A Poética

A Poética

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em: abr. 2018

atualizado em: jan. 2022

            A Poética é uma obra do filósofo grego Aristóteles, composta “no século IV a.C., em data difícil de precisar” (PEREIRA apud ARISTÓTELES, 2008, p. 31), mas que provavelmente deve ter ocorrido “no último período da vida do filósofo” (SOUSA apud ARISTÓTELES, 2003, p. 26).

          A Poética consiste em um conjunto de anotações das aulas do mestre do Liceu (a escola de Aristóteles) de temas ligados à poesia e a arte em geral. A Poética não é tanto um tratado de arte, quanto uma investigação filosófica sobre o fazer poético e a inserção prática das artes na boa formação dos homens. O propósito da Poética é o de definir a natureza e função da poesia (aspecto filosófico) ainda que apresente algumas instruções aos poetas (aspecto artístico). Há que se observar que para o filósofo grego, a poesia tem algo de filosófico, a poesia é mais filosófica que a história, por exemplo, pois enquanto esta se atém ao factível e particular, a poesia pode se direcionar ao universal.

            Segundo Santoro (2007, p. 4), a Poética de Aristóteles, na história da civilização ocidental, é uma das obras que “mais influenciou a estética, tanto no sentido de filosofia da arte, quando no sentido de produção refletida da obra de arte”, sendo uma das obras teóricas mais estudadas “pela estética e filosofia da arte, de todos os tempos”. “O texto aristotélico é a base da teoria da literatura do Ocidente e a Poética é uma sistematização sobre o discurso literário, na qual são discutidas a natureza da poesia e suas espécies, critérios distintos de imitação narrativa, gêneros e verossimilhança” (ARAÚJO, 2011, p. 72 – grifo do autor).

            O primeiro livro da Poética está dividido em duas partes: na primeira é analisado o conceito de poesia como imitação (caps. 1 a 5); a segunda estuda a tragédia (um gênero da poesia dramática) e tece comparações com a poesia lírica e a epopeia, considerando a tragédia um gênero superior em comparação aos outros dois. Seguindo esta divisão, a segunda parte pode ser dividida ainda em cinco outras partes:

na primeira, compreendendo os capítulos 6 a 19, estaria contida toda a teoria da tragédia; a segunda, representada pelos capítulos 20 a 22 versaria sobre a expressão poética; a epopéia seria assunto da terceira parte (capítulos 23 e 24) as últimas partes seriam os capítulos 25 (problemas e soluções) e o capítulo 26 onde é enfocada a superioridade da tragédia sobre a epopéia (TOLEDO, 2005, p. 18).

          Nos primeiros capítulos Aristóteles desenvolve o conceito de poesia (a poesia como imitação) e divide os tipos de poesias “pelas qualidades dos indivíduos que praticam a acção (objecto), do meio por que se imita e do modo como se imita; e essas espécies vêm a ser: ditirambo, nomo, comédia, tragédia, epopeia” (SOUSA apud ARISTÓTELES, 2003, p. 36).

A apresentação da obra abrange o tratamento da epopeia, da tragédia, da poesia ditirâmbica, bem como outros tipos de imitação, como a citarística (arte de tocar a citara) e a aulética (arte de tocar aulos) [Poética I, 1447a 13 -16]. O estudo prossegue com a comparação entre a tragédia e a epopeia, mas não sem antes uma apreciação sobre o tipo de imitação que faz a comédia. A diferenciação entre a comédia e a tragédia (capitulo V), exalta o valor da tragédia e a coloca ao lado da epopeia. A distinção entre epopeia e tragédia permite que Aristóteles conduza uma digressão para o tratamento particular da tragédia, cujo início se dá no sexto capitulo, com a definição de tragédia, e pode ser acompanhado até o final do texto que nos restou, e que se encerra com o anúncio do tratamento do tema da comédia (CAMPOS, 2012, p. 16).

            Existe a possibilidade de dividir o plano da obra em três partes principais, como sugere Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 9 – Maria Helena da Rocha Pereira é autora do Prefácio da tradução da Poética pela Fundação Calouste Gulbenkian): “uma de introdução em que a mimesis surge logo como o conceito fundamental em que assenta a actividade poética (caps. 1 a 5); outra sobre a tragédia (caps. 6 a 22); e outra ainda sobre a epopeia (caps. 23 a 26)”. Ainda sobre a divisão da obra e referindo-se à segunda parte, Eudoro de Sousa (que é quem faz a tradução, o prefácio, introdução, além de comentários a uma das traduções da Poética de Aristóteles) pondera que esta:

é justamente dedicada ao estudo da tragédia e à comparação dos géneros trágico e épico. Começa por dar a famosa definição: “é, pois, a tragédia imitação de uma acção austera ...” (c. VI), enumerando depois os diversos elementos do drama: espectáculo, melopeia, elocução, pensamento, mito e carácter (apud ARISTÓTELES, 2003, p. 36).

            Aristóteles escreveu ainda um segundo livro para tratar de temas como a comédia e a sátira sendo que este foi perdido. Báez (2002, p. 13 – tradução nossa) ressalta algumas informações que reforçam a existência deste segundo livro, como o comentário de Eustracio, em 1100, sobre a Ética a Nicômaco, que “disse que Aristóteles mencionou o Margites de Homero no primeiro livro da Poética, o que evidencia a existência de uma continuação” ou o caso da tradução latina de William de Moerbeke “que em sua tradução latina da Poética, usou um título ilustrativo ‘primus Aristotilis de arte poetica liber explicit’”. Esse segundo argumento também é destacado por Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 9): “Outra ainda, e não menos convincente, ainda que tardia, é o cólofon da já referida tradução latina de Guilherrne de Moerbecke, onde se lê: Primus Aristotelis de arte poética liber explicit. Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 8) ainda faz alusão a uma referência do próprio Aristóteles sobre a comédia no início do capítulo 6 do primeiro livro (1449b 21): “em que o autor anuncia que mais tarde falará ‘da arte de imitar em hexâmetros e da comédia’. Se a primeira promessa é cumprida nos caps. 23 e 24, a segunda não o é. Além de que a Retórica III. 1419b 5 confirma a existência dessa análise”, o que reforçaria a existência do segundo livro da Poética.

A imagem acima destaca as principais edições críticas da obra Poética de Aristóteles. Ao lado vemos a legenda (adaptado de: SOUSA apud ARISTÓTELES, 2003, p. 16).

 

A Poesia como Arte Mimética

           A introdução da noção de mímesis (imitação) atravessa, de acordo com Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 10) toda a obra de Aristóteles:

Encontra-se na epopeia [cap. 25] e na tragédia [cap. 6, 1449b 24-28] e também na comédia e no ditirambo, bem como em grande parte na música da flauta e da cítara (1441a 13-16). Realiza-se pelo ritmo, pela linguagem e pela melodia, embora se reconheça a existência de artes que se limitam a usar a melodia e o ritmo (como tocar siringe) ou mesmo o ritmo sem melodia (como a dança).

            A visão da poesia como arte mimética, ou seja, como imitação, é uma herança platônica. Sócrates definiu a poesia como imitação na obra República, de Platão. Ao definir a poesia como imitação o artífice, ou seja, o poeta, se torna um imitador de segunda classe, na visão platônica, pois assim sendo a poesia está distanciada duplamente da verdade, sendo capaz de produzir falsidades e sofismas. O artesão cria imagens baseado naquilo que ele percebe do mundo sensível que, por sua vez, é uma imitação do mundo das ideias. Por isso a poesia é imitação da imitação. Platão condena a imitação no plano educativo para a cidade ideal pois ela é uma imitação de tudo o que não é perfeito “e termina por declarar que a mimesis está três pontos afastada da natureza, logo, distante da verdade. O desfecho desta argumentação conduz a um dos passos mais célebres do diálogo: a condenação da poesia” (PEREIRA apud ARISTÓTELES, 2008, p. 10-11). Ao discorrer sobre a educação dos cidadãos em uma cidade ideal, tal como encontramos na República, Platão infere sobre o que deve e o que não deve ser aceito na cidade e a sua crítica à mímesis e, consequentemente, à poesia e até à música, reside precisamente nesta questão.

A poesia e a música cumpriam um papel de destaque na formação do cidadão grego contemporâneo a Platão. Os jovens gregos eram educados à sombra dos poetas: primeiro Homero e Hesíodo e depois os trágicos. A posição de Platão com relação à poesia mimética evidentemente diz respeito à posição que lhe será dada na formação dos guardiães, isto é, dos soldados cidadãos da nova cidade (TOLEDO, 2005, p. 21).

            É em relação com a educação que Platão discute a poesia mimética e a influência que a poesia pode exercer sobre a educação da cidade.

Para Platão parece ser motivo de condenação o uso que os poetas fazem dos antigos mitos. Não lhe parece apropriado que o divino seja responsabilizado pelo mal ou pelo injusto. O mal não pode advir do divino, só o bem. O divino nunca muda, nunca mente, nunca engana e, se é assim, Platão não pode aceitar a interpretação dada ao divino pelos poetas trágicos. Nem tampouco se espera que os heróis se comportem de maneira tão irracional. Seus lamentos e gritos, sua falta de controle, não são ideais a serem seguidos. A poesia mimética é vista aqui como responsável por minar a coragem e o equilíbrio dos jovens guerreiros. Se o tratamento dispensado aos deuses pelos poetas trágicos é motivo de condenação, muito mais se condena o efeito que tais obras provocam na audiência (TOLEDO, 2005, p. 23).

            Platão entende, então, que a mímesis, ou o ato de imitar, produziria uma segunda natureza, causando prejuízo a quem assim o faz pois a persistência do ato de imitar acabaria se transformando em um hábito, daí se pode concluir que a imitação, para ser aceitável, deve “dedicar-se apenas aos exemplos que possam ser seguidos, isto é, aos homens de bem, às ações produzidas pelos homens de bem, tornando-se inaceitável, toda vez que imitar homens que não são dignos de admiração” (TOLEDO, 2005, p. 24).

            A poesia, e a música, devem imitar o que há de melhor, como atos de coragem, temperança e sabedoria, entretanto, em se tratando da poesia na forma dramática e trágica, sua crítica é mais exigente. Se inicialmente Platão reserva algum lugar à poesia imitativa (Livro III da República), posteriormente sua oposição é bem mais decisiva (Livro X da República). Há que se considerar ainda, a relação da imitação com a teoria das ideias platônicas e a sua visão da alma, em torno do qual, remetemos o leitor para a dissertação de Toledo (2005, p. 27-32).

          De modo geral, podemos destacar algumas questões pelas quais Platão condena a mímesis: a principal, de cunho pedagógico; outra, de cunho ético e moral, “no qual é reconhecida a força da mímesis, mas também seu caráter nocivo, no sentido de ser um agente com potencial para transformar o bem em mal” (TOLEDO, 2005, p. 32); temos ainda a crítica ontológica/epistemológica que se relaciona com a teoria das ideias e com a visão do filósofo sobre a alma, onde residem os desejos e paixões; e podemos falar ainda de um sentido “estilístico-formal onde a mímesis é identificada com o estilo direto, teatral, em oposição ao estilo diegético, indireto da argumentação filosófica” (TOLEDO, 2005, p. 32).

            Dentro da questão platônica Araújo (2011, p. 71) propõe que se faça uma distinção entre arte e mímesis em Platão, sendo que “a arte tem uma origem sacra, divina e misteriosa, ao passo que a mímesis é apenas limitada a representar, sem propósitos pedagógicos ou morais que visem a essência das coisas ou a verdadeira natureza dos objetos” (ARAÚJO, 2011, p. 71). Por esse motivo, a mímesis na visão de Platão é não apenas falsa e ilusória, mas prejudicial ao discurso verdadeiro, ao contrário da arte, que é divina e sacra.

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(Acesso em 16/03/2018)

            Aristóteles herda a concepção de arte mimética e, embora procure resgatar o valor tradicional da arte como sabedoria e verdade no que diz respeito às artes literárias, quando se trata das artes não literárias mantém a visão de uma atividade socialmente inferior e ofício de artesão. “Também para Aristóteles, tal como para o seu mes­tre, a poesia e em geral a arte é mimesis, ‘imitação’: sem todavia retirar as consequências negativas que são explicitadas no livro X da República” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 274). Existe uma diferença crucial entre Aristóteles e Platão, pois Aristóteles “apesar de perseguir o mesmo fim de Platão que é educar o cidadão, dá um tratamento oposto à questão mimética, não no sentido de condená-la, mas de integrá-la, absorvê-la, domesticá-la” (TOLEDO, 2005, p. 32). E ainda:

A mímesis aristotélica é um contraponto à mímesis de Platão, não define o valor artístico (baixo) mas vem resgatar o valor de verdade: se, para Platão, a imitação era o distanciamento da verdade e o lugar da falsidade e da ilusão, para Aristóteles, a imitação é o lugar da semelhança e da verossimilhança, o lugar do reconhecimento e da representação (SANTORO, 2007, p. 6)

Disponível em: Mosqueteiras Literárias (Acesso em 11/03/2018).

            Donini e Ferrari (2012, p. 276) acrescentam a esta discussão a ideia de que Aristóteles não circunscreve a ideia de mímesis (imitação ou representação)

no campo da verdade, mas do possível e do verossímil e deve ser afastada do imitativo (imitação da imitação). Ao contrário de Platão que vê o aspecto negativo da imitação, Aristóteles vê na poesia “que atinge o seu fim e forma perfeita na tragédia [...] o seu lugar porque tem uma função positiva na cidade dos homens.

            Aristóteles entende que existem três formas de o poeta representar as coisas: como eram ou são (referência ao passado ou presente); como dizem que elas são ou parecem ser (referência pela opinião); ou como deveriam ser (referência a uma situação ideal). E haveria pelo menos duas formas de o poeta representar o erro: quando não é capaz de imitar com perfeição o original; quando erra na própria concepção do original ou cria coisas impossíveis.

            O centro da questão, no entanto, como aponta Toledo (2005), é o da poesia como imitação de alguma ação, o da poesia como imitação de homens em ação (que podem ser melhores, piores ou semelhantes a nós), mas não se trata, em essência, de imitar uma personalidade ou o caráter de um homem.

Para Aristóteles, o que está em jogo é a imitação das ações [...] Mesmo a famosa distinção aristotélica entre tragédia e comédia, isto é, a de que a primeira imitaria homens melhores do que eles são e a comédia, homens piores; mesmo aqui, não se deve recuar com relação ao princípio de que a tragédia, assim como a comédia, numa só palavra, o teatro é mímesis da ação. Como o próprio Aristóteles vai afirmar um pouco adiante: na tragédia, não agem as personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para efetuar a ação (TOLEDO, 2005, p. 53).

            Uma questão interessante a ser ressaltada em torno da ideia de imitação, é que, da mesma forma como Aristóteles considera a busca pelo conhecimento como algo natural – “todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer”, diz Aristóteles na Metafísica –, da mesma forma o imitar é congênito no homem, sendo considerado por isso como uma causa natural que gerou a poesia: “Ao que parece, duas causas, e ambas naturais, geraram a poesia. O imitar é congênito no homem (e nisso difere dos outros viventes, pois, de todos, é ele o mais imitador, e, por imitação, aprende as primeiras noções), e os homens se comprazem no imitado” (ARISTÓTELES, 1448, b 5 – c. IV).

            Vale ressaltar que a Poética não é a única obra em que Aristóteles trata da imitação, mas também, como pondera Lemos (2009, p. 85), na Física, nos Meteorológicos e ainda: “no Protréptico, na Retórica e na Metafísica. Em todas essas obras o que se analisa é a relação da arte com a natureza”.

           Outra questão a ser considerar é que, se a ideia aristotélica sobre a obra de arte está inserida em uma tradição platônica, no sentido de que parte de muitos de seus princípios e enfrenta os problemas por ela levantados, Santoro (2007, p. 5) acrescenta ainda outros conceitos-chave que são retomados por Aristóteles, como os objetos de discussão que são principalmente os poemas épicos e a dramaturgia.

            Vamos analisar em breves linhas os dois dos principais tipos de arte mimética a partir da obra Poética que são: a tragédia e a epopeia.

            A tragédia é imitação de uma ação de caráter elevado que, suscitando o terror (φόβος) e a piedade (ἔλεος), tem por efeito a purificação, a catarse (kάϑarsiς), dessas emoções.

A tragédia é arte mimética por excelência, uma forma específica de mímesis, e Aristóteles a trata como uma representação de ações de homens de caráter elevado (objeto de imitação), expressa por uma linguagem ornamentada (meio), através do diálogo e do espetáculo cênico (modo), visando a purificação das emoções (efeito catártico), à medida que suscita o temor e a piedade no espectador (ARAÚJO, 2011, p. 74).

            Na Poética, Aristóteles escreve (2008, 1449b, 24-27 35-36, 1450a 1-4):

A tragédia é a imitação de uma acção elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das suas partes, que se serve da acção e não da narração e que, por meio da compaixão e do temor, provoca a purificação de tais paixões [...] Como a tragédia é a imitação de uma acção e é realizada pela actuação de algumas pessoas que, necessariamente, são diferentes no carácter e no pensamento (é através disto que classificamos as acções [são duas as causas das acções: o pensamento e o carácter] e é por causa destas acções que todos vencem ou fracassam).

            Leal (2010, p. 223) ressalta que o vocábulo grego catarse, ora traduzido como purificação “poderia receber outras variações semânticas, tais como purgação, consolação da alma através de um dever moral, e, até mesmo, referir-se a uma cerimônia ou ritual de purificação [...] sobre o conceito Cf. Poet., 1455b, 15”.

            A epopeia é analisada nos quatro últimos capítulos da Poética. Apresenta muitas semelhanças com a tragédia, inclusive na sua estrutura, mas distingue-se desta por ser uma imitação narrativa metrificada e pela extensão (é mais longa). Sua estrutura em verso a torna diferente das narrativas históricas. Tal como a tragédia, a epopeia também consiste em uma imitação de homens superiores, diferente da comédia, que seria uma imitação de homens inferiores.

Principiando pela comparação entre os dois géneros [epopeia e tragédia], aos quais deve ser comum a unidade de acção (cap. 23), segue-se a análise das diferenças entre ambos (cap. 24) e de alguns problemas e suas soluções (cap. 25), para concluir pela superioridade da tragédia sobre a epopeia (PEREIRA apud ARISTÓTELES, 2008, p. 29-30).

 

Poética e Ética

            Ao definir a tragédia como mímese de uma ação, a poética deve ser analisada em relação com a moral aristotélica, como pondera Gazoni (2006), uma vez que, é na Ética a Nicômaco, que nós encontramos informações sobe a compreensão aristotélica da ação humana. Na ética aristotélica, é a repetição de uma ação (hábito) que faz com que um indivíduo tenha essa ou aquela virtude: “É realizando ações corajosas que nos tornamos corajosos, é realizando ações justa (sic) que nos tornamos justos” (GAZONI, 2006, p. 14).

          A vida humana é formada por ações (voluntárias ou involuntárias, conforme o Livro III da Ética a Nicômaco) e “Aristóteles afirma que o homem é princípio e ‘genitor de ações como de filhos’; [...] cita casos de injustiça e de des­regramento como responsabilidade dos próprios injustos e desregrados” (BUARQUE, 2015, p. 131).

            Se considerarmos que na ética aristotélica a virtude diz respeito a ações e emoções (1109 b 30), então temos mais um elemento para considerar a relação entre a Poética e a Ética, notadamente considerando a questão da catarse como uma descarga emocional. Nesse caso, temos que, sentir emoções de maneira correta e com intensidade correta, corresponderia a uma forma de aprendizado das virtudes.

            Na Poética são ressaltadas emoções como o medo (phóbos) e a piedade (eleeinós), sendo que tais emoções podem levar a ação ou reação.

Desse modo podemos entender que, para Aristóteles, as emoções despertadas através da ficção expressa na poesia trágica, ou do espetáculo da tragédia, dizem muito a respeito do caráter e da virtude. Sua manifestação por meio de gestos ou mesmo de simples e quase imperceptíveis sinais do corpo podem revelar as disposições morais de um cidadão. Podem mesmo ser úteis à consolidação de um caráter virtuoso ou vicioso por indicarem prazeres a ratificar ou a se evitar. Portanto, as reações apresentadas pelo homem quando afetado pelo discurso persuasivo, ou mesmo quando inspirado poeticamente a se emocionar podem deixar transparecer o caráter e preparar o cidadão para reagir ao mundo. Ao ser tocado por uma emoção estimulada por meio de mímesis, o agente será instigado a agir de modo a demonstrar a boa forma de suas disposições e sua retidão ética (ALMEIDA, 2014, p. 37).

            Na Poética há o elemento emocional que implica no que o espectador sente. “E mesmo que a tragédia não leve o público realmente a agir devido às emoções que sente, talvez o leve a reagir emocionalmente, indicando aspectos do seu caráter e validando o estudo das emoções trágicas mesmo numa pesquisa de escopo ético” (ALMEIDA, 2014, p. 37). Ou mesmo que a intenção da tragédia possa não ser a de levar o público a agir devido às emoções que sente, não há como negar o seu aspecto ético. “Portanto, concluímos que as artes de emocionar podem ser relacionadas a questões éticas propostas por Aristóteles” (ALMEIDA, 2014, p. 38).

            É assim que a poesia, como imitação de uma ação, de homens em ação, permitira “ao cidadão lidar melhor com certas emoções, podendo mesmo auxiliar no preparo do agente para as situações reais possivelmente enfrentadas vida afora” (ALMEIDA, 2014, p. 38). A tragédia permitiria ao cidadão lidar com certas emoções e, por conseguinte, preparar para situações reais, ao imitar homens melhores e a comédia, homens piores.

 

Referências

ALMEIDA, Juliana Santana de. As artes de emocionar e a ética de Aristóteles. FUNDAMENTO – Revista de Pesquisa em Filosofia, n. 9, p. 25-39, jul./dez., 2014. Acesso em: 14 jan. 2022.

ARAÚJO, Maria C. A Poética de Aristóteles sob a abordagem de Lígia Militz da Costa. Kalíope, São Paulo, ano 7, n. 14, p. 70-82, jul./dez., 2011. Acesso em 08/02/2018.

ARISTÓTELES. Poética. Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira. Tradução e notas de  Ana Maria Valente. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

____. Poética. Tradução, prefácio, introdução, comentário e apêndices de Eudoro de Sousa. 7. ed. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2003. (Clássicos de Filosofia).

BÁEZ, Fernando. Los Escritos Perdidos de Aristóteles. Revista A Parte Rei, 24:12, p. 1-14, 2002.

BUARQUE, Luisa. Ética Poética: a contingência e a ação na tragédia segundo Aristóteles. Kléos, n. 19, p. 113-136, 2015. Acesso em: 16 jan. 2022.

CAMPOS, Joyce Neves de. Ação, destino e deliberação na tragédia grega e na Ética aristotélica. Dissertação (Mestrado em Filosofia). 81 f. Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2012.

DONINI, Pierluigi; FERRARI, Franco. O exercício da razão no mundo clássico: perfil de filosofia antiga. São Paulo: Annablume Clássica, 2012. (Coleção Archai: as origens do pensamento ocidental).

GAZONI, Fernando Maciel. A Poética de Aristóteles: tradução e comentários. Tese (Doutorado em Filosofia), Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

LEAL, Tito Barros. Ética entre tragédia e filosofia: as mutações do agir-ético no processo histórico transitorial dos universos arcaico e clássico na Grécia antiga. Kínesis, Vol. II, n° 03, p. 220 – 237, Abril-2010. Acesso em 29/03/2018.

LEMOS, Carlos de Almeida. A Imitação em Aristóteles. Anais de Filosofia Clássica, v. 3, n. 5, p. 84-90, 2009. Acesso em: 15 jan. 2022

SANTORO, Fernando. Sobre a estética de Aristóteles. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. I, n. 2, mai./ago., p. 1-13, 2007. Acesso em 29/03/2018

TOLEDO, Alexandre Mauro. Mímesis e Tragédia na Poética de Aristóteles. Dissertação (Mestrado em Filosofia), Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.

 

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