Um grito de liberdade: dos vadios e capoeiras

Um grito de liberdade: dos vadios e capoeiras

por Luana Pantoja Medeiros

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postado em mar. 2019

            A capoeira é uma das maiores heranças culturais deixadas pelos negros no Brasil. As correntes não foram suficientes para que esses povos recém-chegados da África, pudessem deixar a genialidade das suas habilidades de criação, cultura, resistência e arte, serem ceifados pela dor.  Essa luta surge “como um grito de liberdade entre esses povos que vinham de muitos lugares, de diferentes tribos da África, com hábitos e costumes e até mesmo línguas diferentes” (JANNUZZI, p. 10, 2007).

FIM DE RODA- Praça dos Bois/ Parintins-AM

Imagem. Arquivo Pessoal

            No período escravista, houve a necessidade de se camuflar a luta como dança, os golpes desferidos na capoeira da Angola eram tão perigosos quanto o chicote que açoitava homens, mulheres e crianças traficados. Eles também criavam seus próprios instrumentos musicais e elaboravam as canções.

no período da escravidão houve a necessidade de camuflar a luta em dança, para que os opressores não a represarem. Nesta dança, instrumentos de percussão de diversas origens foram utilizados, o berimbau -principal também acompanhado pelo atabaque, pelos pandeiros, agogô e reco-reco, formando assim um conjunto de instrumentos a serviço desta arte. Dentre as composições poéticas elaboradas pelos capoeiristas, destacamos as chulas, corridos e ladainhas (...) (JANNUZZI, p. 12. 2007).

            Dentre as poesias, chulas, ladainhas cantadas pelos capoeiristas, assim denominado o que pratica capoeira, serviu como principal veículo de preservação da língua desses povos. A língua, segundo Mattoso Câmara, (1975) é um dos maiores veículos de tradição oral e literária, sendo possível passar a posteridade o dialeto utilizado por uma comunidade em um determinado lugar, ou parte dele, alcançando assim a posteridade. 

            Não há como dissociar a cultura do indivíduo, assim como não há como dissociar o modo de falar do indivíduo de sua cultura: “a língua é uma parte da cultura, mas uma parte que se destaca do todo e com ela se conjuga dicotomicamente, é o meio para ela operar, é a condição para ela subsistir” (CÂMARA, 1975, p. 268-269).

            Como tradição oral e corporal, a capoeira compreendida como uma arte marcial, constituída, no Brasil escravocrata, uma tática de guerrilha, a revelia de seus subjugadores nos combates de corpo a corpo. A expressão corporal da capoeira pode se passar por dança, e foi essa a forma encontrada para que essa tática fosse praticada sem se perceber como luta. 

foi essa, ao longo do tempo a face das mudanças sociais ocorridas no Brasil colonial e imperial, adaptando-se novos contextos e a novas formas de expressividade, sendo a dança, inicialmente, o seu veículo de sobrevivência social e, conseqüentemente de preservação de valores culturais africanos ancestrais (ARAÚJO, 2002, p. 110).

            Não se pode compreender a capoeira sem a música e a expressão corporal, a luta, ou jogo de capoeira é regido pelo batuque, pelo som do berimbau e as canções que podem ser ladainhas ou letras que fazem referência a realidade dos negros nas grandes senzalas, do sofrimento e da saudade da terra natal.

            Um dos aspectos que mais aproxima a capoeira da dança é a ginga, também conhecida como manha ou mandinga. “A ginga é ritmada ao som do berimbau. Por intermédio dela, o corpo dos capoeiristas descreve círculos no espaço circular da roda, o corpo dança, aproximando a capoeira do lúdico”. (REIS, p. 129, 1997)

 

A Capoeira: Angola e Regional

            A partir dessa breve introdução, podemos dizer que a capoeira vem resistindo ao longo dos tempos no Brasil e no exterior, antes uma atividade marginalizada e reprimida pela sociedade brasileira, sendo inclusive perseguida pela polícia, punida nas formas da Lei, “sob a justificativa de constar como infração no Código Penal Brasileiro, pelo decreto 487, de 11 de outubro de 1890, Capítulo XIII, Art. 402: “Dos vadios e Capoeiras”” (CAMPOS, p. 25, 2009).

AQUECIMENTO DOS INSTRUMENTOS

Roda de Capoeira de Angola- Laborarte/ São Luís- AM

Imagem. Arquivo Pessoal

            Era considerada perigosa a prática da capoeira. Assim, era considerado perigoso o capoeirista. Na Capoeira da Angola, temos a figura de Mestre Pastinha, tendo desempenhado um papel de um verdadeiro líder pela sua filosofia de vida e pelas suas histórias recheadas de dificuldades e superação, orientava politicamente os capoeiristas “estimulando-os para que formassem um grande centro de Capoeira Angola, defendia, ainda, a unidade em torno da Capoeira Angola e, especialmente, a reconhecia como um tipo de esporte brasileiro”. (CAMPOS, p. 42, 2009). Na Capoeira de Angola, os componentes lutam, a maior parte do tempo, bem próximos ao chão, apoiados nas mãos,   nas cadeiras e cabeça, não batem palmas, apenas cantam e respondem o coro. As ladainhas tem um ritmo lento e os oponentes lutam sempre muito próximos, seus corpos fazem movimentos bem alongados e a ginga é muito presente.   

            A Capoeira Regional criada pelo saudoso Mestre Bimba, está disseminada no mundo inteiro. Bimba fez da capoeira instrumento de resistência, educação e filosofia de vida. Na capoeira regional, os componentes batem palmas enquanto cantam e respondem o coro, os dois oponentes que lutam dentro da roda, desferem chutes e golpes altos, acrobacias, socos, tapas e rasteiras e também temos a ginga, que é o principal movimento dos jogos. 

A Capoeira Regional é uma manifestação da cultura baiana, que foi criada nos fins da década de 1920 por Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba). Ele utilizou os seus conhecimentos da capoeira primitiva e da luta denominada batuque. A Capoeira Angola é uma manifestação primitiva que nasceu da necessidade de libertação de um povo escravizado, oprimido, sofrido e revoltado (CAMPOS, 2009 p. 55).

 

MANDINGA- Capoeira de Angola/ São Luís-AM

Imagem. Arquivo Pessoal.

 

Até o último capoeirista

PANDEIRO- Capoeira de Angola/ São Luís-AM

Imagem. Arquivo Pessoal.

 

            Os ensinamentos que são transmitidos na capoeira, vão muito além do que podemos imaginar. Uma luta dançada, magia, mandinga perigosa, golpes surpreendentes, de níveis acrobáticos extraordinários. A capoeira resiste, com uma hierarquia, que tem como base, o respeito e a igualdade, elevando a sabedoria dos Mestres, e suas filosofias de vida, respeito com o oponente na luta, com ancestralidade, e com a cultura dos povos dolorosamente traficado para o Brasil escravocrata.

            O capoeirista tem que ser consciente que essa arte é uma filosofia de vida e, além disso, resistência cultural. Patrimônio histórico artístico imaterial do Brasil. Devemos muito a quem nos deixou esse legado, aos Mestres, Bimba e Pastinha, e a todos os outros que por aqui passaram antes deles. A capoeira não é apenas um veículo de tradição oral da língua e cultura, bem como uma arte marcial utilizada em todo o mundo, é a maior herança deixada pelos nossos ancestrais africanos, e sem dúvida, deve ser lembrada como um grito de liberdade e resistência, em nome de todos aqueles que derramaram o sangue aqui nessa terra.  Até o último capoeirista, resistiremos.   

 

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Hélio. Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba- Salvador: EDUFBA, 2009.

CÂMARA Jr., J. Mattoso. Dispersos. ed. Fundação Getúlio Vargas. Rio de Janeiro, 1975.

JANNUZZI, Luciano. Nas voltas que o mundo deu, nas voltas que o mundo dá. Capoeira/.Espírito Santo do Pinhal: UNIPINHAL , 2007.

REIS, Letícia Vidor de Souza. O mundo de pernas para o ar: A capoeira no Brasil. São Paulo, SP: Publisher Brasil, 1997.

 

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