O Conhecimento de Si Mesmo

O Conhecimento de Si Mesmo

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em out. 2018

 

Te Advirto, quem quer que sejas, Tu que desejas sondar os Mistérios da Natureza. Como esperas encontrar outras excelências, se ignoras as excelências de tua própria casa? Em Ti, está oculto o tesouro dos tesouros. Homem, Conhece-te a Ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.

 

            De acordo com a tradição filosófica que nos foi passada, no frontispício do templo de Delfos, na Grécia Antiga, estava a inscrição conhece-te a ti mesmo. Sócrates, um dos mais notáveis filósofos da civilização ocidental, fez do conhecimento de si mesmo uma espécie de guia e reflexão de toda sua existência como filósofo.

            Esta é uma das referências mais antigas de que temos notícia, na tradição filosófica ocidental, de uma orientação que nos remeta ao conhecimento do nosso eu interior. Desde então, não foram poucos os filósofos ou religiosos que se empenharam nesta árdua e dispendiosa tarefa de alcançar a iluminação a partir do conhecimento de si mesmo. In interiori homini habitat veritas (no interior do homem habita a verdade), dizia Santo Agostinho, filósofo da patrística medieval que viveu em meado do séc. IV a.C. E o filósofo do iluminismo francês, Jean-Jacques Rousseau, chegou a declarar que o mais útil e menos avançado de todos os conhecimentos humanos reside precisamente no conhecimento de si mesmo. Até alcançarmos o século XIX, muito se escreveu e muito se silenciou, sobre o homem interior.

            No século XIX a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, retomou a questão do conhecimento de si mesmo. No Livro dos Espíritos (KARDEC, 2016), um livro escrito no formato de perguntas e respostas, Santo Agostinho, agora não mais como homem, mas como espírito, afirmou, na questão 919a da referida obra, que o conhecimento de si mesmo é a chave do progresso individual.

            Foi também século XIX, com o surgimento da Psicologia, que um novo caminho foi aberto para o estudo da personalidade e, por conseguinte, do conhecimento de si mesmo. Através de pensadores como Freud, Jung e Reich, uma nova orientação foi dada ao estudo do eu interior, no sentido de que não mais apenas o eu consciente passava a ser objeto de estudo e pesquisa. O ponto focal no estudo destes três grandes vultos da Psicologia é o inconsciente. Essa região da nossa personalidade cuja idéia que dela fazemos, começamos apenas a desvendar a ponta do iceberg. Somos aquilo que ignoramos ser. Eis o que nos diz a Psicanálise, com o conceito de inconsciente.

            Se entendermos a Psicologia como ciência do espírito, da alma, da mente, então seu objeto de estudo só pode ser o fenômeno psíquico, a totalidade dos fenômenos psíquicos. E como tal, torna-se imprescindível o conhecimento do Self (a partir deste ponto, sempre que nos utilizamos deste termo, estaremos nos referindo, como Jung, à totalidade da nossa personalidade).

            Uma análise do Ego (do eu) nos daria um quadro incompleto da personalidade, uma vez que faltariam as características do inconsciente e, para Jung, por exemplo, como para Freud, a psique compreende, em sua totalidade, um e outro, quer dizer, consciente e inconsciente: “O ‘eu’ jamais constitui a totalidade do homem, mas apenas a parte consciente. Somente a parte inconsciente, cujos limites não podem ser demarcados, é que o completa para formar a totalidade real” (JUNG, 1991, § 248). A personalidade como um fenômeno total não coincide com o Ego. É algo que precisa ser distinguida deste. A esta personalidade total Jung chamou de Self, ou si-mesmo. Desta maneira, a consciência (o Ego) representa apenas uma parte da nossa personalidade. É preciso destacar ainda a existência de uma terceira zona, a do superego, que representa um conjunto das forças morais inibidoras que se desenvolvem sob a influência da educação durante o processo de socialização. É a parte moral da psique e representa os valores da sociedade.

            A partir deste ponto, já não é possível refletir sobre nossa personalidade sem levar em consideração os conteúdos do nosso inconsciente. Muitas de nossas ações, para não dizer todas elas, são tomadas em função das tendências da nossa personalidade, de nossos hábitos e tendências armazenadas nos estratos do inconsciente.

            William James já havia atentado para este fato. Para o psicólogo americano, nossa consciência desperta normal é apenas um tipo especial de consciência, enquanto em torno dela, separada por uma fina “película”, repousam formas potenciais de consciência inteiramente diferentes. Podemos atravessar a vida sem nos darmos conta de sua existência; mas, aplique-se um estímulo, e, num instante, lá estão elas com toda sua força. 

            Com os novos conhecimentos trazidos pela psicologia, conhecer a si mesmo implica conhecer a dimensão total da personalidade, que implica o eu consciente (ego) e as dimensões do inconsciente, que Freud chamou de id e superego.

            Pensemos agora a partir de uma perspectiva espiritual e ampliando essa ideia a partir da visão reencarnacionista. Podemos então dizer que o que foi vivido, em vidas passadas ou na atual, e definitivamente assimilado, não desaparece em nossa estrutura mental mas é abandonado aos substratos da consciência, no inconsciente. Na natureza nada se perde, como pondera Ubaldi (2017): tudo permanece, mesmo se esquecido, pronto para ressurgir se um impulso o excita.

            O inconsciente é a zona dos instintos, das ideias inatas e das qualidades adquiridas. No inconsciente estão “todos os produtos substanciais da vida; nessa zona encontrais o que fosteis e o que fizesteis; reencontrais o caminho seguido na construção de vós mesmos, tal como nas estratificações geológicas reencontramos a vida vivida pelo planeta” (UBALDI, 2017, p. 307). Escavando o nosso inconsciente encontraremos todo o nosso passado, que ressurge nos instintos, nas tendências, nas simpatias e antipatias.

            Se os filósofos gregos, Santo Agostinho, Rousseau e tantos outros, já achavam difícil empreender essa jornada de busca pelo nosso eu interior, a psicologia contemporânea trouxe ainda novos elementos que devem ser levados em consideração para todo aquele que resolve seguir por essa estrada.

 

A personalidade se desenvolve no decorrer da vida, a partir de germes, cuja interpretação é difícil ou até impossível; somente pela nossa ação é que se torna manifesto quem somos de verdade. Somos como o Sol que alimenta a Terra e produz tudo o que há de belo, de estranho e de mau; somos também como as mães que carregam no seio a felicidade desconhecida e o sofrimento. De início não sabemos o que está contido em nós, que feitos sublimes ou que crimes, que espécie de bem ou mal. Somente o outono revela o que a primavera produziu, e somente a tarde manifesta o que a manhã iniciou (JUNG, 1991, § 290).

 

O Eu Interior

E um homem disse: ‘Fala-nos do conhecimento de si próprio’.

E ele respondeu dizendo:

Vosso coração conhece em silêncio os segredos dos dias e das noites.

Mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração sabe.

Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.

E é bom que o desejeis.

A fonte secreta de vossa alma precisa brotar e corre, murmurando, para o mar.

E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.

Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos.

E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com uma vara ou uma sonda.

Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.

Não digais: ‘Encontrei a verdade’. Dizei de preferência: ‘Encontrei uma verdade’.

Não digais: ‘Encontrei o caminho da alma’. Dizei de preferência: ‘Encontrei a alma andando em meu caminho’.

Porque a alma anda por todos os caminhos.

A alma não marcha numa linha reta nem cresce como um caniço.

A alma desabrocha, tal um lótus de inúmeras pétalas.

Khalil Gibran (1975, p. 51-52)

 

            Essa busca pelo conhecimento de si mesmo outra coisa não é senão a busca pelo ser humano ideal, autêntico, de essência divina, um estudo das potencialidades humanas.

            Dentro de uma perspectiva espiritualista e transpessoal, nós poderíamos dizer que todo ser humano tem uma natureza interna essencial. Algumas pessoas chamam-na centelha anímica, outras, centelha divina, espírito, alma, etc. O nome com o qual se possa atribuir esta natureza interna é, aqui, pouco relevante (desde que se entenda que estamos falando da essência interior de cada indivíduo). Esta natureza interna que há em cada pessoa é, em parte, singularmente sua e em parte, universal na espécie, no sentido de que todos fomos criados a imagem e semelhança de Deus, ou seja, essencialmente falando, esta natureza não difere senão pelo grau de maturidade no qual se encontra o espírito, mas a substância, de origem divina, é a mesma para todos.

            O psicólogo transpessoal Abraham Maslow, em sua obra Introdução à Psicologia do Ser (MASLOW, s/d), nos dá o seguinte exemplo: da mesma forma como em um carvalho, ou qualquer outra espécie de planta, a semente pressiona no sentido de um desenvolvimento biofísico, a nossa natureza espiritual pressiona no sentido de uma individuação, da humanidade plena do indivíduo. O homem tem, portanto, uma tendência para “realizar-se”. Um núcleo interno que se desenvolve em sentido humano e espiritual. O homem demonstra em sua própria natureza uma pressão no sentido de Ser cada vez mais completo, da realização cada vez mais perfeita da sua condição humana, exatamente no mesmo sentido naturalista, científico, em que se pode afirmar que uma glande “pressiona no sentido” de ser um carvalho. O homem possui em seu interior capacidades admiráveis que lhe dormem em potencial, numa forma incipiente ou embrionária, exatamente como possui braços e pernas em embrião. E a criatividade, a espontaneidade, a individualidade, a autenticidade, o cuidado com os outros, a capacidade de amar, o anseio de verdade, são potencialidades embrionárias que pertencem à espécie de que ele é membro, tal qual seus braços e pernas, seus olhos e cérebro.

            Na teoria do aperfeiçoamento da personalidade um lugar deve ser reservado para a auto análise, o autoconhecimento, a contemplação e a meditação sobre o eu. Só o conhecimento de si mesmo, do nosso eu interior, pode nos levar ao aperfeiçoamento pessoal e ao desenvolvimento de todas as nossas potencialidades.

 

Referências Bibliográficas

 

GIBRAN, Gibran Khalil. O Profeta. Tradução de Mansour Challita. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 1975.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2016.

JUNG, C. G. O desenvolvimento da personalidade. Tradução Frei Valdemar do Amaral. 5. ed. Petrópolis RJ: Vozes, 1991. (Obras completas Volume XVII).

MASLOW, Abraham H. Introdução à Psicologia do Ser. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca, s/d.

UBALDI, Pietro. A grande síntese: síntese e solução dos problemas da ciência e do espírito. Tradução de Carlos Torres Pastorino e Paulo Vieira da Silva. 24. ed. Campos dos Goytacazes-RJ: Instituo Pietro Ubaldi, 2017.

 

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