A Ética Socrática

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em abr. 2016

atualizado em jul. 2018

            A reflexão sobre os valores e preceitos morais aparece muito clara em um dos maiores pensadores da antiguidade e um dos maiores filósofos de toda tradição ocidental, a saber, Sócrates. É muito comum vermos o filósofo, interpretado nas obras de seu discípulo Platão, indagando de seus concidadãos o que eles consideravam ser a coragem, a justiça, a amizade, o amor, ou seja, princípios e valores de ordem moral: “a coragem (andreia) no Laques, a moderação ou temperança (sophrosyne) no Cármides, a santidade (hosiotes) no Êutifron, a justiça (dikaiousyne) no Górgias e no Trasímaco (República I)” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 79-80).

            Tais perguntas socráticas procuravam fazer o seu interlocutor refletir nestas questões evidenciando assim o caráter eminentemente filosófico da reflexão sobre os valores. Mas Sócrates não parava por aí. Estes valores, que os atenienses chamavam (como nossa sociedade de uma forma geral) de virtude, faziam com que Sócrates os interrogassem então para saber o que é a virtude. E se Sócrates tivesse como resposta que a virtude é agir em conformidade com o bem, então ele questionava, mas o que é o bem?

            Sócrates procurava de alguma forma indagar os cidadãos atenienses a respeito das virtudes, sua essência, valor, obrigação. Como saber se uma conduta é boa ou não, virtuosa ou reprovável? Por que o bem é uma virtude e o mal um erro? É preferível ser justo ou injusto? Com estes questionamentos Sócrates forçava os indivíduos a refletirem sobre si mesmos e suas próprias ações. Além disso, a indagação ética socrática dirige-se não só ao indivíduo, mas também à sociedade.

            As questões socráticas podem ser consideradas como fundamento da ética ou filosofia moral porque procuram definir o campo no qual os valores morais podem ser estabelecidos além de tentar encontrar seu ponto de partida que, para Sócrates, é a própria consciência do agente moral. Assim, o sujeito ético, diria Sócrates, é aquele que sabe o que faz, conhece as causas e os fins de sua ação, a essência dos valores morais.

A sabedoria humana de que Sócrates se diz mestre consiste na busca de justificação filosófica (isto é, de um fundamento) da vida moral. Este fundamento consiste na própria natureza ou essência do homem. À diferença dos Sofistas, Sócrates chega a estas conclusões: o homem é a sua alma. E por alma ele entendia a consciência, a personalidade intelectual e moral (REALE; ANTISERI, 2007, p. 91).

Sócrates. O homem e sua Alma (REALE; ANTISERI, 2007, p. 108).

            A moral é a parte culminante da filosofia de Sócrates que ensina a bem pensar para bem viver. “Seu filosofar é ético não apenas porque pretende conhecer o bem, porque através da refutação rechaça as falsas opiniões sobre o bem, mas porque transforma efetivamente a seus interlocutores” (YARZA, 1996, p. 298 – tradução nossa). Não se trata de uma questão meramente teórica, mas uma questão prática, de como agir bem. O que importa para um homem de bem é viver honestamente, sem cometer injustiças, nem mesmo em retribuição a uma injustiça recebida. A virtude adquire-se com a sabedoria ou, antes, com ela se identifica. Para Sócrates, grandeza moral e penetração especulativa, virtude e ciência, ignorância e vício são sinônimos: se músico é o que sabe música, pedreiro o que sabe edificar, justo será o que sabe a justiça.

Já se disse que Sócrates foi o fundador da ciência moral. Com efeito, a idéia com que nos deparamos em diversas ocasiões nos Memoráveis [livro de Xenofonte], sobretudo na terceira parte, é a de que virtude é uma ciência... Por que e como a virtude é uma ciência? Primeiro, sem o conhecimento do bem não se poderia ser virtuoso; assim como não se pode ser bom carpinteiro se não se conhece essa arte... mas, quando se trata do bem, conhecê-lo e praticá-lo são uma só e mesma coisa, uma vez que o interesse prático desse conhecimento é tão grande que é absurdo supor que se conheça o melhor e não se queira fazê-lo (BERGSON, 2005, 102).

            Essa identificação da virtude como conhecimento, ciência, sabedoria, é conhecida como intelectualismo socrático (HOBUSS, 2014; DONINI; FERRARI, 2012; REALE; ANTISERI, 2007):

a virtude é identificada com conhecimento (ciência, sabedoria), o que nos traz o denominado intelectualismo socrático, que entende cada uma das virtudes como formas de conhecimento que levam o indivíduo a entender de que modo devem agir nas diferentes circunstâncias, não qualquer conhecimento, mas um conhecimento enraizado na alma, ou seja, que faz da alma o que ela é (HOBUSS, 2014, p. 86)

            Reali e Antiseri (2007, p. 96) apontam que a tese socrática da virtude como conhecimento implica duas consequências: “1) A virtude (cada urna e todas as virtudes: sabedoria, justiça, fortaleza, temperança) é ciência (conhecimento), e o vício (cada um e todos os vícios) é ignorância. 2) Ninguém peca voluntariamente; quem faz o mal, fá-lo por ignorância do bem”.

            Para Sócrates, o homem, por natureza, procura sempre o bem, mas nem sempre pratica o bem. Todavia, quando pratica o mal, não o faz porque se trate do mal, mas porque esperar daí receber algum bem, ainda que esse bem seja em função de um interesse particular. Mas ao agir de tal modo o homem não faz mais do que enganar-se, ou seja, age por ignorância, porque não tem o conhecimento do verdadeiro bem. O conhecimento do bem é necessário para praticar o bem, pois como podemos praticar o bem se não sabemos o que ele é? “Em consequência, para Sócrates, como para quase todos os filósofos gregos, o pecado se reduz a um ‘erro de cálculo’, a um ‘erro de razão’, justamente a ‘ignorância’ do verdadeiro bem” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 96).

            Se virtude é conhecimento, um conhecimento que se atinge de dentro para fora, então ela só pode ser alcançada mediante o máximo conhecimento de nossa realidade interior. A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates e exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo como sendo o ápice da sabedoria, que é o desejo da ciência mediante a virtude. Sócrates tomou como propósito de sua existência aperfeiçoar os homens, esclarecê-los, ensiná-los a darem-se conta do que fazem e essa tarefa tem um caráter religioso: uma voz interior o conduz em seu propósito, o famoso gênio ou daimon socrático, “‘uma voz divina’ que lhe vetava determinadas coisas: ele o interpretava como espécie de sortilégio, que o salvou várias vezes dos perigos ou de experiências negativas” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 100).

            Mas essa virtude, pode ela ser ensinada? Sócrates trata desta questão de modo mais específico nos diálogos Protágoras, Górgias e Ménon. Neste último “Sócrates argumenta, salientando a dificuldade de discutir a questão de se a virtude pode ser ensinada sem desvelar, antes, o que é a virtude (86d), o que o faz discutir hipoteticamente (ex hypothêseos ) o caso” (HOBUSS, 2014, p. 87). Eis o que torna difícil a tarefa de ensinar a virtude: para ensinar a virtude é preciso antes conhecê-la, mas quem seriam tais mestres das virtudes? Onde podem ser encontrados? “os mestres da virtude não podem ser encontrados em parte alguma, bem como os seus discípulos, o que torna a possibilidade de ensino da virtude irrealizável (96c, 98e)” (HOBUSS, 2014, p. 88).

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Acesso em:

22/07/2018

 

            Finalmente Sócrates acreditava que existe um saber universalmente válido, que decorre do conhecimento da essência humana – contrariamente aos Sofistas, que afirmavam não existir normas e verdades universalmente válidas, isto é, uma concepção relativista da ética.

A reflexão ética de Sócrates pretende que o saber do bem seja universal e objetivo, porém sem anular a múltipla variedade de suas manifestações. Quer dizer, a universalidade do bem, dos valores humanos, não procede do consenso que se lhe preste, senão de sua racionalidade implícita que o diálogo deve fazer emergir (YARZA, 1996, p. 298 – tradução nossa).

            Além disso, é a partir do conhecimento da essência humana que se pode conceber a fundamentação de uma moral universal. O que há de essencial no ser humano é sua alma racional, sua psyché, seu espírito. Por isso, é na sua alma racional e no seu espírito que se deve fundamentar as normas e os costumes morais.

            Só sei que nada sei. Eis uma das frases mais conhecidas e talvez a mais pronunciada do filósofo grego que guarda nas suas entrelinhas uma disposição moral digna de reflexão. A pior dar ignorâncias é aquela que acredita saber o que na realidade nada sabe. Concretamente, é fato que se torna muito difícil estabelecer qualquer tipo de diálogo com pessoas que acreditam saber de tudo. Sua opinião é sempre a correta e, antes mesmo que você termine de falar, ela já intervém para expor novamente sua opinião que, ela acredita, é a única verdadeira.

Sócrates é consciente da sua ignorância. Sócrates se encontra em um ponto intermediário entre a ignorância, a impossibilidade de expressar com palavras o que é o bem, e a experiência direta do bem. Não sabe, porque seu saber é intuitivo, capaz de decidir bem sobre o que deve fazer, de comportar-se justamente, porém incapaz de determinar em uma definição o que é o bem [...] (YARZA, 1996, p. 297 – tradução nossa)

            A questão moral por trás desta disposição de espírito é que se as pessoas tivessem mais consciência de sua própria ignorância seriam menos arrogantes e presunçosas, vaidosas e orgulhosas do seu próprio saber, não se acreditando ser mais do que se é. Ademais, a arrogância e a presunção não tornam a convivência entre as pessoas difícil apenas na área pessoal mas também na área profissional. Isto se torna um problema quando eu não tenho condições de aceitar ideias novas, advindas de um subalterno, por achar que ele pode estar simplesmente querendo tomar o meu lugar. Então, ao invés de escutar suas ideias, minha mente fica bloqueada pelo “perigo” que ele pode me causar, caso suas ideias sejam aceitas.

A ética eudaimonista

            Uma das assunções fundamentais da ética socrática – como boa parte da ética antiga –, é a ideia de que o objetivo da vida humana é a busca da felicidade (eudaimonia), e que esse objetivo só pode ser alcançado mediante um comportamento virtuoso. “Para Sócrates, a felicidade está intimamente ligada à virtude, embora, na realidade, talvez não se possa defender que seja de todo idêntica a ela, como alguns intérpretes chegaram a sustentar” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 82). Sem a prática da virtude não se pode alcançar a felicidade e, por conseguinte, a prática do mal gera a infelicidade.

A felicidade não pode vir das coisas exteriores, do corpo, mas somente da alma, porque esta e só esta é a sua essência. E a alma é feliz quando é ordenada, ou seja, virtuosa. Diz Sócrates: “Para mim, quem é virtuoso, seja homem ou mulher, é feliz, ao passo que o injusto e malvado é infeliz” (REALE; ANTISERI, 2007, p. 97).

            E essa virtude, esse bem, essa felicidade, correspondem a virtude, o bem e a felicidade da alma (o verdadeiro eu do ser humano), ou seja, a eudaimonia socrática configura-se “como a realização perfeita das potencialidades da alma e, por conseguinte, como ‘virtudes da alma’ (arete tes psyches)” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 83).

Sócrates entende o homem desde sua alma; o homem é sua alma e os valores próprios do homem são os valores de sua alma. Porém, mais além disto, Sócrates entende sua vida desde os valores humanos que a tradição transmite e sua razão reconhece. Desde a verdade do bem a que o homem aspira, o homem compreende a verdade de seu ser. Tal verdade está ligada à virtude e a virtude do conhecimento. Sócrates compreende seu ser desde o bem que vê e vive guiado por ele. Sócrates interpreta sua vida, percebe seu ser, desde o bem conhecido não apenas teoricamente, mas também e sobretudo na prática (YARZA, 1996, p. 298 – tradução nossa).

 

Referências Bibliográficas

DONINI, Pierluigi; FERRARI, Franco. O exercício da razão no mundo clássico: perfil de filosofia antiga. São Paulo: Annablume Clássica, 2012. (Coleção Archai: as origens do pensamento ocidental).

BERGSON, Henri. Cursos sobre a filosofia antiga. Tradução de Bento Prado Neto. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

HOBUSS, João F. N. Introdução à História da Filosofia Antiga [on line]. Pelotas: NEPFIL online, 2014.

REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga. Tradução Ivo Storniolo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2007. vol. 1, cap. IV, p. 91-120.

YARZA, Ignacio. Ética y dialéctica. Sócrates, Platón y Aristóteles. Acta Philosophica, vol. 5, fasc. 2, p. 293-315, 1996. Acesso em 21/07/2018.

 

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