Paramahansa Yogananda

Paramahansa Yogananda

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em: mai. 202

 

            Paramahansa Yogananda (1893-1952) foi um sábio guru indiano e considerado um dos maiores emissários da antiga filosofia da Índia para o Ocidente. Fundador da Self-Realization Fellowship (SRF), com sede em Los Angeles, cidade do Estado da Califórnia nos Estados Unidos. Sua obra Autobiografia de um Iogue se tornou um best-seller e imortalizou a história do sábio guru.

          Lahiri Mahasaya, mestre da linhagem espiritual da Kriya Yoga (ver mais adiante), profetizou ao ver a criança, quando ainda se chamava Mukunda Lal Ghosh (seu nome de batismo): “Mãezinha, seu filho será um iogue. Semelhante a uma locomotiva espiritual, conduzirá muitas almas ao Reino de Deus” (YOGANANDA, 2001, p. 20).

           Aos 17 anos de idade, em 1910, teve o encontro com seu mestre espiritual, Swami Sri Yukteswar. Em 1915 fez os votos formais e entrou para a ordem monástica dos Swamis, quando então passou a ser chamado de Yogananda, que significa bem-aventurança (ananda) através da união divina (yoga).

           Em 1917, Yogananda fundou a escola “Arte do Viver” (Yogoda Satsanga Brahmacharya Vidyalaya ou Yogoda Satsanga Society), onde os métodos educacionais eram combinados com treinamento em yoga e com ideais espirituais. Esta escola iniciou apenas com um grupo de sete crianças em uma pequena localidade rural de Bengala e, no ano seguinte foi transferida para a cidade de Ranchi (a 320km de Calcutá) Em sua Autobiografia, ele fala da necessidade de uma educação que não visasse apenas ao corpo e o intelecto:

Educação adequada para a juventude era um ideal que eu sempre acalentara em meu coração. Via claramente os áridos resultados da instrução comum que visa apenas ao desenvolvimento do corpo e do intelecto. Os valores morais e espirituais, sem cujo apreço nenhum homem pode encontrar a felicidade, ainda estavam ausentes dos programas acadêmicos. Decidi fundar uma escola onde os meninos pudessem se desenvolver até sua plena estatura de homens (YOGANANDA, 2001, p. 272).

            As aulas em Ranchi incluíam no programa educativo dos cursos primários e secundários aulas de meditação yogue e aulas para o desenvolvimento da saúde e do corpo, chamado de Yogôda. “Os jovens de Ranchi corresponderam amplamente ao tratamento Yogôda [...] Realizavam proezas de força e resistência que muitos adultos vigorosos não conseguiam igualar” (YOGANANDA, 2001, p. 272). Uma questão interessante, ressaltada por Oliveira (2007 p. 148), a respeito da “escola de como viver” de Yogananda, é que ela “Não tem matrícula nem muros definidos, faixa etária específica, exigência de escolaridade ou data pra conclusão, mas tem notas colhidas em cada evento da existência). A escola fundada por Yogananda “tem como foco principal a aquisição do conhecimento pela via da experiência, com resultados conhecidos mediante o estudo da vida de muitos de seus praticantes, e com potencial de verificação pelo educando em sua própria vida” (OLIVEIRA, 2007, p. 153). A experiência tem, assim, um papel fundamental no processo de aprendizagem. A verdade se conquista através da experiência. Cada experiência proporciona novas conjecturas, que por sua vez levam a novas experiências. A teoria pode até antecipar experiências não realizadas, mas é a experiência que confirma ou contradiz o especulativo. Temos, assim, uma “pedagogia espiritual fundada em bases científicas, capaz de abranger o ser em sua totalidade, mediante o desenvolvimento ordenado de corpo, mente e espírito” (OLIVEIRA, 2007, p. 155).

          Em 1920, Yogananda vai para os Estados Unidos, participar de um Congresso de líderes religiosos onde discursou com o tema “A Ciência da Religião”. A palestra foi um sucesso e Yogananda foi convidado a dar uma série de outras palestras em diversas cidades americanas.

           Neste mesmo ano, funda a Self-Realization Fellowship (SRF) ou Sociedade da Autorrealização.

           Em 1935, ao retornar a Índia depois de uma longa viagem pela Europa e Palestina, seu guru, Sri Yukteswar lhe confere o mais elevado título espiritual da índia: Paramahansa (Supremo Cisne), que significa: aquele que manifesta o estado maior de comunhão ininterrupta com Deus. “Literalmente parama, o supremo, e hansa, cisne. O cisne branco é representado mitologicamente como veículo ou montaria de Brahma, o Criador” (YOGANANDA, 2001, p. 431 – grifo do autor). Um ano depois Yukteswar entra no estado de mahasamadhi (a saída consciente final do corpo realizada por certos mestres).

         Em seus ensinamentos Yogananda defendia a unidade das religiões e que todas, de alguma forma, tinham como objetivo resgatar a essência da divindade no homem. Mas para resgatar essa essência era necessária a experiência direta da verdade através da intuição da alma em oposição à fé cega.

            Só a intuição da alma nos permitirá conhecer a Deus. Além da intuição, Yogananda fala do método da Kryia Yoga: uma técnica de meditação como um meio para auxiliar as pessoas a alcançar o entendimento e a autorrealização, bem como a Consciência da unidade com o Criador, que Yogananda chamada de a Consciência Crística.

          Outra importante característica de seus ensinamentos foi a forma como procurou conciliar as doutrinas do ocidente e do oriente. Yogananda fala que foi através do seu mestre, Sri Yukteswar, que ele adquiriu uma nova visão da Bíblia cristã e aceitou a missão de “demonstrar a harmonia entre a ciência original da yoga ensinada por Bhagavan Krishna e os ensinamentos originais do Senhor Jesus” (YOGANANDA, 2015, p. 42), razão pela qual veio para ocidente e fundou a SRF, nos Estados Unidos.

          Ao concretizar esta missão, Yogananda aproximou estas duas visões de mundo, aparentemente distintas, mas que, em essência, apontam na direção de um mesmo caminho de realização espiritual. Tanto a mensagem do Cristo quanto a chamada ciência iogue da união divina apresentada por Krishna constituem o que Yogananda (2015, p. XXI – grifo no original) chama de “o summun bonum do caminho da realização divina”.

          Há quem possa acreditar que se trate de duas visões de mundo completamente diferentes. Aqui, no entanto, preferimos adotar a visão do filósofo e teólogo brasileiro, Huberto Rohden, segundo o qual, “Essas duas filosofias não são contrárias uma à outra – são complementares, e só a sua fusão orgânica é que pode dar uma filosofia completa e definitiva” (ROHDEN, 2013, p. 11).

 

A Ciência da Kriya Yoga

            A técnica de Kriya Yoga é, talvez, um dos mais importantes ensinamentos que encontramos na obra de Yogananda. A ciência da Kriya Yoga, como chama Yogananda, significa: “união (yoga) com o Infinito por meio de certa ação ou rito (Kriya)” (YOGANANDA, 2001, p. 214).

          Kriya Yoga é uma técnica científica para alcançar consciência de Deus que se fundamenta no exame empírico de exercícios de respiração, concentração e meditação. Por que técnica científica? Por que consiste em uma técnica que pode ser experimentada por todos e, assim, poder comprovar a verdade de seus ensinamentos. Yogananda pensava na Kriya Yoga e na Autorrealização como ciência, porque é um processo empírico, que pode ser testado e experimentado. Kriya Yoga é a ciência da realização divina por meio da meditação. É uma ciência, a ciência da alma e do espírito, de como a alma desceu da consciência cósmica, para a Terra, para o corpo e para os sentidos. Cada indivíduo pode experimentar a verdade por meio da Kriya Yoga, “alcançar o inabalável conhecimento de que ele é essa grande Luz e Consciência do Espírito” (YOGANANDA, 2015, p. 278, v. 1). Podemos definir ainda a Kriya Yoga:

um método simples, psicofisiológico, pelo qual o sangue humano se descarboniza e volta a oxigenar-se. Os átomos deste extra-oxigênio transmutam-se em corrente vital para rejuvenescer o cérebro e os centros da espinha. Sustando a acumulação de sangue venoso, o iogue pode diminuir ou evitar a degeneração dos tecidos. O iogue adiantado transmuta suas células em energia (Autobiografia, versão pdf, p. 214).

            Através da técnica da Kriya Yoga, o iogue aprende a controlar a força vital, como ensinado no Bhagavad Gita (4, 29) e nos Yoga Sutras de Patanjali (11:49). O iogue mentalmente guia a força vital, energizando seu corpo e suas células, que são renovadas por um elixir espiritual.

O Kriya Yogi dirige mentalmente sua energia vital para cima e para baixo, a fim de fazê-la girar em torno dos seis centros espinhais (plexos medular, cervical, dorsal, lombar, sacro e coccígeo), correspondentes aos doze signos astrais do Zodíaco, o Homem Cósmico simbólico. Meio minuto de revolução da energia ao redor do sensitivo cordão da espinha, efetua progressos sutis na evolução do homem; esse meio minuto de Kriya equivale a um ano de desenvolvimento comum (Autobiografia, versão em pdf, p. 217).

 

Referências

OLVEIRA, José Arnóbio A. de. As Contribuições de Paramahansa Yogananda à Educação Ambiental Holística. Dissertação (Mestrado em Educação), Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, 2007.

ROHDEN, Huberto. O Espírito da Filosofia Oriental. 3. ed. São Paulo: Martin Claret, 2013.

YOGANANDA, Paramahansa. A Segunda Vinda de Cristo: A ressurreição do Cristo interior. Traduzido pela Self-Realization Fellowship. Los Angeles: Self-Realization Fellowship, 2015. v. 1.

____. Autobiografia de um Iogue. Traduzido pela Self-Realization Fellowship. Los Angeles: Self-Realization Fellowship, 2001.

____. Autobiografia de um Iogue. Traduzido pela Self-Realization Fellowship. Los Angeles: Self-Realization Fellowship. (versão em pdf)

 

 

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