A Nova Civilização do Terceiro Milênio

por Alexsandro M. Medeiros

lattes.cnpq.br/6947356140810110

postado em jun. 2018

atualizado em jul. 2018

            A teoria social de Pietro Ubaldi, iniciada em A Grande Síntese, pode ser complementada através de suas diferentes obras, mas uma delas em específico merece uma análise mais detalhada por conter vários capítulos dedicados ao tema, qual seja, a obra A Nova Civilização do Terceiro Milênio. Logo no prefácio desta obra Ubaldi revela que, embora esta possa ser lida de forma autônoma, ela serve “como comentário sobre A Grande Síntese” (NCTM, 1982, p. 13 – grifo no original – nas citações das obras de Ubaldi, optamos por usar a sigla da obra, ao invés do sobrenome do autor). A obra em questão inclui em seu conjunto análises sobre temas como: 1. A Verdadeira Civilização; 2. O Involuído e a Propriedade; 5. As Grandes Unidades Coletivas; 7. Rumo a Novo Mundo; 8. Entendimento, Reconstrução, Progresso; 11. A Economia do Evoluído; 12. Pobreza e Riqueza; 20. O Pensamento Social de Cristo; e muitos outros.

            Os quatro primeiros capítulos de A Nova Civilização do Terceiro Milênio ampliam os capítulos de A Grande Síntese: 88. Força e justiça – A gênese do direito; 92. O problema econômico; 93. A distribuição da riqueza; 94. Da fase hedonística à de colaboração. A Grande Síntese opera por dedução (do geral para o particular) e A Nova Civilização do Terceiro Milênio procura aprofundar os aspectos mais particulares da teoria social ubaldiana.

            De acordo com Pietro Ubaldi os problemas sociais são, no fundo, os mesmos problemas fundamentais da vida: conservação da vida, multiplicação da espécie, fome e sexo. “Crescimento demográfico, imigração, guerras, expansão, dominação, vitórias e derrotas, capital e trabalho, propriedade, coordenação de funções, disciplina das relações impostas pela convivência, aí estão problemas que a vida conheceu [...]” (NCTM, 1982, p. 31). Os grandes problemas que a vida impõe, do trabalho, do capital e da propriedade, da família e dos institutos jurídicos nascem da luta para obter os meios de sobrevivência, proteger a prole e a família.

Disponível em:

Chico de Minas Xavier

Acesso em 10/06/2018

            A obra A Nova Civilização do Terceiro Milênio, como todo o conjunto da obra ubaldiana, apresenta uma visão espiritualista, evolucionista e que tem como base o pensamento criador de Deus. Por isso Pietro Ubaldi inicia a obra afirmando que “O conceito fundamental de A Grande Síntese pode resumir-se nestas palavras: ordem em Deus” (NCTM, 1982, p. 16 – grifo no original). Para penetrar a fundo o problema do fenômeno social não basta entendê-lo como fenômeno histórico, é preciso compreendê-lo dentro de um contexto mais amplo de uma lei sábia e poderosa, expressão do pensamento de Deus, que rege todo o funcionamento orgânico do universo. “Ligamos, pois, o fenômeno social, com o qual ficamos marcados, ao conceito fundamental de A Grande Síntese resumido no princípio: ordem e Deus” (NCTM, 1982, p. 31 – grifo no original). E são esses fundamentos que devem servir de base ao que Ubaldi chama de A Nova Civilização do Terceiro Milênio.

            Através de uma ascensão milenar que se perde na aurora dos tempos o ser humano despertou formas mais sutis de sensibilidade e consciência até chegar às complexas relações sociais existentes hoje e que irão prosseguir ainda no futuro. É a lei da evolução que determina o sentido da vida.

            Lei que prepara, sem que os indivíduos tenham necessariamente consciência deste processo, os acontecimentos da História, “elevando os líderes, edificando e destruindo, exaltando e abatendo, de acordo com uma sabedoria desconhecida pelo homem” (NCTM, 1982, p. 18). E agora, mais do que antes, é possível compreender o sentido da História, o significado de suas consequências, e tornar-se um colaborador consciente no plano divino, que quer a evolução da humanidade e planeja esse futuro.

            A História, feita de ciclos, se aproxima de um novo momento, pois a vida é dinâmica, a vida “não para, é movimento que não se pode fazer parar” (NCTM, 1982, p. 18). Estamos no limiar de uma grande curva em que se encerra um ciclo e se prepara outro: estamos no limiar daquela que será conhecida como a Civilização do Espírito, a Nova Civilização do Terceiro Milênio.

Esta é nossa fase, tal como está inscrita na lógica da evolução orgânica do universo; esta é nossa posi­ção no tempo, na série das maturações milenares; este é o elo que hoje devemos soldar.  Aí estão os germes, mas os germes foram feitos para desenvolver-se, aí estão as causas que tendem a atingir o efeito (NCTM, 1982, p. 18).

            O século XX encerrou um ciclo de barbárie, de destruição, de guerras, em que o progresso técnico e científico incidiu de maneira quase catastrófica, aumentando o poder humano de interferir no dinamismo fenomênico do planeta. “O homem de hoje em dia, moralmente deficiente, foi tomado de surpresa diante das novas possibilidades que a ciência lhe oferecia. Corpo de gigante com cérebro de criança de peito (sic)” (NCTM, 1982, p. 21). Foi um período de desequilíbrio, que manifesta hoje suas consequências de diferentes maneiras. Mesmo que essas consequências tenham sido resultado de nossa ignorância é preciso arcar com tal responsabilidade. “Mas o próprio desequilíbrio é criador, luta, esforço genético. Procura desesperadamente reequilibrar-se, hoje, em plano mais alto, em ordem mais ampla, ordem em que o homem inclui e assimila elementos novos” (NCTM, 1982, p. 20).

            O século XX encerra uma fase negativa como a noite vem antes do dia e agora entramos em uma fase construtiva. Uma fase onde predominou o materialismo ao qual deve suceder a civilização do espírito, superando o desmoronamento da onda descendente causado por aquele. E o espírito deve dizer: “eu sou, esta é minha vez, posso criar” (NCTM, 1982, p. 25). Isso está determinado pela lei de Deus.

Isso é o que, irresistivelmen­te, a lei de Deus quer agora. As forças do mal tiveram o seu dia. Mas Deus disse: basta. Em todo lugar, ato, fenômeno do universo estão presentes Seu pensamento e Sua vontade. A História está pronta; os tempos, maduros. Quer dizer: no ritmo da sinfonia dos acontecimentos humanos, no conca­tenamento de causas e efeitos, no desenvolvimento da fatal evolução do mundo, o caminho do tempo está próximo des­sa maturidade e a vida não pode recusar-se a percorrer e concluir essa evolução (NCTM, 1982, p. 25).

            Todavia, para alcançar um novo equilíbrio, é preciso aliar ao progresso científico já alcançado um progresso moral, que deve se estender a todas as áreas, inclusive ao campo político e social (acesse o link a seguir e veja um resenha da obra de Ubaldi: Princípios de uma nova ética. À todos aqueles que se enveredam pelos caminhos do poder, da economia, da indústria, que acreditam que o problema político e social seja um problema meramente técnico, quando na verdade inclui fundamentalmente uma questão de ordem moral. Está inscrito no grande livro da vida, que determina as grandes agitações sociais e desencadeia novas conquistas e novos objetivos, utilitários, de interesse econômico e de cujas conquistas é preciso acrescentar, além do elemento material, o elemento moral e espiritual.

 Disponível em: Civilização Cósmica, acesso em 10/06/2018

É justamente esse o lado oposto, mas complementar, do hipertrófico progresso material de nossos dias. Ora, uma vez que as leis da vida impõem, em todos os pontos, desenvolvimento harmônico e progresso equilibrado, é lógico es­perar-se, agora, correspondente desenvolvimento espiritual, para compensar o contemporâneo excesso de progresso ma­terial (NCTM, 1982, p. 21).

            A formação da nova civilização do espírito, do novo tipo humano do terceiro milênio depende não apenas do progresso técnico e científico, mas do progresso moral do espírito. Não é apenas exterior e dependente de uma revolução social. Trata-se de uma maturação biológica, psíquica, espiritual, profunda e íntima, sem o que toda revolução social será estéril. A transformação social é necessária, mas depende profundamente da formação desse novo homem (como veremos mais adiante). Só é possível passar de uma fase para outra (de uma fase egoísta para outra colaboracionista), com uma profunda transformação do tipo biológico humano: “um salto evolutivo para um nível superior, um amadurecimento que leva a um modo de conceber a vida totalmente diverso, o que não é fácil realizar” (DI, 1995, p. 19).

 

A Concepção Orgânica da Sociedade ou Teoria da Organicidade Social

            A evolução tende 1) para uma organicidade social e 2) para a realização do princípio da solidariedade social. 1) “quanto mais evoluído for o indivíduo, tanto mais será induzido a unificar-se com os seus próprios semelhantes, (estado orgânico, no qual domina a lei da colaboração) (DI, 1995, p. 308). 2) Organicidade e solidariedade social se complementam: pela realização do princípio da solidariedade social, a humanidade passa da fase dos antagonismos entre egoísmos rivais (guerras militares e econômicas, lutas entre classes sociais) à fase da colaboração como elemento funcionando dentro de um grande organismo (sistema orgânico de cooperação).

            Em função do processo evolutivo ao qual todos os homens e mulheres estão submetidos, podemos encontrar pelo menos três tipos de homem na sociedade:

1o) Homem isolado, em luta contra a natureza. Método da força e violência.

2o) Homem que se reagrupa em sociedade, deve portanto lutar menos contra a natureza, mas é rival dos outros componentes do grupo. Desuso do método força-violência e a sua substituição pelo da astúcia-fraude.

3o) Homem que vive no estado orgânico de coletividade. Havendo com o método precedente desenvolvido a inteligência, acabou por compreender quanto é contraproducente o sistema astúcia-fraude e como é vantajoso superá-lo. Então, para alcançar com menor esforço maior bem-estar, adota o método da sinceridade-colaboração (DI, 1995, p. 16).

            O terceiro tipo é o modelo para o qual a sociedade deve se encaminhar e que irá compor a Nova Civilização do Terceiro Milênio. “A humanidade atual encontra-se na segunda das três referidas posições” (DI, 1995, p. 16), o que explica porque em nossa sociedade “os ideais, incluindo os representados pelas religiões, tendem a manifestar-se em forma de hipocrisia e assim existe a indústria da exploração do sentimento religioso” (id., ibidem, p. 16).

            A Nova Civilização do Terceiro Milênio precisa, portanto, superar o método de luta egoísta pelo método da solidariedade humana. O egoísmo, restrito a um ou poucos indivíduos, deverá se estender a todos em uma espécie de egoísmo universal, que melhor será chamar de altruísmo. Se da segunda para a primeira fase os meios fraudulentos substituíram os meios da violência, da terceira para a segunda fase o meio colaboracionista irá substituir os meios fraudulentos. “A cada passo em frente no caminho da evolução, diminui primeiro a violência em favor da fraude, mal menor que substitui o maior, a fraude, por sua vez, diminui em favor da sinceridade e colaboração” (DI, 1995, p. 17). Será uma grande conquista para a sociedade e as bases em torno da qual irá se fundar a Nova Civilização do Terceiro Milênio, em que os métodos de violência e fraudulentos serão substituídos

por um sentimento de solidariedade social, de ajuda recíproca num estado de colaboração e convivência pacífica [...] Desenvolvendo  o espírito de associação, trata-se de eliminar o atávico antagonismo individual, de modo que as forças dos indivíduos isolados não se eliminem, destruindo-se numa luta recíproca, mas ao contrário, se possam somar num estado de cooperação (DI, 1995, p. 17-18).

            A evolução não é apenas individual, mas coletiva. Este tema é aprofundado no capítulo 5 (NCTM, 1982, p. 62-78 – As grandes unidades coletivas). “Ocupar-nos-emos, agora, desse aspecto diferente, coletivista e não individualista, da evolução humana, isto é, da formação desse novo e múltiplo indivíduo coletivo” (NCTM, 1982, p. 63).

O homem atual crê estar sozinho no caos; no entanto, participa de imenso organismo [...] Enquanto evolui, deve o homem apren­der a tornar-se cidadão dessa pátria maior, o universo, e colaborador consciente desse grande organismo, harmonizando-se com todos os fenômenos irmãos e criaturas irmãs, com seus semelhantes, com as forças da Lei. A felicidade e o paraíso consistem, exatamente, nessa harmonização. [...] Em todo campo, políti­co, social, científico, filosófico, moral, torna-se necessário passar do sistema caótico ao sistema orgânico. O sistema do universo é perfeito. Nós, que não sabemos mover-nos nele, é que somos imperfeitos. Esse sistema contém a pos­sibilidade de toda a nossa felicidade (NCTM, 1982, p. 53).

            Semelhante ao organismo individual, este organismo coletivo é organizado em órgãos, membros, coordenamento de funções, onde cada unidade individual existe como célula, que tem funções e objetivos individuais e coletivos. Essa concepção pode muito bem ser relacionada com o princípio do Hermetismo segundo o qual o microcosmo é uma cópia do macrocosmo, de acordo com o axioma da correspondência ou princípio da analogia que diz: Aquilo que está embaixo é como o que está em cima; aquilo que está em cima é como o que está embaixo.  “As grandes unidades coletivas são gigantes organismos sociais, colossais, monstruosos indivíduos biológicos de que o homem é célula; as classes sociais, tecidos; as classes dirigentes, cérebro, as massas, corpo” (NCTM, 1982, p. 64).

            Mas há que considerar que a teoria da organicidade social não significa anulação do indivíduo. “A unificação orgânica coletiva não deve resolver-se no esmagamento e morte do individualismo, que continua a ser a ‘via regia’ da evolução” (NCTM, 1982, p. 74-75). Trata-se de dois princípios complementares e feitos para compensar-se mutuamente. “A Lei quer o equilíbrio, isto é, não quer Estado onipotente, de corpo social em que o indivíduo desapareça, mas a afirmação equilibrada dos dois princípios” (NCTM, 1982, p. 75).

            Se tratados de forma independentes e opostas, os dois princípios entram em choque um com o outro. Isso explica porque tanto o Comunismo quanto o Capitalismo encontram tanto ferrenhos opositores quanto defensores. Àqueles que estão mais próximos do Capitalismo e do liberalismo sentem a necessidade de afirmar sua individualidade e se revoltam diante de toda e qualquer possibilidade de um Estado opressor que anule essa mesma individualidade. Os comunistas e socialistas, por sua vez, compreendem a necessidade do coletivismo que as leis da vida impõem e creem na necessidade de impor limites ao excesso de individualidade, sobretudo do ponto de vista econômico e do mercado, pois entendem que o livre mercado tende a favorecer pequenos grupos dominantes e a desfavorecer a grande maioria de excluídos sociais.

            O que os comunistas não levam em consideração é que

“[...] os homens não são, não podem ser, jamais serão iguais. A justiça é necessária, mas, em razão da estrutura biológica do planeta não no-la pode dar a igualdade, pois na terra a igualdade não corresponde à realidade e, por isso, é absurda e imposta coativamente. A humanidade, no entanto compõe-se de seres de diversíssimo grau evolutivo, que vão da besta ao anjo [...] Entre os dois extremos oscilam mil e um estados intermediários. Vivem materialmente lado a lado, confundidos, ajudando-se e alternando-se no labor evolutivo, mas inconfundíveis quanto à natureza” (NCTM, 1982, p. 429).

            Em todas as raças, em todas as nações, existem indivíduos em diferentes escalas evolutivas. Reconhece-se um individuo evoluído pelas suas inclinações morais. O indivíduo evoluído não tem o objetivo de dominar, não tem tendências imperialistas ou opressoras. Quem oprime não é um espírito adiantado. Mas um espírito atrasado, mesmo que tente ludibriar a todos com a máscara de um indivíduo intelectualizado e virtuoso.

            Na teoria da organicidade social o Estado existe, mas não para anular o indivíduo e sim, para desenvolver suas potencialidades, assim como o indivíduo deve compreender que faz parte de um todo maior, de um sistema coletivo que, se não anula a individualidade, impõe a necessidade de pensar coletivamente.

            Por isso os sistemas coletivos necessitam de um novo homem, assim como um “engenheiro poderá realizar projetos maravilhosos, mas se não dispuser de bom material os edifícios por ele construídos desabarão” (NCTM, 1982, p. 79). Pensar e agir organicamente implica valores diferentes do que aqueles do individualismo exacerbado, do domínio da força, do egoísmo e da astúcia que pensa antes de tudo em si mesmo. O egoísmo é princípio desagregador e, por isso, não pode constituir fundamento de um organismo social.

Inútil estar sempre cogitando novos sistemas sociais, enquanto não se puder dispor de outro tipo humano como material construtivo. Com esse homem anti-social e caótico não se pode pretender sólida construção coletiva [...] Em face desse princípio fundamental de ordem, torna-se secundária, quase sem importância, a forma do sistema social, segundo o qual os homens tanto se separam e tanto se batem. Não é a estrutura do sistema o que importa e decide, mas haver entendido a lógica e a vantagem, até mesmo individual, da honestidade [...] (NCTM, 1982, p. 81-82).

            Trata-se de novo utilitarismo orgânico, em que a força e a astúcia devem ser substituídas pela retidão e pelo merecimento, e o egoísmo pela honestidade.

            Conceber o universo organicamente implica concebê-lo sob a ótica da lei e da ordem que através da evolução supera o modelo individualista egocêntrico anti-social e se dirige para uma coletividade orgânica onde predomina o homem social. A partir de um telos e uma finalidade a “estrutura do universo nos orienta e sempre faz retornar ao mesmo conceito fundamental, ou seja, ao pensamento central ao redor de que tudo gira e pode chamar-se: Deus, Lei, Ordem” (NCTM, 1982, p. 100). Essa Lei determina que

a vida se encaminha para a superação das suas formas passadas – baseadas na lei da luta pela seleção do mais forte e individualismo egocêntrico anti-social – e se prepara para a construção de um novo homem social, adequado a viver não mais guerreando no caos, mas como um elemento que forma parte de uma coletividade orgânica (DI, 1995, p. 301).

 

O Novo Homem, da Nova Civilização do Espírito

            A nova civilização do terceiro milênio exige uma transformação profunda de homens e mulheres que irão fazer parte dessa nova sociedade. A marcha evolutiva determinada pela Lei da Vida ou, se se preferir, pela Lei de Deus, implica em um amadurecimento cada vez mais significativo do espírito. É um trabalho lento, que se desenvolve no íntimo de cada um – para um compreensão desse processo levando em consideração uma perspectiva psicológica ver: Como a maturidade psíquica influencia as relações e a vida em sociedade na perspectiva espiritualista de Pietro Ubaldi.

            “Os novos homens não exibirão sinais exteriores, que o vestuário possa mudar, mas sinais interiores impressos no coração e na mente” (NCMT, 1982, 173-174). É uma nova classe de homens que Pietro Ubaldi chama de “sacerdotes do espírito”, de homens que se destacam não pela forma exterior, pela condição social ou posição hierárquica que ocupa, mas pela sua maneira de ser e dar o exemplo: “de não pretender pregar moral antes de poder dizer: eu também faço assim” (NCTM, 1982, p. 175). É um processo de transformação e maturação que ocorre não apenas no plano espiritual, mas também no plano biológico. É um novo tipo biológico e orgânico que inclui o elemento espiritual que deve libertar-se da animalidade e da ferocidade que tanto caracterizam o biótipo comum.

Observemos mais de perto esse fenômeno de transformação biológica evolutiva. A vida é criação contínua, obra de forças invisíveis que trabalham internamente [...] Através da evolução, a forma se sutiliza, se torna transparente, de modo a que a divina essência das coisas possa tornar-se cada vez mais evidente [...] De semelhante progresso nascerá o novo tipo biológico, base das humanidades futuras [...] Isso significa tornar-se mais dinâmico, percuciente, sensível, ou seja, menos rude e obtuso [...] O novo tipo biológico, se socialmente será o homem orgânico, individualmente será o homem do espírito (NCTM, 1982, p. 177-178).

            Não é, portanto, meramente um processo espiritual, mas físico, biológico, psíquico, um processo de desmaterialização, de maior sensibilização, evolução da percepção sensorial da visão, audição e de todas as vias sensoriais, evolução do sistema nervoso.

            A evolução caminha para a generalização de um tipo biológico mais adiantado e “poderíamos dizer que o homem atual está para o futuro tipo biológico assim como o pré-histórico pitecantropo está para o homem atual” (NCTM, 1982, p. 184)[1].

            A obra A Nova Civilização do Terceiro Milênio traz ainda discussões sobre temas como:

O Problema Econômico

O Fenômeno da Propriedade

O Pensamento Social do Evangelho

Expiações Coletivas: Evolução através da Dor

            Pela complexidade que cada um destes temas envolve no conjunto da obra ubaldiana, um texto específico foi/será elaborado para tratar a questão. Apenas o texto O Pensamento Social do Evangelho não está disponível para acesso.

 

Referências Bibliográficas

UBALDI, Pietro. A Descida dos Ideais (DI). Tradução de  Manuel Emygdio da Silva. 3. ed. Campos dos Goytacazes, RJ: Fraternidade Francisco de Assis, 1995.

____. A Nova Civilização do Terceiro Milênio (NCTM). Tradução de Oscar Paes Leme. 3. ed. Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi, 1982.



[1] As linhas gerais das implicações biológicas do fenômeno evolutivo se encontram desde a obra A Grande Síntese, com ênfase nos capítulos XLIII, LI, LII, LXIII, LXVI, LXVII, LXXV,

 

Filosofia Política → Filosofia Contemporânea → Pietro Ubaldi → A Nova Civilização do Terceiro Milênio