A Era do Espírito

A Era do Espírito

por Jorge Leite de Oliveira

postado em dez. 2018

            Os Espíritos têm dois objetivos principais com suas comunicações mediúnicas: demonstrar, com as provas possíveis, sua sobrevivência após a morte e contribuir com nossa evolução espiritual. O que vamos fazer da certeza obtida com isso cabe a cada um de nós. É por isso que os médiuns podem variar, mas o estilo do Espírito que se tornou famoso nas artes quando encarnado, continua o mesmo. E Castro Alves está presente no condoreirismo e na preocupação dos temas sociais que tanto o caracterizaram quando encarnado. Confira num dos seus poemas mediúnicos abaixo:

Na era do Espírito

O caos invadira a França,

− Olimpo do pensamento.

O ódio − lobo famulento,

Range as presas com furor.

Nas ruas − Paris descansa;

Em casa − chora em segredo;

Gigante, arrosta, com medo,

As iras do Imperador.

 

A Nação encarcerada

Lança em nota clandestina

As safras da guilhotina

E explode: − “Revolução!”

Recorda a Bastilha irada,

Rousseau, à luz da vela,

Esmurra as grades da cela,

Protesta rugindo em vão.

 

A crença herdada do Cristo

Caíra no sorvedouro

− Turbilhão de pompa e ouro −,

Dobrada ao tacão dos reis.

Em tormento jamais visto,

Nos frios templos, o povo

Exorava aos Céus, de novo,

Novos rumos, novas leis.

 

A Ciência − clava forte − ,

Contra as cadeias medievais,

Partia os grilhões das trevas

Em sarcástico festim,

A exprobrar de sul a norte,

Por tirana revoltada:

− “Dominemos! Deus é nada!”

A morte − o portal do fim !”

 

Ninguém na fé militante...

Mavorte, em fúria, galopa

Nos campos de toda a Europa!

Na África − a abjeção!

Na Austrália − o progresso infante!

Na Ásia − o suor dos parias

Rola em bagas milenárias!

Na América − a escravidão!

 

Mas o Espaço se descerra!

Jesus, no esplendor dos sóis,

Recruta gênios e heróis

A iluminar o porvir.

De pólo a pólo, na Terra,

Flamejam etéreas lampas,

Mensagens brotam das campas,

Ao toque de ressurgir!

 

Aos clarões da Imensidade,

Kardec chega e inaugura

A Doutrina viva e pura

Da razão à luz do bem.

O Espírito de Verdade

Semeia Divina Messe,

O Evangelho reaparece

Nas Vozes do Grande Além!

 

Falam tumbas, dançam mesas,

Nascem livros, surgem almas,

Luzem preces, chovem palmas,

Hosanas aqui e ali!

Consciências dantes presas

Rompem torva cidadela;

Pastor guiando a procela,

Jesus conclama: − “Servi!”

 

Ante a ribalta terrestre,

O Direito renovado

Deixa, ao tropel do passado,

Distinções de raça e cor!

Em triunfo, volve o Mestre,

E acende na mente humana,

Desde o palácio à choupana,

O facho do Eterno Amor!...

 

O mundo voga num misto

De infortúnio e de esperança,

Pranteia a sorrir e avança

Nas Bênçãos do Excelso Pai!

Kardec reflete o Cristo;

Desfralda, em bandeira à frente,

O convite permanente:

− “Espíritas, trabalhai!...”

 

(Médium : Waldo Vieira (In: XAVIER, Francisco  Cândido; VIEIRA, Waldo. Antologia dos Imortais. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002, p. 117.)

 

            Como desdobramento oportuno ao clamor de Castro Alves para que vençamos o mal com o bem, nada melhor do que a transcrição de trechos da mensagem do Espírito Joanna de Ângelis, psicografada por Divaldo Franco a seguir:

 

 Ninguém tem coisa alguma no mundo: nem corpo, nem valores amoedados, nem pessoas sob domínio... A in­cessante transformação, vigente no Cosmo, tudo altera a cada instante, e o vivo de agora estará morto logo mais; o dominador torna-se vítima; o corpo se dilui; os objetos passam de mãos...

Todo aquele que busca a posse, o ter e reter, perma­nece vazio de sentimentos e, porque nada é, enche-se de artefatos e coisas brilhantes, porém mortas, prosseguindo cheio de espaços e abarrotado de preocupações afligentes. [...]

Ser consciente de si mesmo é a meta existencial, con­seguindo o autoamor que desdobra a bondade, a compai­xão, a ação benéfica em favor do próximo.

[...]

Senhor do discernimento, o homem descobre que co­lhe de acordo com o que semeia, e que tudo quanto lhe acontece, procede, não tendo caráter castrador ou punitivo. Sente-se emulado a gerar novos futuros efeitos, agindo com consciência e produzindo com equidade. Tal conduta pro­porciona-lhe a alegria que provém da tranquilidade da rea­lização, considerando que sempre é tempo de reparar, e pos­tergação é-lhe prejuízo para a economia da sua plenificação.

O homem que se conquista supera os mecanismos de fuga, de transferência de responsabilidade, de rejeição e ou­tros, para enfrentar-se sem acusação, sem justificação, sem perdão.

Descobre a vida e que se encontra vivo, que hoje é o seu dia, utilizando-o com propriedade e sabedoria. Não tem passado, nem futuro, neste tempo intemporal da relativi­dade terrestre, e a sua é uma consciência atual, fértil e rica de aspirações, que busca a integração na Cósmica, que já desfruta, vivendo-a nas expressões do amor a tudo e a todos intensamente.

A conquista de si mesmo é lograda mediante o querer.

Jesus afirmou que se poderia fazer tudo quanto Ele fez, se se quisesse, bastando empenhar-se e entregar-se à reali­zação. Para tanto, necessário seria a fé em si mesmo, nos valores intrínsecos, que seriam desenvolvidos a partir do momento da opção.

Francisco de Assis, o santo, assim quis e o conseguiu.

Apóstolos do Bem, da Ciência e da Fé, do pensamen­to e da ação quiseram, e o lograram.

Homens e mulheres anônimos entregaram-se aos ideais que lhes vitalizaram as existências e, superando-se, autoconquistaram-se.

A conquista de si mesmo está ao alcance do querer para ser, do esforçar-se para triunfar, do viver para jamais morrer. (FRANCO, Divaldo P. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. O ser consciente. Salvador: LEAL. Cap. 10.)

            Atentemos para a beleza desses convites, emanados da espiritualidade superior e esforcemo-nos para que o trabalho incessante no bem nos proporcione a felicidade só encontrada por quem já entendeu, em plenitude, a Boa-Nova do Cristo.

            Fomos criados para a luz, mas o esforço de superar as trevas das paixões e dos vícios que tanto nos atormentam na Terra cabe a cada um de nós. Isso se chama livre-arbítrio.

            Deus não tem pressa, todavia, quanto mais nos acomodamos na miséria moral, menos avançamos na verdadeira riqueza, que é a espiritual. Conheçamo-nos e busquemos vigiar, trabalhar no bem, sendo úteis à sociedade, e orar o tempo todo, para que as tentações do mundo não nos impeçam alcançar a paz do Cristo, que está dentro de nós.

            Nesse dia, o reino de Deus estará definitivamente implantado no íntimo dos seus filhos; e todos compreenderão que o bem feito ao seu irmão é o que deseja para si. Consequentemente, o mal feito a qualquer criatura viva é a origem do mal ao seu causador.

            Quando a maioria da população terrestre estiver na condição elevada superior de retribuir o mal com o bem, teremos chegado à era do Espírito.

 

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