Literatura de Cordel e Política

Literatura de Cordel e Política

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em nov. 2015

atualizado em set. 2018

            O que pensam e dizem os poetas populares sobre o cotidiano da Política e os rumos da sociedade? A literatura de cordel sempre teve como objeto de sua produção, entre outras coisas, a descrição de acontecimentos sociais ou críticas aos (des)caminhos da sociedade e seus governantes. Trata-se de poesia popular escrita quase sempre em versos de sextilhas (estrofes de seis versos) ou septilhas (estrofes de sete versos) e a maioria desses rapsodos do povo é de personagens sertanejas, iletrados, semialfabetizados e, com efeito, a política tem sido um manancial de inspiração para estes poetas populares em todas as suas nuances. De origem europeia, foi principalmente na região nordeste do Brasil que a literatura de cordel veio a florescer e se desenvolver (ALVES, 2001; LUYTEN, 2007; ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012), tratando de temas os mais variados como as secas periódicas, a fome, os bandos de cangaceiros, a organização da sociedade patriarcal, casos de raptos de moças, crendices, religião, servindo, inclusive, como fonte de acesso à informação para o povo do sertão nordestino (DIÉGUES JÚNIOR, 1973; ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012). “Nada é estranho à literatura de cordel” (BRANDÃO, 1991, p. 05). Originário dos romanceiros da França e da Península Ibérica, a literatura de cordel recebeu este nome porque em Portugal os folhetos ficavam expostos para a venda em barbantes ou “cordões” (ÂNGELO, 1996; PAGLIUCA et. al., 2007). No Brasil a “porta de entrada” da literatura de cordel foi pelo nordeste: “[o nordeste] revelou ser terreno fértil para o desenvolvimento dessa arte nascida da aridez, crescida na carência e que viceja na adversidade” (VASQUEZ, 2008, p. 12 apud ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012, p. 11).

A Literatura de Cordel faz parte do romanceiro popular do Nordeste e teve sua origem nos romances portugueses em versos, os quais surgiram em sua expressão oral, sendo depois passados para a escrita. Foi nessa região, local de menor letramento e de acesso mais difícil à imprensa, que o Cordel, essas narrativas em versos impressas em papel simples e penduradas num barbante, conhecido como cordel, encontrou terreno mais fértil para se propagar (GALVÃO, 2001 apud ALVES, 2008, p. 104).

            A literatura de cordel surge como uma possibilidade de debate sobre a realidade social, política e até mesmo econômica. Uma diversidade de assuntos abordados a partir de uma linguagem poética e literária: “[...] não é apenas ao imaginário que os cordelistas emprestam seus versos. Entre o conteúdo informacional dos folhetos estão assuntos ligados à política, educação, história, problemas sociais e de ordem pública e temas ligados à saúde e medicina preventiva” (ASSIS; TENÓRIO; CALLEGARO, 2012, p. 04). E através deste contato com a literatura de cordel é possível refletir de forma crítica sobre a realidade, fazendo-nos perceber nossa posição no mundo e dos diversos contextos sociais. Roberta Alves, destacando o papel que a literatura de cordel pode ter no contexto escolar afirma:

A Literatura de Cordel pode perfeitamente contribuir para uma educação voltada para a realidade, na medida em que apresenta ao aluno uma visão de mundo, que pode se assemelhar ou não à sua, mas que suscita variados questionamentos que podem levar o aluno a refletir sobre a sua posição social, política, econômica e cultural dentro do contexto em que vive, assim como sobre a posição do outro nesse mesmo contexto (2008, p. 108).

            E esta é a ideia a qual acreditamos poder dar destaque, que é o tema central deste website. Como as diferentes formas de conhecimento estão diretamente relacionadas com a política e, neste caso específico, como a literatura de cordel pode nos levar a perceber o mundo de forma crítica, estimulando a intervenção na realidade, a fim de transformá-la para melhor. Maria Silvia Louzada e Roberto Louzada (2012) fazem uma análise deste gênero a partir da análise de três cordéis nordestinos, mais precisamente de autores paraibanos[i]: A Palavra “Mensalão” escrito em 2005 por Vicente Campos Filho; Salário mínimo é do povo o máximo é do deputado, escrito e ilustrado por Vicente Campos Filho em 2006; e Esculhambação no Inferno nesta última eleição, escrito por João Bosco Dias em 2007. Maria Silva e Roberto Louzada examinam os modos como a literatura de cordel analisam e dão significado ao sentido de “ser político”, abordando acontecimentos políticos recentes, como no caso do primeiro cordel; fazendo uma sátira à situação social e política contemporânea brasileira no caso do segundo cordel; ou recriando episódios sociais e políticos brasileiros como no último cordel. Vejamos um trecho do primeiro cordel examinado:

Mensalão tem oito letras / Tem “M” de malfeitores / E a segunda letra é “E” / Da palavra enganadores / Tem o “N” de nojentos / S” de sanguinolentos / Feito bichos predadores.

Imaginem que o resto / Só pode ser de ladrão / Que começa com o “L” / E é terminado com “ão” / Larápio também tem “L” / E o “ão” também está na pele / Da palavra canastrão.

 

            O terceiro e último cordel analisado é uma recriação literária, onde “seres humanos, animais excepcionais, monstros e seres fantásticos parecem habitar o imaginário dos autores e dos povos” (id., ibidem, p. 11). Nesta recriação o pleito eleitoral se passa no inferno, que surge como uma metáfora de um país mergulhado na corrupção não apenas no poder executivo ou legislativo, mas o próprio poder judiciário, vendendo sentenças para favorecer políticos, bandidos e quadrilhas.

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            Embora seja conhecido mais como poeta (e um dos maiores poetas populares do Brasil) do que como cordelista, Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva), chamado por alguns de “Homero sertanejo” (em comparação ao poeta rapsodo grego), escreveu alguns poucos cordéis dos quais um deles se chama: Glosas Contra o Comunismo (e foge a regra geral da estrutura dos cordéis de sextilhas). Além deste cordel, sua poesia também tem algo intencional, de mostrar a realidade do homem sertanejo: “É um sertão de poesia [...] Percebemos que é esse o sentido maior da poesia de Patativa, uma poesia feita para todos, uma voz que vibra em nome do outro, numa linguagem que caracteriza o sertão” (PINHEIRO, 2006, p. 07). Como nosso objetivo aqui não é analisar tanto a poesia, mas especificamente a literatura de cordel, vamos expor alguns versos apenas de Glosas Contra o Comunismo.

MOTE

O comunismo fatal 

Não queremos no Brasil

GLOSAS

Será muito natural / nossa pátria entrar em guerra / ao chegar em nossa terra / o comunismo fatal; / do sertão à capital / nosso povo varonil / há de pegar no fuzil / em defesa da nação: / que esta cruel sujeição / não queremos no Brasil

(ASSARÉ, 1999, p.27 apud PINHEIRO, 2006, p. 32; SILVA, 2006).

NOTA

Para ter acesso ao texto completo veja o link: Patativa do Assaré - Cordeis e outros Poemas

            Vemos assim como é possível fazer uma abordagem da Literatura de Cordel dando destaque através da cultura popular não apenas a aspectos referentes à identidade da cultura nordestina, mas a realidade política e social de todo um povo. Eis mais um exemplo de crítica política através da literatura de cordel:

 

PERFIL DO POLÍTICO BRASILEIRO

Autor: Varneci Nascimento

Ser enganador, mentir / Enrolar, ser trambiqueiro / Gostar de fazer promessa / Não pagar, ser trapaceiro / Eis os requisitos básicos / Do político brasileiro.

Fazer tudo por dinheiro / Detestar pessoa séria / Não importar se o povo / Tá morrendo na miséria / Quando escutar falar dela / Achar que isso é pilhéria.

Se a fome deletéria / Castiga um desempregado / Ao saber dessa noticia / Fingir-se penalizado / Porém, quando for comer / Não lembrar do esfomeado.

            De acordo com o autor, este cordel foi escrito em 2006, no contexto eleitoral e “[...] após tantos escândalos resolvi editá-lo, falando aos eleitores a respeito do perfil do político do Brasil, que, aliás, não é o mais desejável para nenhum país com o mínimo de seriedade”

NOTA

Para ter acesso ao Texto completo acesse: BLOG DO AUTOR

            E o que dizer da iniciativa de introduzir obras filosóficas na linguagem popular, o chamado “Cordel Filosófico”? É possível fazer uma análise de obras como: A Política de Aristóteles, O Leviatã de Thomas Hobbes, O Espirito das Leis de Montesquieu, O Contrato Social de Rousseau e o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels usando a literatura de cordel?

            Qualquer que seja a resposta a esta pergunta, o fato é que a literatura de cordel lida com o contexto cultural, político e social. Utiliza costumes e linguagens de um povo. E renunciar a esta análise de um ponto de vista digamos assim, mais filosófico, é renunciar a uma das formas mais populares de expressão da linguagem e da cultura popular.

FILOSOFIA EM CORDEL

Por Rosa Regis

Folheto 1

Nos disse o mestre dos mestres / do pensar, que foi Platão, / que as coisas só iam entrar / nos eixos neste mundão / quando este fosse mandado, / dirigido, governado, / por filósofos. E então?!...

... / Século VI antes de Cristo / na Grécia continental / as cidades-estado tinham / algo de especial / eram centros que cresciam / no setor comercial / [...]

OS SOFISTAS(Grandes mudanças)

Enquanto que para os gregos / o interesse maior era / a unidade e a diferença, / o Universo... quem dera! / As grandes questões, agora?! / Isso era apenas quimera / [...]

E assim sendo, os problemas, / fatalmente, vêm a tona. / Atenas, de incutidores / de maus costumes, os toma. / Sendo o cinismo um deles. / E os sofistas vão à lona.

[...]

NOTA

Para ter acesso ao Texto completo acesse: BLOG DA AUTORA RosadoCordel

Disponível em: Câmara dos Deputados. Acesso em set. 2018.

            A literatura de Cordel tem servido de instrumento de conscientização e cidadania na difusão de propostas aprovadas na Câmara dos Deputados. Versos populares – em sextilhas, martelo agalopado, meia quadra ou em outras métricas – já ajudaram, por exemplo, a popularizar a Lei Maria da Penha, como é o caso do cordelista cearense Tião Simpatia que usou essa arte para divulgar os principais pontos da lei de combate à violência contra a mulher:

Segundo o artigo quinto, esses tipos de violência / Dão-se em diversos âmbitos. / Porém, é na residência / Que a violência doméstica tem sua maior incidência. / E quem pode ser enquadrado como agente agressor? / Marido ou companheiro, namorado ou ex-amor. / No caso de uma doméstica, pode ser o empregador (apud AGÊNCIA CÂMARA DE  NOTÍCIAS, 2018).

            Outro exemplo temos nos versos de João Firmino Cabral – que ocupou a cadeira 36 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel até sua morte, em fevereiro de 2013 –, que retrata a preocupação em torno das mudanças climáticas e da ação danosa do homem sobre a natureza, principalmente na Amazônia:

Toda a Floresta Amazônica está muito devastada / Por madeireiros perversos e também muita queimada. / Os animais sumindo, as aves diminuindo / A vida está complicada. / Se os animais falassem, diriam aos predadores / Não matem nossos parentes, escutem nossos clamores. / Não sejam tão homicidas pois nós também temos vidas e também sentimos dores (apud AGÊNCIA CÂMARA DE  NOTÍCIAS, 2018).

            Hugo Tavares Dutra, por sua vez, costuma entoar os versos de seu livrinho Votar é um nó, com referências à Lei da Ficha Limpa (LC 135/10): “Ficha limpa, ficha suja: diz aí quem vai julgar / Quem é quem nesse processo desse nó que é votar. / Eleito e eleitor: quem é que vai decifrar / Quem é pedra ou vidraça nesse será que será” (apud AGÊNCIA CÂMARA DE  NOTÍCIAS, 2018).

 

Referências Bibliográficas

AGÊNCIA CÂMARA DE  NOTÍCIAS. Patrimônio imaterial do Brasil, literatura de cordel ajuda cidadão a compreender leis. 2018.

ALVES, Roberta Monteiro. Literatura de cordel: Por que e para que trabalhar em sala de aula. Revista Fórum Identidades, Ano 2, Volume 4 – p. 103-109 – jul-dez de 2008. Acessado em 17/10/2015.

ÂNGELO, Assis. As origens do cordel. In: ____. Presença dos cordelistas e cantadores repentistas em São Paulo. São Paulo: IBRASA, 1996.

ASSARÉ, Patativa do. Cordéis. Fortaleza: UFC, 1999.

ASSIS, Regiane Alves de; TENÓRIO, Carolina Martins; CALLEGARO, Tânia. Literatura de cordel como fonte de informação. CRB-8 Digital, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 3-21, jan. 2012. Acessado em 20/10/2015.

BRANDÃO, Adelino. Crime e castigo no cordel: (crime e pena no folheto de cordel e no romanceiro folclórico do Brasil). Rio de Janeiro: Presença, 1991.

DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. A Literatura de Cordel no Nordeste. In: Literatura Popular em verso, 2 vol., Rio de Janeiro: Mec/Fundação Casa de Rui Barbosa, 1973.

GALVÃO, Ana Maria de O. Cordel: leitores e ouvintes. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

LOUZADA, Maria Silvia O.; LOUZADA, Roberto. Identidade política, literatura de cordel e interdiscurso. CASA,Cadernos de Semiótica Aplicada, Vol. 10.n.1, p. 1-16, julho de 2012. Acessado em 17/10/2015.

LUYTEN, Joseph M. O que é literatura de cordel. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Coleção Primeiros Passos; 317).

PAGLIUCA, Lorita Marlena Freitag [et al]. Literatura de cordel: veículo de comunicação e educação em saúde. Texto & Contexto Enfermagem, Florianópolis, v. 16, n. 4, p. 662-670, out./dez. 2007. Acesso em: 20/10/2015.

PINHEIRO, Maria do Socorro. A criação poética de Patativa do Assaré. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira). Programa de Pós-Graduação em Letras. Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2006. Acessado em 20/10/2015.

SILVA, Antônio Gonçalves da. Glosas sobre o comunismo. In: CARVALHO, Gilmar de. Cordéis e outros poemas: Patativa do Assaré. Fortaleza, 2006, p. 106-111.


[i] O Estado da Paraíba é uma referência quando se fala em literatura de cordel.  Em Campina Grande fica localizado o MAAP (Museu de Arte Popular da Paraíba): um espaço criado para preservar e difundir a cultura popular paraibana, com ênfase na sua musicalidade, artes manuais, literatura de cordel, xilogravura, cantorias etc.

 

O MAAP foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e também é conhecido como “museu dos pandeiros”, devido à forma circular que caracteriza cada uma de suas três salas.

 

 

 

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