Jacques Derrida: a desconstrução teórico-crítica da linguagem no discurso patriarcal

Jacques Derrida: a desconstrução teórico-crítica da linguagem no discurso patriarcal

 

            Derrida foi um importante filósofo do século XX que fundamentou a corrente teórico-crítica denominada de desconstrução, em torno da qual coadunam-se questões filosóficas, metafísicas, linguísticas e até feministas:

O trabalho empreendido por Jacques Derrida e que recebeu, muitas vezes, o título de Desconstrução [...] coloca sob suspeita os discursos da Filosofia e das Ciências Humanas, da Literatura e da História, da Fenomenologia e da Psicanálise, ao questionar, inclusive, o próprio conceito clássico de ciência. Nesse sentido, “textos” de Husserl, Heidegger, Levinas e, também, de Mallarmé, Artaud, Joyce, Bataille, ou, ainda, de Saussure, Freud e Lacan serão “desconstruídos” por Derrida (PEDROSO JÚNIOR, 2010, p. 10).

            Como não se trata aqui de uma análise mais aprofundada do pensamento derridiano, vou me concentrar em dois pontos: a desconstrução enquanto análise teórico-crítica a partir do qual se propõe a desconstrução do falogocentrismo; e como, a partir dessa crítica, Derrida abriu caminho para uma escrita feminina que libertasse as mulheres da linguagem masculina governada pelo falo.

            Falogocentrismo é um neologismo cunhado por Jacques Derrida para se referir à postura, convicção ou comportamento baseados na ideia da superioridade masculina, simbolizada no falo. O falogocentrismo é uma combinação das palavras falocentrismo e logocentrismo. O falocentrismo enquanto uma doutrina ou crença centrada no falo e, por conseguinte, em uma suposta superioridade do sexo masculino tem suas raízes na psicanálise; e logocentrismo designa a centralidade do logos (do discurso racional) no pensamento ocidental.

            A psicanálise tem origem no sofrimento das mulheres, que a medicina oficial não pôde oferecer um tratamento adequado por não conseguir identificar uma origem biológica para suas dores com respeito ao que ficou conhecido como as histerias. “Foi justamente a transposição do sofrimento corporal feminino em linguagem – pelas histéricas tratadas por Freud – que possibilitou uma nova maneira de trilhar um percurso e emergir uma nova visão da especificidade da feminilidade” (VASCONCELOS, 2015, p. 11).

            Através do estudo da histeria e das mulheres acometidas por essa manifestação Freud iria não só desvendar o mundo do inconsciente, como também desenvolver o que podemos chamar de uma “visão falocêntrica da mulher”, ou seja, o falocentrismo ou androcentrismo de Freud designa a origem, ou pelo menos o desenvolvimento do feminino, a partir do masculino ou, como afirma Molina (2011, p. 14): o feminino como objeto de questionamento à psicanálise é entendido como “subformação do seu suposto inverso, o masculino”. Na psicanálise o falo é tomado como principal ponto de referência e a mulher é sempre olhada com base na sua relação ao homem.

            Apesar de sua genialidade, Freud é ainda um homem de sua época, que vive em uma Viena dominada pelo espírito vitoriano e pelo universo masculino que irão influenciar Freud em suas teorias psicanalíticas a partir da dominação do falocentrismo. Freud é filho de uma época de avanços e retrocessos, de uma época que titubeia entre o conservadorismo e as forças progressivas:

[...] Se Freud foi reconhecidamente um homem de seu tempo, tendo a sagacidade e a sabedoria para perceber e escutar um sintoma da época – a histeria – parece não ter conseguido levar adiante sua escuta do feminino, sucumbindo à falocracia que silenciava e sufocava a mulher (MOLINA, 2011, p. 16).

            O fato é que, conservador, progressista ou a meio termo de ambos, Freud construiu uma teoria psicanalítica em torno da sexualidade em que o falo é dominante. Fato que foi acompanhado de perto por um de seus mais proeminentes seguidores: Jacques Lacan, cuja teoria psicanalítica se baseia na autopresença da autoridade fálica.

            É a partir do próprio Lacan que Derrida inicia o seu processo de desconstrução da linguagem centrada no discurso patriarcal. “Derrida concordava com Lacan em que feminilidade e masculinidade estão inseridas no significado das palavras; todavia, não só há um meio para a mulher espertamente subverter a ordem hierárquica do simbólico como pode ela também divertir-se com isso” (NYE, 1995, p. 224). Derrida procurou oferecer uma alternativa ao modelo de linguagem falocêntrico mostrando como a mulher poderia deslocar o pensamento patriarcal.

Essa nova “prática textual” feminista é mais bem exemplificada na obra de duas escritoras francesas, Luce Irigaray e Hélène Cixous. Na obra de ambas é possível perceber a influência de Derrida [...] Irigaray e Cixous juntaram-se a Derrida na rejeição do logocentrismo (NYE, 1995, p. 225)

            Mas em que consiste esse processo de desconstrução? Consiste em uma fala ou escrita feminina que liberte a mulher da linguagem governada pelo falo. Romper com a lógica da escrita masculina ao mesmo tempo em que denuncia que não há palavras neutras onde o componente semântico é predominantemente masculino. Vejamos alguns exemplos.

            A palavra masculina para designar o solteirão tem uma conotação bem distinta de solteirona. Enquanto que no primeiro caso pode ser sinônimo de requinte, no segundo caso pode representar sinônimo de fracasso ou de falta de atração. Algo semelhante também é encontrado na língua inglesa em relação ao par master/mistress. “Master implica dominância e controle, mas mistress, em vez de dominância e controle, sugere uma mulher teúda ou objeto sexual” (NYE, 1995, p. 206).  A própria palavra mulher, em si, pode denotar um sentido de menosprezo e inferioridade, quando um homem se refere ao outro como mulherzinha.

Títulos são outra maneira pela qual a diferença masculino/feminina é codificada na linguagem. Cada indivíduo deve ser tratado como masculino (sr.) ou feminino (sra./srta.). Mais uma vez a diferença é assimétrica: o estado civil da mulher é codificado, mas não o do homem, refletindo a expectativa de que a identidade da mulher depende da de seu marido (NYE, 1995, p. 208).

            Na linguagem fálica ou no logocentrismo a marca dominante é a de que o macho é sempre o positivo enquanto que a fêmea é o negativo. Além disso, as “categorias linguísticas de sujeito masculino e objeto feminino são refletidas na filosofia, o sujeito masculino tornando-se o Sol em torno do qual a Terra feminina gira” (NYE, 1995, p. 228).

            Um outro exemplo criticado frequentemente no sexismo linguístico é o emprego genérico de “homem”: “evolução do homem”, “direitos do homem” e outras expressões semelhantes indicam que ser propriamente humano é ser masculino.

            Esses e outros exemplos fizeram com que as linguistas feministas concluíssem como a diferença de sexos acha-se embutida no uso que se faz da linguagem e como o componente semântico da dominância é masculinizado e a inferioridade das mulheres é codificada na linguagem.

            Nesse sentido a análise teórico-crítica desconstrucionista derridiana, com ênfase no falogocentrismo, tem importantes contribuições a oferecer em torno das questões de gênero com gênese na linguagem.

            Qualquer crítica desconstrucionista do patriarcado deve ser também uma crítica da linguagem e mais até, qualquer crítica da linguagem que não atinja as raízes ideológicas do funcionamento gramatical e semântico corre o risco de permanecer superficial e impotente para corrigir o sexismo gerado na linguagem.

            Ao proceder a crítica do pensamento patriarcal defende-se que a linguagem exige um novo “estilo” feminino, um outro feminismo, com implicações sociolinguísticas, culturais e identitárias (enquanto prática de significação submetida ao jogo da linguagem).

 

Referências Bibliográficas

MOLINA, José Artur. O que Freud dizia sobre as mulheres. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2011.

NYE, Andrea. Teoria feminista e as filosofias do homem. Tradução de Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Record/Rosa dos Tempos 1995.

PEDROSO JÚNIOR, Neurivaldo C. Jacques Derrida e a desconstrução: uma introdução. Revista Encontros de Vista, n. 5, p. 9-20, jan./jun., 2010. Acesso em 05/11/2017.

VASCONCELOS, Vanessa. Os (des)caminhos da mulher: a questão da feminilidade e seus desdobramentos até Freud. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Programa de Mestrado em Psicologia. Universidade Federal de São João del Rei. São João del Rei, 2015.

 

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