Filosofia Oriental

 

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em: abr. 2020
 

 

            Se considerarmos a filosofia em um sentido amplo, a partir do significado da palavra amor à sabedoria, dificilmente poderemos dizer que existe apenas uma filosofia: a filosofia que se origina na Grécia Antiga. A busca pela sabedoria não é algo exclusivo dos gregos e nem tampouco da civilização Ocidental. Por outro lado, se considerarmos a filosofia em um sentido restrito, há uma tendência em não reconhecer a filosofia oriental vendo a filosofia apenas como uma manifestação da razão ocidental que não encontra correlato no oriente. O filósofo alemão Hegel é um destes pensadores que, em suas Preleções sobre a História da Filosofia, considera a filosofia oriental apenas como uma religião.

Em primeiro lugar está a assim chamada filosofia oriental. Mas, ela não entra no corpo e no âmbito de nossa apresentação, ela é apenas algo provisório de que temos de falar, para dar uma justificativa, porque dela não nos ocupamos mais extensamente e quais as relações em que está com o pensamento, com a verdadeira filosofia (apud SPROVIERO, p. 2).

            Pode-se ressaltar, como Hegel, que o pensamento oriental está invariavelmente vinculado à religião, aos costumes e tradições e, por isso, não seria propriamente uma filosofia. Mas e o que dizer dos três grandes mestres da filosofia grega: Sócrates, Platão e Aristóteles? Cujo pensamento aparece diretamente ligado com questões metafísicas, embora despida de dogmas e rituais religiosos? Sócrates e o seu daimon; Platão e o mundo das ideias; Aristóteles e o primeiro motor imóvel. Talvez se possa dizer que o pensamento oriental seja muito mais religião do que uma filosofia, mas daí a negar um caráter filosófico ao pensamento oriental vai uma distância profunda pois no oriente não encontramos apenas questões de caráter religioso (ainda que vinculado a este).

Assim como a filosofia grega antiga dizia respeito ao homem e à sua relação com a sociedade, a filosofia indiana antiga também diz respeito ao homem e à sua relação com a sociedade; e assim como os insights gregos são úteis até os dias atuais, a filosofia indiana também pode contribuir muito com nossa compreensão do universo interior e exterior do indivíduo (BELUZZI, 2015, p. 101).

            Para aqueles que defendem uma forma ortodoxa de pensar a filosofia (de que só há filosofia no ocidente), não é demais lembrar como o pensamento oriental influenciou, de alguma forma, o pensamento ocidental, e isto desde as origens da filosofia. A partir de algumas fontes antigas, como Diógenes Láercio e Plutarco, Silva (2018) faz uma análise de como filósofos como Pitágoras (que viajou para a Babilônia, o Egito e teve uma relação muito próxima com o oriente, sobretudo a Índia), Demócrito (cuja doutrina atomista se assemelha a dos sábios indianos), Pirro (e a questão agnóstica sobre a suspensão de juízo, epokhê, à respeito da divindade) e Plotino sofreram influência dos “sábios nus” da Índia. Os Gimnosofistas (sábios nus) eram originários do pensamento jainista: “Entre as primeiras referências aos Gimnosofistas na Filosofia antiga, temos a denominação de ‘filósofos bárbaros’, que remonta ao historiador grego Diógenes Laércio (séc.III), em sua obra ‘Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres’” (SILVA, 2018, p. 104).

            E como não ver no famoso conhece-te a ti mesmo que tanto influenciou Sócrates uma forma similar de pensar a realidade que está diretamente relacionada com a visão budista? Conhece-te a ti mesmo era o caminho que o filósofo grego indicava como necessário na busca do bem e da verdade. Esta frase, no entanto, não é de Sócrates, era uma inscrição gravada em Delfos no templo do Deus Apolo. Da mesma forma temos no budismo uma doutrina de crescimento espiritual que inclui a prática da concentração e da meditação. Ao desenvolver uma prática meditativa de observar nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos realizamos um verdadeiro trabalho de autoconhecimento, tão necessário ao caminho de autotranscedência e iluminação.

            Considerando Leibniz como o primeiro filósofo alemão que teria escrito sobre a filosofia chinesa, Florentino Neto (2012) destaca a publicação da coletânea Novissima Sinica e o Discours sur la théologie naturelle des chinois – este escrito em forma de carta –, como os principais escritos de Leibniz sobre a China. Esta carta foi escrita “em resposta à carta de Rémond (Leibniz, 2002, p. 5), que lhe enviara, na mesma correspondência, três outros tratados, pedindo-lhe que se posicione sobre suas diferentes posições” (id., ibidem, p. 107). A posição a que Rémond se refere é sobre a querela dos rituais que, ao se referir sobre a possibilidade de catequização e conversão dos chineses ao cristianismo, debatia a tese da compatibilidade ou incompatibilidade dos rituais chineses com os princípios do cristianismo.

            A contemporaneidade por sua vez foi palco de um avanço e abertura entre as duas culturas, orientais e ocidentais, o que ampliou a possibilidade de diálogo de pensadores de ambas as tradições, como é o caso de filósofos da envergadura de um Schopenhauer (FARIA, 2010) ou Nietzsche (MEROLA, 2013).

            A partir de tais considerações passemos então a conhecer um pouco mais esta Filosofia Oriental.

Budismo

            O Budismo se tornou dominante na Índia por quase toda a totalidade do primeiro milênio da nossa era. Hoje, no entanto, se encontra muito mais disseminado em outros países como Sri Lanka, Tibet, Butão, Mianmar, Tailândia, Laos e Camboja. O Budismo tem origem com Sidarta Gautama, o Buda, que viveu entre os séculos VII e VI a. C.. Esta expressão “Buda” significa em sânscrito “o desperto” ou “o iluminado”.

            Os sutras (discursos de Buda), “escritos a partir de seus discursos orais [de Buda] pelos seus alunos” (BELUZZI, 2015, p. 97), são considerados os textos base de toda a filosofia budista. Temos também os shastras (que na verdade constituem de comentários dos sutras). “Compõem o Tripitaka [cânon budista] textos sobre a doutrina (Sutra Pitaka), a disciplina monástica (Vinaya Pitaka), bem como aqueles de caráter filosófico e psicológico (Abhidharma Pitaka)” (DINIZ, 2010, p. 95).

            Sobre a ideia de se temos ou não uma filosofia budista, Paine (2007, p. 86) pondera que “[...] a mensagem original do Buda é tão filosófica que alguns comentaristas acham que nem se qualifica como uma religião, sendo melhor chamada de uma filosofia”. Diniz (2010, p. 89), por sua vez, considera que os ensinamentos budistas possuem não apenas um caráter psicológico, filosófico e moral, como “representa, ainda, uma tradição metafísica da qual emana uma sabedoria aplicável a vários instantes da existência”.

            Ao ressaltar a possibilidade de se pensar o Budismo como uma filosofia nos moldes ocidentais, Gouveia (2016, p. 192) destaca como o Budismo pode ser visto “enquanto uma tentativa de responder questões fundamentais sobre a existência, o conhecimento, a mente, os valores, a linguagem etc, de uma forma crítica e sistemática utilizando-se da argumentação racional”. “O que aproxima a filosofia e o budismo são a sabedoria e o questionamento crítico” (GOUVEIA, 2016b, p. 39).

            Temos também no Budismo uma análise do que seja a verdade, tão cara ao pensamento filosófico ocidental.

Quando, por exemplo, a filosofia budista divide a análise da verdade em dois níveis (s. dvasatya / t. bden pa gnyis), o da verdade absoluta/suprema (s. paramārtha-satya / t. don dam bden pa) e o da verdade relativa/ordinária (s. saṃvṛti-satya / t. kun rdzob bden pa) – assunto crucial dentro deste contexto filosófico (GOUVEIA, 2016, p. 193).

            Podemos também pensar na relação com a filosofia ocidental pela posição crítica do Budismo de não aceitar de forma dogmática qualquer ideia. Diz uma famosa citação atribuída ao Buda: “deve você examinar minhas palavras. Não as aceite apenas baseado em sua fé em mim” (BATCHELOR, 2011, p. 33). Esta ideia tem um aspecto racional, cuja “verdade” deve resistir aos testes da razão. E ainda segundo o próprio Buda:

Não acredites numa coisa simplesmente por ouvir dizer; não acredites sob a fé das tradições, pois elas são veneradas há numerosas gerações... Não acredites em nada através unicamente da autoridade de teus mestres ou sacerdotes. Crê no que tu mesmo experimentares, provares e reconhereces como verdadeiro, que esteja de acordo com teu bem e o dos outros, e conforma tua conduta a isso (CHALLAYE, 1998, p. 84 apud DINIZ, 2010, p. 90).

            Por tudo o que vimos até aqui, não há como negar que o Budismo seja uma proposta de pensamento filosófico, supondo que “a filosofia ainda tenha alguma relação com o seu sentido original de questionamento profundo sobre a natureza dos fenômenos, de amor à sabedoria, que é feito de forma sistemática e crítica, baseada também na argumentação lógica” (GOUVEIA, 2016b, p. 85).

            Embora algumas vezes seja dito que o Budismo prega uma religião sem Deus dando, por isso, a impressão de um certo ateísmo, há aqueles que preferem classificá-lo como agnóstico, ou seja, não de negação do Absoluto e sim, da nossa incapacidade de dizer algo sobre Ele. Mas, de modo geral, rejeita-se “a ideia de um ser supremo criador e gestor deste mundo, bem como renunciam a toda e qualquer forma de dogma” (DINIZ, 2010, p. 94).

            O Budismo se baseia em quatro grandes verdades ou quatro verdades nobres. Estas verdades se referem de modo direto a questão do sofrimento, suas causas, objetivos e de como se libertar do sofrimento. Paine (2007, p. 84) ressalta como estas quatro verdades se fundamentam: 1) na impermanência (constante e total mutabilidade das condições de um fenômeno) do sofrimento; 2) no desejo como causa do sofrimento que se relaciona com o karma; 3) na finalidade do sofrimento que constitui o apagamento dos desejos; 4) na via de retificação dos pensamentos e ações. Ferreira (2015, p. 13-14) destaca que o conhecimento destas verdades formam o caminho para iniciar uma jornada de transformação interior. Ao compreender a dor como um estágio necessário da existência (toda vida inclui sofrimento) e que nada ocorrer por acaso (o sofrimento tem, portanto, uma origem), passamos a aceitar melhor sua finalidade (todo sofrimento tem um fim), o que nos leva a quarta e última nobre verdade: a de que existe um caminho para se libertar da dor. Esse caminho, também chamado de O Caminho Óctuplo, é descrito como um caminho de crescimento espiritual que inclui a prática da concentração e da meditação. Ao desenvolver nossa capacidade de observar nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos passamos a entender porque agimos, pensamos e sentimos de tal forma em um verdadeiro trabalho de autoconhecimento, autotranscedência e iluminação.

Dalai Lama (2008) fala de dois tipos de meditação, a meditação analítica que reflete sobre as grandes questões, ou verdades da compreensão budista e a meditação concentradora que mantém o foco e concentração para o treinamento da mente. Para esta visão, uma mente dispersa não é capaz de possibilitar o desenvolvimento espiritual. Dalai Lama (2006, p.79) ressalta que: “Em todas as áreas do desenvolvimento espiritual, não importa qual seja seu nível, você precisa tanto de análise quanto de foco para alcançar os estados que busca.” (FERREIRA, 2015, p. 14).

            O Budismo tem também um aspecto ético fundamental ao ressaltar a prática da compaixão como caminho para o desenvolvimento espiritual. Compaixão que faz surgir o afeto e a solidariedade entre as pessoas, que transcende o mundo do individualismo em uma perspectiva do eu que é relacional: o eu existe em comunhão com os outros. Uma compaixão que tem a ver com “senso de responsabilidade. Ela é gerada quando nos damos conta de que as pessoas que sofrem ou não são felizes ou prósperas, querem a felicidade tanto quanto nós. Compaixão significa desenvolver uma preocupação genuína com elas” (DALAI LAMA, 1999, p. 51 apud FERREIRA, 2015, p. 16).

            Por fim cabe dizer algumas breves palavras sobre Nagarjuna (que viveu por volta do século II d. C.), considerado o maior filósofo da história do Budismo, que escreveu profundos comentários sobre o Budismo, sendo fundador da escola Madhyamaka de interpretação.

A natureza da existência é, segundo ele, rigorosamente relacional - não existem almas, coisas, nem conceitos que independem dessa rede; em si, coisas são vazias. Nagarjuna desenvolveu um tipo de dialética (chamado de prasanga, ocasião) que usa argumentos como ocasiões para destruir a ilusão de um absoluto (PAINE, 2007, p. 86).

 

Hinduísmo

            O Hinduísmo não tem uma autoridade suprema como um papa ou aiatolá. “Quem é hindu é assim porque nasceu hindu, já situado numa classe social, estritamente hierarquizada, que tem uma séria de deveres e direitos correspondentes” (PAINE, 2007, p 78).

            A tradição hindu se baseia, entre outras obras, no livro dos Vedas que, em sânscrito, deriva da raiz vid (विद्), que significa conhecer, escreve-se veda (वेद) no alfabeto devanágari e significa conhecimento. Veda é o nome dado a certas obras antigas as quais formaram a base da fé religiosa primitiva dos hindus.

            Os textos dos Vedas, atribuídos aos Ṛṣis (videntes ou poetas sagrados que os receberam por meio de visão diretamente do Criador Supremo), servem de fundamento do universo cultural, ético e religioso hindu. Os Vedas é composto de quatro obras ou livros do conhecimento (PAINE, 2007, p. 78-79; O ṚG-VEDA, 1866).

1) o Rg Veda (ऋग्वेद) ou veda dos hinos (rc ou rg = hino ou louvor), assim chamado porque sua Saṁhitā ou coleção de mantras ou hinos consiste em Ṛcas ou versos destinados à recitação em voz alta; é uma antologia de hinos sagrados, preces métricas, consiste de mais de mil hinos e contém a mais antiga parte dos textos; “também chamados Sūktas, – endereçados a diferentes divindades, – cada um dos quais é atribuído a um Ṛṣi, um autor santo ou inspirado” (WILSON, H. H. apud ṚG-VEDA SAṀHITĀ, 1866, p. 19).

2) o Sama Veda (सामवेद) ou veda dos cantos rituais (sāman = canto ritual), contém arranjos musicais dos hinos do Rg Veda e outras fontes;  “O Sāma Veda é pouco mais do que uma remodelação do Ṛc, sendo composto, com muito poucas exceções, dos mesmos hinos, divididos em partes, e organizados de nova maneira, com a finalidade de serem cantados em diferentes ocasiões cerimoniais” (WILSON, H. H. apud ṚG-VEDA SAṀHITĀ, 1866, p. 19).

3) o Yajur Veda (यजुर्वेद) ou veda do sacrifício (yajush = sacrifício), reúne as orações e fórmulas sacrificiais utilizadas pelos sacerdotes e difere do Rg Veda por ser uma coleção de fórmulas litúrgicas; “As preces, ou invocações, quando não emprestadas do Ṛc, são, a maioria, breves, e em prosa, e são aplicáveis à consagração dos utensílios e materiais da adoração cerimonial, assim como ao louvor e culto dos deuses” (WILSON, H. H. apud ṚG-VEDA SAṀHITĀ, 1866, p. 19).

4) o Atharva Veda (अथर्ववेद) é um conjunto de fórmulas mágicas e encantamento (atharvān = um tipo de sacerdote); o Atharva Veda, no entanto, pode ser “considerado antes como um complemento aos três, do que como um dos quatro Vedas” (WILSON, H. H. apud ṚG-VEDA SAṀHITĀ, 1866, p. 19), pois

Muitas passagens podem ser encontradas em escritos sânscritos, algumas nos próprios Vedas, que limitam o número [dos Vedas] a três; e não há dúvida que o quarto, ou Atharva Veda, embora ele se aproprie livremente do Ṛc, tem pouco em comum com os outros, em seu caráter geral, ou em seu estilo: a linguagem indica claramente uma época diferente e posterior (WILSON, H. H. apud ṚG-VEDA SAṀHITĀ, 1866, p. 19).

            Cantados durante rituais sagrados e recitados quotidianamente em comunidade védicas, o canto védico é considerado patrimônio cultural imaterial da humanidade pela UNESCO, desde 2003 (UNESCO, La tradition du chant védique). Os Vedas pertencem “à história do mundo e à história da Índia” (MÜLLER, F. Max apud O ṚG-VEDA, 1866, p. 43) e onde houver uma biblioteca ou museu que trate das relíquias das eras antigas ele terá sempre um lugar “naquela longa lista de livros que contêm os registros do ramo ariano da humanidade” (id., ibidem, p. 43).

            Além dos Vedas, temos também outro conjunto considerável de escritos (alguns que não tem origem com os rishis).

(“Manava-Dharmashastra”), regras rituais (“Vedangas”), textos éticos (“Niti-Shastras”), contos e lendas populares para os não letrados (as “Puranas”), poemas (“Itihasas”, “Kavyas”), e as duas grandes epopéias indianas (que lembram um pouco a “Odisséia” e a “Ilíada” homéricas): o “Ramayana” e o “Mahabharata” (PAINE, 2007, p. 79).

            Merece destaque também os Upanixades que apresenta um conjunto de preceitos que podemos considerar ao mesmo tempo religiosos e filosóficos como: atman (realidade fundamental do homem), brahman (realidade fundamental do mundo).

            A partir da tradição hindu é possível traçar paralelos entre a filosofia ocidental e oriental a partir das ideias de:

uma lógica e uma epistemologia (Nyaya), uma filosofia da natureza (Vaisheshika), uma hermenêutica e uma teoria de linguagem (Purvamimamsa), uma visão polar do cosmos em princípios que lembram ato/potência, ou matéria/espírito, na dualidade purusha/prakriti (Sankhya), uma psicologia de forças físicas e sutis no corpo humano e sua harmonização (Yoga), e uma metafísica (Vedanta) (PAINE, 2007, p. 81).

            Sobre os Vedanta podemos considerar Shankara (séc. VIII), Ramanuja (séc. XII) e Mahdva (séc. XIII) como autênticos filósofos. Shankara desenvolveu uma interpretação não dualista Vedanta.

Propondo um monismo rigoroso, ele negou tanto o conteúdo real de maya (o jogo das aparências), que foi acusado pelos outros dois grandes vedantins de ser um cripto-budista, pois para eles o absoluto, brahman, na interpretação de Shankara, não se diferenciava claramente do budista shunya (o vazio). Elementos aparentados com a filosofia plotiniana, o apofatismo de Pseudo-Dionísio, o minimalismo quanto à cognoscibilidade filosófica de Deus em Tomás de Aquino, abordagens de Espinosa e até de Kant e Hegel podem ser identificados (PAINE, 2007, p. 81-82).

            Ramanuja por sua vez é autor de comentários aos Brahma-Sutras e também adepto de um monismo cujo caminho da devoção pessoal (bhakti) seria o mais eficaz para obter a libertação (moksha).

            Madhva divergindo dos dois autores anteriores, é adepto do dualismo, que considera Brahman, o mundo e a alma como substâncias distintas (sendo que o mundo e a alma dependem da primeira).

 

Taoísmo

            O Taoísmo consiste, junto com o Confucionismo, nos dois grandes sistemas da tradição chinesa. A China é considerada como “A Terra do Três Ensinamentos”, por causa da influência do Budismo, incorporado à tradição taoísta e confucionista chinesa.

            O Taoísmo é um sistema filosófico que tem como base as ideias de Lao-Tsé ou Lao-Tzy (604-531 a.C.). Pouco se sabe acerca da sua história de vida, porém sua historicidade está presente através do seu livro Da Razão Suprema e da Virtude, o Tao-te King.

 

O tao jaz no fundo da religiosidade e da filosofia chinesas, como talvez o logos no pensamento europeu e dharma na filosofia indiana. Se a filosofia no mundo hindu tem, em suas raízes, uma tendência fortemente metafísica, e a filosofia budista um acento psicológico direcionada à experiência imediata, eu diria que a filosofia chinesa possui um coração não apenas profundamente ético mas também estético (PAINE, 2007, p 90).

            Em 666 d. C. Lao Zi foi canonizado pelo imperador da dinastia Tang com o título de Sublime Imperador de Mística Origem. Quase 400 anos depois, mais precisamente em 1013 foi-lhe acrescentado novo título, o de Sublime Senhor Lao, pelo imperador da dinastia Song.

 

Confucionismo

            O Confucionismo é derivado dos ensinamentos de Kong fu zi (551-479 a.C.) que quer dizer Mestre Kong. A forma latina derivada de Kong fu zi é Confúcio.

            São considerados como escritos confucianos os Seis Jing (seis livros sagrados ou seis clássicos): “o Shijing, o Shujing, o I Ching, o Lijing, o Chunqiu e o Yojing (livro da música, atualmente perdido)” (OLIVEIRA, 2007, p. 134); e os quatro livros da Escola de Confúcio. Temos ainda Os Analectos, uma obra escrita em forma de diálogo (entre Confúcio e seus discípulo), reunidos e compilados pelos alunos de Confúcio.

            O Confucionismo é uma filosofia que tem uma caráter eminentemente ético e moral e isto independente de questões religiosas. Temos também uma questão pragmática do conhecimento, pois para Confúcio, o conhecimento teórico de nada vale se não for colocado em prática. “Preocupado com a crise que se instalava nas insti­tuições da dinastia Zhou, sua resposta filosófica centrou-se na dis­cussão dos mais diversos tópicos relativos à política, aos costumes e à construção do conhecimento, difundido por meio de ampla pro­posta educativa” (OLIVEIRA, 2007, p. 134).

            A doutrina de Confúcio se baseia ainda na ideia de que a essência do ser humano é a boa vontade e que todos os homens nascem com as mesmas aptidões. Há uma forte valoração do papel da família e do amor filial. O bem é o princípio e fim da ação moral, além de que a política é considerada como o campo de efetivação da moral.

            No campo da ética Confúcio deu ênfase a conceitos como benevolência, simpatia e autocontrole: “o adepto confucionista exalta o autocontrole e a atitude de reserva que se expressa no ‘observa-te a ti mesmo’” (OLIVEIRA, 2007, p. 140). Além disso, “para o confucionista, a fonte de todo bem-estar está na harmonia da alma que, em contrapartida, sugere uma repres­são das diferentes formas de paixões para que não chegue a se romper o equilíbrio existente e desejado entre o ser e o Cosmos” (OLIVEIRA, 2007, p. 140).

            O Confucionismo visa entre outras coisas a organização da sociedade baseada no princípio da simpatia universal. Esta simpatia deve ser alcançada através da educação, e estender-se do ser humano à família e da família ao Estado (considerado como a grande família). Sobre a educação confucionista, Oliberia (2007, p. 140) pondera ainda que ela

busca formar homens com uma cultura universal, mas oposta às demandas racionais e especiali­zadas das tarefas administrativas, nos moldes ocidentais. O cavalheiro confucionista concebe sua educação como o Tao (“o caminho”) que o leva para a virtude e autoperfeição, e não para algo instrumental a ser­viço de um propósito utilitário específico (OLIVEIRA, 2007, p. 140).

 

 

Referências Bibliográficas

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MEROLA, Camila Rodrigues C. Sofrimento, a transvaloração da dor: o diálogo dos mundos ocidente e oriente a partir do conceito de Niilismo em Nietzsche. Dissertação (Mestrado em Filosofia), Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia-MG, 2013.

ṚG-VEDA SAṀHITĀ. Uma Coleção de Hinos Hindus Antigos, constituindo o primeiro Astaka, ou livro do ṚG-VEDA. Traduzido para o inglês por H. H. Wilson. Versões traduzidas para o português por Eleonora Meier. 2. ed. Londres, 1866.

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