O Meio Divino

O Meio Divino

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em jul. 2022

 

            A obra O Meio Divino é uma espécie de tratado de mística e espiritualidade que fala da Presença divina (do Deus Pai e do Verbo Encarnado de Cristo) e de como essa presença pode ser percebida através do meio divino e da nossa vida interior.

         Para Teilhard de Chardin, o mundo material está totalmente impregnado de Deus e, igualmente, da presença de Cristo (tal como se pode constatar com base na sua cristogênese – conceito que não é abordado nesta, mas no conjunto de suas obras), como se fosse um prolongamento de seu próprio corpo, ou como por irradiação tivesse atingido todo o mundo material, que se tornou seu grande corpo cósmico.

         Tudo está impregnado da Presença Divina, Deus está por toda parte, inclusive na matéria: “quereria ensinar a ver Deus em toda a parte: vê-lo no mais secreto, no mais consistente, no mais definitivo do Mundo” (CHARDIN, 1995, p. 14). Por isso, a visão teilhardiana foi, por vezes, acusada de panteísmo. Mas essa acusação é de todo injusta, pois Teilhard de Chardin afirma claramente a existência de um Deus pessoal e transcendente. O caminho da união mística com Deus ocorre porque estamos diante de um Universo que progressivamente se torna um Meio Divino no qual a presença do Deus pessoal e transcendente se faz cada vez mais real. Um Universo personalizado, a “Alma do Mundo”: o “Cristo-Universal” (Teilhard fala de um “pancristismo” em “A Minha Fé”, como referência a ideia de um ser Pessoal e Universal, que está em todo o universo).

         Não só Deus Pai, mas Cristo, cuja missão era fazer convergir tudo para o Pai, está no mais íntimo de tudo. Por isso podemos dizer que a mística de Teilhard de Chardin é cristocêntrica. “In eo vivimus” (Vivemos n’Ele)[1], é a epígrafe que encontramos na Introdução da obra O Meio Divino. Temos aqui um Cristocentrismo que, pela amorização do Universo, pleromiza tudo. “No seio do nosso Universo, toda alma é para Deus, em Nosso Senhor” (CHARDIN, 1995, p. 24).

         São muitas as referências ao Cristo: o Cristo Universal, o Cristo co-extensivo à Criação, “Cristo místico ou universal” (CHARDIN, 1995, p. 31), o Sentido Crístico (aquele que nos põe em contato com as energias espirituais irradiantes do Cristo).

          Existe entre nós e o Cristo, o Verbo encarnado, “laços tão rigorosos quanto os que dirigem, no Mundo, a afinidade dos elementos para a edificação de Todos ‘naturais’” (CHARDIN, 1995, p. 25). Em nota de rodapé se diz: “Assim as partículas em relação ao núcleo para constituir o todo ‘natural’ que é o átomo, e os átomos nas células, e estas nos organismos... assim nós no Corpo Místico do Cristo” (CHARDIN, 1995, p. 45, ver: 1 Cor 12, 12-26 e a Centrologia de Teilhard).

         Teilhard chama essa ligação de “ligação mística” (CHARDIN, 1995, p. 25) que designa “a natureza supereminente dessa dependência em que se combinam harmoniosamente, num paroxismo, o que há de mais flexível nas combinações humanas e de mais intransigente nas construções orgânicas” (CHARDIN, 1995, p. 25).

Ó Energia de meu Senhor, Força irresistível e viva, porque, de nós dois, Vós sois o infinitamente mais forte, é a Vós que cabe o papel de me queimar na união que deve fundir-nos juntos. Dai-me, pois, algo de mais precioso ainda que a graça pela qual vos pedem todo os vosso (sic) fiéis. Não basta que eu morra comungando. Ensinai-me a comungar morrendo (CHARDIN, 1995, p. 63).

            Teilhard se refere a um “meio místico” como “um Elemento complexo, feito de criatura divinizada, onde se junta, pouco a pouco, ao longo do tempo, o Extrato imortal do Universo”. Teríamos então “meio” no sentido físico (ambiente onde se passam fenômenos físicos) biológico (substância dentro da qual a Vida surge e se desenvolve) ou mesmo sociológico (totalidade dos fatores externos suscetíveis de influir na vida social e cultura dos indivíduos) e o “meio divino”, impregnado da presença divina, no qual os meios físico, biológico e social se encontram, por assim dizer, “mergulhados”.

         Sobre os “atributos do meio divino”: “Imenso como o Mundo, e bem mais terrível que as mais imensas energias do universo, ele possui contudo, num grau supremo, a concentração e a precisão que fazem o encanto e o calor das pessoas humanas” (CHARDIN, 1995, p. 91). É como um oceano que conduz os elementos do Mundo e faz pressão sobre nós e sobre todas as forças do Universo. Onipresente, como Onipresente é a própria divindade, o Meio Divino, por sua natureza, é formado pela onipresença divina, na qual estamos mergulhados: “Esse Foco, essa Fonte, estão pois em toda parte. Exatamente por ser infinitamente profundo e punctiforme, Deus é infinitamente próximo e expandido por toda parte” (CHARDIN, 1995, p. 92 – grifo do autor). É a onipresença divina, atributo essencial da imensidade de Deus, “que nos permite apreendê-lo [esse Meio] universalmente em nós e à volta de nós” (CHARDIN, 1995, p. 98).

Estabeleçamo-nos no Meio Divino. Nele encontrar-nos-emos no mais íntimo das almas e no mais consistente da Matéria. Nele descobriremos, com a confluência de todas as belezas, o ponto ultravivo, o ponto ultrasensível, o ponto ultra-ativo do Universo. E, ao mesmo tempo, experimentaremos que, no fundo de nós mesmos, se ordena sem esforço a plenitude de nossas forças de ação e de adoração (CHARDIN, 1995, p. 92 – grifo do autor).

            No Meio Divino estão presentes as energias exteriores do Mundo, e ao homem que se entrega por suas faculdades interiores a este Meio pode senti-lo igualmente, tal como a ele se referiram tantas vezes os místicos, de modo que se pode afirmar como Paulo: “In omnibus omnia Deus (En pâsi panta Theos)” (CHARDIN, 1995, p. 94 – Deus tudo em todos, 1 Cor 15,28). Ou ainda, que “o Mundo está repleto de Deus”, diz Teilhard (CHARDIN, 1995, p. 94) citando Santa Ângela de Foligno.

          Falando sobre a vida biológica que recebemos das mãos de Deus, Teilhard fala também da vida interior, o nosso ser interior, ao qual é necessário descer ao mais íntimo de si mesmo: “à medida que eu me afastava das evidências convencionais com que é superficialmente iluminada a vida social, eu me dei conta de que escapava de mim mesmo. A cada degrau que desci, em mim se desvelava um outro personagem” (CHARDIN, 1995, p. 53). Para além da vida biológica e social, há a vida interior, profunda, que nos escapa de modo quase absoluto. Essa busca pela vida interior pode causar vertigem, pois o mais provável é que nos deparemos com o desconhecido. Qualquer um pode (ou deve) ir em busca dessa experiência interior, ainda que se sinta perdido, pois o que a experiência pessoal de Teilhard revelou, nesse caso, é que mesmo que não saibamos, não estamos sozinhos, e para além de toda vertigem, é possível “ouvir a voz evangélica [...] que me dizia, do mais profundo da noite: ‘Ego sum, noli timere’: Sou eu, não temais” (CHARDIN, 1995, p. 54).

Sim, meu Deus, eu creio e acreditarei [...] sois Vós que estais na origem da corrente e no termo da atração de que eu, durante a minha vida, não faço senão seguir o curso ou favorecer o impulso primeiro e os desenvolvimentos. E sois Vós também que vivificais para mim, com vossa onipresença [...] as miríades de influências de que sou alvo a cada instante. Na Vida que irrompe em mim, e nesta Matéria que me sustém, encontro algo ainda melhor do que vossos dons: é a Vós mesmo que eu encontro [...] eu toco, de tão perto quanto possível, as duas faces de vossa ação criadora; eu encontro e beijo as vossas duas mãos maravilhosas (CHARDIN, 1995, p. 54).

            Teilhard volta a falar de uma identificação do Meio Divino não apenas com a Presença Divina, mas igualmente com o “Verbo encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo” (CHARDIN, 1995, p. 98). “O Cristo místico, o Cristo universal de São Paulo só pode ter sentido e valor aos nossos olhos como uma expansão do Cristo nascido de Maria e morto na Cruz. Deste, aquele tira essencialmente sua qualidade fundamental de ser incontestável e concreto” (CHARDIN, 1995, p. 95).

A Onipresença divina, devemos reconhecê-lo numa explosão de júbilo, traduz-se, em nosso Universo, pela rede de forças organizadoras do Cristo total; Deus só faz pressão em nós e sobre nós, por intermédio de todas as forças do Céu, da Terra e do inferno, no ato de formar e de consumar o Cristo salvador e sobre-animador do Mundo. E como, no decurso dessa operação, o próprio Cristo não se comporta absolutamente como um ponto de convergência morto e passivo, mas antes se constitui como um centro de irradiação para as energias que levam o Universo a Deus através de sua Humanidade, é finalmente de todo impregnadas de suas energias orgânicas que nos chegam as ondas da ação divina (CHARDIN, 1995, p. 99 – grifos do autor).

              No Meio Divino reconhecemos a

onipresença que atua sobre nós assinalando-nos a si, in unitate Corporis Christi [na unidade do Corpo de Cristo]. A imensidade divina, em decorrência da Encarnação, transformou-se para nós em onipresença de cristificação [...] É, bem precisamente, o Cristo que fazemos e que sentimos em todas as coisas (CHARDIN, 1995, p. 99 – grifos do autor)

            Ao falar da “Santa Presença” que nasce e se desenvolve em nós, Teilhard de Chardin faz referência a ideia de que o “Reino de Deus está dentro de nós mesmos” (CHARDIN, 1995, p. 104), o que nos remete a nossa realidade interior. Como o nosso mundo interior se abre à Presença Divina? Teilhard fala da divinização de nossas obras e do esforço da ação.

         Teilhard fala de uma origem psicológica do sentido da onipresença divina. Uma ressonância particular. Sensações, sentimentos e pensamentos.

Isso começou por uma ressonância particular, que preenchia cada harmonia, por um halo difuso que aureolava cada beleza... Sensações, sentimentos, pensamentos, todos os elementos da vida psicológica eram tomados um após outro. Cada dia se tornavam mais perfumados, mais coloridos, mais patéticos por meio de uma Coisa indefinível, sempre a mesma Coisa. Depois, a Nota, o Perfume, a Luz, de início vagos, começaram a se precisar. E então, pus-me a sentir, contra toda convenção e toda verossimilhança, o que havia de inefavelmente comum entre todas as coisas. A Unidade comunicava-se a mim, comunicando-me o dom de apreendê-la. Eu adquiria realmente um sentido novo, o sentido de uma qualidade ou de uma dimensão nova. Indo mais profundamente ainda: uma transformação se operara para mim na própria percepção do ser. O ser, desde então, tornara-se para mim, de algum modo, tangível, saboroso. Dominando todas as formas com que se adornava, o próprio ser começou a me atrair e a me inebriar (CHARDIN, 1995, p. 104-105 – grifo do autor).

            Teilhard fala de uma luz, “calma e poderosa irradiação gerada pela síntese em Jesus de todos os elementos do Mundo [...] Oh! Sim, Senhor, não apenas o raio de luz que roça a superfície, mas o raio de luz que penetra. Não a vossa Epifania, Jesus, mas a vossa Diafania” (CHARDIN, 1995, p. 106 – grifo do autor).

Se o Meio Divino se manifesta a nós como uma incandescência das camadas interiores do ser, quem nos garantirá a persistência dessa visão? Só mesmo o próprio raio de luz. A Diafania, de cujas alegrias nenhum poder no mundo nos pode impedir o gozo, porque ela se passa numa profundidade inacessível a todo poder, também nenhum poder no mundo, pela mesma razão, pode forçá-la a aparecer (CHARDIN, 1995, p. 106).

            Teilhard fala em uma rápida passagem da intuição

A percepção da onipotência divina é essencialmente uma visão, um gosto, isto é, uma espécie de intuição, incidindo sobre certas qualidades superiores das coisas. Não se pode pois obter diretamente por nenhum raciocínio, nem por nenhum artifício humano. Como a vida, de que ela representa sem dúvida a mais alta perfeição experimental, essa percepção é um dom. E eis-nos aqui reconduzidos – no centro de nós mesmos – à beira da fonte misteriosa, a que tínhamos descido [...] para observar-lhe o jorrar. Experimentar a atração de Deus [...] (CHARDIN, 1995, p. 106).

 

Pureza, Fé e Fidelidade

         Teilhard fala de três virtudes que nos ajudam a entrar em contato com a onipresença divina: a pureza, a fé e a fidelidade (nas suas ações).

A pureza, no sentido amplo da palavra, não é somente a ausência de pecados (que não é senão a face negativa da pureza), nem mesmo a castidade (que não representa senão um notável caso particular de pureza). Ela é retidão e o impulso que introduz em nossas vidas o amor de Deus buscado em tudo e acima de tudo (CHARDIN, 1995, p. 107).

            A pureza se manifesta pela oração mental, pelo recolhimento, pela pureza de consciência e de intenção. A pureza tem tanto um valor ético de virtude, quanto um sentido ontológico das faculdades da alma que a levam a uma progressiva espiritualização, interiorização, unificação de energias.

         Já a fé “constitui a crença em Deus carregada de tudo o que o conhecimento deste Ser adorável pode suscitar em nós de confiança em sua força benfazeja” (CHARDIN, 1995, p. 109).

Sim, entre nossas mãos, para todos, o Mundo, a Vida (nosso Mundo, nossa Vida), estão colocados como uma hóstia, totalmente prontos para serem impregnados da influência divina, isto é, de uma real Presença do Verbo Encarnado. O Mistério se realizará. Mas com uma condição: a de crermos que isto pode e quer tornar-se para nós a ação, ou seja, o prolongamento do Corpo de Cristo. – Cremos? Tudo se ilumina e se configura à nossa volta: o acaso se ordena, o êxito adquire uma plenitude incorruptível, a dor se transforma numa visita e numa carícia de Deus. Hesitamos? O rochedo permanece seco, o céu negro, as águas traiçoeiras e movediças. E poderíamos ouvir a voz do Mestre, diante de nossa vida desperdiçada: “Ó Homens de pouca fé, por que duvidastes?...” (CHARDIN, 1995, p. 110-111).

 

 

CHARDIN, Pierre Teilhard de. O Meio Divino: Ensaio de Vida Interior. Prefácio, tradução e notas de José Luiz Archanjo. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.



[1] “Nele vivemos, e nos movemos e existimos” (At. 17,28). “In Christo vivimus, movemur et sumus” (CHARDIN, 1995, p. 102)

 

 

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