A Vida em Sociedade

A Vida em Sociedade

            A vida em grupo é uma exigência da sociedade humana. O homem necessita de seus semelhantes para sobreviver, perpetuar a espécie e também se realizar plenamente como pessoa. Por outro lado, quando um ser humano é privado do convívio social, quando ele sofre de um isolamento social, tem prejudicado o desenvolvimento de suas capacidades.

            A sociabilidade é a capacidade natural da espécie humana para viver em sociedade. Socialização é o processo pelo qual o indivíduo se integra no grupo onde nasceu, assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos deste grupo. Participando da vida e sociedade, aprendendo suas normas, seus valores e costumes, o indivíduo está se socializando. O caso abaixo reflete as conseqüências para o processo de socialização do indivíduo quando ele é privado do contato social.

Na Índia, descobriram-se em 1920 duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma família de lobos. A primeira (Amala) tinha um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala de oito anos viveu até 1929. Não tinham nada de humano e seu comportamento era exatamente semelhante àqueles de seus irmãos lobos.

Elas caminhavam de quatro patas apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para trajetos longos e rápidos.

Eram incapazes de permanecerem de pé, só se alimentavam de carne crua ou podre, comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para frente e lambendo os líquidos, na instituição onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas numa sombra, eram ativas e ruidosas durante a noite, procurando fugir e uivando como lobos, nunca choravam ou riram.

Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente, ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer só tinha um vocabulário de cinqüenta palavras, as atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos.

Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela e às outras crianças com as quais conviveu.

A sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se com outros por gestos e depois por palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples (REYMOND, p. 2). 

            O relato deste caso, das meninas-lobo, como é comumente conhecido, demonstra bem a idéia defendida pela Sociologia da importância do contato social para a realização plena de nossas capacidades. O caso das “meninas lobo” retrata bem o fato de que o homem, privado do convívio social e da presença absoluta de educação social humana traz inúmeras conseqüências para o seu desenvolvimento, o desenvolvimento de sua inteligência, de sua humanidade. O isolamento social é a ausência de contatos sociais. O afastamento do convívio com outros seres humanos explica o comportamento diferente de Amala e Kamala.

[O homem] criado longe de outros seres de sua espécie é incapaz de se humanizar, desenvolvendo apenas características instintivas e animais. Portanto, para um bebê humano se transformar em um homem propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, pelo qual as gerações mais velhas orientam e passam às gerações subseqüentes suas experiências adquiridas... As capacidades características dos animais se desenvolvem de maneira predominantemente instintiva e se transmitem aos descendentes pela carga genética. O homem, por sua vez, deve transmitir por uma série ordenada de símbolos suas experiências e interpretações da realidade (COSTA, 1987, p. 3).

            Um outro conceito, além do de sociabilidade e socialização, importante no estudo da sociedade, é o de contato social. O contato social é a base da vida social. É o primeiro passo para que ocorra qualquer associação humana. Existem dois tipos de contatos sociais: primários e secundários.

  • Contato social primário: são os contatos pessoais, diretos e que têm uma forte base emocional, como por exemplo, os contatos sociais que temos com nossos familiares, amigos da escola, da igreja, da vizinhança etc.
  • Contato social secundário: são os contatos impessoais, formais, como por exemplo, o contato social do passageiro com o cobrador de ônibus, o contato do cliente com o caixa do banco etc.

 

            Além do contato social, podemos falar também em interação social. Quando um professor está dando aula, ele está em contato com seus alunos e está também estabelecendo uma intercomunicação, uma interação, entre professor e alunos e entre alunos e alunos. Os alunos aprendem coisas novas; seu comportamento, portanto, passa a ser modificado. O mesmo acontece com o professor. Portanto, o professor influencia os alunos e é influenciado por eles. Dizemos, então, que existe entre professor e alunos uma interação social. O aspecto mais importante da interação social é que ela modifica o comportamento dos indivíduos, como resultado do contato social e da comunicação que se estabelece entre eles. Assim, não só os contatos sociais, mas também as interações sociais constituem condições indispensáveis para a associação humana. Os indivíduos se socializam por meio dos contatos sociais e da interação social. Se relembrarmos o caso das “meninas-lobo”, a ausência de contato social e interação social as impediu de desenvolver plenamente suas faculdades, trazendo sérias conseqüências para sua humanidade.

            Um caso bem mais recente também pode ser tomado como exemplo do que pode acontecer a um ser humano, privado de contato e interação social.

Uma cambojana que desapareceu em 1988 foi encontrada após viver por 19 anos na selva do noroeste do Camboja, sudeste da Ásia. A jovem encontrada nua e desnutrida na Província de Rattanakiri no dia 13 é, aparentemente, Rochom P'ngieng, que desapareceu quando tinha 8 anos, enquanto tomava conta do gado com um primo de 6 anos.

Ela não consegue falar nada compreensível, mas o policial Sal Lou acredita que a mulher seja sua filha por causa de uma cicatriz que ela tem no braço direito. 'Quando a vi, ela estava nua e andava curvada como um macaco. Estava tremendo e pegando grãos de arroz do chão para comer. Seus olhos estavam vermelhos como o de um tigre', disse Sal Lou, que concordou em fazer exames de DNA para comprovar se ela é mesmo sua filha.

A mulher foi descoberta depois que um camponês notou que a comida que levava para o trabalho estava desaparecendo.

Desde que foi encontrada, a mulher tem dificuldade para se adaptar à vida normal, aparentemente por causa do longo período na selva. No início, ela gritou e se debateu, pois não queria tomar banho ou vestir roupas. Sal Lou disse que quando ela está com fome, bate no estômago. 'Se ela não está dormindo, simplesmente fica sentada olhando para a direita e para a esquerda', acrescentou ele.

Mão San, chefe da polícia do distrito Oyadao, descreveu a mulher como “metade humana e metade animal” (notícia foi veiculada no jornal Diário de Pernambuco, em 20 de janeiro de 2007).

            A interação social assume formas diferentes. A forma que a interação social assume chama-se relação social e determina, em certo sentido, o próprio desenvolvimento da nossa personalidade. Não havendo interação social, o indivíduo não se desenvolve senão insuficientemente, senão do ponto de vista da sua natureza animal. Um professor dando aula tem um tipo de relação social com seus alunos, a relação pedagógica. Uma pessoa comprando e outra vendendo estabelecem uma relação econômica. As relações sociais podem ser ainda políticas, religiosas, culturais, familiares etc.

            Podemos facilmente notar que existe uma estreita relação entre contato social e interação social. Qualquer mudança proveniente dos contatos e interações sociais entre os membros de uma sociedade constitui um processo social.

            Processo é o nome que se dá à contínua mudança de alguma coisa numa direção definida. Processo social indica interação social, movimento, mudança. Os processos sociais são as diversas maneiras pelas quais os indivíduos e os grupos atuam uns com os outros, a forma como os indivíduos se relacionam e estabelecem relações sociais.

            Os processos sociais podem ser associativos ou dissociativos (na sociedade, os indivíduos se reúnem e se separam, associam-se ou dissociam-se). Os principais processos sociais associativos são: cooperação, acomodação e assimilação. Os principais processos sociais dissociativos são: competição e conflito.

  • Cooperação: forma de interação social na qual diferentes pessoas, grupos ou comunidades trabalham juntos para um mesmo fim;
  • Acomodação: processo social em que o indivíduo ou um grupo se ajustam a uma determinada situação, sem que ocorram transformações internas;
  • Assimilação: processo de ajustamento, dos indivíduos ou grupos, havendo modificações e mudanças na maneira de agir, pensar e sentir.
  • Competição: é um processo social em que os indivíduos são levados a agir uns contra os outros em busca de uma melhor situação; é inconsciente e impessoal;
  • Conflito: processo social onde a competição é tão acentuada, que gera mudanças sociais; é consciente e pessoal.

 

Agrupamentos Sociais

            A vida em sociedade é condição necessária para a sobrevivência de nossa espécie. Assim, a espécie humana sempre formou agrupamentos como as famílias. O que caracteriza os diversos tipos de agrupamentos sociais? Qual o móvel de integração social desses grupos?

1. Grupo Social: toda reunião de duas ou mais pessoas associadas pela interação; nos grupos sociais há normas, hábitos e costumes comuns; exemplos: a família, a escola, a Igreja, o clube, o Estado, etc.

Principais grupos sociais

  • Grupo familial: a família;
  • Grupo vicinal: a vizinhança;
  • Grupo educativo: desenvolvido na escola;
  • Grupo religioso: instituições religiosas;
  • Grupo político: formado pelo Estado, pelos partidos políticos, etc.

 

Principais características dos grupos sociais

  • Pluralidade de indivíduos: há sempre mais de um indivíduo;
  • Interação social: os indivíduos comunicam-se uns com os outros;
  • Exterioridade: quando uma pessoa entra no grupo, ele já existe e quando sai, ele continua a existir;
  • Objetivo comum: princípio e valores comuns;
  • Consciência grupal: maneiras de pensar, sentir e agir próprios do grupo;
  • Continuidade: as interações têm certa duração (família, escola, etc.).

 

Tipos de grupos sociais

  • Grupos primários: predominam contatos pessoais diretos (família, vizinhos, etc.);
  • Grupos secundários: grupos mais complexos onde predominam contatos secundários (a Igreja e o Estado)
  • Grupos intermediários: se alternam os contatos primários e secundários (escola).

 

2. Agregado Social: reunião de pessoas com fraco sentimento grupal e frouxamente aglomerados. Exemplos: a multidão, o público e a massa (carnaval, jogo de futebol).

  • Multidão: suas características são a falta de organização, ou seja, não há um conjunto próprio de normas; o anonimato, as pessoas são desconhecidas, seus nomes, sua profissão, posição social, etc.; apesar disso, tem objetivos comuns, ou seja, estão reunidos com um mesmo objetivo; além da indiferenciação, ou seja, o fraco contato torna os membros da multidão iguais; e a proximidade física. Um exemplo: carnaval;
  • Público: a integração é mais ou menos intencional; difere da multidão que é uma integração mais ocasional. Mannheim classifica o público, um tipo intermediário entre a multidão e os grupos sociais, pois há um tipo primário de organização, pois as pessoas estão sujeitas a certos regulamentos (compra de ingresso, horário, etc.). Exemplo: jogo de futebol, teatro, show;
  • Massa: os indivíduos recebem de maneira mais ou menos passiva as opiniões formadas que são veiculadas pelos meios de comunicação de massa.

 

3. Mecanismos de Sustentação dos Grupos Sociais: toda sociedade tem uma série de forças que mantêm os grupos sociais. As principais são:

  • Liderança (institucional e pessoal): ação exercida por um líder;
  • Normas e sanções sociais: o que é permitido ou proibido num grupo social; a toda norma social corresponde uma sanção social que é uma recompensa ou uma punição que o grupo ou a sociedade atribuem ao indivíduo, em função de seu comportamento social;
  • Símbolos: a cruz, a aliança, a linguagem, são formas de expressão simbólica. Sem os símbolos não haveria cultura;
  • Valores sociais: o que é bom ou mau, certo e errado... os valores sócias variam em cada cultura e sociedade.

 

Referências Bibliográficas

REYMOND, B. Le développement social de l'enfant. Bruxelas: Dessert, 1965, p.12-14, apud C. Capalbo, Fenomenologia e ciências humanas, Rio de Janeiro, J. Ozon Ed., p. 25-26. In: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo, Ed. Moderna: cap. 1, p. 2-8.

COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 1987.

 

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