Edtechs: elas estão mudando a forma como se ensina no Brasil e no mundo

Uma sala de aula com alunos sentados anotando o que o professor escreve na lousa é uma ideia comum (e centenária) de como é o ensino tradicional em uma escola. No entanto, cada dia mais esse método vai ficando para trás e é substituído por novas formas de pensar a educação aliada a inovações. Esse modo de abordar o ensino também é conhecido como EdTech, ou seja, a fusão entre educação e tecnologia. Aplicativos, cursos online e novas plataformas são só o começo de uma grande ramificação do ensino.

Não só os métodos estão expandindo, como a própria indústria de educação tem mostrado sinais de que está em crescimento contínuo. A tecnologia veio para mudar a educação e é isto que abordamos no EdTech Conference, um evento exclusivo em São Paulo para falar sobre os desafios e mudanças deste setor.

Empresas de sucesso, como Facebook, Twitter e Google têm demonstrado interesse e inclusive já atuam na área. O Google, por exemplo, possui vários produtos de EdTechs e tem planos de investir cada vez mais na tecnologia de nuvens. Apesar disso, o interesse da empresa começou há oito anos, por uma demanda dos professores. “Como os alunos usavam muito o buscador como referência, os professores começaram a pedir que a gente ajudasse a organizar as informações na sala de aula também e, a partir daí, a empresa começou a lançar um olhar para a educação”, conta Rodrigo Pimentel, diretor do Google for Education.

Além do interesse de empresas de peso no setor, segundo o GSV, nos Estados Unidos, o investimento de venture capital em empresas de educação cresceu cerca de 45% nos últimos 5 anos, atingindo quase US$ 2 bilhões em 2014.

No Brasil, o cenário também é promissor. Segundo a Potencia Ventures e o Instituto Inspirare, com base no contexto educacional de seis Estados – Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, responsáveis por metade do orçamento público de educação no país –, existe um total de 190 organizações atuantes, em sua maioria startups, que desenvolvem produtos educacionais voltados principalmente para o ensino básico, técnico e a Educação de Jovens e Adultos (EJA) da população de baixa renda.

O estudo concluiu que há muito espaço para crescer no setor de educação no país e listou as combinações de oportunidades mais promissoras focadas no sistema educacional para as classes C, D e E:

Mas não é só nas escolas e no ensino formal que as EdTechs atuam, pelo contrário! Cada vez mais a revolução tecnológica se faz necessária, desde cursos de ensino a distância até treinamentos corporativos. O mercado é vasto e exatamente por isso é importante ficar de olho nas inovações e, no caso de interessados em empreender na área, nas carências que precisam ser supridas.

Educação nas escolas

No total, a rede de ensino conta com mais de 50 milhões de estudantes – de todos os níveis –, por volta de 2 milhões de professores e 200 mil instituições de ensino regulares. Dessa forma, o Brasil se mostra um solo fértil para as inovações que as EdTechs propõem, além de ter um sistema educacional necessitado e repleto de desafios para solucionar, o que significa ainda mais oportunidades.

Para atuar no sistema educacional, uma questão relevante para ter em mente é a de que como a educação está em grande parte sob responsabilidade do governo,  uma das primeiras dificuldades encontradas por EdTechs seria conseguir negociar com o Estado. No caso, a burocracia e muitas vezes a falta de clareza, podem fazer com que essa meta se torne um desafio, mas nada que seja impossível.

No Estado de São Paulo, por exemplo, 81% dos municípios já contrataram ONGs e empresas prestadoras de serviços de educação. No caso, a atuação de empresas privadas é predominante em municípios com até 50 mil habitantes.

A regulamentação da educação também é um fator que pode dar muita dor de cabeça para quem quer inovar no setor. O motivo é simples: como o Ministério da Educação (MEC) estabelece normas e diretrizes para o ensino, qualquer proposta deve ser aprovada pelo órgão. Como essas regras seguem uma grade e um método de ensino tradicional, é difícil conseguir certificado para inovações mais radicais como, por exemplo, o caso da primeira universidade sem professores do mundo, inaugurada no Vale do Silício.

Segundo Samir Iásbeck, CEO da Qranio: “Para poder criar uma nova forma de ensino que bate de frente com o meio tradicional, é preciso muito dinheiro e energia para conseguir de fato alguma mudança”. Portanto, é bom definir quais seriam as principais propostas do serviço e saber quão alinhadas elas estão com o MEC.

Startups da área para ficar de olho:

ClassApp

Voltado para a relação entre instituições de ensino, pais e alunos, o aplicativo promove uma rede de comunicação que promete acabar com a burocracia e aproximar a escola dos seus clientes.

Geekie

Oferece uma plataforma de ensino personalizável, dando a oportunidade de adaptar o aprendizado de cada aluno de acordo com os seus padrões de comportamento. Também promete engajar a administração da escola, os professores e os pais ou responsáveis no aprendizado.

Studiare

Essa startup oferece várias soluções voltadas para educação, tanto pedagógicas, quanto na gestão de escolas, como ensino adaptativo e híbrido, gamification, entre outros algoritmos que melhoram o desempenho dos alunos.

Educação a distância

A procura por cursos e aulas a distância cresce progressivamente, uma vez que profissionais que procuram conciliar trabalho, vida pessoal e estudo está cada vez mais comum: segundo o Censo EAD 2015, por volta de 70% dos alunos de instituições privadas e 100% dos de instituições públicas dividem parte do seu tempo como empregado e, outra, como estudante.

Assim como se torna cada vez mais frequente o trabalho aliado ao estudo, o mercado para EdTechs em educação a distância também se mostra promissor principalmente pelo aumento no número de alunos. Entre 2014 e 2015, os cursos totalmente a distância e semipresenciais tiveram um aumento significativo de novas vagas.

Os cursos a distância são variados, podendo ser desde preparatórios (com foco em vestibulares e ENEM), profissionalizantes, de línguas até com foco em licenciatura ou pós-graduação, por exemplo. Mas é preciso ficar atento para a competição: “As EdTechs no Brasil estão muito concentradas no ENEM e no Ensino Médio, mas ainda tem muita coisa para fazer, por exemplo, pelo público universitário”, afirma Pimentel.

Startups da área para ficar de olho:

Descomplica

Focado na preparação para vestibulares e exames como ENEM, essa startup disponibiliza vídeo-aulas com matérias que vão desde Português e Literatura até Matemática.

Veduca

O Veduca oferece diversos cursos e aulas online de universidades reconhecidas mundialmente, como MIT, Harvard, Yale, entre outras. Todas as aulas têm tradução para o português e são gratuitas.

Eduk

Plataforma de ensino voltada para cursos profissionalizantes, oferece aulas em áreas como: gastronomia, artesanato, beleza, moda, fotografia, negócios, entre outros.

Educação corporativa

O impacto e potencial das EdTechs no mercado é grande, uma vez que, além do Brasil ter diversas carências no sistema de ensino, há outros setores que também são um solo fértil para serviços que aliam novas tecnologias e educação. Um deles é o corporativo.

Não basta um bom salário para conseguir engajamento e melhor aproveitamento dos seus funcionários: as empresas começaram a perceber que é preciso despertar o interesse de uma forma diferente. Mas para fazer um bom treinamento e conseguir que eles executem seu trabalho de forma mais eficiente, o método tradicional já não dá conta. É aqui que entram as EdTechs.

No caso da Qranio, Samir Iásbeck revela que um dos maiores desafios da empresa foi começar a monetizar. A forma como eles deram a volta por cima foi identificar um setor carente, que poderia utilizar muito bem o conceito de educação e entretenimento: o treinamento corporativo. “A gente viu que essas empresas têm milhares de funcionários e que nós poderíamos monetizar em cima disso. Afinal, seria um serviço específico para cada uma”, revela Iásbeck.

Depois de dois grandes casos, um para o Bob’s e outro para o Banco Bradesco, a Qranio está focada em explorar o nicho das corporações, principalmente por serem praticamente os únicos no mercado com esse enfoque – aliando aprendizado e entretenimento – e terem uma grande vantagem competitiva. Devido à descoberta dessa carência, para o ano de 2017, por exemplo, a empresa está com uma previsão de crescimento de 700%.

Dessa forma, é inegável o fato de que as corporações se mostram como um nicho promissor para EdTechs se proliferarem e facilitarem o trabalho e o aprendizado de funcionários.

Startups da área para ficar de olho:

Dot Group

Especializado tanto em EdTech quanto em MarTech (Marketing Technology), o Dot Group oferece capacitação corporativa por meio de cursos online, lms gamificado, entre outros.

Hondana

O objetivo da startup é melhorar os resultados dos negócios dando acesso a base de conhecimento e técnicas de capacitação, tudo isso em uma plataforma para smartphones.

Qranio

Mais conhecida por atender o público de estudantes, a Qranio conseguiu trazer seu objetivo de educar de forma divertida para as corporações, auxiliando no treinamento de funcionários e em cursos de capacitação.

 

 

 

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Texto publicado originalmente no site StartSe

por Isabela Borrelli

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