O menino, a foto, o ano novo e as velhas questões sociais

O menino, a foto, o ano novo e as velhas questões sociais

por Luana Pantoja Medeiros

            A foto do menino nas águas da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, assistindo a queima de fogos de réveillon, repercutiu nas redes sociais e viralizou, dividindo opiniões de diferentes pontos de vista, e cedeu lugar ao debate sempre atual, as questões socioeconômicas e raciais.

Disponível em: El País

Um menino observa os fogos na virada de ano novo em Copacabana.

Acesso em 08/01/2017

 

            O que fazia um menino negro, aparentemente desacompanhado, de costas para as pessoas na praia, olhando para o céu, assistindo a queima de fogos? Seria a foto do menino, a cara do nosso país? De um ângulo, o Brasil que festeja sorridente, em seus smartphones, fotografias coloridas, e de outro, o Brasil cinzento, melancólico, preto e branco?

            A reportagem do programa Fantástico, exibido em 07. 01. 2018, entrou em contato com o fotógrafo responsável pelo clique viral, Lucas Landau, que disse em entrevista que conheceu o menino 5 dias após a foto ser publicada, e logo o mistério foi desvendado. O menino se chama Leonardo, é morador de uma favela do Rio de Janeiro, estava com a mãe e mais três irmãos na praia, naquele dia.

            Não é uma simples questão de ser um menino negro, e muitos comentários nas redes sociais ainda transformaram a questão em racismo reverso, o fato é que a imagem mexeu com as pessoas, de alguma forma tocou os sentimentos, porque é mais que uma foto, é uma realidade estampada no rosto de uma criança.

            O menino Leonardo estava acompanhado de sua família, e realmente é uma linda fotografia, que transmite em paradoxo, um misto de beleza, melancolia, tristeza, angústia, e principalmente por estarmos atravessando um momento tão difícil no Brasil, cada dia mais miserável, cada dia mais injusto, cada dia mais inóspito, para a grande maioria da população pobre, negra e da classe trabalhadora.

            A fotografia do menininho, capturada do lado daqui, mostrou o ângulo escondido, o ângulo silenciado, o ângulo que ofende, que estraga a felicidade e a celebração de uma festa linda como a chegada de um ano novo. Talvez, se fosse uma criança branca, a foto não teria causado tanta polêmica, porque as festas de fim de ano sempre são  retratadas pela mídia de uma forma fantasiosa, uma esperança e felicidade plena e branca. Mas uma criança negra, da favela, revelou os dois lados da moeda.

            Como nas palavras do jornalista Carlos Heitor Cony, falecido no dia 5 de janeiro deste ano, na crônica escrita em 2010 e interpretada por Pedro Bial no programa Fantástico, “o menino é o próprio ano novo”, digo que o menino é o próprio ano novo brasileiro.  Um ano a mais para os afortunados, um ano a menos de vida para cada um de nós, e para o Brasil, é mais um ano que as diferenças sociais são evidenciadas na cor da pele. O Brasil é preto e branco como a fotografia de Landau. E parafraseando Darcy Ribeiro em “O povo brasileiro”, o Brasil desse menino é só mais um entre tantos Brasis.

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