Fazendo Antropologia no Alto Solimões, vol. 14

Fazendo Antropologia no Alto Solimões, vol. 14

Fazendo História na Antropologia Amazônica

FAAS 14

Ana Beatriz de Souza Cyrino

Dorinethe dos Santos Bentes

Michel Justamand

 

            Nesta edição, comemoramos seis anos de publicações. Para nós, dirigentes da coleção FAAS, Gilse Elisa Rodrigues e Michel Justamand, é muito gratificante. Começamos sem ter nenhuma perspectiva de irmos tão longe. Em 2011, quando tivemos a ideia de publicarmos os escritos dos pes­quisadores/professores da instituição, em especial, do Alto Solimões, que­ríamos apenas divulgar as ideias e reflexões de 6 (seis) colegas (Adailton da Silva, Cristian Faria Martins, Gilse Elisa Rodrigues, Michel Justamand, Rafael Pessôa São Paio e Tharcisio Santiago Cruz) que se encontraram, em Manaus, em maio de 2009, por conta de um concurso para algumas áreas do Curso de Antropologia, na unidade acadêmica de Benjamin Constant, da Universidade Federal do Amazonas – UFAM.

            Todos aprovados para serem professores efetivos do campus avançado do Alto Solimões. Para onde alguns somente vão para realizar suas pesquisas. Esses destemidos colegas se dispuseram a trabalhar e cons­truir suas carreiras na universidade federal. E com dúvidas, dividas, triste­zas, dores de cabeça e, por que não, muitas alegrias, começamos essa saga, que vem a ser hoje a Coleção FAAS. Naquela época, iniciamos com dois volumes, que foram a público no ano de 2012. Um dos volumes tratava das questões específicas dos seis professores do curso, metodologias de aulas, trabalhos de campo, algumas reflexões, e o outro foi composto com contri­buições de concludentes do curso de Antropologia. Essas foram oriundas dos Trabalhos de Conclusão de Curso – TCC que se transformaram em artigos/capítulos.

            A coleção agora, em 2018, apresenta seu décimo quarto volume. Ela apresenta uma média de 2 volumes por ano. Estamos felizes por sa­ber que, depois desses dois volumes iniciais, colegas da instituição e depois de outras instituições, tanto do Brasil quanto de fora do país, passaram a contribuir com nossos volumes, transformando nossa iniciativa, de 2011, em uma empreitada digna de ser recomendada e divulgada. Ficamos muito gratos! E claro agradecemos a confiança depositada em nossa organização.

            A organização tem sempre a frente, ao menos, um dos profes­sores/pesquisadores que deram o ponta pé inicial da coleção. Mas como é de nosso entendimento, é importante o diálogo, interdisciplinar e também interinstitucional, por esse motivo, alguns volumes contaram com organi­zadores de outras instituições.

            Neste volume, a organização ficou por conta de um organizador (Michel Justamand) presente em todos os volumes com mais duas colegas. Uma delas é Técnica Administrativa em Educação – TAE (Ana Beatriz de Souza Cyrino), atuando em Manaus, e também doutoranda do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA. A ou­tra organizadora (Dorinethe dos Santos Bentes) também é doutoranda do mesmo programa de pós-graduação e também professora do Curso de Di­reito da UFAM, em Manaus

            Então, nós organizadores, temos o prazer, de tornar público esse volume 14. Ele conta com 14 textos. Aqui estão presentes trabalhos de uma gama de pesquisadores que, convidados, enviaram suas obras para compor conosco a história da coleção e ajudar a emplacar legados futuros para a região do Alto Solimões, da tríplice fronteira e amazonense, mas também para a ciência, em especial as humanas, sem esquecer de nossa famosa in­terdisciplinaridade. Esses escritos contribuirão, a nosso ver, para a amplia­ção de olhares sobre a vida humana, mas não só, contribuirão também para ajudar a oxigenar a ciência e quem sabe gerar um legado interessante para as reflexões de modo interdisciplinar, como esse volume se pensa.

            Dessa forma, prezadas e prezados parceiros da leitura, apresen­tamos, brevemente, e apenas como forma de “aperitivo” para as vossas re­flexões, os textos a seguir...

            O capítulo inicial que leva o nome de Conselho Municipal de Saúde de Parintins/AM: quando o Controle Social incomoda a Administração Pública, de Alexsandro Melo Medeiros e Nelson Matos de Noronha, trata da eficiência com que as políticas públicas atuam e de como elas podem e devem ser im­plementadas. Medeiros e Noronha indicam que é preciso acompanhar com interesse o movimento de participação da sociedade civil na implementação e controle das políticas públicas através dos  Conselhos de Políticas Públicas , reconhecendo seu potencial, seus limites, desafios e possibilidades.

            Ana Beatriz de Souza Cyrino, Elenise Faria Scherer e Sidney An­tonio da Silva, são os autores do segundo capítulo. Os autores, em seu texto intitulado Veredas constitutivas do fenômeno urbano em Manaus: Gentri­ficação ou Embelezamento?, demonstram que em Manaus a gentrificação emerge como “política de embelezamento” no período da Belle Époque. Cyrino, Scherer e Silva lembram que o “embelezamento” urbano se trata de uma particularidade da estratégia política e da de organização do espaço citadino, mas também do avanço expansionista do capital, no âmbito da produção e reprodução das relações sociais.

            Já nos escritos de Andrés Alarcón-Jiménez a arqueologia é a base da discussão. O título do texto de Alarcón-Jiménez é Arqueologia na Amé­rica Latina: o passado no campo de batalha durante a Guerra Fria. O autor de utiliza dos vestígios arqueológicos para reinterpretar a fase sociopolítica global, conhecida como Guerra Fria (pós-II Guerra até a queda do muro de Berlim). Debate a institucionalização de teorias, como o ordenamento de instituições universitárias, por exemplo, que levou, invariavelmente, ao campo da pesquisa e da produção do passado, a ampliação das lutas geo­políticas.

            O capítulo quatro leva o título de O papel do tutor em EAD: um estudo de caso na especialização em proeja indígena do IFAM campus Taba­tinga. Esse trabalho é de autoria de Antônia Marinês Goes Alves. A autora, em seus anotados, apresenta um estudo de caso acerca do papel do tutor em EaD na oferta de Pós-Graduação em Proeja Indígena realizada pelo Institu­to Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas – IFAM Cam­pus Tabatinga em parceria com a Universidade Aberta do Brasil – UAB. Informa que nesse projeto se pretendeu atender à qualificação docente de professores que atuavam no Curso técnico em Agropecuária na modalidade PROEJA Indígena, ofertado pelo mesmo Campus.

            O próximo trabalho é de autoria de Camila Marques Maton e Michel Justamand. O texto intitula-se As principais conferências ambientais da ONU e a Amazônia. Nesses escritos, Maton e Justamand tratam de rela­tar algumas das negociações multilaterais dos Estados membros da Orga­nização das Nações Unidas (ONU). Os autores procuram analisar se essas ações contribuem para a redução dos impactos ambientais que o planeta vem sofrendo devido à ação humana. Explanam sobre as principais confe­rências de cunho ambiental realizadas no âmbito da ONU e a importância da preservação do bioma Amazônia.

            Já o capítulo seis atende por Colonialismo e resistência/existência: queer indígena como agenda epistemopolítica. Esse trabalho é de autoria de Estevão Rafael Fernandes. Nele, o autor aponta, a partir de questões relacio­nadas ao estudo da homossexualidade indígena, questões referentes à colo­nização e aos desafios a este tipo de estudo dentro de uma academia coloni­zada, epistemicamente. Com o intuito de debater a “invasão” das sabedorias acadêmicas, Fernandes nos chama a atenção para como a colonização versa sobre a formação de um aparato discursivo e institucional que busca, em última instância, anular a condição de existência de seus outros saberes.

            O posterior capítulo, intitulado de Memórias e saberes nos quin­tais agroflorestais amazônicos, é de autoria de Evandro de Morais Ramos, Maria Isabel de Araújo e Silas Garcia A. de Sousa. Nele os autores deba­tem a conquista amazônica pelos europeus em terras amazônicas. Ramos, Araújo e Sousa mostram que as populações tradicionais foram obrigadas a abandonar muitos de seus hábitos imemoriais, costumes e saberes para assimilar a cultura dos não-índios, incorporando o sistema de produção agrícola sistematizado geometricamente, capaz de produzir excedente de produção vegetal e animal.

            Descrição etnográfica de rituais vivenciados nas práticas curativas da puxação e benzeção na comunidade indígena do Katxipiri é o título dos escritos de Gilvandro Oliveira da Silva e Mário Bentes Cavalcante. Esse tra­balho é sobre uma descrição etnográfica de rituais vivenciados na prática da puxação e benzeção como forma de curar pessoas de suas enfermidades e desconfortos corporais. Essa pesquisa foi realizada na comunidade de Ka­txipiri localizada no município de Manacapuru no estado do Amazonas. Silva e Cavalcante apresentam as medidas curativas denominadas benzeção e puxação, com o emprego de técnicas corporais, realizada por um nativo da etnia Apurinã.

            O subsequente capítulo é nominado de A saga dos Dissidentes no contexto amazônico. Esses escritos são de autoria de José Humberto P. e Silva. Neles, Silva trata da questão preocupante migração e dissidência para a Amazônia. Silva lembra que o Brasil ainda não possui sólidas estruturas e regulamentação adequada para agir proativamente nessas peculiares situa­ções, agravadas ainda com complexas questões ligadas ao perigoso narco­tráfico, presente em regiões fronteiriças com a tríplice fronteira Brasil-Peru-Colômbia, em Tabatinga/AM.

            O capítulo dez é de autoria de Kamilla Ingrid Loureiro e Silva. A autora o intitula A experiência no curso de Ciências Econômicas no Municipio de Manicoré. Nas linhas do texto, Silva identifica as mudanças comporta­mentais dos alunos que cursaram Ciências Econômicas na Universidade do Estado do Amazonas – UEA. Silva analisa a mudança de comportamento dos economistas formados no município de Manicoré, após o período de formação na instituição universitária estadual.

            Em As tessituras do histórico na poética de Washington Cucurto, de Rafaela Cassia Procknov, são debatidas as relações entre a narrativa da história e a da literatura. Procknov analisa a criação poética do argentino Washington Cucurto, mais especificamente, La Revolución de Mayo vivida por los negros (2008), quais os sentidos que a história assume em sua obra e quais acepções mobilizariam o processo de emancipação política da Argen­tina, contado, supostamente, a partir da cosmovisão negra.

            Simone Dias da Silva e Edda Curi, são as autoras do texto O que o professor dos anos iniciais deve saber para ensinar o sistema de numeração decimal? Neste trabalho, Silva e Curi discutem pontos relevantes para o en­sino do Sistema de Numeração Decimal (SND), conteúdo central nos cur­rículos de Matemática dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Realizam as autoras levantamento e análise de documentos curriculares e de materiais didáticos da rede de ensino municipal de São Paulo. As autoras têm como foco a atuação do professor nas aulas de matemática e seus desdobramentos no processo de aprendizagem do aluno.

            O penúltimo capítulo é nomeado de Violências (des)veladas: mu­lheres em movimento no limiar da desmistificação e resistência às violências em Parintins-AM. Esse texto é de autoria de Tainá Abecassis Teixeira e Irail­des Caldas Torres. As autoras abordam a violência contra as mulheres. Par­tem de uma análise teórica multidisciplinar. Lembram que as violências são silenciadas, simbólicas e nem sempre reconhecidas. Tais violências são apre­sentadas, nesse texto, por meio da fala dessas duas mulheres que militam em movimentos sociais em Parintins, município do Estado do Amazonas.

            Finalizando a obra, temos o texto de Ana Flávia Monteiro Dióge­nes e Dorinethe dos Santos Bentes. As autoras nomeiam seus escritos de O Centro Histórico de Manaus e a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes Ambientais). Diógenes e Bentes estudam a importância da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, mais conhecida como Lei de Crimes Am­bientais, para a preservação do patrimônio cultural, especialmente numa cidade tão cheia de história e cultura como Manaus. Indicam que essa lei foi um passo importante para o resguardo do patrimônio cultural. Mas que é preciso esforço conjunto entre Estado e Sociedade para sua maior efetivida­de na proteção do patrimônio cultural.

            Assim, apresentados os 14 capítulos que compõem a nossa mais nova edição da coleção, deixamos para os interessados realizarem suas crí­ticas, sugestões e indicações para as futuras obras do Fazendo Antropologia no Alto Solimões – FAAS.

            Desejamos boa leitura e reflexões a partir dos escritos aqui con­templados! Esses são os votos dos organizadores!

 

Sumário

Andanças

Marta Cortezão

- 5 –

Fazendo História na Antropologia Amazônica - FAAS 14

Ana Beatriz de Souza Cyrino, Dorinethe dos Santos Bentes, Michel Justamand

- 9 –

Conselho Municipal de Saúde de Parintins/AM:

quando o Controle Social incomoda a Administração Pública

Alexsandro Melo Medeiros, Nelson Matos de Noronha

- 15 –

Veredas constitutivas do fenômeno urbano em Manaus:

Gentrificação ou Embelezamento?

Ana Beatriz de Souza Cyrino, Elenise Faria Scherer, Sidney Antonio da Silva

- 31 –

Arqueologia na América Latina: o passado no campo de batalha

durante a Guerra Fria

Andrés Alarcón-Jiménez

- 45 –

O papel do tutor em EAD: um estudo de caso na especialização em proeja indígena do IFAM campus Tabatinga

Antônia Marinês Goes Alves

- 63 –

As principais conferências ambientais da ONU e a Amazônia

Camila Marques Maton, Michel Justamand

- 77 –

Colonialismo e resistência/existência: queer indígena como agenda

epistemopolítica

Estevão Rafael Fernandes

- 97 –

Memórias e saberes nos quintais agroflorestais amazônicos

Evandro de Morais Ramos, Maria Isabel de Araújo, Silas Garcia A. de Sousa

- 111 –

 

Descrição etnográfica de rituais vivenciados nas práticas curativas da puxação e benzeção na comunidade indígena do Katxipiri.

Gilvandro Oliveira da Silva, Mário Bentes Cavalcante

- 121 –

A saga dos Dissidentes no contexto amazônico:

um olhar sobre a Migração e a Dissidência no atual contexto amazônico

José Humberto P. e Silva

- 129 –

A experiência no curso de ciências econômicas no municipio de Manicoré

Kamilla Ingrid Loureiro e Silva

- 139 –

As tessituras do histórico na poética de Washington Cucurto

Rafaela Cassia Procknov

- 149 –

O que o professor dos anos iniciais deve saber para ensinar o sistema de numeração decimal?

Simone Dias da Silva, Edda Curi

- 159

Violências (des)veladas: mulheres em movimento no limiar da

desmistificação e resistência às violências em Parintins-AM

Tainá Abecassis Teixeira, Iraildes Caldas Torres

- 175 –

O Centro Histórico de Manaus e a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998

(Lei de Crimes Ambientais)

Ana Flávia Monteiro Diógenes, Dorinethe dos Santos Bentes

- 193 –

Sobre os Autores

- 213 –

O Enxertado de Pano

Odri Araújo

- 219 –

Coleção FAAS - Fazendo Antropologia no Alto Solimões

Dirigida por Gilse Elisa Rodrigues e Michel Justamand

- 221 –

Obras afins

- 223 -

 

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