John Dewey: Pragmatismo, Educação e Democracia

John Dewey: Pragmatismo, Educação e Democracia

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em mai. 2019

atualizado em fev. 2020

            John Dewey foi um filósofo contemporâneo preocupado com diferentes questões presentes na sociedade que vão desde a educação, psicologia, política, preocupado em desenvolver um esforço permanente pela construção de uma sociedade democrática que assegurasse a liberdade dos indivíduos, calcada na igualdade, com participação coletiva das decisões e que permitisse a auto realização dos sujeitos. “Este filósofo centrou-se em ampla gama de questões no domínio da filosofia, educação, psicologia, sociologia e política, e esteve comprometido com a defesa de uma sociedade intencionalmente voltada para o progresso" (TEITELBAUM; APPLE, 2001).

            Dewey é uma das três figuras centrais do pragmatismo nos Estados Unidos, ao lado de Charles Sanders Peirce e William James, embora preferisse utilizar o termo instrumentalismo ao invés de chamar sua filosofia de pragmática. Sua linha filosófica era particularmente empirista e utilitarista.

 

            O pragmatismo se reflete de uma maneira bastante evidente na teoria educacional de Dewey, que procurava conciliar os aspectos teóricos e práticos da aprendizagem, na ligação entre ensino e prática cotidiana, dando grande ênfase à ideia de experiência como um processo ativo, um processo contínuo de criação de conexões de saberes. A filosofia pragmatista de Dewey “tem como eixo central o interesse de base psicológica gerado por situações da experiência de vida no ambiente social. Dewey concebeu a educação como um processo de contínua reconstrução da experiência humana na sociedade” (ZANATTA, 2012, p. 109).

            A própria concepção de educação do filósofo está de alguma forma relacionada com a ideia de experiência, entendendo a “educação como o processo de reconstrução e reorganização da experiência, pelo qual lhe percebemos mais agudamente o sentido, e com isso nos habilitamos a melhor dirigir o curso de nossas experiências futuras” (TEIXEIRA, 2010, p. 37 – grifo do autor). O processo educativo se dá por intermédio das nossas experiências vividas de forma inteligente. A educação, como a vida em geral, é o resultado inevitável das nossas experiências. Dewey reconhece que é de vital importância para a educação não se restringir a transmissão de conhecimento como algo acabado, mas que a educação serve para organizar ou reconstruir permanentemente a experiência; a experiência, por sua vez, produz conhecimento (produto da ação, daí a expressão como muitas vezes é conhecida a teoria de Dewey como escola ativa).

            O pragmatismo de Dewey ressalta também a importância do método científico, com a elaboração de hipóteses que podem ser testadas. Uma filosofia instrumental que ressalta a importância do empirismo como um instrumento para resolver os problemas à medida que estes surgem. Para Dewey diferentes disciplinas como a física, a química, biologia deveriam partir da experiência da vida comum e avançar progressivamente para a experiência em uma forma mais organizada e completa, aproximando-se gradualmente dos conteúdos apresentados pelos professores.

            A teoria pedagógica de Dewey defende a inserção do aluno como sujeito de experiência no processo de aprendizagem. O conhecimento deve ser baseado na pesquisa. Sobre a importância da pesquisa na teoria de Dewey, assim se refere Zanatta (2012, p. 110):

A pesquisa deve surgir de uma motivação interior que propicie o aparecimento de um problema durante uma atividade contínua na qual o aluno esteja interessado. O primeiro objetivo é obter sugestões de solução; a observação e os conhecimentos anteriores devem ser utilizados para analisar a situação problemática e construir a solução provisória (ZANATTA, 2012, p. 110).

            Deve-se aprender fazendo e combinando prática, teoria, vida-experiência-aprendizagem em um processo permanente. A partir de uma perspectiva que Henz, Santos e Pignor, (2018, p. 144) ressaltam como sendo teórico-prática, entende-se “a educação como um processo de reconstrução e reorganização da experiência, ponto em que se adensam os sentidos produzidos”. Aprende-se fazendo. Seja para aprender uma habilidade, uma ideia, uma atitude, “só uma experiência de situação real da vida efetiva a aprendizagem” (SCHIMDT, 2009, p. 149). Essa ação, essa prática, deve ser uma prática consciente e intencional, direcionada, por isso, para Dewey, a “escola tem de transformar-se num meio de experiências reais ou num lugar de vida real, e não um espaço artificial, separado e isolado da sua própria vida e da sociedade em que está inserida” (SCHIMDT, 2009, p. 149).

            As escolas devem se transformar em locais organizados intencionalmente para fazer com que os alunos adquiram as experiências que, indiretamente e naturalmente eles vivem no dia a dia. “É, pois, na preparação desse meio especial de educação – a escola – que podemos e devemos dispor as condições pelas quais a criança venha a crescer em saber, em força e felicidade” (TEIXEIRA, 2010, p. 46). A escola deve promover um ambiente simplificado, purificado e integrado: a civilização ganhou uma notável complexidade com os avanços das artes e das ciências e, por isso, a escola deve, na medida do possível, simplificar esse ambiente complexo para que a criança venha a adquirir gradualmente esse saber; a escola deve igualmente eliminar certos aspectos reconhecidamente maléficos do meio social, já que a escola deve se ocupar com a melhoria da sociedade e, para isso, prover um ambiente purificado dos defeitos da sociedade; finalmente promover um ambiente de integração social, harmonização, tolerância.

APRENDIZAGEM BASEADA NA INVESTIGAÇÃO

Disponível em Pinterest. Acesso em 29 abr. 2019

 

            A experiência não é adquirida exclusivamente pela atividade espontânea do aluno, mas através da orientação e estímulo do professor. “O movimento realizado por Dewey entende a escola enquanto espaço ativo, e nele o conhecimento deve ser incentivado pelo professor” (HENZ; SANTOS; PIGNOR, 2018, p. 143).

A postura participativa e interativa do professor, dentro do processo, faz com que ele também ganhe maior reconhecimento em seu trabalho de preparação e condução das aulas, comprometendo-se com a construção de um ambiente em que as atividades imediatas dos alunos sejam confrontadas com situações problemáticas do cotidiano, cuja resolução exija conhecimentos teóricos e práticos de diversas esferas, científica, histórica, artística, etc. (HENZ; SANTOS; PIGNOR, 2018, p. 146).

            Compete ao educador estimular e desenvolver na criança suas habilidades de forma ativa. “Uma educação eficaz requer que o educador explore as tendências e os interesses para orientar o educando até o ápice em todas as matérias, sejam elas científicas, históricas ou artísticas” (WESTBROOK, 2010, p. 17). A experiência educativa deve ser direcionada pelo educador de forma inteligente e reflexiva, de modo a instigar o pensamento do aluno. “Todas as vezes que a experiência for assim reflexiva, isto é, que atentarmos no antes e no depois do seu processo, a aquisição de novos conhecimentos mais extensos do que antes será um dos seus resultados naturais” (TEIXEIRA, 2010, p. 37).

            Com base na sua visão pragmatista, Dewey “propôs a organização da escola em torno de experiências práticas, ou seja, de atividades que os alunos devem realizar na vida em sociedade” (ZANATTA, 2012, p. 110), sendo a sala de aula um “lugar em que as experiências poderiam ser abertamente analisadas e transformadas por meio da cooperação entre alunos e professores” (ZANATTA, 2012, p. 110). O ensino deve colocar o aluno ou aluna em situações de experiência que envolvam a prática, diante de situações que o façam pensar na resolução de problemas do qual a consequência será a aprendizagem. “O saber adquirido nos livros deve, nessa perspectiva, subordinar-se à experiência real, uma vez que o conhecimento resulta de respostas naturais do processo de agir” (ZANATTA, 2012, p. 110).

Disponível em: Comunidade Cultura e Arte. Acesso em 29 abr. 2019.

 

            O pragmatismo de Dewey se desenvolve consonante toda uma filosofia da educação a partir da qual se propõe

que a aprendizagem seja instigada através de problemas ou situações que procuram de uma forma intencional gerar dúvidas, desequilíbrios ou perturbações intelectuais. O método “dos problemas” valoriza experiências concretas e problematizadoras, com forte motivação prática e estímulo cognitivo para possibilitar escolhas e soluções criativas (PEREIRA, et al., 2009, p. 158).

            Na filosofia da educação de Dewey “a aprendizagem deve estar baseada na resolução de problemas” (HENZ; SANTOS; PIGNOR, 2018, p. 146). A aprendizagem se torna mais significativa quando é adquirida através da vivência por meio da resolução de problemas, por isso a escola deve priorizar a experiência, compartilhar experiências no ambiente escolar para que a produção do conhecimento se dê de forma coletiva.

            A construção do aprendizado da criança é um processo de articulação contínua entra a teoria e a prática, ou seja, entre experiência e educação. “A vinculação entre educação e prática se torna bastante evidente em sua obra, na medida em que o conhecimento abstrato requer a experiência como ponte para se concluir o processo de aprendizagem” (MENDONÇA; ADAID, 2018, p. 149).

Quando a educação é concebida em termos de experiência, uma consideração se destaca em relação às demais. Tudo o que possa ser considerado como matéria de estudo, seja aritmética, história, geografia ou qualquer uma das ciências naturais, deve derivar de materiais que, originalmente, pertençam ao escopo da experiência da vida cotidiana. Nesse aspecto, as propostas educacionais mais atuais se diferenciam radicalmente dos processos pedagógicos que se iniciam a partir de fatos e verdades que se encontram fora do âmbito das experiências vivenciadas pelos alunos e que, por isso, enfrentam o problema de ter que descobrir meios de relacioná-los com tais experiências (DEWEY, 2011, p. 75 apud MENDONÇA; ADAID, 2018, p. 145-146).

 

Vida, Experiência e Educação

            Quando se fala da importância da experiência para a educação é preciso salientar que esta visão abrange uma ideia muito mais ampla: “está subordinada à premissa democrática que fundamenta a própria filosofia social desse pensador e caracteriza a educação como reconstrução contínua da experiência” (SCHIMDT, 2009, p. 145), cuja teoria está esboçada de forma mais explícita no seu livro Vida e Educação. A própria vida é o resultado de uma soma de experiências e aprendizagem que são vividas ao longo da existência, de tal modo “que não podemos viver sem estar constantemente sofrendo e fazendo experiências” (id., ibidem, p. 145). Nesse sentido podemos falar em uma experiência de vida e uma experiência educativa. A experiência de vida é essa que vivemos ao longo de toda nossa existência, dentro e fora da escola. A experiência educativa é um processo de aquisição de conhecimentos que vivemos dentro da escola, uma experiência que alarga o conhecimento, enriquece o nosso ser, onde reconstruímos e reorganizamos a experiência.

            A escola é um meio organizado intencionalmente para influir sobre os indivíduos, um lugar onde situações reais de vida possam ser organizados e é fundamental para a vida em sociedade: “O que a nutrição e a reprodução são para a vida fisiológica, a educação é para a vida social” (DEWEY apud WESTBROOK, 2010, p. 39). Existe uma educação indireta, que naturalmente decorre do próprio processo de vida coletiva, e outra que pode ser direcionada, por meio da escola.

E é nisso que consiste a educação. Educar-se é crescer, não já no sentido puramente fisiológico, mas no sentido espiritual, no sentido humano, no sentido de uma vida cada vez mais larga, mais rica e mais bela, em um mundo cada vez mais adaptado, mais propício, mais benfazejo para o homem (TEIXEIRA, 1978, p. 17 apud SCHIMDT, 2009, p. 145).

            A vida é tecida de experiências de todo o tipo, do qual é impossível separar a vida da ideia de experiência e aprendizagem: vivemos, experimentamos e aprendemos, simultaneamente. “[...] vida e aprendizagem são [...] os dois fatos supremos do processo educativo. Vive-se aprendendo [...] Todo o interesse humano pela educação e pela escola é, fundamentalmente, uma questão de tornar a vida melhor, mais rica e mais bela” (TEIXEIRA, 2010, p. 55).

            A vida social está diretamente relacionada com o ato de ensinar e aprender que constituem a educação. A essência da vida social consiste em ensinar e aprender. Por isso a filosofia da educação de Dewey concebe as escolas como uma “comunidade embrionária”, que espelha a vida social como um todo, e esta deve estar “impregnada do espírito da arte da história e da ciência” (DEWEY, 2002, p. 35). (HENZ; SANTOS; PIGNOR, 2018, p. 146).

 

A Escola Experimental de Dewey

            Em 1896 John Dewey criou a Escola-Laboratório na Universidade de Chicago.

Ele chegou a Chicago com a ideia de estabelecer uma “escola experimental” por conta própria. Em 1894, dizia à esposa: Cada vez mais tenho presente em minha mente a imagem de uma escola cujo centro e origem seja algum tipo de atividade verdadeiramente construtiva, em que o trabalho se desenvolva sempre em duas direções: de um lado, a dimensão social dessa atividade construtiva e, de outro, o contato com a natureza que lhe proporciona sua matéria-prima. Teoricamente posso ver como, por exemplo, o trabalho de carpintaria necessário para a construção de um projeto que será o centro de uma formação social, por uma parte, e de formação científica, por outra – todo ele acompanhado de um treinamento físico, concreto e positivo da vista e das mãos (Dewey, 1894) (WESTBROOK, 2010, p. 22).

            A escola de Dewey começou com 16 alunos e 2 professores. Aos poucos a escola foi crescendo e em 1903 já passava de uma centena de alunos, 23 professores e 10 assistentes. Na escola de Dewey, os alunos se dividiam em grupos de acordo com a idade e para cada idade desenvolviam projetos diferentes

As crianças mais jovens (de 4 a 5 anos de idade) realizavam atividades que conheciam por meio da vivência em suas próprias casas ou do entorno: cozinha, costura, carpintaria. As crianças de 6 anos de idade construíam uma granja de madeira, plantavam trigo e algodão, que colhiam, transformavam e vendiam no mercado. Os de 7 anos estudavam a vida pré-histórica em cavernas por eles mesmos construídas; e os de 8 concentravam sua atenção no trabalho dos navegantes fenícios e dos aventureiros posteriores, como Marco Polo, Colombo, Fernão de Magalhães e Robinson Crusoé. À história e à geografia locais focalizavam a atenção dos de 9 anos de idade e os de 10 estudavam a história colonial, mediante a construção de uma réplica de habitação da época dos pioneiros (WESTBROOK, 2010, p. 23).

            A experiência da construção de uma granja por alunos de 6 anos é relatada por Katherine Camp Mayhew e Anna Camp Edwards (apud WESTBROOK, 2010, p. 24-25)

Quando construíram a granja, tiveram de dividi-la em vários campos para semear trigo, milho e aveia; e pensar também onde instalariam a casa e o paiol. Para isso, as crianças usaram como unidade de medida uma régua de um pé e começaram a entender o que significava ‘um quarto’ e ‘uma metade’. Ainda que as divisões não fossem exatas, bastavam para permitir delimitar a granja. À proporção que descobriam o meio pé, o quarto de pé, a polegada, seu trabalho ficou mais preciso... Quando construíram a casa, necessitaram de quatro postes para as esquinas e seis ou sete ripas da mesma altura. As crianças podiam equivocar-se ao medir as ripas, de maneira que as medidas tinham de ser refeitas duas ou três vezes antes de serem exatas. O que havia sido feito em um lado da casa, tiveram de repeti-lo, depois, no outro. Naturalmente, o trabalho ganhava rapidez e precisão na segunda vez.

            Através desta experiência as crianças tinham contato direto com medidas e frações matemáticas, além de uma experiência empírica de soluções de problemas onde até mesmo os erros faziam parte importante da aprendizagem.

 

Educação e Democracia

            A ideia de utilizar a experiência como base da aprendizagem na escola se refletia também na ideia de pensar a democracia a partir da escola.

Segundo testemunhos, Dewey teve um notável êxito no que se refere à criação de uma comunidade democrática na Escola Experimental. As crianças participavam na formulação de seus projetos, cuja execução se caracterizava por uma divisão cooperativa do trabalho, e as funções de direção eram assumidas em rodízio. Além disso, fomentava-se o espírito democrático, não somente entre os alunos, mas, também, entre os adultos que nela trabalhavam. Dewey posicionou-se criticamente em relação às escolas que não permitiam que os professores participassem das decisões que influíam na direção da educação pública. (WESTBROOK, 2010, p. 26)

            A obra de Dewey dá uma ênfase especial a ideia de democracia e a preocupação com a construção de uma sociedade mais justa em um período bastante conturbado por revoluções e guerras, como a Revolução Russa e as duas grandes guerras de base nazifascista.

John Dewey é um autor extremamente influente no campo da educação e da psicologia. Na teoria política, sua obra tem ganhado crescente atenção depois que Richard Rorty o colocou como um dos três maiores filósofos do século XX, ao lado de Heidegger e de Wittgenstein (MENDONÇA, 2012, p. 123).

            Dewey sentiu a necessidade de pensar a questão educacional no âmbito social pois um dos grandes problemas contemporâneos continua a ser o da organização da sociedade, com uma filosofia adequada, em face dos novos conhecimentos científicos, das novas teorias do conhecimento, da natureza, do homem e da própria sociedade democrática. Dewey voltou sua atenção para o campo da educação, cabendo analisar mais demoradamente o fenômeno da democracia como forma do social. Mais do que forma de governo, a democracia é vista como uma participação de indivíduos na ação coletiva.

            A escola por sua vez deve ser um espaço democrático, formador da democracia e que visa dar aos estudantes os meios e o caráter necessário para participar ativamente da vida pública e social. Dewey acredita na democracia, mas concebe que ela não estava concretizada totalmente. A educação teria esta função, a função de coordenar na vida mental de cada indivíduo, as diversas influências dos vários meios sociais em que ele vive. E isto porque um governo que se funda no sufrágio popular não pode ser eficiente se aqueles que o elegem e lhe obedecem não forem convenientemente educados. Uma vez que a sociedade democrática repudia o princípio da autoridade externa, deve dar-lhe como substitutos a aceitação e o interesse voluntários, função da educação. Desta forma Dewey conclui que uma sociedade é democrática quando prepara todos os seus membros para com igualdade aquinhoarem de seus benefícios e em que assegura o maleável reajustamento de suas instituições por meio da interação das diversas formas da vida associada. Esta sociedade deve adotar um tipo de educação que proporcione aos indivíduos um interesse pessoal nas relações e direção sociais, e hábitos de espírito que permitam mudanças sociais sem ocasionar desordens. “Tal era o objetivo mais ambicioso de Dewey como reformador educacional: transformar as escolas do país em instrumentos da democratização radical da sociedade estado-unidense” (WESTBROOK, 2010, p. 21-22). A escola apresenta-se como um local onde deve ser possível uma experiência democrática. A escola é fator de humanização, de transformação social, é o principal agente de uma sociedade melhor, suprimindo, tanto quanto possível, as características negativas do meio.

            Para que o projeto democrático de sociedade possa se realizar é preciso retomar os ideais da democracia em seus pilares morais: igualdade, liberdade, participação. E considerar que a democracia está muito mais assentada em sua forma institucionalizada, com seus procedimentos, práticas e padrões de funcionamento, do que em seus ideais. Por isso é preciso, além de compreender o funcionamento do sistema político e suas instituições, retomar suas noções ideais. Não basta assentar a democracia nas noções de sufrágio, eleições periódicas e regras da maioria. É preciso apostar nos sujeitos como atores da histórica, capazes de transformar a vida em sociedade.

 

Dewey e Pestalozzi

            Sobre a proximidade das ideias de Pestalozzi e Dewey, Soëtard (2009), em artigo traduzido por Joana Peixoto, compara os institutos de Pestalozzi e a Escola-Laboratório de Dewey e ressalta a ênfase na experimentação: “O Learning by doing [aprender fazendo] de Dewey poderia ser o slogan de Yverdon” (id., ibidem, p. 21); e na dimensão humanista dos dois pensadores: ambos “se encontram, assim, numa filosofia da ação que não se reduz, como se fez sempre a caricatura de Dewey, à conquista de resultados materiais, mas que visa também a dimensão humanista da educação” (id., ibidem, p. 20).

            Mas além da proximidade, existe também muitas diferenças, não apenas de ideias, mas da forma como cada educador vê e percebe o fenômeno da educação, como nos quadros comparativos abaixo 1 e 2:

 

1. Quadro comparativo entre os pressupostos de Pestalozzi e Dewey (adaptado de ZANATTA, 2012, p. 110)

Pestalozzi

Dewey

Finalidade da educação: cultivo da mente, do sentimento e do caráter

Finalidade da educação: mais educação

Centro: o professor

Centro: o aluno, o professor apenas guia

Ensino: promoção da percepção das coisas, dos objetos naturais, por meio do contato direto e da intuição

Ensino: descoberta que ocorre ao final

Conhecimento: organização das percepções sensoriais obtidas na relação com as coisas

Antes da aprendizagem, há apenas informação; a ação dos alunos sobre ela a transforma em conhecimento

Aprender: processo espontâneo, atividade livre

Aprender: reconstruir a experiência identificando o melhor modo de aprender

O mundo é a natureza; deve ser percebida e, desse modo, conhecida

O mundo é um sistema aberto, indeterminado, passível de novidade genuína

 

2. Quadro comparativo sobre o método de ensino de Pestalozzi e Dewey (adaptado de ZANATTA, 2012, p. 110)

Pestalozzi

Dewey

Do conhecido ao desconhecido, do concreto ao abstrato, do particular ao geral, da visão intuitiva à compreensão geral

Problema: os alunos identificam problemas que requerem certo conhecimento para serem resolvidos

Promover a associação entre os elementos das coisas, dos objetos

busca de informações (dados) que permitam prosseguir e formulação de hipóteses (com os dados obtidos)

Fazer com que cada aluno reúna, organize num todo, os pontos de vista alcançados

Experimentação: teste da hipótese e confirmação ou não do previsto

 

 

Referências Bibliográficas

DEWEY, John. A escola e a sociedade: a criança e o currículo. Lisboa: Relógio D’água, 2002.

DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Editora Vozes, 2011.

HENZ, Celso I.; SANTOS, Cláudia A. dos; SIGNOR, Patrícia. Experiência e movimento: pensando a educação em Dewey. Espaço Pedagógico, v. 25, n 1, p. 140-152, jan./abr., 2018. Acesso em 30 abr. 2019.

MENDONÇA, Ricardo Fabrino. Democracia e desigualdade: as contribuições da teoria do reconhecimento. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 9, p. 119-146, set./dez. 2012. Acesso em 28 abr. 2019.

MENDONÇA, Samuel; ADAID, Felipe A. P. Experiência e educação no pensamento educacional de John Dewey: teoria e prática em análise. Prometeus, ano 11, n 25, p 135-150, jan./mai., 2018. Acesso em 30 abr. 2019.

PEREIRA, Eliana Alvez [et al.]. A contribuição de John Dewey para a educação. Revista Eletrônica de Educação, v. 3, n. 1, p. 154-161, mai., 2009. Acesso em 20 abr. 2019.

SCHIMDT, Ireneu A. John Dewey e a educação para uma sociedade democrática. Contexto e Educação, ano 24, n. 82, jul./dez., p. 135-154, 2009. Acesso em 25 abr. 2019.

SOËTARD, Michel. A circulação das ideias pedagógicas: a necessária alteração dos conceitos e a perspectiva teórica de Pestalozzi na América do Norte. Tradução de Joana Peixoto. Educativa, Goiânia, v. 12, n. 1, p. 11-29, jan./jun. 2009. Acesso em: 26 fev. 2020.

TEITELBAUM, Kenneth; APPLE, Michael. John Dewey. Currículo sem fronteiras, v.1, n.2, p.194-201, 2001. Acesso em 30 abr. 2019.

TEIXEIRA, Anísio. A pedagogia de Dewey. In: WESTBROOK, Robert B. [et al.] (orgs.). John Dewey. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. (Coleção Educadores).

WESTBROOK, Robert B. [et al.] (orgs.). John Dewey. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. (Coleção Educadores).

ZANATTA, Beatriz Aparecida. O legado de Pestalozzi, Herbart e Dewey para as práticas pedagógicas escolares. Rev. Teoria e Prática da Educação, v. 15, n. 1, p. 105-112, jan./abr. 2012. Acesso em: 24 fev. 2020.


 

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