Amizade e política: a importância da amizade para a vida em comunidade

Amizade e política: a importância da amizade para a vida em comunidade

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em nov. 2017

            Em suas reflexões sobre a amizade, Aristóteles não deixa de assinalar a importância que a mesma tem para a vida na pólis, para a vida em comunidade. É a politique philia – amizade política (como consta no livro IX da Ética a Nicômaco).

         A amizade como um elo de sociabilidade é ressaltada por vários autores: (STEWART apud GIANNOTTI, 1996, p. 167); a “amizade é nobilitante e necessária para que o homem se realize como indivíduo e em sociedade” (LARA, 2009, p. 71); a amizade promove uma “verdadeira conexão que preserva a união de todas as Cidades-Estado. Por conseqüência, promove a estabilidade da paz nas relações entre estas, alavancando para o bem do convívio social, como símbolo dessa harmonia social” (SILVA NETO, 2009, p. 42). Além disso a amizade se relaciona com assuntos de interesse comum na vida em sociedade e como uma virtude que possa conduzir à harmonia da pólis, sob os ditames da razão. “Para que a amizade possa atuar na política, deve ser conduzida pela razão, pois a razão, segundo o filósofo, ajusta os desejos que, sem orientação, desequilibra a boa condução de uma cidade” (FEITOSA, 2013, p. 122-123).

            Alves (2012, p. 434) chama a atenção para o fato de como a “predisposição natural do homem à sociabilidade, a estabelecer relações inter-humanas implica uma série de elementos complexos”. A vida em sociedade reque um olhar menos individualista e mais comunitário, o que implica o olhar sobre o outro, o alter ego (alteridade). Implica na necessidade de viver sob a “gerência” de normas (do direito e da moral) para que seja possível a convivência social. Implica na necessidade de estabelecer relações sociais e, dentre estas, relações de amizade.

            Do ponto de vista da filosofia aristotélica, Ortega (2002, p. 43) pondera como “o conceito e o sentido da amizade são determinados pela perspectiva da polis. É a partir do ideal de uma vida comunal perfeita numa polis autárquica que a amizade é concebida”. Além do mais, se considerarmos que o espaço político deve ser um espaço onde todos devem almejar ao bem por excelência, então compreende-se que a busca dos homens pela sua realização enquanto zoon politikon – animal político – implique também a busca pela amizade. Se faz parte da natureza humana sua sociabilidade, ou seja, a vida em uma comunidade política, então não é possível imaginá-lo viver sem amigos. “Para Aristóteles, a amizade, além de ser uma virtude, é expressamente necessária à vida” (ALVES, 2012, p. 442) e à vida em comunidade.

            O sentido de amizade em Aristóteles não pode ser entendido fora de uma dimensão comunitária, como destaca Ricken (2008). A amizade está presente em toda forma de comunidade, desde aquelas que encontramos no seio familiar, entre homem e mulher, pais e filhos ou irmãos, e também entre os cidadãos de uma polis, entre governantes e governados. E como destaca Sousa (2014, p. 15), “A pólis é pensada como uma comunidade que exige dos seus membros mais que relações de interesses e necessidade”.

            John Cooper (apud NASCIMENTO, 2015, p. 63) amplia igualmente as implicações da tese aristotélica do homem como um animal político e inclui nessa análise o conceito de amizade:

De acordo com o autor: os homens possuem a ten­dência natural de formar comunidades nas quais a vida de todos é organizada tendo em vista o alcance do bem comum; esse bem comum, por sua vez, é alcançado pela e na atividade política comum levada a cabo pelos cidadãos, mas só pode ser partilhado por todos se todos estão unidos pelo laço da ami­zade cívica.

            Essa amizade cívica deve ser um dos fatores de agregação do bem estar da sociedade. E Fleitas (2016, p. 29) ressalta como

Na visão aristotélica a amizade está relacionada à política, já que o indivíduo é uma fração de um todo, da comunidade (pólis), e é ali que se dinamiza o meio necessário para desenvolver a sua moral em um cenário social e político que o torne pleno e virtuoso.

            A amizade constitui, assim, um dos alicerces da comunidade política na medida em que fortalece o vínculo entre os homens na procura de uma via boa e feliz.

 

Amizade e Justiça

            A relação entre amizade e política desdobra-se também no âmbito da justiça que, tanto quanto a amizade, é um elemento fundamental para a sociedade. Tal como a justiça, a amizade também é um fator de agregação na pólis. Mas existe uma certa superioridade da amizade em relação à justiça pois a justiça é desnecessária entre amigos e a amizade virtuosa é uma forma autêntica de justiça.

De qualquer forma, a justiça e a amizade são fatores essenciais para permitir o desenvolvimento harmônico da pólis, harmonia que possibilite o estabelecimento das condições adequadas para o bem viver e para o florescer da virtudes dos cidadãos, fatores essenciais para que eles alcancem a felicidade, o propósito último da vida comum (SOUSA, 2014, p. 16).

            Dentre os tipos de amizade definidos por Aristóteles (veja mais em Sobre a Amizade) Fleitas (2016) ressalta como a amizade verdadeira está relacionada com a justiça (dikaiosyne), entendida como virtude política e como fator que mantém a ordem de uma comunidade e o que é justo. A justiça se relaciona com a amizade pois ambas são, igualmente, causa da ordem em uma comunidade. A amizade como fator de ordem em uma comunidade é tal que Aristóteles chega a afirmar que “Quando as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam de amizade, considera-se que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa.” (ARISTÓTELES, 1999, VIII, 1, 1155a 29-31). Em outras palavras, pode-se dizer que “os homens injustos não podem estabelecer relações de amizade perfeita e, portanto, numa comunidade sem justiça não se possibilita a existência da virtude na amizade” (FLEITAS, 2016, p. 50).

            A philia (amizade) e a dikaiosyne (justiça)

estão estreitamente ligadas, podendo-se mesmo dizer que a primeira é que se mostra como sendo o verdadeiro liame que mantém a coesão de todas as cidades-estado. Se comparadas, uma e outra, aquela há de ser colocada como o verdadeiro assento da paz nas relações entre as diversas cidades-estados, motivo pelo qual se deve dizer que a amizade concorre preventivamente para o bem do convívio social. A amizade é louvada pelos legisladores e sua semântica assemelha-se àquela da concórdia entre as cidades (BITTAR, 2001, p. 143 apud ALVES, 2012, p. 443).

            A philia e a dikaiosyne são aspectos fundamentais da vida em sociedade e produtora de coesão social à qual é preciso acrescentar a felicidade. “É na relação dessa tríade: amizade, justiça e felicidade que encontramos o aspecto comunitário do bem” (LARA, 2009, p. 72). Não há felicidade onde não há justiça e onde não há amizade e, sendo a finalidade do homem como ser político a harmonia e a felicidade na vida em comunidade, a philia e a dikaiosyne se tornam elementos indispensáveis.

            A amizade “é o que há de mais necessário à vida, já que os bens que a vida oferece, como riqueza, poder, etc, não podem ser conservados nem usados sem os amigos” (ABBAGNANO, 2007, p. 37).

 

Referências Bibliográficas

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Tradução de Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 37-38.

ALVES, Marcos A. Justiça: equidade e amizade em Aristóteles. Revista Jurídica Orbis, v. 3, n. 1, p. 433-450, 2012. Acesso em 03/11/2017.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Mário da Gama Kury. 3 ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

BITTAR, Eduardo C.B. A justiça em Aristóteles. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

FEITOSA, Zoraida M. L. A influência da amizade nas constituições políticas em Aristóteles. Prometeus, ano 6, n. 11, p. 119-128, jan./jun., 2013. Acesso em 02/09/2017.

FLEITAS, Horácio F. R. Felicidade e amizade na Ética nicomaquéia. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Universidade de Caxias do Sul. Caxias do Sul-RS, 2016.

GIANNOTTI, José Arthur. O amigo e o benfeitor. Analytica, v. 1, n. 3, p. 165-177, 1996. Acesso em 03/09/2017.

LARA, Renata de O. A Amizade na Ética a Nicômaco. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2009.

NASCIMENTO, Daniel S. Lei, amizade e participação política em Aristóteles após o biological turn, reflexões preliminares sobre um novo paradigma hermenêutico. Archai, n. 15, p. 59‑70, jul./dez., 2015. Acesso em 04/09/2017.

ORTEGA, Francisco. Genealogias da Amizade. São Paulo: Iluminuras, 2002.

RICKEN, Friedo. O Bem Viver em Comunidade: a vida boa segundo Platão e Aristóteles. São Paulo: Loyola, 2008.

SILVA NETO, Benedito A. Justiça e Amizade na Ética Aristotélica. Monografia (Especialização em Filosofia Moderna do Direito). Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2009.

SOUSA, Gicélia V. de. Amizade e felicidade em Aristóteles. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Filosofia). Departamento de Filosofia e Ciências Sociais. Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande-PB, 2014.

STEWART, J. A. Notes on the Nicomachean Ethics of Aristotle. Oxford, 1892.

 

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