Perdão também se aprende

20/04/2022 18:31

          É conhecida a passagem evangélica em que Pedro pergunta a Jesus quantas vezes precisava perdoar seu irmão: "Até sete?" Ao que Jesus lhe responde: "Não lhe digo que até sete, mas até setenta vezes sete." (Mateus, 18:21, 22). Esse diálogo ocorreu-me agora, ao ler o excelente texto do irmão espírita Waldeir B. de Almeida, publicado na revista Reformador do mês de março de 2022. Waldeir lembra que o perdão está citado na oração Pai Nosso, ensinada por Jesus: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores." (Mateus, 6:9- 13)

          Logo abaixo desse parágrafo, o articulista citado diz que todo aquele que deseja "conquistar louros na jornada evolutiva pela bênção das reencarnações temos que aprender a perdoar." Como assim: "aprender a perdoar?" E ele explica: "a liberação desse gesto divino, direcionado a quem profundamente nos magoou, não é atitude fácil". Isso pode demandar tempo "demorado e doloroso".

          Waldeir acrescenta que mesmo aqueles que temos uma religião e sabemos do valor do perdão, por conhecermos o apelo do Cristo, temos dificuldade em entender a bênção do perdão. Isso ocorre até com os que estamos cientes da importância do perdão para nos libertarmos, pela reencarnação, do sentimento de rancor ou ódio contra quem nos ofendeu. E cita as obras mediúnicas com seus relatos sobre a grande quantidade de Espíritos, no Mundo Espiritual, revoltados e justiceiros.

          Desde aqui, no mundo físico, percebemos quanto é difícil perdoar um criminoso que ceifa a vida de um ser querido por nós. Mas o que mais nos prejudica é a lembrança insistente do ato sabido, presenciado ou somente suspeitado por nós, que, nesse caso, muitas vezes, não procede, pois podemos estar sob o jugo de Espírito vingador ou zombeteiro.

          Dizemos que perdoamos, mas a lembrança do ato lesivo permanece, insistentemente, em nossas mentes. Daí a importância da recomendação de Jesus para permanecermos vigilantes e em oração (Mateus, 26:41). Em ambos os mundos: físico e espiritual...

          As situações são as mais diversas, como é o caso dos quatro membros da família Aboab, citados por Waldeir, e que foram narrados na obra ditada pelo Espírito Bezerra de Menezes, intitulada Dramas da Obsessão. A psicógrafa foi Yvonne do Amaral Pereira, médium muito conhecida no meio espírita, desencarnada há algumas décadas. Deixo ao leitor curioso o convite para ler o relato no artigo de Waldeir ou, se desejar conhecer em profundidade o drama citado, ler a maravilhosa obra ditada pelo Espírito cognominado, em vida física, "Médico dos Pobres", por sua destacada atuação caritativa, enquanto esteve encarnado na Terra, e que presidiu a Federação Espírita Brasileira no final do século XIX.

          Para nossa reflexão, cito a frase de Joanna de Ângelis com que Waldeir finaliza seu belo artigo e que também pode ser lida na obra psicografada pelo médium Divaldo Franco, cujo título é: O Despertar do Espírito. Esta obra foi editada pela Livraria Espírita Alvorada de Salvador, BA:

 

O ato de perdoar não leva necessariamente, à ideia de anuência com aquilo que fere o estatuto legal e o código moral da vida, mas proporciona a compreensão exata da dimensão do gravame e dos comportamentos a serem adotados para que ele desapareça, devolvendo à vida a harmonia que foi perturbada com aquela atitude.

 

          O problema maior que percebo é o dos pensamentos... Porém, se nos colocarmos no lugar da pessoa que nos ofendeu, assim como Jesus recomendou aos que desejavam apedrejar a pecadora, cientes de que também somos passíveis de cometar o mesmo ato ou até ato pior do que o sofrido; se trabalharmos em nós a piedade inclusive para com os criminosos, se buscarmos orar "incessantemente", como recomenda Paulo aos Tessalonicenses, 5:17, certamente teremos a proteção divina não apenas no perdão, como também na compaixão para com os que nos ofendem.

          A grande finalidade de nossas reencarnações é a de alcançarmos a condição de Espíritos bem-aventurados e puros, como lemos na questão 170 d'O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Então, tudo devemos fazer para esquecer o mal e vivenciar, dia a dia, o bem. Somente assim teremos a companhia dos bons Espíritos em nossos pensamentos, palavras e atos.

            Desse modo, aprenderemos que o perdão anda junto com a compaixão, ambos filhos do amor. Como dissemos acima, por vezes, nada do que imaginamos ter sido feito contra nós é verdade. Exercitemos, pois, a piedade, como nos propõe o Espírito Cruz e Sousa, nos dois versos iniciais de seu belo soneto intitulado Piedade: "O coração de todo ser humano / Foi concebido para ter piedade,".

          Com esse entendimento, nada do que é exterior a nós nos atingirá. Tudo começa no aprendizado do perdão, como bem disse nosso irmão espírita Waldeir.

 

 

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