Guerra e Paz, de Liev Tolstói

Guerra e Paz, de Liev Tolstói

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jan. 2019

            Guerra e Paz é um romance histórico, consagrado na literatura mundial, do escritor russo Liev Tolstói (1828-1910), publicado entre 1865 e 1869. É uma obra volumosa, publicada em 4 volumes, que tem como contexto o início do século XIX, entre 1805 e 1820, das guerras napoleônicas na Rússia (1805-1812) e conta a história de cinco famílias aristocráticas, como os Bezukhovs, os Bolkonskys, os Rostovs e o vínculo entre elas. A obra descreve batalhas como as de Schoengrabem, Austerlitz e de Borodino, articulando o romance com grandes acontecimentos históricos. “As narrativas de batalhas são entremeadas com ações de centenas de personagens, alguns históricos e outros fictícios, estes pertencentes a cinco famílias da aristocracia czarista” (NUNES, 2016, p. 30).

            A obra foi adaptada para o cinema (duas vezes) e também para telessérie: em 1956 a obra foi adaptada para o cinema na versão dirigida por King Vidor, estrelada por Audrey Hepburn, Henry Fonda e Mel Ferrer; 10 anos depois uma nova adaptação para o cinema, soviética, foi dirigida por Sergei Bondarchuk que também atuou no filme como Pierre Bezukhov; em 2008 a Rede Globo, no Brasil, adaptou a obra para uma telessérie, escrita por Carlos Lombardi e dirigida por Marcos Rodrigues; finalmente uma nova telessérie foi produzida pela BBC One de Londres, em 2016, interpretada pelos personagens Paul Dano, Lily James e James Norton.

 

Hesitando em considerá-lo um romance segundo as normas clássicas do gênero, ou uma crônica familiar em que se conta a vida de duas famílias da nobreza russa, tendo como pano de fundo os anos que decorrem de 1805 a 1812, o citado crítico e historiador literário Paulo Chostakowsky prefere denominá-lo “epopéia nacional”, porque o verdadeiro herói é o povo, unindo-se para expulsar do território nacional, da sua Santa Rússia, o invasor audacioso e saqueador. Efetivamente, há muito de epopéia, das regras e processos do gênero, neste livro que não deixa de ser ao mesmo tempo um romance. O próprio Tolstói o considerava a “Ilíada” russa (MENDES, 1983, p. 14 apud CORSI, 2014, 79).

 

            A obra, além de ser um testemunho da história russa pode ser vista como uma reflexão sobre a guerra. Na obra, Tolstói empregou também

 

sua experiência pessoal como combatente em um dos conflitos russo-turcos, na Crimeia, em 1854-1855, quando escreveu uma série de apontamentos relatando a vida dos soldados russos e cidadãos durante o cerco de Sebastopol, sendo por isso considerado historicamente um dos primeiros correspondentes de guerra (NUNES, 2016, p. 30).

 

            A guerra é um fenômeno social presente em praticamente todas as culturas e todos os povos. É difícil pensar uma sociedade ou comunidade que não tenha conhecido, e até vivenciado, as consequências da guerra. Por ser um fenômeno de tão grande magnitude a guerra sempre foi objeto de análise de historiadores, filósofos (como Maquiavel, Hobbes e Kant) e cientistas sociais. E como aponta Nunes (2016, p. 32), a obra interessa à metodologia das ciências sociais por seu caráter literário, histórico e filosófico, pelo seu aspecto relacional entre arte e ciência “ou, mais especificamente, entre certos gêneros literários, como o romance histórico e a história como ciência”. Nunes (2016) ressalta como Tolstói dialoga com os historiadores, em capítulos onde além da narrativa romanceada a obra apresenta temáticas histórico filosóficas, como na narrativa no livro 10,

 

quando Tolstói argumenta, refutando explicações reconhecidas na historiografia do período, que a batalha de Borodinó não fora guiada por motivos racionais. Argumentando contrafactualmente, inclusive com auxílio de um mapa da região mostrando as posições pretendidas e reais dos dois exércitos, o autor afirma a irracionalidade no procedimento dos dois generais, Napoleão e Kutúzov; por isso, os livros de história, que afirmavam ora a genialidade de um ora a perspicácia do outro, estariam errados (NUNES, 2016, p. 49).

 

            Tolstói não era nem historiador e nem filósofo, no sentido específico dos termos. Inclusive as postulações de Tolstói sobre a história foram consideradas falsas por Ivan Turgueniev – outro romancista e dramaturgo russo –, ou do crítico Dmitri Akhcharumov (BARROS, 2010, p. 131). Todavia, “a narrativa de seu romance Guerra e Paz está repleta de menções à história e, sobretudo no ‘Adendo’ da obra, o autor expõe de forma minuciosa suas idéias sobre o assunto” (BARROS, 2010, p. 125). “Guerra e Paz poderia facilmente ser considerado uma narrativa histórica. O livro narra a derrota de Napoleão para o exército russo [...] texto de Tolstói aproxima-se bastante de uma narrativa histórica” (CORSI, 2014, p. 81). Além disso, Tolstói “pesquisou obras sobre o episódio e colheu testemunhos de muitos sobreviventes da guerra, muitos dos quais seus próprios familiares” (MARTINS, 2007, p. 9).

            A crítica de Tolstói ao que podemos chamar de historicismo cientificista do séc. XIX é ressaltada por Barros (2010, p. 125), segundo o qual Tolstói “expressou sua desconfiança para com as explicações vazias e pretensamente científicas dos historiadores de então, bem como demonstrou quão frágeis eram os métodos de que estes historiadores lançavam mão para interpretar o processo histórico”. Tolstói questionou os historiadores de sua época pelas explicações que procuraram dar ao que teria ocasionado um acontecimento tão prodigioso. Essa crítica, bem como a teoria da integração dos infinitesiamais desenvolvidas pelo escritor russo, no entanto, estão além dos objetivos deste texto por isso remetemos o leitor ao artigo de Barros.

 

A narrativa

            A narrativa começa na cidade russa de São Petersburgo, no ano de 1805. Uma festa é realizada para os aristocratas da cidade e nela estão alguns dos principais personagens da obra como Pierre Bezukhov e André Bolkonsky.

No centro da imagem estão Pierre Bezukhov (Paul Dano), Natasha Rostova (Lily James) e André Bolkonsky (James Norton), na versão da telessérie produzida pela BBC.

 

            Pierre Bezukhov é um dos personagens principais da obra que se tornou o Conde de Bezukhov após receber uma herança inesperada de seu pai, sendo que Pierre não era seu filho legítimo. Casa-se com a bela e imoral Helena que quer apenas se aproveitar da sua nova condição e da sua fortuna. O casamento se torna um fracasso e Pierre é vítima de inúmero conflitos, internos e externos, chegando ao ponto de duelar com um dos amantes de sua espoa Helena. Depois de passar por vários infortúnios Pierre inicia uma busca pessoal em como viver uma vida moral em um mundo cheio de imoralidades.

            Outro personagem principal é André Bolkonsky, filho do general Nikolai Bolkonsky que é também um grande proprietário rural da região de Montes Calvos.

            André participará de várias batalhas contra a grande armada napoleônica. Na Batalha de Schoengrabem ele conhece Nicolau Rostov. É ferido na Batalha de Austerlitz e após se recuperar dos sofrimentos volta para casa. Sua esposa, grávida, morre ao dar à luz ao seu filho. Na batalha de Borodino será gravemente ferido e irá morrer sob os cuidados da bela Natacha Rostova.

            A Batalha de Borodino é considerada como a mais violenta de toda campanha napoleônica. Travada em 1812, nela exerce uma papel central o General Kutuzov, que almejava “derrotar o oponente com pequenas e gradativas perdas, ocasionadas devido à dificuldade de adquirir suprimentos, forragem para os cavalos, a fadiga dos soldados por extensivas marchas em estradas em condições inadequadas e pelo desgaste moral” (MARTINS, 2007, p. 18).

BATALHA DE BORODINO (MARTINS, 2007, p. 22).

 

            Finalmente Napoleão consegue invadir a Rússia e ocupar Moscou. Mas o exército francês não é capaz de vencer um inimigo inesperado: o inverno russo. Após essa desastrosa ocupação, o exército francês é obrigado a se retirar devido ao rigoroso inverno. Os russos, vitoriosos, reconstroem Moscou

 

Análise sobre a Guerra e a Paz

            O título da obra já revela em si o interesse do autor pelo fenômeno da guerra e de que esta faz parte do enredo central da obra. Tolstói não apenas procura descrever os fatos que ocorreram na guerra franco-russa como especula sobre suas possíveis causas.

 

Apresenta algumas causas atribuídas à guerra por historiadores em meados do século XIX, como a afronta imposta ao duque de Oldenburg, a ambição de Napoleão, a tenacidade de Alexandre I, os erros dos diplomatas etc. A seguir justifica cada uma das hipóteses causais em relação a interesses individuais ou de grupo, empregando uma mesma expressão, primeiramente dirigida a uma categoria genérica e depois repetida substituindo essa categoria por um exemplo específico (NUNES, 2016, p. 37).

 

            Há um interesse mais do que literário do autor pela guerra. Há o interesse histórico, filosófico, social. Tolstói procura explicar as causas da guerra não apenas decorrentes de uma única causa, como um decisão tomada por um grande general (como Napoleão) a partir do qual se inicia uma série causal de fatos que culminam na sua vitória ou derrota. Para Tolstói, há uma pluralidade de causas que contribuem para o fenômeno da guerra sendo que estas causas podem, inclusive, não ser concorrentes ou conjuntas, mas disjuntivas e que contribuem igualmente para o fenômeno da guerra.

            O interesse pela guerra de Tolstói não deve ser analisado de forma excludente com o seu interesse pela paz. Após seus 50 anos, como ressalta Martins (2007, p. 8), Tolstói entrou em uma profunda crise existencial dedicando-se aos estudos filosóficos e religiosos, sobretudo a religião cristã, e se tornando defensor da resistência pacifista e não violenta. “Para Tolstoi, todas as formas de violência são igualmente más. Não só a guerra, mas todas as formas de compulsão inerentes ao estado são criminosas. O verdadeiro cristão deve abster-se de participar nas funções do estado” (ROLLAND, 2002 apud MARTINS, 2007, p. 8). O título destaca esses dois estados antagônicos existentes na sociedade que conhecem tanto a guerra quanto a paz. Ao mesmo tempo em que Tolstói escolhe um fato de uma época capital na história da Rússia, ele aborda um tema capital na história da humanidade.

            A semente do pacifismo antimilitarista que Tolstói assumiu com idade mais avançada se encontra presente, por exemplo, no início da obra Guerra e Paz, no discurso de Pedro Bezukhov, quando este “discursa com os presentes [na festa de início da obra], desajeitado e passionalmente como quem abraçou idéias a pouco tempo, que a paz universal é possível não sendo simplesmente um equilíbrio político” (MARTINS, 2007, p. 11).

            A tendência ao pacifismo do autor de Guerra e Paz será ainda mais clara em uma obra posterior: O reino de Deus está dentro de nós.

 

Referências Bibliográficas

BARROS, Gustavo Morais. Interpretação do processo histórico em Leon Tolstói. Revista de Teoria da História, v. 3, n. 1, p. 123-143, junho de 2010. Acesso em 16 jan. 2019.

CORSI, Cícero Manzan. A Metaficção nos Romances Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Ulysses, de James Joyce, e Guerra e Paz, de Tolstói. RUS – Revista de Literatura e Cultura Russa, vol. 3, n. 3, 70-84, 2014. Acesso em 18 jan. 2019.

MARTINS, Fabrício. Pensar a Guerra e Paz: Tolstoi. Anais do 1º Encontro Nacional da ABRI Segurança Internacional. Brasília-DF, 25 a 27 de julho de 2007.

MENDES, Oscar. Tolstói e Guerra e Paz. In: TOLSTÓI, L. Guerra e Paz. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983.

NUNES, Jordão Horta. Questões metodológicas em Guerra e paz: causação, agência e refiguração. Tempo Social, Revista de Sociologia da USP, v. 28, n. 1, p. 29-53, 2016. Acesso em 16 jan. 2019.

ROLLAND, Romain. Vie de Tolstoi. In: TOLSTOI, Leon. Guerra e Paz. trad. Gustavo Nonnberg. 5ed. São Paulo: Ediouro, 2002.

 

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