Cultura Popular Maranhense

Cultura Popular Maranhense

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em fev. 2019

Bumba meu boi

            O Bumba meu boi é uma dança do folclore popular brasileiro muito marcante em São Luís do Maranhão. A dança gira em torno da lenda sobre a morte e ressurreição de um boi. O Bumba meu boi maranhense recebeu do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) o título de Patrimônio Cultural do Brasil.

            A história mais comum pode ter algumas variações mas aborda o desejo da escrava Catirina (ou Catarina), grávida, que pede ao marido Chico (ou Pai Francisco) para comer língua de boi. O escravo mata o boi para atender o desejo da esposa e termina sendo preso por isso, denunciado pelo dono da fazenda. Com a ajuda de curandeiros, o boi é então ressuscitado.

Personagens do Bumba meu boi (da esquerda para a direita): Cazumbá, Pai Francisco, o Boi, Mãe Catirina. Foto do Arquivo Pessoal, do acervo existente na Casa do Maranhão, em São Luís.

 

O Boi. Foto do Arquivo Pessoal, do acervo existente na Casa do Maranhão, em São Luís.

 

Imagem Foto do Arquivo Pessoal

 

            Aqui vemos uma representação do Cazumbá, um dos personagens do Bumba meu boi, que usa máscaras e batas coloridas dando um aspecto assustador. Não são todos os grupos de bumba meu boi que possuem cazumbás. A imagem pertence ao nosso arquivo pessoal e foi tirada na exposição no Centro Cultural do Vale do Maranhão em 2019 de autoria do artista Walter Sá.

 

Religiões de Matriz Africana

            As religiões de Matriz Africana estão muito presentes na cultura maranhense e são conhecidas como Tambor de Mina, razão pela qual o Maranhão é conhecido como terra de Tambor de Mina. “Existem duas casas matrizes fundadas por africanos: a Casa das Minas Jeje, de origem daomeana, que não possui filiais e a Casa de Nagô, de origem iorubana de onde derivaram a maioria dos terreiros de Mina” (FERRETTI, 2011, p. 247). A Casa de Nagô foi fundada desde a época de D. Pedro por malungos africanos de Nação e, junto com a Casa das Minas Jeje, são uma das mais antigas comunidades de culto afro-brasileiro no país, fundadas antes da promulgação da Lei Áurea em 1888.

 

A Casa das Minas, ou Querebentã de Zomadonu é provavelmente o terreiro mais antigo do Maranhão, datando de meados do século XIX. Foi organizado por escravos procedentes do Daomé e segundo hipótese de Verger, teria sido fundado pela rainha Nã Agontimé, mãe do Rei Ghezo. A Casa não possui outras dela derivadas, recebe apenas voduns e todos os cânticos são em língua jeje. Realiza festas para os voduns, muitas relacionadas com o catolicismo e as culturas populares (FERRETTI, 2011, p. 247).

 

            Merece destaque também a Casa Fanti-Ashanti, originária dos antigos povos onde hoje se localiza a República de Gana e o Terreiro de Mina Iemanjá, uma ramificação do Terreiro do Egito, fundada em 1956, que mantém rituais como o Boi de Caboclo, Tambor da Mata, Tambor de Fulupa, Tambor de Marinheiro e muitos outros.

 

A Casa Fanti-Ashanti foi inaugurada em 1958, com o nome de Tenda de São Jorge Jardim de Ueira, mas se tornou mais conhecida como Casa Fanti-Ashanti. Conforme explicação dada por seu fundador e pai-de-santo Euclides Ferreira, a “nação” da Casa teve como primeira matriz o terreiro do Egito, fundado em São Luís, em 1864, por uma africana de Cumassi (Gana) (Ferreira, 1984, p. 99 apud FERRETTI, 2001, p. 81).

 

            Embora atualmente os terreiros tenham um forte presença masculina, foram as mulheres que predominaram durante muito tempo na chefia dos terreiros e eram elas que assumiam “os postos hierárquicos mais altos (mãe-de-terreiro ou mãe-de-santo, guia e contra-guia) e/ou entram em transe com entidades espirituais (voduns, orixás, gentis, caboclos)” (FERRETTI, 2007, p. 2).

 

Vestimenta característica do Terreiro de Mina Iemanjá

Foto do Arquivo Pessoal, tirada do acervo existente no Centro de Cultura Popular do Maranhão.

 

            Expressão característica da capital maranhense, as casas de culto denominadas Tambor de Mina são marcadas pelo culto de “voduns e orixás (africanos), gentis (nobres associados a orixás ou entidades africanas com nomes brasileiros) e caboclos (entidades surgidas nos terreiros brasileiros)” (FERRETTI, 1996, p. 3). O termo vodum é usado para designar entidades da encantaria africana ou entidades mais antigas recebidas no Tambor de Mina; o termo gentil designa entidades encantadas da nobreza europeia, geralmente cristãs como santos católicos, associados a orixás; já o termo caboclo é mais difícil de ser caracterizado e se referem a vários tipos de encantados que não sejam vodum ou gentil.

            Os terreiros de Mina realizam, além de toques para voduns, gentis e caboclos,  “rituais onde ocorre transe com índios, surrupiras, botos, fulupa ou com outros encantados que só podem participar dos toques de Mina se “vierem como caboclos” (civilizados ou humanizados)” (FERRETTI, 1996, p. 6).

 

A Jamaica Brasileira

            A cidade de São Luís ganhou o título de Jamaica Brasileira na década de 1980 pela popularidade que o ritmo do reggae adquiriu na cidade, se disseminando por todos os cantos e se tornando uma febre entre a população. Esse título veio após um longo processo “de socialização, identificação e apropriação desse gênero musical ao longo de mais de trinta anos, tendo em vista que o reggae aportou no Maranhão na (sic) em meados dos anos 1970” (BRASIL, 2011, p. 88). O reconhecimento da cidade como a Jamaica Brasileira se dá, segundo Silva (2011, p. 208), em razão da existência de “um grande número de locais - salões, bares e, eventualmente, casas de espetáculos - onde se ouve e se dança o reggae jamaicano, predominantemente, o que foi classificado como “roots reggae”, produzido na Jamaica na década de setenta do século XX”.

            A história do Reggae na cidade começa na década de 1970 e em pouco tempo o reggae se tornou a principal opção de lazer de São Luís através das famosas – e antigas – radiolas (equipamentos que funcionam como rádio e vitrola). Com a disseminação do reggae, foram acopladas caixas de som nas radiolas com o intuito de aumentar sua potência para que o som pudesse ser ouvido em todos os cantos da cidade. Esses equipamentos ganharam tanta notoriedade que passou a existir uma disputa para quem possuía o melhor deles na cidade.

“Point Magno Rotts, ‘A Casa da Música’, localizado no Bairro de Fátima em São Luis do Maranhão, é um dos espaços de revitalização do reggae jamaicano dos anos 1970 e 1980, do século XX” (SILVA, 2011, p. 214-215).

 

            No Maranhão o Reggae assume uma nova coreografia. Originalmente dançada de forma individual, no Maranhão ela começa a ser dançada aos pares e também de uma linguagem própria dos regueiros maranhenses. “Essa é, sem dúvida, uma diferença marcante com relação à Jamaica [...] pois, na capital maranhense, a dança ganhou um componente específico, ou seja, o reggae dançado aos pares, o chamado ‘agarradinho’ misturando passos do forró e do merengue” (SILVA, 2011, p. 210-211). A difusão do Reggae no Maranhão pode ser visto como resultado do que Freire (2008) Morias e Araújo (2008) destacam como hibridismo cultural: o Reggae que surgiu em uma ilha (Jamaica) ganha notoriedade em um município localizado em outra ilha (São Luís) com características e peculiaridades bem particulares, como pudemos ressaltar, em um “cenário de hibridismo cultural, onde a tradição (cultura popular) e a tradução (reggae maranhense) interagem em um só ambiente” (MORIAS; ARAÚJO, 2008, p. 10).

 

Do ponto de vista da hibridização, no caso do reggae no Maranhão, esta não pode ser entendida como uma imposição cultural ou mesmo como uma “aculturação”, uma vez que o movimento conquistou primeiro as classes populares – por uma série de fatores que incluem, sobretudo, a identificação e o gosto – e, só depois, foi adaptado e “ressignificado” também pelas classes média e alta. Além disso, como já foi dito, o reggae não implicou na perda das tradições regionais (FREIRE, 2008, p. 412).

 

Arte Sacra

            A cidade de São Luís abriga um Museu de Arte Sacra, localizado no Palácio Arquiepiscopal de São Luís ao lado da Catedral de Nossa Senhora da Vitória. Composto por uma importante coleção com peças de imaginárias, ourivesaria e paramentos dos séculos XVII, XVIII e XIX nos estilos maneirista, barroco, rococó e neoclássico. Inclui-se desde esculturas de personalidades religiosas importantes até objetos utilizados em celebrações religiosas, como cálices e crucifixos.

Foto do Arquivo Pessoal da Igreja e do Museu logo ao lado.

 

 

Referências Bibliográficas

BRASIL, Marcus Ramúsyo de Almeida. O reggae no Maranhão: sociologia da cultura e produção simbólica. Aurora – Revista de Arte, Mídia e Política, n. 12, p. 88-101, 2011. Acesso em 12 de fev. 2019.

FERREIRA, Euclides M. O Candomblé no Maranhão. São Luís: Alcântara, 1984.

FERRETTI, Mundicarmo. Matriarcado em terreiros de Mina do Maranhão - realidade ou ilusão? Revista Ciências Humanas: Dossiê Religião e religiosidade, v. 5, n. 1, p. 11-20, jul./dez. 2007. Acesso em 14 de fev. 2019.

FERRETTI, Mundicarmo. Pureza Nagô e Nações Africanas no Tambor de Mina do Maranhão. Ciências Sociais e Religião, ano 3, n. 3, p. 75-94, out. 2001. Acesso em 14 de fev. 2019.

FERRETTI, Mundicarmo.  Tambor de Mina e Umbanda: O culto aos caboclos no Maranhão . Jornal do CEUCAB-RS: O Triângulo Sagrado, Ano III, n. 39 a 41, 1996.

FERRETTI, Sérgio Figueiredo. Comida ritual em festas de Tambor de Mina no Maranhão. Horizonte, Belo Horizonte, v. 9, n. 21, p. 242-267, abr./jun. 2011. Acesso em 14 de fev. 2019.

FREIRE, Karla Cristina Ferro. O Reggae em São Luís na contemporaneidade: identificação cultural, segmentação e mercado. Revista Cambiassu, Ano XVIII, Nº 4, p. 404-427, jan./dez. de 2008. Acesso em 13 de fev. 2019.

MORIAS, Maria do Carmo Lima; ARAUJO, Patrícia Carla Viana de. O Reggae, da Jamaica ao Maranhão: presença e evolução. IV ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Salvador-BA, 28 a 30 de maio de 2008.

SILVA, Carlos Benedito Rodrigues da. Registros iconográficos do reggae no Maranhão. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v. 11, n. 22, p. 205-225, jan./jun., 2011. Acesso em 12 de fev. 2019.

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