A Poética

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em abr. 2018

            A Poética é uma obra do filósofo grego Aristóteles, composta “no século IV a.C., em data difícil de precisar” (PEREIRA apud ARISTÓTELES, 2008, p. 31), que consiste em um conjunto de anotações das aulas do mestre do Liceu (a escola de Aristóteles) de temas ligados à poesia e a arte em geral. A Poética não é tanto um tratado de arte, quanto uma investigação filosófica sobre o fazer poético e a inserção prática das artes na boa formação dos homens. O propósito da Poética é o de definir a natureza e função da poesia (aspecto filosófico) ainda que apresente algumas instruções aos poetas (aspecto artístico). Há que se observar que para o filósofo grego, a poesia tem algo de filosófico, a poesia é mais filosófica que a história, por exemplo, pois enquanto esta se atém ao factível e particular, a poesia pode se direcionar ao universal.

            Segundo Santoro (2007, p. 4), a Poética de Aristóteles, na história da civilização ocidental, é uma das obras que “mais influenciou a estética, tanto no sentido de filosofia da arte, quando no sentido de produção refletida da obra de arte”, sendo uma das obras teóricas mais estudadas “pela estética e filosofia da arte, de todos os tempos”. “O texto aristotélico é a base da teoria da literatura do Ocidente e a Poética é uma sistematização sobre o discurso literário, na qual são discutidas a natureza da poesia e suas espécies, critérios distintos de imitação narrativa, gêneros e verossimilhança” (ARAÚJO, 2011, p. 72 – grifo do autor).

            O primeiro livro da Poética está dividido em duas partes: na primeira é analisado o conceito de poesia como imitação; a segunda estuda a tragédia (um gênero da poesia dramática) e tece comparações com a poesia lírica e a epopeia, considerando a tragédia um gênero superior em comparação aos outros dois.

          Nos primeiros capítulos Aristóteles desenvolve o conceito de poesia (a poesia como imitação) e divide os tipos de poesias “pelas qualidades dos indivíduos que praticam a acção (objecto), do meio por que se imita e do modo como se imita; e essas espécies vêm a ser: ditirambo, nomo, comédia, tragédia, epopeia” (SOUSA apud ARISTÓTELES, 2003, p. 36).

A apresentação da obra abrange o tratamento da epopeia, da tragédia, da poesia ditirâmbica, bem como outros tipos de imitação, como a citarística (arte de tocar a citara) e a aulética (arte de tocar aulos) [Poética I, 1447a 13 -16]. O estudo prossegue com a comparação entre a tragédia e a epopeia, mas não sem antes uma apreciação sobre o tipo de imitação que faz a comédia. A diferenciação entre a comédia e a tragédia (capitulo V), exalta o valor da tragédia e a coloca ao lado da epopeia. A distinção entre epopeia e tragédia permite que Aristóteles conduza uma digressão para o tratamento particular da tragédia, cujo início se dá no sexto capitulo, com a definição de tragédia, e pode ser acompanhado até o final do texto que nos restou, e que se encerra com o anúncio do tratamento do tema da comédia (CAMPOS, 2012, p. 16).

            Existe a possibilidade de dividir o plano da obra em três partes principais, como sugere Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 9 – Maria Helena da Rocha Pereira é autora do Prefácio da tradução da Poética pela Fundação Calouste Gulbenkian): “uma de introdução em que a mimesis surge logo como o conceito fundamental em que assenta a actividade poética (caps. 1 a 5); outra sobre a tragédia (caps. 6 a 22); e outra ainda sobre a epopeia (caps. 23 a 26)”.

A segunda parte é justamente dedicada ao estudo da tragédia e à comparação dos géneros trágico e épico. Começa por dar a famosa definição: “é, pois, a tragédia imitação de uma acção austera ...” (c. VI), enumerando depois os diversos elementos do drama: espectáculo, melopeia, elocução, pensamento, mito e carácter (SOUSA apud ARISTÓTELES, 2003, p. 36).

            Aristóteles escreveu ainda um segundo livro para tratar de temas como a comédia e a sátira sendo que este foi perdido. Báez (2002, p. 13 – tradução nossa) ressalta algumas informações que reforçam a existência deste segundo livro, como o comentário de Eustracio, em 1100, sobre a Ética a Nicômaco, que “disse que Aristóteles mencionou o Margites de Homero no primeiro livro da Poética, o que evidencia a existência de uma continuação” ou o caso da tradução latina de William de Moerbeke “que em sua tradução latina da Poética, usou um título ilustrativo ‘primus Aristotilis de arte poetica liber explicit’”. Esse segundo argumento também é destacado por Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 9): “Outra ainda, e não menos convincente, ainda que tardia, é o cólofon da já referida tradução latina de Guilherrne de Moerbecke, onde se lê: Primus Aristotelis de arte poética liber explicit. Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 8) ainda faz alusão a uma referência do próprio Aristóteles sobre a comédia no início do capítulo 6 do primeiro livro (1449b 21): “em que o autor anuncia que mais tarde falará ‘da arte de imitar em hexâmetros e da comédia’. Se a primeira promessa é cumprida nos caps. 23 e 24, a segunda não o é. Além de que a Retórica III. 1419b 5 confirma a existência dessa análise”, o que reforçaria a existência do segundo livro da Poética.

A imagem acima destaca as principais edições críticas da obra Poética de Aristóteles. Ao lado vemos a legenda (adaptado de: SOUSA apud ARISTÓTELES, 2003, p. 16).

 

A Poesia como Arte Mimética

           A introdução da noção de mímesis (imitação) atravessa, de acordo com Pereira (apud ARISTÓTELES, 2008, p. 10) toda a obra de Aristóteles:

Encontra-se na epopeia [cap. 25] e na tragédia [cap. 6, 1449b 24-28] e também na comédia e no ditirambo, bem como em grande parte na música da flauta e da cítara (1441a 13-16). Realiza-se pelo ritmo, pela linguagem e pela melodia, embora se reconheça a existência de artes que se limitam a usar a melodia e o ritmo (como tocar siringe) ou mesmo o ritmo sem melodia (como a dança).

            A visão da poesia como arte mimética, ou seja, como imitação, é uma herança platônica. Sócrates definiu a poesia como imitação na obra República, de Platão. Ao definir a poesia como imitação o artífice, ou seja, o poeta, se torna um imitador de segunda classe, na visão platônica, pois assim sendo a poesia está distanciada duplamente da verdade, sendo capaz de produzir falsidades e sofismas. O artesão cria imagens baseado naquilo que ele percebe do mundo sensível que, por sua vez, é uma imitação do mundo das ideias. Por isso a poesia é imitação da imitação. Platão condena a imitação no plano educativo para a cidade ideal pois ela é uma imitação de tudo o que não é perfeito “e termina por declarar que a mimesis está três pontos afastada da natureza, logo, distante da verdade. O desfecho desta argumentação conduz a um dos passos mais célebres do diálogo: a condenação da poesia” (PEREIRA apud ARISTÓTELES, 2008, p. 10-11).

            Dentro da questão platônica Araújo (2011, p. 71) propõe que se faça uma distinção entre arte e mímesis em Platão, sendo que “a arte tem uma origem sacra, divina e misteriosa, ao passo que a mímesis é apenas limitada a representar, sem propósitos pedagógicos ou morais que visem a essência das coisas ou a verdadeira natureza dos objetos” (ARAÚJO, 2011, p. 71). Por esse motivo, a mímesis na visão de Platão é não apenas falsa e ilusória, mas prejudicial ao discurso verdadeiro, ao contrário da arte, que é divina e sacra.

Disponível em: Slideplayer, slide 1

(Acesso em 16/03/2018)

            Aristóteles herda a concepção de arte mimética e, embora procure resgatar o valor tradicional da arte como sabedoria e verdade no que diz respeito às artes literárias, quando se trata das artes não literárias mantém a visão de uma atividade socialmente inferior e ofício de artesão. “Também para Aristóteles, tal como para o seu mes­tre, a poesia e em geral a arte é mimesis, ‘imitação’: sem todavia retirar as consequências negativas que são explicitadas no livro X da República” (DONINI; FERRARI, 2012, p. 274). Existe uma diferença crucial entre Aristóteles e Platão:

A mímesis aristotélica é um contraponto à mímesis de Platão, não define o valor artístico (baixo) mas vem resgatar o valor de verdade: se, para Platão, a imitação era o distanciamento da verdade e o lugar da falsidade e da ilusão, para Aristóteles, a imitação é o lugar da semelhança e da verossimilhança, o lugar do reconhecimento e da representação (SANTORO, 2007, p. 6)

Disponível em: Mosqueteiras Literárias (Acesso em 11/03/2018).

            Donini e Ferrari (2012, p. 276) acrescentam a esta discussão a ideia de que Aristóteles não circunscreve a ideia de mímesis (imitação ou representação)

no campo da verdade, mas do possível e do verossímil e deve ser afastada do imitativo (imitação da imitação). Ao contrário de Platão que vê o aspecto negativo da imitação, Aristóteles vê na poesia “que atinge o seu fim e forma perfeita na tragédia [...] o seu lugar porque tem uma função positiva na cidade dos homens.

            Aristóteles entende que existem três formas de o poeta representar as coisas: como eram ou são (referência ao passado ou presente); como dizem que elas são ou parecem ser (referência pela opinião); ou como deveriam ser (referência a uma situação ideal). E haveria pelo menos duas formas de o poeta representar o erro: quando não é capaz de imitar com perfeição o original; quando erra na própria concepção do original ou cria coisas impossíveis.

            Além do fato de que a ideia aristotélica sobre a obra de arte esteja inserida em uma tradição platônica, no sentido de que parte de muitos de seus princípios e enfrenta os problemas por ela levantados, Santoro (2007, p. 5) acrescenta ainda outros conceitos-chave que são retomados por Aristóteles, como os objetos de discussão que são principalmente os poemas épicos e a dramaturgia.

            Vamos analisar em breves linhas os dois dos principais tipos de arte mimética a partir da obra Poética que são a tragédia e a epopeia.

            A tragédia é imitação de uma ação de caráter elevado que, suscitando o terror (φόβος) e a piedade (ἔλεος), tem por efeito a purificação, a catarse (kάϑarsiς), dessas emoções.

A tragédia é arte mimética por excelência, uma forma específica de mímesis, e Aristóteles a trata como uma representação de ações de homens de caráter elevado (objeto de imitação), expressa por uma linguagem ornamentada (meio), através do diálogo e do espetáculo cênico (modo), visando a purificação das emoções (efeito catártico), à medida que suscita o temor e a piedade no espectador (ARAÚJO, 2011, p. 74).

            Na Poética, Aristóteles escreve (2008, 1449b, 24-27 35-36, 1450a 1-4):

A tragédia é a imitação de uma acção elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das suas partes, que se serve da acção e não da narração e que, por meio da compaixão e do temor, provoca a purificação de tais paixões [...] Como a tragédia é a imitação de uma acção e é realizada pela actuação de algumas pessoas que, necessariamente, são diferentes no carácter e no pensamento (é através disto que classificamos as acções [são duas as causas das acções: o pensamento e o carácter] e é por causa destas acções que todos vencem ou fracassam).

            Leal (2010, p. 223) ressalta que o vocábulo grego catarse, ora traduzido como purificação “poderia receber outras variações semânticas, tais como purgação, consolação da alma através de um dever moral, e, até mesmo, referir-se a uma cerimônia ou ritual de purificação [...] sobre o conceito Cf. Poet., 1455b, 15”.

            A epopeia é analisada nos quatro últimos capítulos da Poética. Apresenta muitas semelhanças com a tragédia, inclusive na sua estrutura, mas distingue-se desta por ser uma imitação narrativa metrificada e pela extensão (é mais longa). Sua estrutura em verso a torna diferente das narrativas históricas. Tal como a tragédia, a epopeia também consiste em uma imitação de homens superiores, diferente da comédia, que seria uma imitação de homens inferiores.

Principiando pela comparação entre os dois géneros [epopeia e tragédia], aos quais deve ser comum a unidade de acção (cap. 23), segue-se a análise das diferenças entre ambos (cap. 24) e de alguns problemas e suas soluções (cap. 25), para concluir pela superioridade da tragédia sobre a epopeia (PEREIRA apud ARISTÓTELES, 2008, p. 29-30).

 

Referências

ARAÚJO, Maria C. A Poética de Aristóteles sob a abordagem de Lígia Militz da Costa. Kalíope, São Paulo, ano 7, n. 14, p. 70-82, jul./dez., 2011. Acesso em 08/02/2018.

ARISTÓTELES. Poética. Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira. Tradução e notas de  Ana Maria Valente. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

____. Poética. Tradução, prefácio, introdução, comentário e apêndices de Eudoro de Sousa. 7. ed. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2003. (Clássicos de Filosofia).

BÁEZ, Fernando. Los Escritos Perdidos de Aristóteles. Revista A Parte Rei, 24:12, p. 1-14, 2002.

CAMPOS, Joyce Neves de. Ação, destino e deliberação na tragédia grega e na Ética aristotélica. Dissertação (Mestrado em Filosofia). 81 f. Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2012.

DONINI, Pierluigi; FERRARI, Franco. O exercício da razão no mundo clássico: perfil de filosofia antiga. São Paulo: Annablume Clássica, 2012. (Coleção Archai: as origens do pensamento ocidental)

LEAL, Tito Barros. Ética entre tragédia e filosofia: as mutações do agir-ético no processo histórico transitorial dos universos arcaico e clássico na Grécia antiga. Kínesis, Vol. II, n° 03, p. 220 – 237, Abril-2010. Acesso em 29/03/2018

SANTORO, Fernando. Sobre a estética de Aristóteles. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. I, n. 2, mai./ago., p. 1-13, 2007. Acesso em 29/03/2018

 

 

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