínas, 61% por cento das crianças e adolescentes até 17 anos, segundo a UNICEF, vivem na pobreza ou estão privados de um ou mais direitos, como água, educação, saneamento, moradia e proteção contra o trabalho infantil. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (PNAD) concluiu que falta trabalho para 27 milhões de brasileiros entre desempregados, subocupados e desalentados.

            A “Ponte do Futuro” que o governo Temer prometeu aos brasileiros após o impeachment da presidenta Dilma, não reserva nenhum futuro a juventude, e menos ainda as mulheres jovens. Falta escola e emprego, sobra drogas e violência.

            É preciso fazer um exercício muito grande para isolar os fatos, achar que o aumento de suicídio de jovens e a violência contra as mulheres não tem relação com a política econômica  do governo atual e seus golpistas. Subserviente ao Mercado até a medula, o ilegítimo presidente, desde que assumiu o cargo não faz outra coisa que não seja cortar orçamento de políticas públicas, reduzir salários, acabar com direitos e entregar o patrimônio nacional.

            Em Parintins, mulheres comovidas pela notícia feminicídio de Daniela, organizaram um ato espontâneo pelas redes sociais. O ato contou com a presença de centenas de pessoas, a grande maioria, que se reuniram na praça para pedir o fim da violência. Segundo as organizadoras, o ato é apartidário.

            Não podemos pensar no caos social que se encontra nossa cidade e país, sem levar em consideração o nosso cenário político que está diretamente relacionado com o crescimento da violência e a miséria que acomete a juventude e aniquila a voz das mulheres. Como dizer que é apartidário, e fazer campanha a Omar Aziz? Um dos parlamentares do amazonas que, fiel ao governo atual, votou a favor da reforma trabalhista, da PEC do teto que congela os investimentos públicos em 20 anos. Esse senhor tem responsabilidade no caos social que tomou conta de nosso país, ele e outros. A lista é extensa.

            Em tempos que é preciso reestabelecer a democracia para tirar o país do estado de exceção, a começar libertando Lula de sua injusta prisão, em tempos que a censura corre solta nos jornalões tentando influenciar as eleições sem nenhuma cerimônia. O que mais precisamos fazer é tomar partido, e do lado certo. O  partido dos oprimidos, dos jovens, das mulheres, dos negros, índios e quilombolas. O Partido das Danielas, que foi jogada na vala em todos os sentidos. O Partido dos Trabalhadores.

 

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