DESNORTEADA

11/07/2019 15:14

(Luana Medeiros)

 

Sou mulher e sou do norte

Mulher e norte apontam a uma direção

Região e direção, ponto de partida, retirada 

Não pertenço somente a este lugar 

E por causa deste destino, devo fazer algo com o que foi feito de mim?

Pouco me importa

Eu sou o resultado do meu tempo

E não pude mais do que sou

“Ela não nasce, torna-se”

Não estou interessada em teorias

Nenhuma teoria é mais do que já vivi

A minha rebeldia é não pertencer a nada, e assim pertencer a tudo  

A minha revelia é suportar o dia a dia, é sobrevivê-lo

Mas apesar de você, repetimos os mesmos erros. E o ontem que é hoje, ainda é igual

Parece mesmo que este estranhamento é moda em 2019,

e o passado é presente novamente

Estava ocupada demais amando sem paixão, não me importo

Quero mesmo que essas palavras incomodem meus camaradas

Eles não me disseram que estávamos em guerra e era preciso se armar

Por isso estava amando de dia, e chorando a noite, e estas palavras são o meu punhal

Eu estava num leito enferrujado e ninguém viu, mas sobrevivi

Não posso morrer no passado

Sobrevivi à vida real, e é tudo que tenho feito

Sou uma mulher que vive a experiência de coisas reais

Lavo pratos, lavo o rosto, seco o meu pranto no varal, e corto a carne de vocês  

Vivendo assim nunca deixei de acreditar que isto vai me levar a lugar algum

Meu único escape é amnésia por alguns instantes

Depois volto à realidade, e esfrego na cara de vocês que eu não suporto suas modernidades

Prefiro andar as ruas com mulheres cinzas feito eu 

Eu sou uma delas, e junto delas, somos nada, sou ninguém

Sendo ninguém posso ser o que quiser. Ser ninguém não me impede de dizer

Não irei fazer as coisas a seu tempo, você nunca me impediu de ser feliz

Por isso sou para mim, sou Drummond, sou Ruiz, sou Hilst

Eu Sou Pessoa desnorteada, do outro lado do oceano, na América do Sul

 

 

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