A família na visão das três revelações divinas

A família na visão das três revelações divinas

por Jorge Leite de Oliveira

postado em jan. 2018

            Allan Kardec explica-nos que há três Revelações Divinas: a primeira está no Decálogo, recebido por Moisés no monte Sinai; a segunda é a do Cristo, que não veio destruir a Lei, porém cumpri-la, isto é, a Lei de Deus, inscrita nos Dez Mandamentos; e a terceira é a do Espiritismo, que também “não veio destruir a lei cristã, mas dar-lhe cumprimento”.[1]

            O Espiritismo, ao contrário das revelações de Moisés e de Jesus, não está personificado numa só pessoa, mas sim, nos Espíritos emissários do Cristo, em cumprimento à sua promessa contida em João, 14:15 a 17:

 

Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós.

 

            O Espiritismo é, no entanto, presidido por Jesus, segundo Kardec (2017, p. 40, it. 7). Tudo o que contém os Dez Mandamentos foi desenvolvido pelas leis morais de Jesus, que precisou, muitas vezes, usar de alegorias, parábolas e simbolismos para ser entendido, não segundo a letra, que mata, mas consoante o espírito, que vivifica (Paulo, II Coríntios, 3:6). Coube ao Espiritismo, terceira e última revelação, esclarecer o sentido oculto das palavras do Senhor, que presidiu todas as manifestações mediúnicas, codificadas por Allan Kardec, e foi representado pelo Espírito de Verdade.

            Analisando o que o Decálogo nos expõe, percebemos que todos nós fazemos parte de uma só família espiritual, que tem Deus por Pai. É importante não perdermos isso de vista, pois foi dito pelo Cristo à samaritana, assim como em seu ensinamento da prece Pai Nosso e, mais claramente, nas palavras do Senhor ressuscitado a Maria Madalena: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João, 20:17).

            Os Dez Mandamentos, recebidos por Moisés, que o Messias Divino jamais modificou, são orientações de Nosso Pai Eterno, segundo, Jesus. Entretanto, o que eram leis mosaicas, “Ele, ao contrário, as modificou profundamente, quer na substância, quer na forma”.[2]

            A metade dos dez mandamentos refere-se, direta ou indiretamente, à família espiritual e humana, a começar pelo primeiro mandamento, que nos mostra a Paternidade Divina:

 

I. Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirei do Egito, da casa da servidão. Não tereis, diante de mim, outros deuses estrangeiros. Não fareis imagem esculpida, nem figura alguma do que está em cima do céu, nem embaixo na Terra, nem do que quer que esteja nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes prestareis culto soberano[3].

 

            Também somos deuses, confirma Jesus em João, 10:34, o que disse Davi no Salmo 82:6 “Eu disse: Vós sois deuses, e vós outros sois todos filhos do Altíssimo”. Assim como o Cristo, puro em relação a nós, é Filho de Deus, também somos filhos desse Pai Altíssimo. Nessa condição, temos de amá-Lo sobre todas as coisas, e nos conscientizarmos de que fazemos parte da família espiritual, cujo Pai é a “Inteligência Suprema, causa primeira de todas as coisas”.[4]

            O segundo mandamento de nosso Pai Eterno a nós, seus filhos, criados para a perfeição, é o seguinte: “Não pronunciareis em vão o nome do Senhor, vosso Deus”.

            Como todo bom filho tem o dever de respeitar seus pais, jamais lhes fazendo qualquer crítica ou comentário maldoso, muito maior é o dever de todos nós, filhos de Deus, em somente pronunciar seu nome com toda a veneração, submissão e amor. A nossa família é universal e o Amor Divino rege nossas vidas.

            Somos filhos do Eterno. Criados para a imortalidade e a perfeição, como já a alcançou Jesus, também chamado Filho unigênito de Deus, em relação a nós, seus irmãos imperfeitos, pelos quais o Cristo vela e trabalha em prol do aperfeiçoamento. Não somos, portanto, um amontoado de células e neurônios, mas sim, espíritos, temporariamente no corpo físico, aos quais Jesus recomenda fazer brilhar a nossa luz. Para isso, conquistamos o livre-arbítrio, que nos torna responsáveis por tudo de bom ou de mau que façamos, na Terra ou no Mundo Espiritual. Não pronunciar em vão o nome de Nosso Pai Eterno é, pois, agir em consonância com sua Lei e nos esforçarmos para atender ao apelo de seu Enviado Maior: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus” (Mateus, 5:48).

            O quarto mandamento, terceiro relacionado à família, é uma Advertência Divina diretamente relacionada ao dever dos filhos para com seus pais: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na terra que o Senhor vosso Deus vos dará”.

            Comenta Allan Kardec que esse mandamento

 

[...] é uma consequência da lei geral de caridade e de amor ao próximo, visto que não pode amar o seu próximo aquele que não ama a seu pai e a sua mãe, mas o termo honrai encerra um dever a mais para com eles: o da piedade filial. Deus, dessa forma, quis mostrar que ao amor se devem juntar o respeito, as atenções, a submissão e a condescendência, o que implica a obrigação de cumprir-se para com eles, de modo ainda mais rigoroso, tudo que a caridade ordena em relação ao próximo em geral. Esse dever se estende naturalmente às pessoas que fazem as vezes de pai e de mãe [...].[5]

 

            Kardec esclarece-nos ainda de que não é somente respeitando nossos pais e, sim, assistindo-os em suas necessidades espirituais e materiais que os honramos. “É sobretudo para com os pais sem recursos que se demonstra a verdadeira piedade filial” (id., p. 192), mas não quando se lhes dá o estritamente necessário para que não morram famintos e se lhes reserva os piores cômodos da casa, enquanto para si os filhos desfrutam do que há de melhor no lar.

            Honrar a seu pai e a sua mãe não consiste apenas em respeitá-los; é também assisti-los na necessidade; é proporcionar-lhes repouso na velhice; é cercá-los de cuidados como eles fizeram conosco na infância. Nossa ingratidão e desprezo aos nossos pais pode ser punida com os mesmos males que lhes fizermos, ainda mesmo na existência atual.

            Em seguida, somos informados pelo sábio Codificador do Espiritismo que não cabe aos filhos censurar seus pais por não serem bons, pois

 

Se a lei da caridade manda se pague o mal com o bem, se seja indulgente para as imperfeições de outrem, se não se diga mal do próximo, se esqueçam e perdoem as suas faltas, se ame até os inimigos, quão maiores não hão de ser essas obrigações em relação aos pais! Os filhos devem, pois, tomar como regra de conduta para com esses últimos todos os preceitos de Jesus relativos ao próximo e ter em mente que todo procedimento censurável, com relação aos estranhos, é ainda mais censurável em relação aos pais, e que o que talvez não passe de simples falta no primeiro caso pode tornar-se um crime, no segundo, porque, aqui, à falta de caridade se junta a ingratidão.[6]

 

            Na época em que Moisés recebeu os Dez Mandamentos, “[...] a expressão a fim de viverdes longo tempo na terra que o Senhor vosso Deus vos dará” era apropriada à terra prometida por Moisés aos hebreus em fuga do Egito. A linguagem fora adequada àquele povo inculto e sem noção precisa sobre a vida no mundo espiritual. Quando Jesus esteve no Mundo, no seio daquele povo, suas ideias já estavam mais claras, o que permitiu ao Cristo esclarecê-lo sobre a pátria espiritual para aonde iremos todos nós: “Meu Reino não é deste mundo; é lá e não na Terra, que recebereis a recompensa das vossas boas obras”.[7] Isso porque a verdadeira vida é a espiritual e não a material. O apego às riquezas do mundo, onde “a traça rói, a ferrugem corrói e o ladrão rouba” custará caro aos fascinados pelas coisas materiais, pois devemos juntar “tesouros no céu”, onde nada disso ocorre, como disse Jesus (Mt., 6:19- 20).

            Na questão 207 de O livro dos espíritos, Kardec pergunta se os pais transmitem aos filhos, junto com a semelhança física, a identidade moral. Em resposta, é-lhe informado que tal não ocorre, pois, o espírito não procede do espírito, como ocorre com o corpo.

            Na questão 209, ao ser perguntado pelo Codificador o porquê de “nem sempre” um Espírito bondoso ser atraído pelas “boas qualidades dos pais”, Kardec recebe a seguinte resposta: “Um Espírito mau pode pedir bons pais, na esperança de que seus conselhos o dirijam por um caminho melhor, e muitas vezes Deus o atende”.[8]

            Conclui Kardec sobre a existência de

 

[...] duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços corpóreos. As primeiras são duráveis e se fortalecem pela purificação, perpetuando-se no mundo dos Espíritos através das várias migrações da alma; as segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual [...].[9]

 

            Em longa mensagem n’O evangelho segundo o espiritismo, Santo Agostinho explica-nos que “A ingratidão é um dos frutos mais imediatos do egoísmo. Revolta sempre os corações honestos, mas a dos filhos para com os pais apresenta caráter ainda mais odioso”.[10]

            O sexto mandamento, a nosso ver, corresponde à quarta lei divina relacionada à família que, originalmente, dizia respeito à necessidade de fidelidade mútua entre homem e mulher na constelação familiar: “Não cometereis adultério”.[11] Ao lhe ser apresentada “uma mulher apanhada em adultério”, Jesus propôs aos escribas e fariseus que ameaçavam apedrejá-la, de acordo com lei mosaica, a atirar a primeira pedra quem dentre eles estivesse sem pecado. Não houve quem se atrevesse a lapidá-la, mas o Cristo, após dizer à pecadora que não a condenava, recomendou-lhe ir e não mais pecar (João, 8:3- 11).

            Em seu comentário à sentença de Jesus: Atire-lhe a primeira pedra aquele que estiver sem pecado”, diz Kardec que a indulgência às faltas alheias é um dever de consciência de cada um de nós, pois, antes de julgarmos alguém, devemos observar se também nós não estamos sujeitos à censura por falta semelhante. Entretanto, se a crítica feita a outrem tem por objetivo “desacreditar a pessoa cujos atos se criticam”, essa atitude é indesculpável, pois nela só há maldade. O mesmo não ocorre quando o objetivo é a repressão do mal, quando a censura “pode ser louvável e constitui mesmo, em certas ocasiões, um dever, porque daí pode resultar um bem e porque, a não ser assim, jamais o mal seria reprimido na sociedade”. E conclui Kardec:

 

Jesus não podia proibir que se censurasse o mal, uma vez que Ele próprio nos deu o exemplo, tendo-o feito em termos enérgicos. Quis, porém, dizer que a autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura [...]. Aos olhos de Deus, a única autoridade legítima é a que se apoia no exemplo que dá do bem. É o que, igualmente, ressalta das palavras de Jesus.[12]

 

             O nono mandamento censura a paixão masculina em relação à beleza feminina, quando tal arrebatamento do homem viola o direito do seu semelhante à mulher que ama e com a qual já forma família: “Não desejeis a mulher do vosso próximo”. É o quinto dos dez mandamentos que dizem respeito à base familiar, iniciada por nosso Pai eterno: o respeito à união por amor entre o homem e a mulher, da qual decorre, em regra, a procriação.

            Não faltará quem nos critique, alegando que a lei e os costumes se modificam com o tempo e que, o que se aplicava na época de Moisés e, mesmo, de Jesus, já não cabe em nosso tempo. Entretanto, respondemos aos que alegam tais coisas que nos baseamos no que está contido na Lei Divina, imutável e aplicável a todos os tempos e a todos os países, conforme assegura Allan Kardec.[13] Ninguém foge à Lei de Deus, pois ela está inscrita na consciência de cada um.[14] Jamais nos esqueçamos de que Jesus revogou as leis temporais mosaicas, mas manteve fidelidade às Leis eternas de Deus.

            Tudo o que foi dito não nos impede de exercitar o respeito e a tolerância àqueles que pensam diversamente, ainda que nada dissemos que não possa ser confirmado nas obras das três revelações cristãs, e que decorre de nossos humildes estudos e esforços em lhes sermos fiéis. Desse modo, sem sermos coniventes com o que consideramos não fazer parte da Leis imutáveis de Deus, nosso Pai, Senhor da família universal, mas com todo o respeito aos que ainda não as aceitam, ou desconhecem, oferecemos aos nossos leitores, para reflexões finais, a mensagem do Espírito de Verdade: “Espíritas, amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo. Todas as verdades encontram-se no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana. E eis que do Além-Túmulo, que julgáveis o nada, vozes vos conclamam: “Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade”. [15] O Espiritismo, Cristianismo redivivo, nos ensina que todos somos irmãos, independentemente de crenças, e fazemos parte da grande família universal, cujo Pai é Deus.

 

REFERÊNCIAS



[1] KARDEC, A. O evangelho segundo o espiritismo. 2. ed. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2017, cap. 1, p. 37- 40.

[2] Id., cap. 1, p. 38.

[3] Id., p. 37.

[4] KARDEC, A. O livro dos espíritos. 4. ed., 4. imp. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2017, p. 53, q. 1.

[5] KARDEC, A. O evangelho segundo o espiritismo. 2. ed. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2017, cap. 14, p. 191.

[6] Id., p. 192.

[7] Id., p. 193.

[8] KARDEC, A. O livro dos espíritos. 4. ed., 4. imp. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2017, p. 133- 134.

[9] KARDEC, A. O evangelho segundo o espiritismo. 2. ed., 4. imp. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2017, cap. 14, it. 8.

[10] Id., cap. 14, it. 9.

[11] Id., cap. 1, p. 38.

[12] Id., cap. 10, it. 13.

[13] KARDEC, A. O evangelho segundo o espiritismo. 2. ed., 4. imp. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2017, cap. 1, it. 2.

[14] KARDEC, A. O livro dos espíritos. 4. ed., 4. imp. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2017, q. 621.

[15] Id., cap. 6, it. 5. 

 

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