Sócrates

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jul. 2018

            Sócrates nasceu na cidade de Atenas, em 470 ou 469 a.C. e a interpretação do seu pensamento tem grandes dificuldades já que ele nada escreveu, valorizando sobretudo o ensinamento oral. Conhecemos seu pensamento através de seus discípulos, Platão (com ênfase nos escritos de juventude de Platão, também conhecidos como diálogos socráticos) e Xenofonte (sua obra os Memoráveis e o Banquete), além da obra As Nuvens de Aristófanes (representada no ano de 423, quando Sócrates ainda era vivo) e os escritos de Aristóteles que fazem menção ao filósofo. Em relação ao Sócrates de cada um destes pensadores, Donini e Ferrari (2012, p. 75-76) ressaltam que elas apresentam um olhar legítimo e possível sobre a figura de Sócrates:

emergem quadros decididamente diferentes: para Aristófanes, Sócrates foi um sofista, aliás o protótipo do sofista do século V; para  Platão , ele foi o antissofista por excelência, isto é, o filósofo que dedicou toda a sua vida a mostrar a di­ferença (moral e intelectual) entre filosofia e sofística; para Xenofonte, Sócrates foi uma espécie de represen­tante do bom senso e encarnou, de certa forma, a respeitabilidade (e a moral) do cidadão ateniense do seu tempo; por fim, para Aristóteles, ele foi um filósofo da ética ao qual se atribuem alguns teoremas bem defi­nidos relativos sobretudo à relação entre virtude e co­nhecimento.

Disponível em: Slideshare, slide 22 Acesso em 22/07/2018

            Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas, orientando-a para os valores universais e morais, segundo a via real do pensamento grego, foi Sócrates. Sócrates dedicou-se à uma vida de reflexões e ao ensino filosófico, sem recompensa alguma, não obstante sua pobreza e manteve uma ligação muito estreita com a cidade de Atenas, desempenhando alguns cargos militares e civis e procurando sempre ser um modelo de bom cidadão. Sócrates atuou como hoplita (soldado da infantaria pesada) na Guerra do Peloponeso, combateu na Potidéia, onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium, onde carregou aos ombros a Xenofonte, gravemente ferido. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal, na moldura da alta cultura ateniense da época, em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles, agindo pela fala e por ela influenciando seus concidadãos: “e se um indivíduo se define como político na medida em que age e influencia os demais por meio da palavra viva, em ato (isto é, a fala), Sócrates foi sem dúvida o mais público, o mais político, o mais cidadão de todos os filósofos” (GOTO, 2010, p. 113-114 – grifo do autor). Sócrates era um filósofo de ação, em ação, um cidadão que conversa e discute com seus concidadãos, representando o livre pensar e a liberdade de expressão em uma sociedade marcada por ideais democráticos: na ágora (praça pública) da polis (cidade-Estado) ateniense. Um falar que não é apenas “discursar e apresentar argumentos para vencer um debate na assembleia e persuadir ouvintes, mas, justamente, agir – no pleno significado do agir político (e democrático) de denunciar o arbítrio e a violência e criticar seus autores” (GOTO, 2010, p. 114). É assim que Sócrates exerce sua cidadania, procurando despertar publicamente seus concidadãos para a vida justa.

            Essa retórica socrática vai na contramão daquele defendida pelos sofistas, que está a serviço de qualquer ideia, tanto a democrática quanto a oligárquica: o que importa é vencer o debate. A retórica sofística se propõe a defender com o mesmo brilho qualquer tipo de argumento, tendo como critério não o da verdade do argumento, mas o da eficácia no debate. A retórica socrática, por sua vez, visa ao conhecimento (episteme) e à prática da virtude (areté), além de um ideal de justiça preconizado pelo filósofo. Essa foi a tarefa que Sócrates tomou para si e que, segundo ele, tinha até um caráter divino: “o trabalho de Sócrates na polis, que consiste em interpelar a seus concidadãos e não abandoná-los à sorte no que diz respeito às questões sobre virtude, o saber e a vida boa, obedece a um comando divino” (GÓMEZ PÉREZ, 2017, p. 181 – tradução nossa). Sócrates está convencido de que o bem maior para o ser humano consiste em fazer discursos sobre a verdade, sobre a virtude e outros temas tão necessários a uma boa vida. A vida na polis exige isto de seus cidadãos, ou seja, não se pode ser cidadão e permanecer em silêncio. Renunciar a comunicação significa atentar contra os fundamentos da polis e da democracia. “Em outras palavras, se a polis é o espaço do comum, então ela exige comunicabilidade” (GÓMEZ PÉREZ, 2017, p. 184 – tradução nossa).

 

O homem é a sua alma

            O pensamento de Sócrates é bem característico de uma filosofia espiritualista, no sentido de alguém que se preocupa não tanto com as coisas materiais, mas cujo olhar se dirige, essencialmente, para o seu lado espiritual, para a sua alma[1]. Para Sócrates a essência do homem é a sua psyché, a sua alma.

Não tenho outra ocupação – diz Sócrates em sua Apologia – senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil aos homens, quer na vida pública, quer na vida privada.

            Assim, Sócrates, através do cuidado da própria alma, objetivava levar os homens a buscar o verdadeiro bem. Para Sócrates a alma (psyché) é o principal objeto de preocupação e de cuidado, pois sendo a alma sede da consciência e aquilo com o qual podemos determinar nosso caráter, é ela que manifesta nossa realidade interior, podendo ser sábia ou ignorante, justa ou injusta, boa ou má. Essa visão torna compreensível a tese de Sócrates de que virtude é conhecimento – como veremos logo adiante – pois Bom, é o homem autoconstruído a partir de sua interioridade e que age de acordo com as exigências de sua alma-consciência.

A filosofia socrática parte da necessidade de o indivíduo cuidar de sua alma, daí a alusão à inscrição encontrada no templo em Delfos, o famoso conhece-te a ti mesmo, que significa que devemos cuidar de nossa alma, cultivá-la la, o que é indubitavelmente mais importante do que bens materiais ou preocupações com a honra ou coisas semelhantes, pois é através de um processo de melhoria da alma, do conhecimento, que poderemos atingir a virtude (Apologia 29d-30c), e a sabedoria (Cármides 164d-e), que são as condições de possibilidade de todos os outros bens (HOBUSS, 2014, p. 84-85).

            Conhece-te a ti mesmo é o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral, o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. A psicologia serve-lhe de preâmbulo, a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. Sócrates tomou como missão para si a de ajudar os homens a se voltarem para o conhecimento de si mesmos, de se voltarem para o seu próprio interior, sua própria subjetividade, objetivando a conquista da própria alma.

            Sócrates traçou, em linhas gerais, o itinerário que depois seria percorrido por Platão e por Aristóteles de forma mais abrangente e sistemática. Estes dois filósofos, partindo dos pressupostos socráticos, desenvolveram uma obra monumental, que trata dos mais variados temas, inclusive da moral.

            No campo da moral, Sócrates reconhece também, acima das leis mutáveis e escritas, a existência de uma lei natural e universal – independente do arbítrio humano –, expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência, diferentemente do convencionalismo dos Sofistas.

            Vamos agora dizer algumas palavras sobre como Sócrates pretendia fazer seus interlocutores, depois de reconhecer sua própria ignorância, podiam chegar ao conhecimento verdadeiro ou ao conhecimento de si mesmos.

 

O método: diálogo e maiêutica

            O procedimento filosófico de Sócrates fundamentava-se no diálogo, através do qual ele procurava levar o seu interlocutor a chegar à verdade, por meio de sucessivas perguntas: “dialogar com Sócrates levava a um ‘exame da alma’ e a uma prestação de contas da própria vida, ou seja, a um ‘exame moral’” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 100). O filósofo é um mestre de fazer perguntas: “Seu papel é o de interrogar sem trégua, encaminhar-se de pergunta em pergunta mais além das respostas” (PIZARRO, 2012, p. 37 – tradução nossa).

            A ação do filósofo consiste em ajudar o outro a descobrir por si mesmo a verdade que Sócrates acreditava ser inata, ou seja, que todo homem já possuía dentro de si, em forma latente. A esse processo de partejar idéias deu-se o nome de maiêutica: uma espécie de arte obstétrica espiritual “em aguda alusão à sua mãe parteira, manifestando assim, sua clara intenção de fazer que os demais dessem à luz em suas mentes ideias verdadeiras com vistas a ações justas” (REYES, 2008, p. 4 – tradução nossa). No livro Teeteto, Platão expõe como Sócrates entendia a maiêutica (para outras referências sobre a maiêutica, ver: Primeiro Alcibíades 110d – Ménon 81d a 85b – Fédon parte final –Teeteto 210bc) e que mais uma vez nos remete ao caráter introspectivo de seu pensamento, a ideia de que o conhecimento verdadeiro está dentro de nós mesmos e, por isso, só pode ser alcançado através de um profundo mergulho de nossa alma, dentro de si mesma. No parágrafo 150 Sócrates revela que seu método é uma arte de partejar idéias. “A minha arte obstétrica tem atribuições iguais às das parteiras, com a diferença de que não partejar mulher, mas homens, e de acompanhar as almas, não os corpos, em seu trabalho de parto... neles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo (Teeteto, 150b)”.

Sócrates caracterizou o seu método como maiêutica, que significa literalmente a arte de fazer o parto, uma analogia com o ofício de sua mãe que era parteira. Ele também se considerava um parteiro, mas de idéias. O papel do filósofo, portanto, não é transmitir um saber pronto e acabado, mas fazer com que o outro indivíduo, seu interlocutor, através da dialética, da discussão no diálogo, dê a luz a suas próprias idéias... A partir daí, o indivíduo tem o caminho aberto para encontrar o verdadeiro conhecimento (episteme), afastando-se do domínio da opinião (doxa) (MARCONDES, 2002, p. 48).

            A maiêutica é o momento final do método dialógico socrático, que se inicia primeiro com a ironia, em seguida temos a refutação (elenchos), para só então chegar ao parto das ideias.

            “O primeiro momento, (i) a ironia, resulta de uma dissimulação da parte de Sócrates, que ‘reconheceria’ seu não saber, ‘o sei que nada sei’ (Apologia 21d, República 354c), onde ele se traveste de alguém que ignora o que está sendo sustentado pelo interlocutor” (HOBUSS, 2014, p. 90). É uma espécie de estratégia utilizada por Sócrates, o primeiro passo visando conduzir  seu interlocutor ao reconhecimento do seu não saber, o que ocorrerá após a refutação dos argumentos.

            A refutação é o momento em que há a desconstrução, “a par destruens do método” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 102), das teses sustentadas pelo interlocutor, apontando seus paradoxos e contradições, passando a reconhecer os limites de seus argumentos. Sobre a refutação assim se expressa Vlastos (1983, p. 39 apud MENDOZA, 2008, p. 85 – tradução nossa):

1) O interlocutor afirma uma tese “p”, a qual Sócrates considera falsa e aponta a sua refutação.

2) Sócrates busca um acordo para posteriores premissas, diz “q” e “r” – proposições. O acordo é ad hoc: Sócrates argumenta desde “q” e “r” contra “p”.

3) Então Sócrates argumenta, e o interlocutor aceita, que “q” e “r” implica “não-p”.

4) Por conseguinte, Sócrates assinala que “não-p” há sido provado como verdadeiro, quer dizer, que “p” é falso.

            Sócrates forçava a uma definição do tema objeto de investigação que será considerada como falsa após serem reveladas suas contradições. Sócrates exortava o interlocutor a uma nova definição que seria criticada e refutada com o mesmo procedimento, até o momento em que o interlocutor reconhecia sua ignorância.

            Finalmente a maiêutica, o momento em que  “Sócrates se apresenta como um parteiro da verdade que se encontra na alma (ver Teeteto 148e – 151d)” (HOBUSS, 2014, p. 91). É a parte construtiva do diálogo: “Sócrates punha em ação a pars construens do seu ensinamento e, sempre mediante perguntas e respostas, conseguia fazer nascer a verdade na alma do dialogante, quando esta dela estava grávida” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 92).

            Na Atenas de 2500 anos atrás, Sócrates saia pelas praças, pelo mercado, nas reuniões com seus discípulos e conhecidos, a sondar a alma humana, interrogando, questionando sobre suas crenças e convicções, sobre a justiça. Sócrates “lhes perguntava, tranquilo: tò tí? – o que é isso? [...] O que entendem por honra, virtude, moralidade, patriotismo?  O que entendem por você mesmo? Era com tais questões morais e psicológicas que Sócrates adorava lidar” (DURANT, 1996, p. 28).

            O diálogo socrático também tinha como objetivo não apenas alcançar o perfeito conhecimento de si mesmo, mas também alcançar o perfeito conhecimento das coisas, principalmente aquilo que diz respeito às virtudes. Sócrates, por meio do diálogo, procura mostrar nossa ignorância em relação aquilo que acreditávamos ter como certo e reconstrói o saber, na procura da definição do conceito:

A concepção filosófica de Sócrates pode ser caracterizada como um método de análise conceitual. Isso pode ser ilustrado pela célebre questão socrática ‘o que é...?’... através do qual se busca a definição de uma determinada coisa, geralmente uma virtude ou qualidade moral”. (MARCONDES, 2002, p. 46).

            Afinal, que definição podemos dar de coragem, justiça, dever, liberdade?

            É importante notar que para Sócrates, uma melhor compreensão das coisas (e da vida) só pode ser resultado de um processo de reflexão do próprio indivíduo, que descobrirá, a partir de sua experiência, o sentido daquilo que se busca. Trata-se de um exercício intelectual em que a razão humana deve descobrir por si mesma aquilo que busca. Através do diálogo Sócrates objetivava fazer com que seus interlocutores justificassem seus conhecimentos sobre as virtudes ou as habilidades segundo as quais uma coisa era julgada como tal. Freqüentemente, nestes diálogos, acontecia de Sócrates tornar patente a fragilidade das opiniões de seus interlocutores, a inconsistência de seus argumentos, a obscuridade de seus conceitos. Evidenciava-se a ignorância. Aquilo que as pessoas tomavam como certo e aceito, Sócrates as fazia reconhecer que na realidade nada sabiam.

            Para aqueles que sabiam reconhecer sua própria ignorância, isto poderia representar uma oportunidade de verdadeiro renascimento: o renascer de si mesmo, na própria consciência, de que por mais que saibamos ou acreditemos saber de uma coisa, é praticamente nada, diante daquilo que nada sabemos. “No Banquete, Alcibíades nos dá um vivo testemunho de seu encontro com Sócrates. Suas palavras – diz – se assemelham à música de Marsias e quem as ouve fica assombrado e cai em êxtase e seu coração palpita e derrama lágrimas” (PIZARRO, 2012, p. 40 – tradução nossa).

            Para outros, porém, isto poderia representar uma humilhação o que fez de Sócrates popular entre uns, e odiado por outros, como ressalta Diógenes Laércio, em sua Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres (1977, livro I, cap. 5, 21 apud GOTO, 2010, p. 115):

Frequentemente sua conversa nessas indagações tendia para a veemência, e então seus interlocutores golpeavam-no com os punhos ou lhe arrancavam os cabelos; na maior parte dos casos Sócrates era desprezado e ridicularizado, mas tolerava todos esses abusos pacientemente. Incidentes desse tipo chegaram a tal ponto que certa vez, suportando com a calma habitual os pontapés que recebera de alguém, a uma pessoa que manifestou admiração por sua atitude o filósofo respondeu: “Se eu recebesse coices de um asno, levá-lo-ia por acaso aos tribunais?”

 

Só sei que nada sei

            Na obra Apologia de Sócrates, de Platão, vemos Sócrates reconhecer que o ponto de partida de sua reflexão filosófica foi a assertiva do oráculo de Delfos de que ele, Sócrates, era o homem mais sábio da Grécia. “Dado que ele se professava ignorante, ou seja, sem um saber definitivo e objetivo, tentou logo veri­ficar (e eventualmente desmentir) a sentença divina” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 78). Foi então que Sócrates procurou por homens que pudessem desmentir a assertiva do oráculo. Procurou por políticos, poetas e especialistas nas artes manuais, ou seja, homens que pudessem ser mais sábios que ele, mas logo se apercebeu que eles se reputavam sapientes sem na verdade o sê-lo. Cada um deles poderia com razão advogar para si conhecer algo de seus ofícios, mas quando se tratava de conhecimentos além daqueles de seus ofícios, como por exemplo saber o que é belo e o bom, logo se revelava que não pareciam tão sábios. Mas então porque ele, Sócrates, seria o mais sábio de todos? Porque, ao contrário deles, Sócrates não advogava para si o status de homem sábio. Sua sabedoria consistia exatamente nisto, reconhecer a sua própria ignorância, ao passo que os outros acreditavam saber o que na realidade nada sabiam: “a sua sabedoria consiste essencialmente em reconhecer a sua ignorân­cia, ou seja, consiste no célebre ‘só sei que nada sei’, pensado como ponto de partida de qualquer pesquisa que queira apresentar-se autenticamente como filosó­fica” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 78). “Os Sofistas mais famosos relacionavam-se com os ouvintes na soberba atitude de quem sabe tudo. Sócrates, ao contrário, colocava-se diante dos interlocutores na atitude de quem não sabe e de quem tem tudo a aprender” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 101).

            É comum vermos Sócrates, nos diálogos de Platão, em seus encontros com os Sofistas como Hípias, Protágoras, Górgias, Cálicles, Trasímaco, empenhando-se em demonstrar que o conhecimento de seus interlocutores é aparente e inconsistente e é nesse ponto que encontramos a aplicação dos princípios do método socrático: “a admissão (de certo modo “irónica”) da própria ignorância, que induz os parceiros a fornecer soluções para as questões que se vão enfrentando, e a célebre refutação (elenchos), quer dizer, a tática que visa a demonstração da inconsistên­cia destas respostas” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 79).

            Temos como exemplo o diálogo Górgias cujo tema central é a retórica (JAEGER, 1974). Nele encontramos refutações feitas aos argumentos de Górgias e Cálicles sobre a vergonha e a verdade moral, além de opor à concepção falsa ou sofística de política como simulacro do bem, injusta e desordenada, a concepção de política verdadeira ou filosófica. Mendoza (2008, p. 83 – tradução nossa) destaca deste diálogo as ideias que podem ser analisadas a partir do elenchos:

“‘se deveria evitar cometer uma injustiça mais do que sofrê-la’, ‘o homem deve procurar o bem, público e privado, e não apenas aparentar sê-lo’, ‘se deveria usar a retórica apenas para fins justos, tanto quanto procurar que assim seja a própria conduta, ‘devemos evitar a adulação própria e dos demais’”.

            Por fim, é preciso considerar que o não saber socrático deve ser avaliado mais exatamente comparando o saber humano com o saber divino. Ora, sendo Deus onisciente, o saber humano, por mais que seja elevado, em nada se compara a onisciência divina, sendo portanto um saber limitado:

o próprio Sócrates explicita esse conceito: “Unicamente Deus é sábio. E é isso o que ele quer significar em seu oráculo [de Delfos]: a sabedoria do homem pouco ou nada vale. Considerando Sócrates como sábio, não quer se referir, creio eu, propriamente a mim, Sócrates, mas somente usar o meu nome como um exemplo. É quase como se houvesse querido dizer: ‘Homens, é sapientíssimo dentre vós aquele que, como Sócrates, tiver reconhecido que, na verdade, sua sabedoria não tem valor’” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 101).

 

A morte de um sábio

            A história da morte de Sócrates e de sua acusação nos foi transmitida de forma magistral através da obra de Platão (1997): Apologia de Sócrates. “Somos privilegiados por podermos ler aquela simples e corajosa (senão legendária), ‘apologia’, ou defesa, na qual o primeiro mártir da filosofia proclamou os direitos e a necessidade de livre pensamento [...]” (DURANT, 1996, p. 30).

            Sócrates morreu em 399 a.C., acusado e condenado de impiedade, ateísmo (não crer nos deuses dos atenienses) e corromper a juventude: “mas, por trás de tais acusações, escondiam-se ressentimentos de vários tipos e manobras políticas” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 93).

A Morte de Sócrates (In: ALMEIDA, 2016, p. 282) (fr: La Mort de Socrate) é uma pintura de 1787 do pintor francês Jacques-Louis David.

A pintura representa a cena da morte de Sócrates, acompanhado de Platão (sentado melancolicamente na beira da cama) e Críton (segurando o joelho de Sócrates). Um outro discípulo, de vestes vermelhas, segura a taça de veneno Cicuta que Sócrates deve beber. A mão de Sócrates aponta para o céu, indicando a sua reverência aos deuses e atitude corajosa pela sua morte.

            Ânito, Meleto e Lícon são os acusadores do processo que irá condenar Sócrates. E apesar de não constar nas acusações motivações políticas, a verdade é que Sócrates incomodava seus acusadores porque sua fala em praça pública embaraçava, incomodava e até mesmo destruía reputações de sabedoria. “As acusações de impiedade, de criação de novas divindades e de corrupção dos jovens são, no fundo, apenas cortina de fumaça: Meleto, Ânito e Lícon se mancomunam para atacar Sócrates porque tomam as dores daqueles que ele submetera ao seu interrogatório inquiridor” (GOTO, 2010, p. 118).

            Condenado à morte através da Cicuta (veneno que ele deveria beber), seus discípulos e amigos mais próximos até chegaram a subordinar os guardas da prisão oferecendo à Sócrates a possibilidade de fuga, mas ele recusou. Sobre a serenidade de Sócrates diante da morte iminente, e a despeito da aflição de seus discípulos pelo seu fim próximo, assim se refere Xenofonte (Les Helléniques, 1967, II, III, 56 apud GOTO, 2010, p. 110): “há uma coisa que me parece admirável neste homem: é que em face da morte ele não perdeu nem sua presença de espírito nem seu bom humor”. Com a morte do sábio Sócrates, Atenas “perde a oportunidade de preservar e manter consigo aquele que, muito mais do que propor uma filosofia de caráter ou conteúdo democrático, praticava a democracia na forma mesma de seu filosofar, vivendo esse filosofar como uma ação entranhadamente democrática” (GOTO, 2010, p. 122).

 

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Claudio Aguiar. Razão, religião e revolução: luzes e sombras nas telas de Jacques-Louis David. Anais do Museu Paulista, v. 24, n.3, p. 269-298, set.-dez, 2016. Acesso em 23/07/2018.

DONINI, Pierluigi; FERRARI, Franco. O exercício da razão no mundo clássico: perfil de filosofia antiga. São Paulo: Annablume Clássica, 2012. (Coleção Archai: as origens do pensamento ocidental).

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

GÓMEZ PÉREZ, G. Sócrates: gesto y palabra política. Universitas Philosophica, Bogotá, 34(69), p. 173-194, jul./dec., 2017. Acesso em 24/07/2018.

GOTO, Roberto. O cidadão Sócrates e o filosofar numa democracia. Pro-Posições, Campinas, v. 21, n. 1, p. 107-125, jan./abr. 2010. Acesso em 23/07/2018.

HOBUSS, João F. N. Introdução à História da Filosofia Antiga [on line]. Pelotas: NEPFIL online, 2014.

JAEGER, Werner. Paideia. México: Fondo de Cultura Económica, 1974.

LAÊRTIOS, Diôgenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Trad. Mário da Gama Cury. 2. ed. Brasília: Ed. UnB, 1977.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Wittgenstein. 7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

MENDOZA, Jesús T. La critica al método socrático de la argumentación política. Trayectorias, vol. X, n. 27, jul./dec., p. 82-89, 2008. Acesso em 21/07/2018.

PIZARRO, Roberto Q. Sócrates, entre mito y razón. Byzantion nea hellás, Santiago,  n. 31, p. 29-45, 2012. Acesso em 24/07/2018.

PLATÃO. Apologia de Sócrates, Críton. Trad. Manoel de Oliveira Pulquério. Lisboa: Edições 70, 1997.

____. Banquete; Fédon. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).

____. Mênon. Rio de Janeiro: Ed. PUC Rio; Loyola, 2001.

REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga. Tradução Ivo Storniolo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2007. vol. 1, cap. IV, p. 91-120.

REYES, Carlos Hernández. La mayéutica de Sócrates en la formación humana. Planeación y Evaluación Educativa, ano 15, n. 43, p. 3-10, ago. 2008. Acesso em 21/07/2018.

VLASTOS, Gregory. The socratic elenchus. In: Oxford Studies en Ancient Philosophy, núm. 1, Gran Bretaña: Oxford University Pres, 1983, pp. 27-58.

XÉNOPHON. Les helleniques. In: XÉNOPHON. Oeuvres completes. Trad. Pierre Chambry. Paris: Garnier-Flammarion, 1967, v. 3.



[1] O Sócrates do qual fazemos referência é, sobretudo, o Sócrates que nos foi transmitido por Platão. Seria difícil entender que Platão tivesse atribuído a Sócrates um papel tão literário, sem conceber ao menos em parte a figura do próprio Sócrates, ou seja, seria difícil entender um Platão tão espiritualista, sem um mestre, Sócrates, ele mesmo, espiritualista. O que não nos impede de reconhecer a grande dificuldade da questão da delimitação de fronteiras entre o pensamento de Sócrates e o pensamento de Platão dentro dos próprios Diálogos platônicos.