Expiações Coletivas: Evolução através da Dor

26/06/2018 21:50

            A nova civilização do espírito precisa ser construída, mas com o adicional de que ela não será construída do nada, do zero, como se não tivesse todo um passado atrás de si, passado de lutas, de guerras, de dor. E o que vale para os indivíduos também é válido para a civilização, para o organismo social.

            A lei de ação e reação explica porque a nova civilização do espírito deverá ser construída em meio a tantas dores e sofrimentos. Se existem as expiações individuais, existem também as expiações coletivas, razão pela qual Pietro Ubaldi é levado a fazer longas considerações sobre o papel da dor. Digressões que, como ele mesmo afirma no início do capítulo 8, desenvolvem os conceitos do capítulo 81 de A Grande Síntese: A função da dor. Em suas análises, Ubaldi explica como a dor tem uma função evolutiva, é instrumento de equilíbrio da lei divina, de sua justiça e bondade, “Baseando-nos nos conceitos até aqui expostos, olhemos em redor do mundo de nossos tempos, observemos e apliquemos o que acontece” (NCTM, 1982, p. 109). Trata-se de expor o funcionamento da lei, igual para todos, com suas consequências lógicas que decorrem dos erros e acertos de quem os pratica.

            A nova civilização do espírito não poderá construir-se sob os alicerces do erro, da violência, da guerra. Enquanto houver males a serem reparados, o ciclo continuará. É preciso que a nova civilização se erga sob fundamentos diferentes. Só assim ela poderá alcançar níveis evolutivos mais altos. Do contrário, terá que recair sobre si mesma, reparar os erros sob os quais se construiu e tomar novo impulso para nova realidade.

            É por isso que a nova civilização do espírito não poderá construir-se senão lentamente, até que todas as dívidas do passado estejam devidamente liquidadas e sanadas, o que só será possível através de expiações coletivas e nada mais impeça de seguir sempre para o alto, sempre em direção à Deus, sem desviar-se desse objetivo.

            Quando uma nação quita seu débito com o passado, está livre para prosseguir seu caminho. Mas se outra nação tiver para isso contraído débito em seu lugar, o ciclo recomeça. Eis porque as guerras nunca poderão servir de base para a nova civilização do terceiro milênio.

          Somente quando todas as nações compreenderem isso, e substituírem o princípio da força pelo princípio do direito, é que poderemos enfim encontrar um terreno fértil sob o qual se possa semear a nova civilização. Enquanto isso devemos aceitar as expiações coletivas como instrumento necessário de evolução, da mesma forma como a dor é um instrumento de evolução individual.

            As forças postas em jogo pela força, pela violência, egoísmo e luta não morrem. As gerações que morrem deixam às gerações que nascem o peso desse fardo e esse peso é tanto mais justo se considerarmos que a geração que nasce ela mesma pode ser considerada responsável por tais consequências, uma vez que a nova geração não é composta senão dos mesmos indivíduos que outrora, no passado, deram origem a tais jogos de força. Por isso a geração que nasce deve aceitar com o (re)nascimento, a série de desequilíbrios impostos ao longo de séculos e milênios. Esse ciclo, porém, não é um ciclo interminável e sem fim. Cada indivíduo, no momento em que anula o conjunto de forças postas em movimento no passado, opondo-lhe uma força corretora, começa a quebrar os grilhões que o prendem ao passado e abre para si a porta para novos mundos e novas possibilidades. Assim, quando todos os indivíduos fizerem o mesmo, é natural pensar que não haverá mais dores e nem sofrimentos. Mas esse processo não irá ocorrer de uma hora para outra. É preciso esgotar todas as forças de violência e luta postas em movimento no passado, para só então libertar a nova civilização do espírito do seu passado de luta.

No destino coletivo acontece com os povos o mesmo que, no destino individual, sucede aos indivíduos, isto é, nossas obras nos acompanham a toda parte. São desequilíbrios econômicos, sociais, morais, políticos, psíquicos, orgânicos. As novas gerações ou se reequilibram pagando, ou somente os mantém, suportando-os, ou aumentam-nos, arruinando ou deixando ruína, São ódios, desajustamentos, dores; por toda parte vácuos a preencher, equilíbrios a recompor. Nossos amados filhos pagarão por aquilo que desnecessariamente gozamos, ou gozarão das forças por nós acumuladas. Quem aceita determinada posição deve suportar-lhe a responsabilidade (NCTM, 1982, p. 232).

            “O mundo apresenta-se como oceano de desequilíbrios e por essa razão sofre [...] O sofrimento do mundo não se deve a erros recentes, e sim milenários, a pavoroso amontoado de erros, acumulados através dos séculos” (NCTM, 1982, p. 285). Por isso o reequilíbrio do mundo exige tempo, é impossível reabsorver os impulsos originários de tanto desequilíbrio de um só golpe. E só o reequilíbrio pode nos dar um mundo socialmente mais justo e solidário. “Hoje tudo está impregnado de erros; o ar, saturado de mentira; o mal que semeamos se transformou em nossa atmosfera. É preciso pôr-se a caminhar, lenta e tenazmente, pelo áspero caminho da regeneração” (NCTM, 1982, p. 285).

            O reequilíbrio só pode ser alcançado movendo-se em direção contrária, contrapondo ao mal o bem, à mentira a verdade, à astúcia a honestidade.

            Quanto mais perseverarmos no caminho da força e da vingança tanto mais pioramos nossas condições, agravando o desequilíbrio. A única saída é esta: o caminho do perdão, o caminho do amor, o caminho do Evangelho. Quando encontrarmos um homem que emprega a violência, diremos: este é um involuído que está começando o longo aprendizado da vida. Quando virmos um homem que repele a violência e perdoa, diremos: este é um evoluído que já viveu bastante e aprendeu a lição da vida. A tendência da evolução consiste em substituir a vontade ignara, egoísta, desagregante e usurpadora do indivíduo pela vontade consciente, altruísta, orgânica e pacífica do homem da lei (NCTM, 1982, p. 285).

 

Referência Bibliográfica

UBALDI, Pietro. A Nova Civilização do Terceiro Milênio (NCTM). Tradução de Oscar Paes Leme. 3. ed. Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi, 1982.

Pietro Ubaldi → A Nova Civilização do Terceiro Milênio → Expiações Coletivas: Evolução através da Dor

Este texto é parte integrante do texto principal A Nova Civilização do Terceiro Milênio.

Para a citação das obras de Ubaldi utilizamos, de preferência, as iniciais de suas obras: NCTM (A Nova Civilização do Terceiro Milêncio)